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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Arquidiocese do RJ: Carta Pastoral "Com misericórdia olhou para ele e o escolheu".


Carta Pastoral

«Com misericórdia olhou para ele e o escolheu»



Aos irmãos e irmãs cujas vidas estão marcadas pelo sofrimento, 

particularmente a todos os que estão privados da liberdade nos presídios,

aos que vivem presos ao seu leito hospitalar ou doentes em suas residências,

aos mais esquecidos das periferias de nossas metrópoles, 

aos que já não conseguem vislumbrar uma centelha da misericórdia, vivendo fora da comunhão de Deus e da ação pastoral da Santa Igreja,

aos que experimentam cotidianamente a violência,

aos que deixaram de acreditar no amor e na bondade,

a todos os leigos e leigas que levam adiante com alegria a missão,

aos sacerdotes, diáconos, consagrados e consagradas

e aos irmãos bispos auxiliares,

que tanto auxiliam na minha missão na 

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro.

1. Pela quarta vez, dirijo-me aos irmãos e irmãs desta amada Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro através de uma Carta Pastoral. Tendo manifestado o que penso e sinto a respeito de minha missão como pastor desta parcela da Igreja de Deus , tendo expressado a felicidade da consagração  e tendo manifestado minha alegria de que «a esperança não decepciona» , em sintonia com o Santo Padre, o Papa Francisco, agora quero dirigir-me a todos os homens e mulheres de boa vontade para compartilhar minhas alegrias pelo Ano Santo Extraordinário: a misericórdia. Vamos, intensamente, viver o ano santo que se iniciou no dia 08 de dezembro de 2015 na Basílica de São Pedro, com a abertura da Porta Santa pelo Papa Francisco. «Atravessar hoje a Porta Santa nos compromete a adotar a misericórdia do bom samaritano» : este é o espírito com o qual se deve viver o Jubileu Extraordinário, afirmou o Papa Francisco ao transpor a Porta Santa da Basílica de São Pedro, fazendo explícita ligação às comemorações dos impulsos missionários que há cinquenta anos abriram as portas da Igreja, no espírito samaritano, para todos os homens e mulheres de boa vontade, adotando a misericórdia do bom samaritano, conforme nos pede o Concílio Ecumênico Vaticano II .

2. O Papa Francisco proclamou o Ano Santo Extraordinário da Misericórdia no dia 11 de abril passado, com a Bula Misericordiae Vultus — «O Rosto da misericórdia do Pai é Jesus Cristo…» . O Ano Santo já iniciado na solenidade da Imaculada Conceição será concluído na festa de Cristo Rei, aos 20 de novembro de 2016. 

3. Será muito importante que todos façam uma leitura atenta e uma reflexão bem meticulosa da Misericordiae Vultus, bula de proclamação do Ano Santo Extraordinário da Misericórdia . Esse é o texto-base do Jubileu da Misericórdia onde o Papa apresenta as grandes motivações para a celebração deste Ano Santo extraordinário, além de indicações importantes sobre como celebrar este tempo especial da graça de Deus.

ANOS JUBILARES

4. Anos Santos, ou Jubileus, são celebrados ordinariamente a cada 25 anos; fora dessa sequência, eles são Jubileus extraordinários . Por isso, o jubileu que estamos vivendo é um jubileu extraordinário, que tem como motivo especial para a sua celebração do cinquentenário da conclusão do Concílio Ecumênico Vaticano II, encerrado em 08 de dezembro de 1965. Além disso, o Papa Francisco coloca o Jubileu extraordinário da Misericórdia na perspectiva da «nova evangelização», com o objetivo de anunciar e testemunhar a misericórdia de Deus, que faz parte da essência do Evangelho. 

5. O Ano Santo, ou Jubileu, é um tempo propício para nos voltarmos para Deus de todo coração, para louvar e agradecer com alegria («júbilo» «yobel» ) pelas graças recebidas; mas é também um “tempo favorável” para acolher graças especiais de Deus, através do serviço da Igreja, e para buscar mais intensamente o encontro com Ele e com os irmãos.

6. A conclusão do Ano Jubilar, o 29º jubileu na história da Igreja Católica, que foi marcada para a festa da solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, nos faz refletir a importância de peregrinar viva e verdadeiramente este Ano Santo. Afinal, toda a nossa vida e toda a história da humanidade estão sob o signo da misericórdia de Deus, manifestada a nós por meio de Jesus Cristo. No final de nossa peregrinação terrena encontraremos Jesus Cristo glorificado, Senhor e Juiz da história e também de cada um de nós. E todos, esperamos que Ele seja um juiz clemente e misericordioso .

7. No Ano Santo somos chamados à conversão de vida, ao arrependimento, à reconciliação com Deus e com o próximo e a renovar-nos espiritualmente mediante o perdão de Deus, que abre «os tesouros de sua misericórdia» (Ef 2,4), sendo indulgente para conosco, pecadores.  O processo de conversão é amplo, mas precisa dar sinais de que está em andamento.

O QUE LEVOU O PAPA A DECLARAR UM ANO DA MISERICÓRDIA?

8. O Papa Francisco marcou, não por acaso, o início do Ano Jubilar extraordinário para o dia 08 de dezembro. Nesse dia, além de se comemorar a solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, também se recorda que há 50 anos era encerrado o Concílio Ecumênico Vaticano II pelo Papa Paulo VI . O Santo Padre Francisco lembra-nos que o Concílio foi uma grande bênção para a Igreja e para a humanidade e que ele já produziu muitos frutos ao longo desses 50 anos. Portanto, temos muito a agradecer a Deus. 

9. O Papa Francisco explicou que a iniciativa nasceu da sua intenção de tornar «mais evidente» a missão da Igreja de ser «testemunha da misericórdia» . O Papa recordou que «ninguém pode ser excluído da misericórdia de Deus»  e que a Igreja «é a casa que acolhe todos e não recusa ninguém» . «As suas portas estão escancaradas para que todos os que são tocados pela graça possam encontrar a certeza do perdão. Quanto maior é o pecado, maior deve ser o amor que a Igreja manifesta aos que se convertem» .

10. O Papa Francisco quer dar importância de viver a misericórdia de Deus através do sacramento da Reconciliação, como «sinal da bondade do Senhor»  e do «abraço» de Jesus. «Ser tocados com ternura pela sua mão e plasmados pela sua graça permite que nos aproximemos do sacerdote sem medo por causa das nossas culpas, mas com a certeza de ser acolhidos por ele em nome de Deus» . O Papa sublinhou que o julgamento de Deus é o da «misericórdia», numa atitude de amor que «vai para lá da justiça», e desafiou os fiéis a não ficar pela «superfície das coisas», sobretudo quando está em causa uma pessoa.

11. Deus responde com a plenitude do perdão. Esse ano santo lembra, também, o encerramento do Concílio Ecumênico Vaticano II, há 50 anos (cinquentenário), o qual foi um verdadeiro sopro renovador do espirito na Igreja! O Papa Francisco, assim como os seus predecessores, quer a Igreja Católica nas trilhas do Concílio Vaticano II. Assim pronunciou São João XXIII na abertura do Concílio: «Nos nossos dias, a Esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia ao da severidade...» .  O ano santo é, portanto, um indicativo para a Igreja e todo fiel cristão agirem sempre na linha da misericórdia em relação aos irmãos. Porquanto, «a misericórdia será sempre maior do que qualquer pecado e ninguém pode colocar um limite ao amor de Deus que perdoa» .

12. Na tradição atual, os Jubileus ordinários acontecem a cada 25 anos.  Na história da Igreja aconteceram 26 jubileus ordinários e 3 jubileus extraordinários . Em 1585, o Papa Sisto V, para inaugurar o seu pontificado convocou um jubileu que se estendeu até 1590, e muitos o enumeram como o primeiro extraordinário. Depois tivemos os de 1933, com o Papa Pio XI, para celebrar os 1.900 anos da redenção realizada por Jesus na Cruz, no ano 33. O último até agora foi em 1983, com São João Paulo II, para celebrar os 1.950 anos da redenção cristã. Temos agora o novo jubileu extraordinário iniciando neste ano de 2015 com o Papa Francisco, para lembrar os 50 anos do encerramento do Concílio Vaticano II (1962-1965), marco de renovação da Igreja, que abriu seu diálogo com o mundo.

13. O Papa apresenta em poucas palavras o fundamento e razão do ano santo: «Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai» (n.1) . A misericórdia é, pois, «o coração pulsante do evangelho» (n.12). O lema escolhido para esse jubileu é um chamado à vivência concreta da fé e a misericórdia: «Misericordiosos como o Pai» (Lc 6,36). O Papa estabelece que em todas as Dioceses, Santuários, Paróquias, Comunidades cristãs aconteça a celebração deste Ano Santo como um acontecimento extraordinário de graça e renovação espiritual. Além disso, o santo Padre recomenda a revitalização das obras de misericórdia corporal e espiritual fixadas pela Igreja para entrarmos no coração do evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina. As traduções são diferentes, porém podemos assim enumerar as obras de misericórdia corporal: dar comida aos famintos, bebida aos sedentos, vestir os nus, acolher os peregrinos, visitar os doentes e enterrar os mortos. E também as obras de misericórdia espiritual: «Aconselhar os indecisos, ensinar os ignorantes, admoestar os pecadores, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, suportar com paciência as pessoas inconvenientes, rezar pelos vivos e defuntos» (n.15). Aprendamos, portanto, no Ano Santo da Misericórdia, a ser misericordiosos uns com os outros para merecermos a misericórdia de Deus. 

OS TERMOS BÍBLICOS

14. A Misericórdia é um tema muito presente ao longo de toda a Bíblia, desde o AT (o ḥesed ou o raḥămîm de Deus) até o NT (o éleos/eleéōs de Deus), bem como nos Padres da Igreja  e nos Documentos antigos e nos atuais da Igreja , que sempre se preocupou em ser canal da Misericórdia de Deus para os homens e mulheres ao longo da história da salvação, procurando ser Samaritana para seus filhos e filhas.

15. Na língua hebraica, que é a língua do AT, é interessante ver que para expressar a misericórdia de Deus, o uso mais frequente se dá a partir de dois termos, ou seja: ḥesed ou raḥămîm, e que vão ser traduzidos pelo emprego dos termos éleos/eleéōs no grego dos textos do NT para falar da misericórdia ou do agir misericordioso de Deus e dos homens entre si. Tanto no hebraico como no grego os termos foram empregados para falar da misericórdia ou compaixão de Deus, dependendo sempre da opção que foi feita pelos tradutores dos textos bíblicos. Mas o significado é aquele que indica a linha da bondade ou benignidade de Deus, que é rico em misericórdia (AT: Ex 34,6: “Deus de compaixão e de piedade, lento para a cólera e cheio de amor e fidelidade” e NT: Ef 2,7: “Mas Deus, que é rico em misericórdia pelo grande amor com que nos amou”). 

16. As palavras ḥesed e raḥămîm (misericórdia/piedade) são usadas em todos os 4 grandes blocos da divisão da Bíblia para o AT: Pentateuco, Livros Históricos, Sapienciais e Proféticos. Normalmente os termos são usados num âmbito religioso. Mesmo quando aplicados ao ser humano eles se dão num contexto de um agir em fidelidade à Aliança de Deus (berît) ou para com o agir misericordioso do homem e da mulher em relação a seus semelhantes, como reciprocidade, como que refletindo a misericórdia recebida de Deus (Cf. Gn 39,21; Dn 1,9, Esd 7,28). Mas o sujeito por excelência da misericórdia é o próprio Deus, enquanto que o povo é o destinatário, que recebe da bondade e do amor de Deus, devendo apenas corresponder à gratuidade recebida.

17. Na língua grega, no que diz respeito ao NT, temos o emprego dos termos éleos e eleéōs para indicar seja a atitude de Deus para conosco, seja a atitude que Deus quer de cada um de nós, seus filhos e filhas, como que para “mostrar misericórdia/compaixão”, como em Lc 10,37 (Bom Samaritano). E é óbvio que a misericórdia divina precede a nossa e nos leva a praticá-la, como nos indica Mt 18,33 (“não devias, também tu, ter misericórdia do teu companheiro, como eu tive misericórdia de ti?”) e Tg 2,13 (“porque o julgamento será sem misericórdia para aquele que não pratica a misericórdia”). Também é certo que a misericórdia de Deus compreende a benignidade em geral (cf. Rm 12,8; Tg 3,17 e Jd 22). Mas o mesmo termo também pode ser entendido como graciosa fidelidade de Deus, como em Lc 1,58; Rm 11,30; Ef 2,4 e 1Pd 1,4. Também é certo que é a misericórdia de Deus que vai triunfar no juízo, como lemos em Mt 5,7; 2Tm 1,18; Tg 2,13; Jd 21. 

18. No grego do NT, também encontramos o termo eleḗmōn, que significa misericordioso no sentido de ter compaixão, que aparece como uma característica de Cristo em Hb 2,17, além de que Cristo louva os eleḗmōnes (misericordiosos) em Mt 5,7, termo que também encontramos na Didaqué 3,8  e na 2Clemente 4,3 . Cristo também convida seus seguidores a serem “misericordiosos como o Pai do céu é misericordioso” (Lc 6,36). Aliás, a prática das obras de misericórdia sempre foi uma constante na vida da Igreja . O contrário de eleḗmōn é aneleḗmōn para indicar “sem compaixão/impiedoso”, como entramos em Rm 1,31. 

19. Outro termo que temos no NT é eleēmosýne que é usado no NT, como no AT, na prática da misericórdia no sentido de dar esmolas, como encontramos em Mt 6,2ss, Lc 11,41 e At 3,2ss. Neste sentido o termo eleēmosýne também pode ser usado para a prática de benevolência. Juntamente com o jejum e a oração, o dar esmolas era uma prática comum para a piedade entre judeus (Mt 6,1ss) e entre cristãos (Didaqué 15,4) . Aliás, ela é louvada em At 9,36 e Cristo adverte contra o seu mau uso a serviço da vaidade pessoal, apenas para receber a recompensa dos outros, como encontramos em Mt 6,2-3. 

20. Presente em todos os conjuntos do NT (Evangelhos e Cartas), o termo Misericórdia, na pessoa de Cristo, é usado para as situações de erupção da misericórdia divina no meio da realidade da desgraça humana. Por exemplo, Jesus é aquele que atende ao pedido de socorro do cego de Jericó: “Filho de Davi, tem misericórdia/compaixão de mim” (Mc 10,47-48 e paralelos Mt 9,27; 15,22; 17,15; 20,30; Lc 17,13; 18,38-39). 

21. Vale a pena lembrar ainda, que às vezes pode ser que não encontremos o termo misericórdia por escrito em algum livro (por ex., não aparece no Evangelho de João) ou em um texto da Bíblia (não parece na Parábola do Filho Pródigo). Mas aqui vale a pena lembrar que onde não temos a terminologia, nos ajuda a analogia. Aliás, esta permite-nos compreender ainda mais e melhor o mistério da misericórdia divina que se desenrola entre o amor do Pai e o pecado do filho, que age com prodigalidade, porém busca e obtém o perdão na gratuidade de seu Pai (Lc 15,11-32). A mesma coisa podemos dizer de João 6,1-15, texto da multiplicação dos pães, e de João 10,1-18, texto da Parábola do Bom Pastor, entre tantos outros textos que temos no NT, onde não encontramos a palavra misericórdia por escrito. Mas o Cristo que multiplica os pães e os peixes e que cuida de suas ovelhas, é o Cristo que assim age por pura misericórdia para com os seus, que o Pai lhe confiou (Jo 17).

22. Enfim, na Bíblia, o ponto culminante da ação misericordiosa de Deus se dá na Cruz e na Ressureição de Jesus Cristo. É esta totalidade do mistério pascal que nos revela a profundidade do amor misericordioso de Deus Pai por nós, seus filhos indignos, mas desejosos de viver em e a partir de seu amor misericordioso. Aliás, a liturgia da Igreja sempre soube cantar isso no Canto do Exultet, próprio da liturgia da Vigília Pascal, que felicita aquela noite chamando-a de “maravilhosa” por merecer tão grande Redentor que recria tudo segundo o coração misericordioso de Deus; assim podemos cantar: “Oh noite de alegria verdadeira que une de novo ao céu a terra inteira”. Naquela noite é derramada toda a misericórdia de Deus sobre nós, seus filhos e filhas. E ali se dá a comunicação mais profunda da totalidade do amor misericordioso do Pai por nós, por meio de seu Unigênito, Jesus Cristo, que é o toque do amor eterno que se debruça sobre a humanidade inteira, sobretudo para com os últimos, como que num amor visceral por seus filhos. 

JESUS, ROSTO MISERICORDIOSO DO PAI

23. Somos felizes porque Deus se aproximou de nós . Fez-se semelhante a nós em tudo, exceto naquilo que nega o homem ao próprio homem, isto é, o pecado, a realidade que destitui o homem de sua dignidade de ser imagem de Deus, de participar e partilhar da semelhança de nosso Deus, de carregar em si os frutos do paraíso . É por isso que Jesus, nosso Deus e Senhor, não podia pecar, pois o pecado além de ser incompatível com o seu ser, negar-lhe-ia também a possibilidade maior de demonstrar amor a todo custo, porque o homem não se torna mais homem quando peca, quando é egoísta, quando sente inveja e por inveja destrói o outro, seu irmão e semelhante . O homem também não é mais homem quando ele carrega em si as sementes do ódio que divide e dilacera a vivência comum, quando é conduzido pelo desejo desenfreado de se auto-afirmar a todo custo, através de mentiras e trapaças. 

24. O homem só é homem quando sabe partilhar da grandeza de nosso Deus, que lhe é íntimo, que lhe eleva, conduzindo-o a uma intimidade nunca vista, capaz de lhe curar todas as feridas trazidas pelo pecado . Deus precisava entrar na intimidade do pecado e destruí-lo por dentro. É por isso que: «Aquele que não cometeu nenhum pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nós nos tornemos justiça de Deus» (2Cor 5,21). Aqui está a radicalidade da nova imagem de Deus que se dá em Cristo Jesus. O Concílio Vaticano II, nesse sentido, recolhendo, por meio de um processo bíblico, a imagem de Deus, definiu Jesus de o «Sacramento Primordial de Deus Pai» . Tal definição é elevada e nos conduz a uma nova imagem de Deus, passamos a conhecer Deus a partir de Deus, pois «ninguém jamais viu a Deus; o Filho único, que é Deus e está na intimidade do Pai, foi quem o deu a conhecer» (Jo 1,18). 

25. Sabemos que Jesus pode nos falar de Deus, pois ele é a Palavra do Pai, e, por isso: sacramento . A palavra sacramento significa, em sentido teológico, um sinal visível de uma realidade invisível, de uma realidade maior. Paulo diz que Jesus é “a imagem visível do Deus invisível”. Em palavras simples, tudo o que acontece em Jesus, palavras e obras, tudo aquilo que ele faz nos revela Deus, o Pai em seu mistério. Quando Jesus se senta com as mulheres e prostitutas, é Deus que quebra todo tipo de preconceito e distinções; quando ele perdoa um pecador, é Deus que abre os braços para nos acolher; quando ele come com os pecadores e publicanos, é o Pai que se abre a cada pessoa e a acolhe com carinho e ternura. Veja como é grande o nosso Deus. Ele é Pai, ele nos ama, pois, «em Cristo, Deus reconciliou o mundo consigo, não imputando aos homens as suas faltas e colocando em nós a palavra da reconciliação» (2Cor 5, 19).

26. Em que consiste esta imagem de Deus? Numa transformação da visão de Deus, pois uma nova imagem de Deus leva-nos, por consequência, a uma nova percepção da imagem de nós mesmos. Ao definir Deus como amor e bondade, Jesus, na verdade, revela a si mesmo como a total e pura transparência de Deus. E deste modo ele nos revela o Pai através de e em sua humanidade, por isso, todo homem pode descobrir Deus através de gestos verdadeiramente humanos, gestos de bondade, gestos de ternura, gestos de misericórdia; tornamo-nos como que a «extensão de Deus»  quando praticamos o bem, quando de fato amamos como Deus nos ama, quando por graça somos capazes de perdoar. Por isso, São Paulo chega a dizer-nos que somos «embaixadores de Deus» (2Cor 5, 20) quando carregamos em nós o mesmo «sentir e pensar de Cristo Jesus»; neste sentido, ele era tão humano, tão profundamente humano, que só podia ser Deus, ser para nós a transparência do nosso Deus, pois «quem o vê, vê o Pai» .

27. Em São Lucas, o capítulo 15, 1-3 serve como chave de leitura da parábola. Com este passo Jesus nos revela o alvo da Parábola: Todos os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para escutá-lo. Os fariseus e os escribas, porém, murmuravam contra ele. «Este homem acolhe os pecadores e come com eles» (Lc 15 2b). Então ele contou-lhes esta parábola . Esta parábola foi endereçada aos fariseus e mestres da lei, importantes representantes da vida espiritual e política de Israel, duas facções que criticavam Jesus, a todo o momento, por sua bondade e gestos de ternura e de amor incondicional para com os pecadores, os publicanos e as prostitutas. Esta intenção de Jesus se revela ao final da parábola, através da reação do filho mais velho e nas palavras do Pai: Então o pai lhe disse: «Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi encontrado» (Lc 15, 31b-32). Aqui está o centro da história . 

28. Neste sentido, esta parábola é um dom de grande vantagem para nós no período de Quaresma, quando poderemos fazer um sério exame de consciência para avaliar a imagem de Deus que carregamos em nós. Quando estas imagens do Pai e do filho mais velho, tão contrastantes, se fixam em nossa memória, somos preservados da grande tentação de cairmos no servilismo ou na escravidão diante de Deus, no espírito de rancor e frustração, própria do escravo, ou na visão utilitarista e aproveitadora do mercenário, duas relações imaturas e cegas diante de Deus, portadoras de sofrimento e de desgraça para a nossa vida. 

29. A nossa vida continua impenetrável à voz misericordiosa do Pai, tentamos amá-Lo, mas nosso amor é prisão e sufocamento, pois não somos felizes. E por quê? Porque não sabemos cultivar os sentimentos de Deus em nós. Fixamo-nos numa falsa imagem de Deus. E não é isto que Deus quer, pois uma falsa imagem de Deus nos leva a uma terrível relação com o próximo, nosso irmão, conduz-nos a gestos de repúdio e de preconceito que só causam divisão e feridas entre nós. 

30. É necessário agir contra estes sentimentos – «agere contra» como dizia Santo Inácio de Loyola . Poderíamos lembrar aqui a rica expressão de Santa Teresa d’Ávila, que nos ajuda a sairmos deste beco aparentemente sem saída: «Amo-te, ó Deus, porque és amor, amo-te porque é bom te amar; não te amo porque temo cair no inferno, nem te amo porque queira merecer o céu, mas amo porque sou feliz em te amar» . Sentimentos assim fazem perceber o olhar que revela-nos Deus de uma maneira totalmente nova e que nos conduz a uma nova relação com os outros, relação serena, pacífica, repleta de ternura, pois são vencidos os temores e as violências escondidas, próprias de um coração ressentido e não convertido, como o coração do filho mais velho da parábola. Mas, quando somos tomados do verdadeiro amor nos tornamos felizes, pois «no amor não há temor» (1Jo 4,18) . Por isso, a mesma santa podia tranquilamente rezar: «nada te perturbe, nada te amedronte, tudo passa, a paciência tudo alcança... a quem tem Deus nada falta, só Deus basta» . 

31. «É isto que o coração humano deseja, é isto que Jesus nos veio revelar ao nos descortinar o véu que cobria o rosto do Pai, e que nos separava de Deus pela cortina de um coração duro e frio, mas que através de Jesus se escancarou para nós a nova imagem de Deus, que nos cura profundamente, e nos faz ser criaturas novas, pois as coisas antigas já se passaram, somos nascidos de novo» .

32. Assim, esta parábola da misericórdia é o convite de Deus para cada um de nós. Abandonemos a falsa imagem de nos acharmos melhores que os outros, e até mais santos; é o chamado a sairmos de nós mesmos, da estreiteza de nosso coração frio e calculista para tomarmos parte da alegria do Pai Celeste. Quanto ao filho mais velho, coloca-nos no perigo de uma interpretação errada de Deus, uma perspectiva muito comum a pessoas rígidas e escrupulosas, que se não corrigidas pode portar a tantos sofrimentos vãos e estéreis, pois nos faz ver Deus de uma forma deformada e até como um Pai relapso e injusto. No entanto, nas coisas a parábola nos mostra a misericórdia, é a parábola do pai misericordioso. Aparentemente para quem é justo é anormal manifestar tanto carinho e bondade para quem cometeu o mal; mas Jesus quer que possamos ver mais do que a mera justiça, o dar o seu ao seu dono. Jesus quer mais de cada um de nós, quer que sejamos misericordiosos como o Pai é misericordioso! 

33. Diferente, revela-nos que àqueles que perseveram no bem e permanecem fiéis a Deus está reservada uma alegria maior, não a alegria de receber, mas aquela de dar, «pois há mais alegria em dar do que receber» (At 20, 35), e se permanecemos fiéis a Deus não é porque somos fiéis e justos, mas porque Deus é bom e fiel conosco, preservando-nos do mal: «pois sem mim nada podeis fazer» (Jo 15, 5); e aquele que recebeu tanto deve dar tanto, deve multiplicar solidariamente o bem que recebeu, deve transformar tudo isto em bondade aos outros, pois «de graça recebeste, de graça deveis dar» (Mt 10, 8b). Somente assim podemos abrir o coração ao amor ativo de Deus, ao amor misericordioso de Deus, de estar com Ele para acolher todos os outros, com o coração d’Ele. Em poucas palavras, somos chamados a nos pôr do lado de Deus, cujos sentimentos são de pura misericórdia e de grande alegria para com o filho que retorna ao lar: «o pai disse aos empregados: ‘Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu filho. Colocai-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei um novilho gordo e matai-o, para comermos e festejarmos. Pois este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado’. E começaram a festa» (Lc 15, 22-24) .

34. Eis aqui a finalidade da parábola da misericórdia: fazer-nos compartilhar do sentimento de condescendência e misericórdia do Pai Celeste. Somente o Pai é bom, e sua bondade não diminui a sua grandeza e a sua grande firmeza, pois Ele é bom e misericordioso e, ao fazer o bem, revela os nossos profundos sentimentos ainda não convertidos e rebeldes ao bem . Santo Tomás dizia que é «próprio do bem difundir-se» , Deus é bem supremo, sua misericórdia é sem fim, é por isso que muitas vezes parece contraditória, mas que maior contradição existe quando olhamos que o Infinito se fez finito, o eterno se fez temporal, o Autor de tudo se fez pequeno e humilde, o Todo poderoso se fez impotente na Cruz, o que possuía a Plenitude de Vida sendo Vida de toda vida , também passa «a experimentar a dor da morte e a força do inferno», e tudo isso por puro amor a nós homens e para nossa salvação . 

35. Isto que parece ser uma contradição só pode ser superado pela força da fé e compreendido pela força do amor e da misericórdia; quem nunca experimentou isto estará sempre incomodado com uma falsa imagem de Deus, conhecida somente pela razão e pelas vãs teorias, que no fundo são superficiais e estéreis. Quem um dia experimentou a força do amor e o laço da misericórdia divina consegue entender o grande dom que é esta parábola do Pai Pródigo em misericórdia.

«… MISERANDO ATQUE ELIGENDO…»

36. «Olhou-o com misericórdia e o escolheu» , que optamos por uma tradução mais livre: “Com misericórdia olhou para ele e o escolheu”: eis o lema episcopal do Papa Francisco, que tornou a misericórdia um lugar axial. O escolher este lema tem ligação com a própria vida vocacional, trazendo sua experiência do dia 21 de setembro de 1954, como disse na última entrevista radiofônica antes de ser eleito Papa. 

37. O Romano Pontífice Francisco fala do Evangelho da Misericórdia  em que destaca os pobres e pelo «o amor ao homem, escuta o clamor pela justiça e deseja responder com todas as suas forças» . A misericórdia é a maior fonte de todas as virtudes , maior do que qualquer pecado, por isso o primeiro e único passo pedido para experimentar a misericórdia é reconhecer-se necessitado da misericórdia . A misericórdia não é diversa e nem contrária à justiça, porém, trata-se de um comportar de Deus para com o pecador , dando-lhe uma nova possibilidade de se arrepender, converter e crer . 

38. Deus jamais se cansa de perdoar, pois é o primeiro a nos acolher . Ele pode perdoar tudo e todos, uma vez que é superior a toda forma de pecado, mas este perdão deve ser buscado, querido, desejado . Misericórdia é Deus que vem ao nosso encontro, é a lei fundamental que reside no coração humano quando encontramos com olhos sinceros o nosso irmão(a) . Misericórdia, enfim, consiste na esperança de sermos amados, apesar de nossos pecados, pela grande ternura de Deus , manifestando assim que Deus é a própria Misericórdia! Deus vê além do que se apresenta  e acredita em nossa generosidade e capacidade de conversão, de mudança de vida, por isso mesmo, ninguém pode ser excluído ou rechaçado. Daí, a Igreja se tornar casa de acolhimento a todos, acolhendo o outro como se acolhesse o próprio Cristo desfigurado  para ser ressuscitado .

39. Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai , é a revelação desta misericórdia que se encarna em nosso meio que se torna fonte de alegria, serenidade e paz. O testemunho , o martyria, do fiel cristão , o tornar-se sinal eficaz do agir do Pai Misericordioso é o grande convite que o Papa Francisco nos faz ao abrir a porta deste Jubileu Extraordinário da Misericórdia , para que passemos juntos este tempo favorável para toda a Igreja, um verdadeiro aggiornamento contínuo vivido há 50 anos da conclusão do Concilio Ecumênico Vaticano II que é vivo, nos desafia e tem muito a nos ensinar. É o tempo oportuno, o Kayrós, o tempo de assumir o anúncio jubiloso do perdão , eis a missão eclesial de anunciar a misericórdia de Deus  neste ano. Sob os auspícios tão piedosos, este ano será realmente santo e de renovação espiritual. O jubileu para os peregrinos , a renovação espiritual para todos os homens de boa vontade.

40. Não podemos deixar rarear a experiência do Perdão , uma vez que as pessoas hoje se encontram muitas vezes fragmentadas, carentes de sentidos, de comunhão e partilha. Com razão, São JOÃO PAULO II, na encíclica Dives in misericórdia, chamava a atenção da humanidade para a misericórdia: «A mentalidade contemporânea, talvez mais que a do homem do passado, parece opor-se ao Deus de misericórdia e, além disso, tende a separar da vida e a tirar do coração humano a própria ideia da misericórdia. A palavra e o conceito de misericórdia parecem causar mal-estar ao homem, o qual, graças ao enorme desenvolvimento da ciência e da técnica nunca antes verificado na história, se tornou senhor da Terra, a subjugou e a dominou (cf. Gn 1, 28). Um tal domínio sobre a Terra, entendido por vezes unilateral e superficialmente, parece não deixar espaço para a misericórdia. (...) Por esse motivo, na hodierna situação da Igreja e do mundo, muitos homens e muitos ambientes guiados por um vivo sentido de fé voltam-se quase espontaneamente, por assim dizer, para a misericórdia de Deus» .

AS INDULGÊNCIAS

41. O jubileu é a indulgência plenária extraordinária , máxima de todas as penas devidas pelos pecados·. Para alcançá-la, milhões de fiéis vão partir de todas as partes em fervorosas e incessantes peregrinações . Peregrinação consiste num sinal da via que cada pessoa deve realizar em sua existência, estímulo à conversão; por isso, sintamo-nos abraçados pela misericórdia de Deus ao passarmos pela Porta Santa, e sejamos misericordiosos com os demais como o Pai é conosco , pois Ele é amor  e o específico do amor de Deus é a misericórdia — Deus é misericórdia .

42. Deus sempre está disponível a nos perdoar! Com razão, o Cardeal Walter KASPER, Presidente emérito do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, na véspera da abertura do Ano Santo da Misericórdia declarou firmemente que: «É um grave escândalo que hoje a Igreja seja considerada por muitos como não misericordiosa» .

43. O CARDEAL KASPER, falando à Rádio Vaticana , ainda afirmou que o Papa Francisco conhece a situação atual e o mundo precisa de misericórdia, de um novo impulso, de um novo início. Deus é amor que se transborda a toda a humanidade. Ainda que sejamos infiéis, Deus jamais quebra a sua aliança conosco, pois sempre haverá abundância de amor e de perdão, onde tudo será restabelecido, e é por causa dessa relação de desiguais que se roga sempre a misericórdia, para assim recomeçarmos. Eis aí um «verdadeiro ato profético» , afirma o Cardeal KASPER. É hora de cada fiel, da Igreja toda se abrir e recuperar a credibilidade, praticando a misericórdia, visto que sem misericórdia não teremos paz, justiça. É hora de começar de novo, juntos, e só há futuro se estivermos unidos. Igualmente, a misericórdia é a força que nos impulsiona a um futuro diferente, mas que deve iniciar neste presente.

44. O Assessor da CNBB, Padre Nelito DORNELAS, e a Teóloga Magda MELO asseveram que «A indulgência é experimentar a santidade da Igreja que participa em todos os benefícios da redenção de Cristo, para que o perdão se estenda até às últimas consequências aonde chega o amor de Deus. Vivamos intensamente o Jubileu, pedindo ao Pai o perdão dos pecados e a indulgência misericordiosa em toda a sua extensão» .

45. DORNELAS ainda nos dá pistas a viver esta bela experiência, e destaca o período quaresmal «A Quaresma deste Ano Jubilar seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus. Com as palavras do profeta Miqueias, podemos também nós repetir: Vós, Senhor, sois um Deus que tira a iniquidade e perdoa o pecado, que não se obstina na ira, mas se compraz em usar de misericórdia. Vós, Senhor, voltareis para nós e tereis compaixão do vosso povo. Apagareis as nossas iniquidades e lançareis ao fundo do mar todos os nossos pecados (cf. Rm 7, 18-19)» . 

46. «Na Quaresma deste Ano Santo, é intenção do Papa Francisco enviar os Missionários da Misericórdia. Serão sacerdotes a quem é dada autoridade de perdoar mesmo os pecados reservados à Sé Apostólica, para que se torne evidente a amplitude do seu mandato. Serão, sobretudo, sinal vivo de como o Pai acolhe a todos aqueles que andam à procura do seu perdão» . 

47. Mais do que nunca o Ano Santo propicia reformas, por isso tivemos a reforma do processo de declaração de nulidade matrimonial , vastamente estudado desde setembro  e que entra em vigor na mesma data da abertura do Ano Jubilar. No entanto, mais do que leis, precisamos de reforma individual das pessoas. Se sincera e íntima, ela virá sanar todas as injustiças e restabelecer toda caridade, refrear a cupidez opressiva e promover a compreensão recíproca, restaurar no homem o valor da consciência e na família o sentido de responsabilidade, salvar a dignidade da criatura humana e reestruturar em Jesus Cristo a sociedade vacilante de nossos dias. Oxalá aceitemos o convite do Pastor supremo e possamos meditar, refletir sobre o sentido do pecado e do perdão à luz da misericórdia de Deus . 

48. Cada Ano Santo comporta celebrações ligadas a determinados temas, apela à conversão e oferece, através das indulgências, sinais da inesgotável riqueza do amor misericordioso e do Perdão do Pai. Só quem se sente verdadeiramente perdoado tem estímulo para recomeçar e ir mais longe no compromisso com o projeto justo e fraterno do reino de Deus.

49. Indulgência  quer dizer perdoar benignamente, ter clemência . Na linguagem comum do dia a dia, indulgência significa a capacidade de perdoar, de ‘passar por cima’ do mal feito. Indulgente é quem teria direito de exigir reparação e prefere apagar o erro num ato de confiança e generosidade em relação a quem errou.

50. Indulgência tem a ver com pecado, seja pessoal, seja social. Precisamos de indulgência  porque somos pecadores e vivemos num mundo marcado pelas feridas do pecado. O pecado pode ser perdoado por Deus, pelo irmão ofendido, pela Igreja, pela comunidade. Mas ficam os vestígios do mal feito. O pecado sempre deixa consequências . A realização da reconciliação com Deus não elimina a permanência de algumas consequências do pecado, das quais é necessário purificar-se. É exatamente aí que aparece o sentido da indulgência . Proclamar uma indulgência é afirmar um amor capaz de ser maior do que o pecado, uma vontade restauradora de Deus, que tudo cicatriza e tudo recompõe.

TEMPO DE CONVERSÃO

51. Não nos esqueçamos da importância da relação dialógica ao Judaísmo, ao Islamismo e outras nobres tradições religiosas , evitando fechamento ou desprezo e expulsando todas as formas de violências e discriminação, que, infelizmente, ainda existem e persistem em existir em nosso mundo . Afinal, é num diálogo ecumênico e interreligioso como articulador de misericórdia que a Igreja, sacramento universal, nos ajuda a compreender o mistério da salvação , assumindo, assim, a desafiadora missão de anunciar e testemunhar a misericórdia de Jesus . E nesta firmeza dialógica e de encontro, o Papa Francisco ainda exortou na abertura do Ano Santo Extraordinário: «Ponhamos de lado qualquer forma de medo e temor, porque não corresponde a quem é amado; vivamos, antes, a alegria do encontro com a graça que tudo transforma» . (...) «Trata-se, pois, de um impulso missionário que, depois destas décadas, retomamos com a mesma força e o mesmo entusiasmo. O Jubileu exorta-nos a esta abertura e obriga-nos a não transcurar o espírito que surgiu do Vaticano II, o do Samaritano, como recordou o Beato Paulo VI na conclusão do Concílio. Atravessar hoje a Porta Santa compromete-nos a adotar a misericórdia do bom samaritano» 

52. Misericórdia é sinônimo de coração de mãe, amor de útero, amor íntimo que supera as misérias, processo de conversão que dá sinais de que está em andamento. É a compaixão com famintos, é a solidariedade com os excluídos, é o sentimento de altruísmo, é o voluntariado, é a gratuidade. A misericórdia não se decepciona com as fraquezas alheias. Ama onde não é amada. Arma sua tenda sobre as misérias, as traições, as contradições . É a mais alta forma de amor. Misericórdia é aceitar o inaceitável para poder transformá-lo. O amor misericordioso ama os maus, os inimigos, os traidores, os incoerentes, os feridos, os contraditórios, os “não amáveis”, para recuperá-los. Confia em quem não é confiável e assim pela confiança recupera quem estava perdido . A misericórdia é o fundamento do mundo . O pecador, quando descobre que é amado , deixa o fascínio do pecado, porque encontrou um fascínio maior: a misericórdia. Bem escreveu Santo Agostinho: «A única esperança, a confiança e a firme promessa do pecador é a misericórdia» .

53. A primeira atitude, a atitude fundamental é a entrada num verdadeiro processo de conversão. Estamos habituados a rezar «pela conversão dos pecados» . Ora, é preciso lembrar que os primeiros pecadores necessitados de conversão somos nós. O cristão(ã) é alguém que está sempre recomeçando sua conversão. O que significa converter-se? Converter-se significa acertar os caminhos da vida, dando a ela uma nova orientação. Converter-se quer dizer “passar a limpo” nossa fidelidade a Jesus e ao Evangelho. A conversão implica num dinamismo de transformação que deve atingir o pensar, o falar e o agir de cada cristão(ã) e de cada comunidade. O processo de conversão é revitalizado pelo Jubileu, mas deve durar a vida inteira, sempre sob o impulso da graça divina e da resposta do ser humano ao impulso da graça .

54. O homem que crê no mistério de Deus e na sua infinita misericórdia é uma pessoa que vive autenticamente a verdade do ser homem-humano e, por sua dignidade de filho de Deus e irmão de todos os outros homens, é chamado à íntima comunhão com ele como único caminho de salvação .

55. Em meio a um grande canteiro de ‘rosas’, somos únicos para Cristo. Tornamo-nos responsáveis pelo que cativamos e, daí, não podemos deixar de amar e cuidar da nossa ‘rosa’: «Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca. Como se fosse música... Então, será maravilhoso quando me tiveres cativado... Se tu me cativas nós teremos necessidade um do outro... a gente só conhece bem as coisas que cativou... Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas» .

56. Na Igreja santa e pecadora , Reconciliação é por excelência o sacramento da misericórdia, por permitir que o pecador alcance de Deus o perdão dos pecados, através da absolvição dada pelo ministro e a reconciliação com a Igreja e a comunidade . O perdão divino tem força purificadora e transformadora  e só ele é capaz de criar a união entre a verdade e o amor que renova todas as coisas. Esta é a originalidade da misericórdia na nova aliança: oferecer ao ser humano a remissão dos pecados .

57. É por isso que, em nossa Arquidiocese, além de muito insistir para que, no espírito do Jubileu, se aumentem os tempos e os lugares para se acolher os penitentes, também recomendei aos sacerdotes que saiam às ruas e praças, indo ao encontro de quem, precisando da misericórdia sacramental, não a buscará numa de nossas igrejas. Sugeri que os padres de uma mesma forania ou região se reúnam para atender confissões em praças publicas, em shoppings e tantos outros lugares de passagem. Jesus sempre esteve junto às pessoas. Ele tomava a iniciativa de ir ao encontro delas. Assim também, a Igreja, corpo de Cristo, deve agir do mesmo modo, ainda mais no Ano Santo da Misericórdia.

58. Uma Igreja curada e libertada está a serviço do amor de Cristo que, para dentro, se torna comunhão fraterna e, para fora, servidora da salvação e da libertação dos pobres e miseráveis. A Igreja é o inicio da reconciliação da humanidade na incondicional aceitação por Deus, em Jesus Cristo e no Espírito Santo. Ela é a missão, dada por Deus, para o serviço em prol da conciliação da humanidade .

MARIA, MÃE DE MISERICÓRDIA

59. Maria, mãe de Jesus, é a Mãe da máxima ternura. Contemplá-la é contemplar a ternura de Deus e as maravilhas que esta realiza quando a criatura humana se abre e acolhe a Palavra de Deus e a Sua graça. Ninguém mais do que Maria é o símbolo do acolhimento, precisamente por que ninguém como ela acolheu o Filho de Deus no seu coração e no seu seio – a ternura de Deus encarnada. A maternidade de Maria não se dá por iniciativa sua: «O Pai constituiu Mãe do Verbo encarnado pela ação do Espírito Santo, e Mãe da Igreja por designação do seu Filho, que quis explicitamente estender a maternidade de sua mãe, a ela apontando como filho, do alto da cruz, o seu discípulo predileto» .

60. Na humildade de Maria, Deus vê sua grandeza. Eis aí o convite a cada um de nós, religiosos(as), sacerdotes, leigos(as) em não mirarmos em nossas miserabilidades, mas nos jogarmos no olhar misericordioso de Deus . O Pai a faz «cheia de graça»  transborda sobre ela a plenitude de sua misericórdia, em vista de sua maternidade . Vemos a dimensão do amor divino por meio do amor da misericórdia incondicional do coração de Maria: «Precisamente deste amor ‘misericordioso’ que se manifesta, sobretudo, em contato com o mal moral e físico, participava de modo singular e excepcional o coração daquela que foi a Mãe do Crucificado e do Ressuscitado. Nela e por meio dela, o mesmo amor não cessa de revelar-se na história da Igreja e da humanidade. Esta revelação é particularmente frutuosa, por que se funda, tratando-se da Mãe de Deus, no singular tato do seu coração materno, na sua sensibilidade particular, na sua especial capacidade para atingir todos aqueles que aceitam mais facilmente o amor misericordioso da parte de uma mãe» .

61. No Magnificat, temos o sinal da misericórdia do Pai para com todos os homens. Ele é o cântico da mulher forte, que reivindica os direitos de Deus. É a certeza da alegria e da libertação: «Minha alma exalta o Senhor e meu espírito se encheu de júbilo por causa de Deus, meu Salvador» . Assim, Maria tornou-se protótipo para a humanidade, porque ela é mãe de toda a humanidade. Ela constata que Deus é santo e que sua misericórdia se estende de geração em geração.

62. Mãe de Misericórdia é um dos muitos títulos que a Igreja atribui a Maria. Por ter sido a pessoa que conhece mais a fundo o mistério da misericórdia divina e experimentou esta misericórdia de modo particular e excepcional na sua história. Maria percebe que o eterno se fará terno em seu corpo, como dom e vontade exclusiva de Deus, porque este se fez carne por meio de Maria e, a partir daí, começou a fazer parte de um povo, constituindo o centro de toda a história da humanidade. Maria é, também, verdadeiramente Mãe da Igreja, porque é Mãe de Cristo, cabeça do corpo místico. E por isso é muito amada e venerada por todo o povo cristão, com afeto e piedade filial. «Foi nessa fé que o Papa Paulo VI quis proclamar Maria Mãe da Igreja» .

63. O cristão é gerado a partir do paradigma mariano, como se para cada cristão se repetisse a permanente anunciação à Maria . O nascimento de um cristão não pode prescindir da gestação da palavra. A fecundidade maravilhosa de Maria aparece de forma nítida na sua atitude diante da palavra de Deus. Na imitação de seu paradigma, novos filhos são gerados pela graça concedida pelo Espírito Santo para responder com sabedoria aos apelos do Senhor . 
64. «Além disso, é nossa Mãe ‘por ter cooperado com seu amor’  no momento em que o coração transpassado de Cristo nascia à família dos redimidos; por isso é nossa Mãe na ordem da graça» .

65. Maria personifica a nova mulher. Se pela primeira mulher o pecado entrou na história e com ele a morte , a nova mulher, a Virgem, propiciará a entrada da salvação e da vida eterna neste e no mundo que virá, neste sentido afirmam os santos padres .

66. Mas não imaginemos que a vida de Maria foi cercada apenas de milagres e consolo . Se tudo foi grande em Maria, grande também foram seus sofrimentos e nada foi fácil em sua vida. Ela é aquela que mais próxima está de Deus, porém há uma distância infinita, pois é uma especial criatura, enriquecida com os maiores favores. Por isso, Maria está muito próxima de nós e intercede junto ao Pai por nós, como mãe amantíssima que é .

67. É próprio da pedagogia divina  conduzir o ser humano através do crescimento na fé, e o “sim” de Maria ao Anjo Gabriel trouxe-lhe, no decorrer de sua vida, pausas e incertezas. Ao aceitar participar e acompanhar o cumprimento da missão de seu Filho, Maria é experimentada na fé, sofrendo duras provações . Seu itinerário, como colaboradora no plano salvífico, exigiu o maior de todos os sacrifícios que uma mãe pode fazer: participar do calvário de seu Filho, amado e crucificado para a redenção dos homens. Sua presença ao pé da cruz fora sinal de prontidão e confiança na misericórdia de Deus . Ela fora o tabernáculo da vida deste e, agora, o entrega ao Deus da justiça, confiando que este mesmo Deus não o abandonará . Meditando o mistério de Maria, podemos averiguar e medir quanto à fidelidade desta para com Deus e quanto à nossa: «Em todo esse amplo horizonte de compromissos, Maria Santíssima, filha predestinada do Pai, apresentar-se-á ao olhar dos crentes como exemplo perfeito de amor a Deus e ao próximo... O Pai escolheu Maria para uma missão única na história da salvação: ser Mãe do Salvador esperado. A Virgem respondeu ao chamado de Deus com plena disponibilidade: ‘Eis a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra’ (Lc 1,18). A sua maternidade, iniciada em Nazaré e sumamente vivida em Jerusalém ao pé da Cruz, será sentida neste ano como afetuoso e premente convite dirigido a todos os filhos de Deus, para que regressem à casa do Pai, escutando a sua voz materna: ‘Fazei aquilo que Cristo vos disser’ (cf. Jo, 2,5)» .

68. Agora ela está nos céus coroada rainha e teve a alegria da ressurreição, que já aguardava na fé em Deus Pai, mediante as palavras do Filho e o convívio com ele, iluminada pelo Espírito Santo. Jesus veio buscá-la para glorificá-la, em corpo e alma, na eternidade. Ela intercede por nós junto a Jesus, desdobrando sobre toda a humanidade seu amor de mãe .

69. Assim, por esse motivo, Maria é o caminho seguro para chegarmos a Cristo, pois ela se apresenta diante dos homens como porta-voz da vontade do Filho, como quem indica aquelas exigências que devem ser satisfeitas, para que possa manifestar-se a misericórdia de Deus, mediante a salvação .

70. Que Maria, Mãe de Deus e nossa, conforme invocamos na quase milenar e popular antífona e oração da Salve Rainha  (reza uma tradição que teve uma parte acrescentada por São Bernardo), e que rezamos diariamente na conclusão da oração do Rosário, com o título de Mãe de Misericórdia, interceda por nós e nos ajude a sermos misericordiosos entre nós como Deus é misericordioso para conosco, segundo o modelo da oração que Pai Nosso, que rezamos diariamente (Mt 6,9-13).

A MISSÃO DA IGREJA É SER TESTEMUNHA DA MISERICÓRDIA

71. «O Jubileu da Misericórdia não é e não deseja ser o Grande Jubileu do Ano 2000» , assegurou D. Rino Fisichella, Presidente da Pontifícia Comissão para a promoção da Nova Evangelização, e especificou que é um evento que respeita a vontade do Papa Francisco de chamar as pessoas à misericórdia, inclusive com pecados graves. 

72. De fato, o Jubileu está muito relacionado com as indulgências , ou seja, a remissão perante Deus da pena temporal pelos pecados que um fiel, cumprindo determinadas condições, consegue por mediação da Igreja. Que sentido tem o Jubileu extraordinário? A Igreja vive um desejo de oferecer misericórdia, «fruto de ter experimentado a infinita misericórdia do Pai e a sua força difusiva» (EG 24), leu monsenhor Fisichella a Evangelii Gaudium, documento programático do pontificado de Francisco para justificar o Ano Santo.

73. «O Papa deseja que este Jubileu seja vivido tanto em Roma, como nas Igrejas locais; este fato implica uma atenção especial à vida das Igrejas individuais e às suas exigências, de modo que as iniciativas não sejam uma sobreposição ao calendário, mas sejam, antes, complementares» , explicou o presidente do dicastério vaticano encarregado da organização.

74. Além disso, «pela primeira vez ainda», sublinhou, «na história dos Jubileus, é oferecida a possibilidade de abrir a Porta Santa – Porta da Misericórdia – também em cada uma das dioceses, particularmente na Catedral ou numa igreja especialmente significativa ou num Santuário nomeadamente importante para os peregrinos» .

75. Do mesmo modo, o presidente do Conselho Pontifício para a Nova Evangelização constatou o caráter ecumênico do Jubileu. «Lembro, finalmente, o apelo feito pelo Papa Francisco aos judeus e aos muçulmanos para encontrar no tema da misericórdia o caminho do diálogo e a superação das dificuldades que são de domínio público» .

SOMOS IRMÃOS UNS DOS OUTROS

76. Em Cristo Jesus, somos todos irmãos! Ele, na sua benevolência, nos apresenta Deus como Pai amoroso e misericordioso. Como é bom poder contar com a paternidade de Deus em nossas vidas! Pois esta filiação Divina que recebemos em Jesus nos enche de uma verdadeira segurança, concedendo a nós a plena liberdade. Precisamos entender e acolher, a cada dia, esta seguridade que é encontrada unicamente em Deus, que nos faz viver a verdadeira fraternidade .

77. A realidade fraternal que Cristo nos concede como Dom exige de nós atitudes concretas de comunhão e partilha . O verdadeiro amor fraterno realiza em nós uma mudança profunda em nossos relacionamentos. Temos que afirmar, através dos nossos gestos e palavras : eu sou teu irmão! Você é meu irmão!  

78. Infelizmente, vivemos em um mundo marcado pelo individualismo  que provoca um grande mal a toda sociedade . Gerando, até mesmo dentro da Igreja, certas divisões e desigualdades. A Igreja de Cristo deve testemunhar o novo, que é a unidade na diversidade. Não podemos nos isolar. Precisamos manifestar a nossa fé na comunidade . O jubileu acolhido e vivido deve se transformar num jubileu anunciado e testemunhado.

79. «O isolamento mata, enquanto o acolhimento constrói! Carecemos do outro, precisamos de irmãos. Por isso, façamos todo esforço possível para nos afastarmos daquilo que nos desune e nos apegarmos ao amor de Deus, que nos faz superar todas as adversidades que estão contidas em nossos relacionamentos» .

80. A fofoca , o amor ao dinheiro  e o egoísmo  devastam a vida em comum. Cristo nos faz sobrepujar esses males, fortalecendo-nos para a caridade fraterna, manifestada na ajuda mútua. Portanto, amemos de verdade! Cristo Jesus, nos ajudará! 

A MISERICÓRDIA NO DOCUMENTO “MISERICORDIAE VULTUS”

81. Jesus, a misericórdia encarnada : Jesus Cristo, rosto da misericórdia do Pai. Ele era movido pela misericórdia . Jesus nos ensina: «sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso» (Lc 6,36). Toda a linguagem do Evangelho é uma linguagem de misericórdia, bondade e perdão às pessoas.

82. Na Bíblia a Misericórdia é ideia-chave para indicar o agir de Deus para conosco. Binômio frequente no AT: «Deus Paciente e misericordioso» (Sl 136). A contemplação do mistério da misericórdia é condição para nossa salvação. Pois é o caminho que une Deus e o homem .

83. Misericórdia na história: Misericórdia  de Deus não é uma ideia abstrata, mas uma realidade concreta e histórica . As intervenções divinas, ao longo da história da salvação, revelam o amor misericordioso de Deus .

84. Identidade da Igreja: Toda a ação da Igreja se fundamenta na misericórdia, o mais admirável atributo do Criador e do Redentor. Porquanto, a Igreja é depositária e dispensadora da misericórdia aos homens . A credibilidade da Igreja passa pelo amor misericordioso e compassivo . É tempo de assumir o anuncio jubiloso do perdão.

85. Obras de misericórdia : Refletir no Ano Santo sobre as obras de misericórdia corporal e espiritual recomendadas vivamente pela Santa Igreja, buscando sua aplicabilidade na vida pessoal e comunitária.

86. Confissões : A confissão é sinal e instrumento do primado da misericórdia de Deus. O sacerdote é distribuidor do perdão de Deus (Lc 15.). É canal da graça e da misericórdia do Senhor. Por isso, neste ano santo, o pároco e vigários paroquiais busquem o reavivamento das celebrações penitenciais e as confissões nas comunidades.

87. Missionários da misericórdia : Na Quaresma do Ano Santo serão enviados os missionários da misericórdia: sacerdotes autorizados a perdoar os pecados reservados à Sé Apostólica. Realizar os mutirões de confissões, insistindo para que os fiéis se aproximem do «trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e encontrar graça» (Hb 4,16). Os sacerdotes interessados, com apresentação do bispo, deverão se inscrever para esta missão.

88. Jesus e o pecador : Jesus combateu o pecado, mas nunca rejeitou qualquer pecador (bandidos, grupos criminosos, exploradores dos pobres, corruptos etc.). Deus quer a salvação de todos. 



89. Justiça e misericórdia : «duas dimensões de uma mesma realidade: a plenitude do amor. Justiça: dar ao outro o que é dele, o que lhe pertence por direito. Misericórdia: dar ao outro do que é “meu” (doação de si). Portanto, a misericórdia supõe e supera a justiça» . 

90. Indulgência : Manifestação da misericórdia divina. A Igreja, na sua santidade, é mediadora da indulgência do Pai, liberta os filhos do resíduo das consequências do pecado. «A Igreja vive uma vida autêntica quando professa e proclama a misericórdia, o mais admirável atributo do Criador e do Redentor, e quando aproxima os homens das fontes da misericórdia do Salvador, das quais ela é depositária e dispensadora. Esta realidade distingue essencialmente a Igreja de todas as demais instituições em favor do homem» .

A IMPORTÂNCIA DO ANO DA MISERICÓRDIA

91. No Ano Santo da Misericórdia somos convidados a uma reflexão sobre o perdão. A incapacidade de perdoar é uma das feridas deixadas pelo pecado na criatura humana. Verdadeiramente, o  perdão é um grande ato de misericórdia . No Evangelho, livro repleto de sabedoria divina e humana, aparecem inúmeras vezes mensagens sobre  o perdão. O texto mais incisivo sobre o perdão é o de Mt 18,21-22 .

92. Neste texto, Pedro, muito pragmático, arrisca a pergunta já respondida pelos Rabinos da época, os quais admitiam um máximo de três ou, no limite, quatro perdões. Significa que para os Rabinos o perdão era limitado. Mas para Jesus, o perdão é sem limite. O discípulo de Jesus deve perdoar sempre! Foi o que Jesus respondeu a Pedro. Na verdade, Jesus expressa o princípio fundamental já expresso no Pai-Nosso. No Pai-Nosso, nós apresentamos uma proposta a Deus, com duas possibilidades: Perdoai-nos assim como nós perdoamos nossos devedores. Ora, com este recado, Jesus nos dá a receita do perdão incondicional como único remédio capaz de curar todas as feridas causadas pelas contendas, pelos conflitos pessoais e comunitários.

93. Quando perdoo, é meu coração e a minha mente que ficam livres da amargura.  Pois, o amargor e mal-estar corroem a vida. Perdoar é varrer da memória o episódio que um dia nos machucou de forma tão cruel. A sabedoria africana se expressa: «Faze como a palmeira: atiram-lhe pedradas e ela deixa cair suas tâmaras». No Brasil se diz: «Sê como o Sândalo que perfuma o machado que o fere». 

94. Somos convidados a muito mais: a fazer o bem a quem nos fez o mal. Assim disse Jesus: “amai vossos inimigos e rezai pelos que vos perseguem. «Não pagueis o mal com o mal, nem ofensa com ofensa» (Mt 5,44). «Guerra chama guerra» (Papa Francisco). A virtude do perdão, no seu duplo aspecto, perdoar e pedir perdão, é uma característica especial da misericórdia. É quase um ato de martírio. É só através do perdão que a humanidade consegue interromper a espiral de violência provocada pela vingança. O perdão tem uma força capaz de reconstruir uma pessoa, assim como o ódio é capaz de destruir a pessoa em sua interioridade. Reze e peça a Deus pelas pessoas que te fizeram ou te fazem sofrer.

95. Uma palavra de ânimo quero dirigir a todo o clero: sejamos ministros da misericórdia . Não vamos desanimar de testemunhar a misericórdia ao acolher todos aqueles que vêm ao nosso encontro, porque somos antes de tudo ministros da misericórdia não só para os fiéis , mas na vivência clara da humildade, da generosidade, do não julgamento e da acolhida de todos, particularmente dos que vivem no pecado .

A LOGOMARCA DO ANO DA MISERICÓRDIA

96. A logomarca e o lema colocados juntos oferecem uma feliz síntese do Ano jubilar. O lema: “Misericordiosos como o Pai” (retirado do Evangelho de Lucas, 6,36) propõe viver a misericórdia no exemplo do Pai que pede para não julgar e não condenar, mas perdoar e dar amor e perdão sem medida (cf. Lc 6,37-38). O logotipo – obra do Padre jesuíta Marko I. Rupnik – apresenta-se como uma pequena suma teológica do tema da misericórdia. Mostra, na verdade, o Filho que carrega em seus ombros o homem perdido, recuperando uma imagem muito querida da Igreja primitiva, porque indica o amor de Cristo que realiza o mistério da sua encarnação com a redenção. O desenho é feito de tal forma que realça o Bom Pastor que toca profundamente a carne do homem, e o faz com tal amor capaz de lhe mudar a vida. Além disso, um detalhe não é esquecido: o Bom Pastor, com extrema misericórdia carrega sobre si a humanidade, mas os seus olhos confundem-se com os do homem. Cristo vê com os olhos de Adão e este com os olhos de Cristo. Cada homem descobre assim, em Cristo, novo Adão, a própria humanidade e o futuro que o espera, contemplando no Seu olhar o amor do Pai.

97. A cena é colocada dentro da amêndoa, também esta figura cara da iconografia antiga e medieval que recorda a presença das duas naturezas, divina e humana, em Cristo. As três ovais concêntricas, de cor progressivamente mais clara para o exterior, sugerem o movimento de Cristo que conduz o homem para fora da noite do pecado e da morte. Por outro lado, a profundidade da cor mais escura também sugere o mistério do amor do Pai que tudo perdoa.

JUBILEU NA HISTÓRIA DA IGREJA

98. Antigamente entre os hebreus, o jubileu era um ano declarado santo e que acontecia a cada 50 anos, no qual se devia restituir a igualdade a todos os filhos de Israel .

99. A Igreja Católica iniciou a tradição do Ano Santo com o Papa Bonifácio VIII em 1300. Ele planejou um jubileu por século. A partir de 1475, para possibilitar que cada geração vivesse pelo menos um Ano Santo, o jubileu ordinário passou a acontecer a cada 25 anos. Um jubileu extraordinário pode ser realizado em ocasião de um acontecimento de particular importância.

100. Até hoje, foram 26 Anos Santos ordinários. O último foi o Jubileu de 2000. Quanto aos Jubileus Extraordinários, o último foi o de 1983, instituído por João Paulo II pelos 1.950 anos da Redenção.

101. A Igreja Católica deu ao jubileu judaico um significado mais espiritual. Consiste em um perdão geral, uma indulgência aberta a todos, e uma possibilidade de renovar a relação com Deus e com o próximo. Assim, o Ano Santo é sempre uma oportunidade para aprofundar a fé e viver com renovado empenho o testemunho cristão.

A PORTA SANTA E INDULGÊNCIAS NO ANO SANTO

102. Os grandes santuários católicos do mundo fazem a abertura da Porta da Misericórdia no dia 13 de dezembro, quando o Vaticano também realizará o mesmo ato na Basílica de São João de Latrão. Na catequese, na quarta-feira, 18 de novembro, o Papa Francisco dedicou a reflexão para falar sobre o Jubileu da Misericórdia. Ele explicou a importância da Porta Santa, como sendo um gesto da misericórdia de Deus.

103. «Todos somos pecadores! Aproveitemos esse momento que vem e cruzemos o limiar dessa misericórdia de Deus que nunca se cansa de perdoar, nunca se cansa de nos esperar! Ele nos olha, está sempre próximo a nós. Coragem! Entremos por essa porta!» , disse Francisco.

104. Jesus é a porta que nos faz entrar e sair. Porque o rebanho de Deus é um abrigo, não é uma prisão! A casa de Deus é um abrigo, não é uma prisão e a porta se chama Jesus! E se a porta está fechada, dizemos: «Senhor, abre a porta!» . Jesus é a porta e nos faz entrar e sair. São ladrões aqueles que procuram evitar a porta: é curioso, os ladrões procuram sempre entrar por outro lado, pela janela, mas evitam a porta, porque têm intenções más e se infiltram no rebanho para enganar as ovelhas e tirar proveito delas. Nós devemos passar pela porta e ouvir a voz de Jesus: se ouvimos o seu tom de voz, estamos seguros, estamos salvos. Podemos entrar sem medo e sair sem perigo. Nesse belíssimo discurso de Jesus, se fala também do guardião, que tem a tarefa de abrir ao Bom Pastor (cf. Jo 10,2).

105. A doutrina e o uso das indulgências na Igreja Católica há vários séculos encontram sólido apoio na Revelação divina, e vem dos Apóstolos. «Indulgência é a remissão, diante de Deus, da pena temporal devida aos pecados já perdoados quanto à culpa, que o fiel, devidamente disposto e em certas e determinadas condições, alcança por meio da Igreja, a qual, como dispensadora da redenção, distribui e aplica, com autoridade, o tesouro das satisfações de Cristo e dos Santos» .

106. O Catecismo da Igreja Católica nos ensina que: «Pelas indulgências, os fiéis podem obter para si mesmos e também para as almas do Purgatório, a remissão das penas temporais, sequelas dos pecados» (n. 1498). 

107. O pecado tem duas consequências: a culpa e a pena . A culpa é perdoada na Confissão ; a pena, que é a desordem que o pecado provoca no pecador e nos outros, e que precisa ser reparado, é eliminada pela indulgência, que pode ser plenária (total) ou parcial .

108. De acordo com o Manual das Indulgências, para se ganhar uma indulgência plenária (uma vez por dia apenas), para si mesmo ou para as almas, deve-se fazer: a) uma Confissão individual rejeitando todos os pecados (basta uma Confissão para várias indulgências); b) receber a Sagrada Eucaristia; c) rezar pelo Papa ao menos um Pai-Nosso e uma Ave-Maria. 

Não é necessário que tudo seja feito no mesmo dia. Além disso, escolher uma dessas práticas: 1. Adoração ao Santíssimo Sacramento pelo menos por meia hora (concessão n. 3); 2. Leitura espiritual da Sagrada Escritura ao menos por meia hora (concessão n. 50); 3. Piedoso exercício da Via Sacra (concessão n. 63); 4. Recitação do Rosário de Nossa Senhora na igreja, no oratório ou na família ou na comunidade religiosa ou em piedosa associação (concessão n. 63).

ORIENTAÇÕES DA ARQUIDIOCESE

109. Quanto às atividades, além daquelas específicas do Ano Santo, não se criarão muitas outras, de modo que a vida cotidiana não seja por demais interrompida em virtude da celebração do Ano Santo.

110. Não se nega que celebrar um Jubileu implica indispensavelmente a interrupção do que se faz para se dar atenção ao tema proposto. Isso, porém, não significa que tenhamos que deixar de fazer tudo a que estamos acostumados a fazer. Implica que venhamos a dar sentido de Misericórdia a tudo que sempre fizemos e a tudo que, de modo especial, vamos fazer no Ano Santo.

111. Alguns exemplos bem simples podem ser percebidos nas grandes celebrações que os católicos cariocas já estão acostumados a fazer: Os grandes momentos da liturgia, as Romarias aos Santuários e as festas de São Sebastião, São Jorge, Círio de Nazaré e demais padroeiros, além da tradicional Romaria Arquidiocesana a Aparecida. O terço da Misericórdia tem sido um momento importante do dia em nossa cidade. O domingo da Misericórdia, proclamado pelo Papa São João Paulo II já tem uma tradição marcante em nossa Arquidiocese. Essas práticas existentes da serão ainda mais incrementadas durante este ano do jubileu. Os Congressos da Misericórdia mundiais, continentais, nacionais ou locais continuarão com mais e maior participação e aprofundamento dos temas próprios desses eventos. Estes não são os únicos exemplos, mas podem ajudar a compreender como se faz a articulação com a temática da misericórdia. Basta ver os lemas que são indicados para algumas destas celebrações:

112. Os lemas são:

1. São Sebastião, anunciador da misericórdia de Deus – De fato, quando, ao ler a vida de São Sebastião, percebemos que, mesmo tendo sido tão cruelmente deixado para morrer, ele retorna ao imperador e o conclama à conversão, manifestando o amor de Deus até mesmo ao mais renhido pecador. Deste modo, não há como não reconhecer o amor misericordioso, gratuito e zeloso de Deus, que vai até e principalmente aos maiores pecadores.

2. Maria de Nazaré, Mãe de Misericórdia – A Escritura nos diz que «Deus tanto amou o mundo que deu Seu Filho Único...» (Jo 3,12). A vinda do Filho Unigênito de Deus foi um anúncio, uma proposta, um convite à aceitação. Através do seu SIM, Maria acolheu esta misericórdia, permitindo que a mesma se fizesse carne em seu seio. A resposta de Maria, feitas as devidas ressalvas, será a resposta que deveremos pronunciar e anunciar durante o Ano Santo.

3. Rumo à casa da Mãe de Misericórdia - será o lema de nossa Romaria anual ao Santuário de Aparecida. A romaria acontecerá no dia 27 de agosto de 2016, mas todo o Ano Santo é vivido em clima de peregrinação, com a visita aos locais indicados (ver ao final, na lista de peregrinações já estabelecidas) e a passagem pelas portas santas. Ora, uma de nossas maiores peregrinações será àquela igreja que nos recebe, como Arquidiocese, uma vez ao ano, há mais de cem anos. 

4. Bem-aventurados os misericordiosos porque eles alcançarão misericórdia: - é o lema da Jornada Mundial da Juventude, a acontecer em Cracóvia, Polônia, entre os dias 25 e 31 de julho de 2016. A ida à Jornada, antecedida pela pré-jornada ou semana missionária a ocorrer em Braga, no período de 18 a 24 de julho, faz parte do conjunto de peregrinações cariocas durante o Ano Santo.

PEREGRINAÇÕES E GESTOS CONCRETOS

113. No desejo de concretizar algumas atitudes que permitam bem celebrar o Ano Santo e fortalecer ainda mais a unidade arquidiocesana, o Projeto carioca para o Ano Santo estabeleceu os lugares de peregrinação, bem como algumas ações pastorais, geralmente chamadas de gestos concretos, ou seja, atitudes específicas do período celebrado. 

114. As peregrinações fazem parte da celebração de qualquer Ano Santo. Significam que devemos sair de onde estamos para chegar a um lugar especial (MV, nn. 14-15). Dentro do espírito do Ano Santo e de acordo com as orientações da Bula Pontifícia e do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, considerando ainda as características geográficas da cidade do Rio de Janeiro, foram estabelecidos sete santuários especiais para o Ano Santo da Misericórdia. Usualmente, costumamos chamar estes locais como lugares de porta santa. São estas as igrejas: 1) Catedral de São Sebastião; 2) Santuário do Cristo Redentor, no Corcovado; 3) Santuário Mariano Arquidiocesano de Nossa Senhora da Penha; 4) Santuário da Mãe Rainha Três Vezes Admirável de Schoenstatt; 5) Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Santa Cruz; 6) Santuário da Divina Misericórdia, em Vila Valqueire e 7) Igreja Matriz do Coração Eucarístico de Jesus, no bairro de Santíssimo.

115. Para diversas pastorais, movimentos ou associações, foi elaborado um calendário com datas e locais de peregrinação. Dentro do possível, as datas buscam aproveitar a missa que, aos sábados pela manhã, presido em uma igreja de nossa Arquidiocese. Esta já é uma experiência consolidada e que muito me alegra. As peregrinações transmitidas pelos meios de comunicação permitirão que um número ainda maior de pessoas seja atingido com a pregação a respeito da misericórdia.

116. Além essas peregrinações, cada paróquia e também grupos pastorais, famílias, amigos, vizinhos e outras formas de se reunir, todos podem e devem fazer pelo menos uma peregrinação durante o Ano Santo. Para isso, basta escolher a data e uma das igrejas onde exista a Porta da Misericórdia, marcar na agenda da igreja escolhida, preparar-se espiritualmente e fazer do dia da peregrinação um momento de festa, a festa do reencontro com o Senhor da Misericórdia.

117. Junto com as peregrinações, a Arquidiocese de S. Sebastião do Rio de Janeiro estabeleceu ainda quatro gestos concretos, todos muito diretamente ligados à misericórdia tanto acolhida quanto transmitida. Os gestos são os seguintes: 1) Atitude de escuta; 2) Escolas de Perdão e Reconciliação (ESPERE); 3) Mediação de conflitos; 4) Colaboração na reinserção humana e social dos jovens egressos das medidas socioeducativas. 

118. Esses quatro gestos estão profundamente entrelaçados. São ações diretamente voltadas para o exercício da misericórdia. É a misericórdia que para a fim de escutar os corações feridos, angustiados e quiçá descrentes. É a misericórdia que, ajudando a perdoar, semeia reconciliação por onde passar. É a misericórdia que apela para o bom senso e o valor da pessoa humana como critérios indispensáveis para a solução dos conflitos. É, enfim, a misericórdia que estende a mão a quem muitas vezes só ouve que não tem mais jeito. Ao longo do Ano Santo, estes gestos irão se concretizando e informações mais detalhadas estarão à disposição. Desde agora, porém, conclamo os cariocas a se unirem em torno destes quatro gestos, acolhendo-os como pedidos do Senhor Misericordiosos a todos nós.

119. Cada mês, contemplaremos uma obra de misericórdia para colocarmos em prática: Dezembro: saciar a fome e a sede  Mt 25, 35.37.42.44); Janeiro: visitar os cativos (Lc 4, 16-21); Fevereiro: visitar os doentes (Mt 8, 14-15); Março: advertir os pecadores(Jo 8, 1-11); Abril: suportar os erros seus e dos outros (Lc 4, 1-11); Maio: abrigar os sem lar (Lc n2, 1-7); Junho: vestir os despidos (Mt 25, 34.36.38.43-44); Julho: contemplar o Deus misericordioso (JMJ (Mt 5, 38-48)); Agosto: instruir e aconselhar (Mt 13, 1-13); Setembro: perdoar as ofensas (Mt 18, 21-22); Outubro: confortar os aflitos (Mt 11, 28-29); Novembro: sepultar os mortos e rezar por eles (Jo 11, 1-45).

120. Certamente, cada pessoa poderá escolher uma obra de misericórdia e a praticar quando e como desejar. A indicação de uma única obra para cada mês tem, no entanto, forte intenção pedagógica: manifestar a unidade de toda a Arquidiocese em torno de uma das obras. Além disso, o fato de todos estarem praticando a mesma obra de misericórdia, ainda que de diferentes modos, faz com que se chame maior atenção para a misericórdia. A liberdade de escolha não fica prejudicada. É a unidade que torna o testemunho ainda mais forte.

CONCLUSÃO

121. Pois bem, 50 anos depois, a «nova evangelização»  parte das mesmas preocupações do Concílio: evangelizar sempre, de maneira adequada, com coragem, esperança e alegria, sem se cansar. E sem esquecer que o Evangelho é, antes de tudo, o “belo anúncio” do amor misericordioso de Deus para todas as pessoas: «tanto Deus amou o mundo, que lhe entregou seu Filho único, para que todo aquele que nele crer, não morra para sempre, mas tenha a vida eterna» (cf. Jo 3,16). Evangelizar é anunciar e testemunhar a misericórdia infinita de Deus para com a humanidade.

122. Recomendo mais uma vez a leitura atenta da Bula Misericordiae Vultus, de proclamação do Ano Santo extraordinário da Misericórdia, do Papa Francisco. E que vivamos este Ano da misericórdia com todo afinco. No texto em anexo estão em ordem as várias indicações da Arquidiocese.

123. Em comunhão com o Santo Padre, o Papa Francisco, queremos repetir seu bonito gesto aos pés da Bem-Aventurada Virgem Maria, a Imaculada Conceição, pedindo pelo ano santo jubilar, pelas necessidades da Igreja, de nossa Arquidiocese, e de todos os homens e mulheres de boa vontade, rezando:

124. Virgem Maria,

neste ano jubilar da misericórdia,

venho apresentar-te a homenagem de fé e de amor

do povo santo de Deus que vive nesta Cidade e Arquidiocese.

Venho em nome das famílias, com suas alegrias e fadigas;

das crianças e dos jovens, abertos à vida;

dos anciãos, que trazem consigo o peso dos anos e a experiência;

de modo particular venho a ti da parte dos enfermos, dos encarcerados, de quem sente o caminho mais árduo.

Como Pastor, venho a ti em nome daqueles que chegaram de terras longínquas em busca de paz e de trabalho.


Sob teu manto tem lugar para todos,

porque tu és a Mãe da Misericórdia.

O teu coração é repleto da ternura para com todos os teus filhos:

a ternura de Deus, que em ti se fez carne

e se tornou nosso irmão, Jesus,

Salvador de todo homem e de toda mulher.



Olhando para ti, Mãe nossa Imaculada,

reconhecemos a vitória da divina Misericórdia

sobre o pecado e sobre todas as suas consequências;

e se reacende em nós a esperança numa vida melhor,

livre da escravidão, dos rancores e dos medos.


Neste ano jubilar, ouvimos a tua voz de mãe

que chama todos a se colocar em caminho

rumo àquela Porta, que representa Cristo.

Tu dizes a todos: “Vinde, aproximai-vos confiantes;

entrai e recebei o dom da Misericórdia;

não tenhais medo, não tenhais vergonha:

o Pai vos espera de braços abertos

para dar-vos o seu perdão e acolher-vos em sua casa.

Vinde todos à fonte da paz e da alegria”.


Agradecemos a ti, Mãe Imaculada,

porque neste caminho de reconciliação

não nos fazes caminhar sozinhos, mas nos acompanhas,

estás próxima de nós e nos auxilias em toda dificuldade.

Que tu sejas abençoada, agora e sempre. Amém!


125. Caríssimos irmãos e irmãs:  rezem pela Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, pelo povo de Deus, que diante de todas as dificuldades nunca perdeu a fé. Mãe Santíssima, enriquece de esperança cristã e testemunha a caridade misericordiosa do Cristo Redentor em nossa cidade. Rezemos, pois, pelo nosso clero e, por caridade, também por este servidor!


São Sebastião do Rio de Janeiro, 13 de dezembro de 2015,
Abertura do Ano Jubilar Arquidiocesano.

† Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

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A CELEBRAÇÃO DO 
ANO SANTO DA MISERICÓRDIA
NA ARQUIDIOCESE DE SÃO SEBASTIÃO 
DO RIO DE JANEIRO


A partir da Bula Pontifícia Misericordiae Vultus e das orientações do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, tendo sido ouvidos os bispos auxiliares e os vigários episcopais, foram estabelecidos alguns princípios para a celebração do Ano Santo da Misericórdia na Arquidiocese de S. Sebastião do Rio de Janeiro. O conjunto destes princípios e a realização de algumas ações formam o PROJETO ARQUIDIOCESANO PARA O ANO SANTO DA MISERICÓRDIA, assim caracterizado:

MISERICÓRDIA: UM TEMA DESAFIADOR

1. Considerar a Misericórdia como tema central para as reflexões em todos os níveis da Arquidiocese. Mesmo que outros temas façam parte de grupos específicos, com planejamentos próprios, tais temas ou planejamentos devem ser adequados à temática da misericórdia. A adequação a um tema único, se, por um lado, nem sempre é fácil, por outro, traz o resultado de ajudar na unidade, permitindo que todos efetivamente se sintam numa caminhada comum. 

2. A reflexão sobre a Misericórdia não se restringe a uma ou outra atitude, a uma ou outra devoção, mas abrange o núcleo da identidade cristã, que apresenta o Deus Misericordioso através de inúmeras imagens. Nesse sentido, a reflexão sobre a Misericórdia torna-se profundamente querigmática, pois apresenta o que de mais essencial e distintivo existe na experiência cristã. 

3. Ao mesmo tempo, a Misericórdia é um tema profundamente atual e mesmo indispensável nos dias de hoje, tão marcados pela violência, pela agressividade, pelo desrespeito à vida, nas suas mais diversas instâncias e pelo sentimento de vingança. Perdão, reconciliação, valorização do ser humano, respeito pelo mais frágil são, entre outras, atitudes que devem nortear a reflexão sobre a misericórdia e ajudar a traduzir os demais temas e atividades para dentro do espírito do Ano Santo.

AS ATIVIDADES NA ARQUIDIOCESE:

4. Quanto às atividades, além daquelas específicas do Ano Santo, não se criarão muitas outras, de modo que a vida cotidiana não seja por demais interrompida em virtude da celebração do Ano Santo. 

4.1 Não se nega que celebrar um Jubileu implica indispensavelmente a interrupção do que se faz para se dar atenção ao tema proposto. Isso, porém, não significa que tenhamos que deixar de fazer tudo a que estamos acostumados a fazer. Implica que venhamos a dar sentido de Misericórdia a tudo que sempre fizemos e a tudo que, de modo especial, vamos fazer no Ano Santo.

4.2 Alguns exemplos bem simples podem ser percebidos nas grandes celebrações que os católicos cariocas já estão acostumados a fazer: S. Sebastião, Círio de Nazaré e Romaria Arquidiocesana a Aparecida. Estes não são os únicos exemplos, mas podem ajudar a compreender como se faz a articulação com a temática da misericórdia. Basta ver os lemas que são indicados para estas celebrações:

4.3 Os lemas são:

• S. Sebastião, anunciador da misericórdia de Deus – De fato, quando, ao ler a vida de S. Sebastião, percebemos que, mesmo tendo sido tão cruelmente deixado para morrer, ele retorna ao imperador e o conclama à conversão, manifestando o amor de Deus até mesmo ao mais renhido pecador. Deste modo, não há como não reconhecer o amor misericordioso, gratuito e zeloso de Deus, que vai até e principalmente aos maiores pecadores.

• Salve Rainha, mãe de misericórdia – A Escritura nos diz que “Deus tanto amou o mundo que deu Seu Filho Único...(Jo 3,12). A vinda do Filho Unigênito de Deus foi um anúncio, uma proposta, um convite à aceitação. Através do seu SIM, Maria acolheu esta misericórdia, permitindo que a mesma se fizesse carne em seu seio. A resposta de Maria, feitas as devidas ressalvas, será a resposta que deveremos pronunciar e anunciar durante o Ano Santo.

• Rumo à casa da Mãe de Misericórdia será o lema de nossa Romaria Anual ao Santuário de Aparecida. A romaria acontecerá no dia 27 de agosto de 2016, mas todo o Ano Santo é vivido em clima de peregrinação, com a visita aos locais indicados (ver ao final, na lista de peregrinações já estabelecidas) e a passagem pelas portas santas. Ora, uma de nossas maiores peregrinações será àquela igreja que nos recebe, como Arquidiocese, uma vez ao ano, há mais de cem anos. Ali, nós nos refazemos: rezando diante da imagem, confessando os pecados, participando da missa, do terço e da via-sacra e convivendo com irmãos e irmãs de toda a Arquidiocese e de outras dioceses também. Ao voltar daquela casa de Misericórdia, queremos nos tornar ainda mais anunciadores da Misericórdia.

• Bem aventurados os misericordiosos pois alcançarão misericórdia é o lema da Jornada Mundial da Juventude, a acontecer em Cracóvia, Polônia, entre os dias 25e 31 de julho de 2016. A ida à Jornada, antecedida pela pré-jornada ou semana missionária a ocorrer em Braga, no período de 18 a 24 de julho, faz parte do conjunto de peregrinações cariocas durante o Ano Santo.

4.4 Através destes exemplos podemos então ver como agir com todas as outras atividades que viermos a desenvolver. 

O QUE VAMOS TRANSMITIR:

5. Em tudo isso, somos convidados a encontrar a Misericórdia de Deus como o núcleo do Evangelho. De fato, nosso mundo apresenta um pouco de tudo. Fala-se de todos os assuntos. No campo da religião, encontramos as mais variadas propostas. Isso acontece também em outros âmbitos da vida. Diante dessa realidade, não estabeleceremos competição religiosa nem muito menos combate. Essas duas atitudes ferem muito diretamente a Misericórdia que estaremos celebrando e anunciando. Ao contrário, em clima de compreensão, fraternidade, tolerância e diálogo, falaremos com todos, conviveremos com todos e visitaremos a todos. Não nos fecharemos a ninguém, porque somos filhos do Pai do Céu que faz chover sobre bons e maus (Mt 5,45). Não julgaremos (Mt 7,1), mas amaremos. Não condenaremos (Jo 8,11), mas buscaremos ajudar na salvação. 

6. Este espírito de misericórdia ultrapassa em muito as soluções imediatas para problemas imediatos. Nosso tempo parece que se esqueceu de olhar mais longe. O desespero e a falta de soluções parecem ter levado as pessoas a transformarem a religião em caminho para a solução imediata de suas angústias. Algumas dessas angústias são graves. São cruzes que as pessoas carregam e que, através da Misericórdia, precisaremos nos tornar cireneus e verônicas. Só não poderemos transformar o Ano Santo num período ainda mais agudo para a oferta de uma experiência religiosa centrada apenas em prodígios, como se Deus se prendesse a algo para amar toda a criação.

7. Misericórdia significa amar principalmente sem motivos para amar. Implica amar quando existem até mesmo motivos para não amar, para rejeitar, punir, castigar. O Ano Santo será um tempo muito propício para lembrar daquele pai cujos filhos eram egoístas e ambiciosos (Lc15,11-32). Os dois filhos, ainda que por caminhos diferentes, pensavam apenas em si mesmos. O pai, ao contrário, amava a ambos e, misericordiosa e pacientemente, foi ao encontro dos dois, no desejo de tê-los consigo, de tê-los juntos, como irmãos. Aquele pai é imagem do Pai do Céu. Se nem sempre teremos soluções imediatas e prodigiosas, sempre teremos a Misericórdia acolhedora, fraterna e reconciliadora a anunciar e vivenciar.

COMO VAMOS TRANSMITIR:

8. É por isso que vamos viver a Misericórdia, no Ano Santo, em duas grandes linhas:

• A Misericórdia acolhida

• A Misericórdia transmitida

8.1 Por misericórdia acolhida somos convidados a compreender a experiência de nos sentirmos amados por Deus, independentemente de qualquer motivação que não seja o próprio amor de Deus. Infelizmente, para não poucas pessoas, Deus está mais associado ao medo e à punição do que ao amor. Quando isso acontece, sabemos como o ser humano funciona: ele foge de tudo que lhe causa medo. Em consequência, no campo religioso, surgem duas atitudes: ou a pessoa renega Deus, tornando-se indiferente ou escolhe, neste mercado fértil de ofertas religiosa, alguma que não lhe cobre tanto a transformação profunda da vida. Trata-se de perceber a misericórdia de Deus atuando em nossas vidas. Trata-se da afirmação querigmática de que Deus nos amou por primeiro, manifestando Seu amor quando ainda éramos pecadores, acolhendo-nos, perdoando-nos e nos reerguendo (Rm 5,8).

8.2 Por certo, não se trata de utilizar a misericórdia para retirar das pessoas a responsabilidade pelo que fizeram ou fazem. Misericórdia e Justiça não se excluem. Ao contrário, se completam. Acontece que a relação entre as duas não passa primordialmente pela punição, pelo castigo, mas pela conversão. É por isso que uma das principais posturas pastorais no Ano Santo é o anúncio do amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo, como fonte de conversão, de mudança de vida. Sem essa atitude, a celebração do Ano Santo seria gravemente mutilada.

8.3 Por misericórdia transmitida somos convidados a compreender todas as atitudes, individuais e comunitárias, que ajudem outras pessoas a perceberem a beleza e a grandeza do amor de Deus, deixando-se, então, se envolver por este amor. Trata-se de testemunhar e apresentar este amor como algo radicalmente distinto de uma mentalidade de violência, castigo, punição e vingança. Nesse sentido, o Ano Santo da Misericórdia nos insere muito diretamente numa forte ação missionária. 

8.4 É provável que cada um de nós, por diversos motivos, venhamos a gostar mais de uma das duas linhas. Haverá quem goste mais de investir na misericórdia acolhida e haverá quem goste mais de trabalhar no campo da misericórdia transmitida. O Ano Santo, contudo, nos convoca a agir nas duas linhas ou dimensões. Se uma delas é mais fácil para nós, precisaremos colocar o empenho na outra. 

8.5 Consequentemente, na Arquidiocese do Rio de Janeiro, ajudará utilizar estas duas expressões misericórdia acolhida e misericórdia transmitida, deixando-nos conduzir por essa ideia ao longo do Ano Santo, em tudo que dissermos, planejarmos e executarmos.

PEREGRINAÇÕES E GESTOS CONCRETOS:

9. No desejo de concretizar algumas atitudes que permitam bem celebrar o Ano Santo e fortalecer ainda mais a unidade arquidiocesana, o Projeto carioca para o Ano Santo estabeleceu os lugares de peregrinação bem como algumas ações pastorais, geralmente chamadas de gestos concretos, ou seja, atitudes específicas do período celebrado. 

10. As peregrinações fazem parte da celebração de qualquer Ano Santo. Significam que devemos sair de onde estamos para chegar a um lugar especial (MV 14-15). 

10.1 Física e simbolicamente, saímos de nossas casas, de nossos bairros e de nossas comunidades para visitarmos algumas igrejas que, durante o Ano Santo, se tornam santuários, lugares de especial encontro com o Deus que ama, salva e chama à conversão. 

10.2 Espiritualmente, este gesto de ir a um local distante para rezar, se confessar, participar da missa e vivenciar outros atos de piedade cristã, este gesto físico e simbólico tem a finalidade de atingir nossos corações, no sentido de os transformar. No Ano da Misericórdia, as peregrinações devem fazer com que nossos corações acolham a misericórdia e voltem para casa no desejo de a transmitirem.

10.3 As peregrinações podem ser feitas em grupo ou individualmente. Os grupos podem ser das pastorais, das paróquias, dos movimentos e assim por diante. É muito bom peregrinar em grupo, pois uma pessoa vai ajudando a outra e, na volta, a partilha da alegria da conversão é muito grande. Costuma ficar o desejo de retornar. As peregrinações individuais apresentam o valor do silêncio, do recolhimento, da oração mais pessoal, de uma profunda revisão de vida e, quando possível, de uma confissão capaz de chegar aos critérios mais profundos da vida do peregrino.

11. Dentro do espírito do Ano Santo e de acordo com as orientações da Bula Pontifícia e do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, considerando ainda as características geográficas da cidade do Rio de Janeiro, foram estabelecidos sete santuários especiais para o Ano Santo da Misericórdia. Usualmente, costumamos chamar estes locais como lugares de porta santa. São estas as igrejas:

1) Catedral

2) Cristo Redentor, no Corcovado.

3) N. S. Penha

4) Mãe Rainha Três Vezes Admirável de Schoenstatt

5) N. S. Conceição, em Sta. Cruz.

6) Divina Misericórdia, na Vila Valqueire

7) Coração Eucarístico de Jesus, no bairro de Santíssimo

OS LUGARES COM PORTAS SANTAS:

12. No dia 13 de dezembro, conforme indicado pelo Santo Padre Francisco, através da abertura da porta da misericórdia em cada uma dessas igrejas, o Ano Santo da Misericórdia será aberto em nossa Arquidiocese. A partir de então, as peregrinações deverão começar. O importante é recordar que não se trata de simplesmente passar pela porta santa, como se fosse uma porta mágica. A passagem física deve levar à transformação espiritual. Esta sem aquela não adianta. Pode até se tornar uma ilusão perigosa. 

12.1 Ir, portanto, aos lugares de porta santa significa fazer uma peregrinação tranquila, sem correria, sem preocupação com outras coisas, com dedicação de tempo para rezar, rever a vida, reconciliar-se com Deus e sair para a missão.

12.2 Ao final destas observações, é possível encontrar a lista de peregrinações dos grupos arquidiocesanos.

12.3 Além dessas peregrinações, cada paróquia, congregação, movimento, associação, comunidade de vida etc. poderá escolher um dos locais com Porta Santa para fazer sua peregrinação. Para isso, basta entrar em contato com a secretaria do local escolhido e acertar os detalhes. Cada um dos sete locais possui características próprias que cumpre conhecer antes de organizar a peregrinação.

OS QUATRO GESTOS CONCRETOS:

13. Junto com as peregrinações, a Arquidiocese de S. Sebastião do Rio de Janeiro estabeleceu ainda quatro gestos concretos, todos muito diretamente ligados à misericórdia tanto acolhida quanto transmitida. Os gestos são os seguintes:

1) Atitude de escuta

2) Escolas de Perdão e Reconciliação (ESPERE)

3) Mediação de conflitos

4) Colaboração na reinserção humana e social dos jovens egressos das medidas socioeducativas. 

14. Os dois primeiros gestos podem ser compreendidos no âmbito da prevenção. Os dois últimos, no âmbito da recuperação ou da superação das sequelas deixadas por atitudes de pessoas ou grupos.

A ESCUTA:

15. A atitude de escuta pode ser considerada como o grande gesto do Ano Santo da Misericórdia. Já o Santo Padre Francisco assim indicou em sua Bula que instituiu o Ano Santo. Seu texto é muito claro:

“Abramos os nossos olhos para ver as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da própria dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda. As nossas mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da nossa presença, da amizade e da fraternidade. Que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos romper a barreira de indiferença que frequentemente reina soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo”. (MV 15)

16. A escuta pode ser feita de diversas maneiras. A mais tradicional é a que acontece no Sacramento da Reconciliação, na Confissão. Ali, o sacerdote escuta as fragilidades humanas, ajuda a fortalecer o arrependimento e a encontrar o caminho de volta, concedendo o perdão de Deus, fonte de paz e de alegria. Nesse sentido, o Ano Santo da Misericórdia é um convite a todos os sacerdotes que, mesmo diante de tantas atividades, dediquem ainda mais tempo às confissões, fazendo-o também em lugares onde usualmente as confissões não costumam acontecer. 

16.1 O Ano Santo interpela a criatividade dos sacerdotes para se tornarem missionários da reconciliação, ou seja, irem, individualmente ou em grupos por forania, por exemplo, para atender confissões nos mais diversos locais: praças públicas, centros comerciais, hospitais, lugares de passagem de grande fluxo de pessoas... O Ano Santo da Misericórdia nos diz que não podemos ficar esperando que as pessoas venham, porque muitas não vêm mais. Precisamos ir até onde as pessoas estão. 

17. Além desta escuta, podemos ainda considerar a escuta entre irmãos, ou seja, aquela escuta que ocorre não entre o sacerdote e o penitente, mas entre duas pessoas, uma das quais, batizada, que acolhe um irmão ou irmã como Jesus Cristo acolhia e mandou os discípulos acolherem. Podemos, portanto, dizer que o Ano Santo da Misericórdia será um tempo fundamental para experimentarmos e desenvolvermos o serviço de escuta em toda a nossa Arquidiocese. 

17.1 Para escutar, são necessárias algumas condições. A primeira delas é a vontade de o fazer. É a disposição de reconhecer que gostaríamos de ser ouvidos na hora da angústia (Salmos 18,6; 120,6). É a disposição de ouvir como se estivéssemos sendo ouvidos, mesmo que isso signifique reorganizar a vida para achar tempo, interromper outros compromissos e deixar de fazer atividades costumeiras. 

17.2 A segunda condição é verificar se se tem o dom da escuta. Se, por um lado, todas as pessoas são chamadas a escutar quem está sofrendo, por outro, algumas pessoas, têm o que podemos chamar de dom da escuta. É uma sensibilidade maior para se voltar ao irmão ou irmã, para perceber a dor, para deixar que a pessoa desabafe, para não sufocar nem impor soluções ou caminhos e, ao final, rezar juntos. Em tudo isso, sempre mostrando o amor de Deus.

17.3 A terceira condição é a formação. De acordo com orientações arquidiocesanas a serem ainda estabelecidas, será oferecida, primeiro em nível arquidiocesano, formação para as lideranças, as quais, por sua vez, se tornarão repassadores nos níveis vicarial, de forania e paroquial ou movimentos e novas comunidades. Para participar deste encontro, que será divulgado oportunamente, é preciso fazer a inscrição na Coordenação Arquidiocesana de Pastoral.

O PERDÃO E A RECONCILIAÇÃO:

18. As Escolas de Perdão e Reconciliação (ESPERE) têm sua origem na Colômbia. Estão presentes no Peru, México, EUA e África. No Brasil, existem no Rio de Janeiro, em Niterói, Belo Horizonte, Salvador e Goiânia, entre outras cidades.

18.1 São um serviço especialmente para as vítimas violências de todo tipo, mas também para as pessoas que trabalham com as vítimas e para pessoas muito diretamente ligadas a situações ou ambientes de violência. 

18.2 As pessoas que fazem as ESPERE se tornam multiplicadores da cultura de paz e, de algum modo, mediadoras de conflitos. Trata-se, como podemos ver, de um passo a mais no mergulho para dentro dos corações humanos. Além da escuta, as ESPERE ajudam muito na superação dos traumas e no enfrentamento de situações onde acontece a violência.

18.3 As ESPERE funcionam com grupos de 10 a 15 pessoas que se reúnem semanalmente para refletir sobre a raiva, o ódio e o desejo de vingança. Entre os participantes, existe o compromisso de absoluto sigilo. São guiadas por animadores, pessoas do mesmo bairro que se capacitaram para esse fim.

18.4 Os primeiros a fazerem os encontros das ESPERE serão os agentes das pastorais ligadas à triste realidade da carceragem. Serão três grupos, chamados de oficinas, todas acontecendo na Catedral. O início se dará no dia 16 de fevereiro e o término no dia 7 de maio. Na semana seguinte, dia 14 de maio, sábado, haverá a celebração de encerramento, que também valerá como peregrinação dos agentes de pastoral envolvidos na realidade prisional. 

18.5 As inscrições serão feitas no Vicariato para a Caridade Social. Os horários serão os seguintes:

• Terças-feiras, de 13:30h às 17:30h

• Sábados, de 8:30h às 12:30h

A MEDIAÇÃO DE CONFLITOS:

19. A terceira atividade é a mediação de conflitos. Sabemos que os conflitos, quando não resolvidos através do diálogo entre as partes, acaba sendo judicializado. Os processos são às vezes demorados, custosos e com resultados nem sempre satisfatórios a todos. A mediação atua antes que os processos sejam levados aos tribunais. Ela se baseia no bom senso dos mediadores e em sua capacidade de colocar as partes em diálogo. 

19.1 Para ser mediador, existem condições que serão oportunamente apresentadas. O Projeto Arquidiocesano para o Ano Santo sonha com um mediador ou mediadora por paróquia. Se este sonho se realizar, teremos mais de 250 pessoas ajudando situações de conflito a serem superadas, através do bom senso e do diálogo. Detalhes sobre a formação dos mediadores serão fornecidos oportunamente. 

O ACOLHIMENTO DOS EGRESSOS DAS MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS:

20. O último dos gestos concretos liga-se muito diretamente a uma situação onde é preciso ter muita misericórdia. Trata-se do acolhimento dos jovens que passaram por medidas socioeducativas. Sabemos que, em nosso tempo, a tendência é considerar o sistema penal, seja em que situação for, como simplesmente punitivo. Nosso tempo se esqueceu de que as penas possuem também e principalmente o caráter de recompor as pessoas, reconstruí-las diante de si mesmas, de suas famílias, da sociedade, da Igreja e de Deus. Para a mentalidade em vigor, o rumo dos apenados é o castigo, quando não a morte. Níveis muito altos de violência, aliados à forte sensação de impunidade leva as pessoas a não verem mais saída alguma a não ser o castigo e até mesmo a morte.

21. A presença misericordiosa da Igreja ensina a separar o pecado do pecador. Ensina a destruir o pecado e a preservar o pecador, não, porém, enquanto pecador, mas enquanto pessoa humana, cuja dignidade decorre da filiação divina e está acima de qualquer pecado cometido. Ao pregar apenas o castigo e a vingança, como se fossem justiça, as pessoas se esquecem de que misericórdia e justiça não se opõem (MV 20), mas, ao contrário, se completam. Justiça sem misericórdia vira destruição, olho por olho, castigo por crime. Misericórdia sem justiça pode gerar irresponsabilidade e dificuldade para reconhecer os erros. Quando, porém, olhamos a justiça pelos olhos da misericórdia, aprendemos a separar a pessoa de seus erros e, mais ainda, a ajudar a pessoa a superar suas falhas. Nesse sentido, a misericórdia é o critério para se praticar a justiça. 

22. É por isso que o último dos quatro gestos concretos se dirige exatamente ao incremento do trabalho pastoral junto aos jovens que, já tendo tropeçado na vida, sofrem medidas socioeducativas, algumas cerceadoras da liberdade. Estes jovens, depois de cumpridas as medidas, precisam de apoio para retornar por outro caminho, diferente daquele que os tirou do trajeto que se espera da juventude. A Pastoral do Menor e os demais setores da Arquidiocese, sob a coordenação do Vicariato Episcopal para a Caridade Social, estão elaborando projeto no sentido de colaborar com os jovens para que reencontrem o caminho de volta a si mesmos, às famílias, à sociedade e, é claro, a Jesus Cristo.

AS OBRAS DE MISERICÓRDIA:

23. Aproveitando a grande riqueza da Igreja, o Ano Santo nos convida a rever e concretizar as obras de misericórdia. Sabemos que existem obras materiais e espirituais e que a tradução das mesmas para nosso idioma nem sempre segue uma única forma. O fato das traduções se diferenciarem é secundário. Já o cumprimento das obras é importante. 

23.1 Existem duas maneiras de levar adiante o cumprimento das obras de misericórdia. A primeira consiste em informar quais são as obras e deixar a cada pessoa a escolha de que obra vai seguir. A segunda consiste em escolher uma obra de misericórdia para que os católicos em todo o Rio de Janeiro a cumpram dentro de um determinado período. 

23.2 Sem desconsiderar a liberdade de escolha, o Projeto Arquidiocesano optou por indicar uma obra de misericórdia específica para cada mês, deixando a cada um não a escolha da obra, mas sim o modo como concretizar a obra. A indicação foi feita no desejo de fortalecer ainda mais a unidade arquidiocesana. Somos muitos e com diferentes perfis. Precisamos, no entanto, testemunhar a unidade, num mundo em que a separação parece ser a lei mais forte. Por isso, vamos juntos refletir durante cada mês a respeito de uma obra e encontrar modos de concretizar, modos que se adaptarão a cada realidade local. 

23.3 O calendário das obras de misericórdia é este:

• Dezembro: Saciar a fome e a sede

• Janeiro: Visitar os cativos

• Fevereiro: Visitar os doentes

• Março: Advertir os pecadores

• Abril: Suportar os erros seus e dos outros

• Maio: Abrigar os sem lar

• Junho: Vestir os despidos

• Julho: Contemplar o Deus misericordioso

• Agosto: Instruir e aconselhar

• Setembro: Perdoar as ofensas

• Outubro: Confortar os aflitos

• Novembro: Sepultar os mortos e rezar por eles

23.4 Como se pode ver, as obras de misericórdia foram escolhidas de acordo com alguma motivação própria do mês. É só verificar, por exemplo, o motivo pelo qual, para novembro, se escolheram as obras voltadas para os mortos. 

23.5 Além disso, no mês de julho, não foi indicada uma obra em especial, mas a meditação e o anúncio do lema da Jornada Mundial da Juventude 2016. 

A MISSÃO

24. Em tudo isso, haveremos de permanecer na firme atitude missionária a que a Igreja nos convida e que, dentro de nossas características temos levado adiante. 

24.1 Com a ajuda do COMIDI – Conselho Missionário Diocesano – cada paróquia deverá escolher um local prioritário em sua jurisdição e a ele se dedicar com afinco. Teremos o mesmo esquema do ano da esperança.

24.2 A missão haverá de se caracterizar por visitas de escuta. Não há necessidade, em princípio, de se pensarem em sinais religiosos, pois os católicos visitarão locais carentes de misericórdia para levar seus ouvidos e seus corações. No Ano Santo da Misericórdia, o grande sinal missionário será, portanto, a escuta. 

24.3 Não serão visitas rápidas, medidas pela quantidade de locais visitados, mas pelo impacto de quem se detém a fim de ouvir, escutar dores, enxugar lágrimas. Será um tempo em que, mais do que em outras ocasiões, alegrar-nos-emos com os que estiverem alegres e ouviremos suas alegrias, em que choraremos com os que chorarem e ouviremos suas angústias, em que, dentro do jeito que somos, tentaremos ser tudo em todos, como testemunhas de Jesus Cristo, “rosto da misericórdia do Pai” (MV 1)

OS EVENTOS

25. Por fim, o Projeto Arquidiocesano prevê ainda a realização de quatro eventos: 

25.1 24 horas para o Senhor - Dias 4 e 5 de março, a partir das 17:00 da sexta-feira até as 17:00 do sábado, com forte perspectiva missionária ainda maior que ocorrido em 2015. Para isso, é importante não marcar confissões nas paróquias nestes dois dias e fazer crescer a proposta de confissões nas ruas, praças e outros locais, conforme indicado acima (Ver nº 16). Será um tempo para incrementarmos os santuários móveis.

25.2 Festa da Misericórdia - 3 de abril, domingo, das 13:00 às 18:00, na Catedral. Será a grande festa da Arquidiocese.

25.3 Pátio dos Encontros – Trata-se de uma iniciativa do Pontifício Conselho para a Cultura, tendo em vista o diálogo com os não-crentes e com a sociedade civil em geral. Contará com a presença do Cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do referido Conselho Pontifício e acontecerá entre 5 e 8 de abril.

25.4 Celebração Arquidiocesana da Unidade com a ação de graças pelos benefícios do Ano Santo da Misericórdia - Sábado, dia 19 de novembro, em princípio, na Catedral (MV 5).

PEREGRINAÇÕES

Dezembro 2015

13, domingo - Abertura do Ano Santo na Arquidiocese – Missa Estacional e abertura da porta na Catedral e nos demais lugares onde houver porta santa.

Janeiro, 2016

7 a 19 – Trezena de São Sebastião - Durante a Trezena, visita da imagem a locais de medidas socioeducativas

Fevereiro

2, terça-feira - 18:00h, peregrinação dos(as) Consagrados(as), Catedral

11, quinta-feira - Memória de N. S. Lourdes - Missas no maior número de hospitais que se conseguir. Sonho de missa em um hospital de cada paróquia. Horários conforme a possibilidade. Onde não for possível celebrar missa, ocorram momentos de oração. Haja registro fotográfico e de conteúdo para posterior divulgação. 

14, sábado - 09:00h, peregrinação especial dos enfermos, na proximidade da memória de N. S. Lourdes. Rio Celebra no hospital S. Francisco na Providência de Deus. Avaliar possibilidade de ungir alguns enfermos na missa. Após a missa, se for o caso, o Arcebispo e alguns padres se dirigem aos enfermos que, impedidos de se locomoverem, pedirem a unção. 

Março

08, terça-feira- Dia Internacional da Mulher - Peregrinação das mulheres- 12:00h, Catedral. Breve celebração para poder acolher quem tem apenas pouco tempo para almoçar. 

19, sábado, Solenidade de S. José

09:00h – Peregrinação dos seminaristas, Corcovado, Rio Celebra 

16:00h – DDJ/Dia Diocesano da Juventude e peregrinação dos jovens, Santuário da Penha

27, Domingo da Páscoa do Senhor - 12:00h – Peregrinação dos moradores de rua, Catedral 

Abril

23, sábado – Memória de São Jorge, mártir. --Peregrinação dos motociclistas - Local a ser determinado

30, sábado - 08:00h às 13:00h – Peregrinação dos grupos ligados à Animação Bíblica, Coração Eucarístico de Jesus. Às 09:00h – Rio Celebra

Maio

01, domingo, Memória de S. José Operário e Dia do Trabalhador - 16:00h – Peregrinação dos grupos ligados à Caridade Social, Penha

7, sábado - 09:00h, Peregrinação das crianças, Catedral, Rio Celebra

8, domingo - Ascensão do Senhor - 10:00h, Peregrinação dos Comunicadores, Corcovado, com transmissão pela Rádio Catedral e WebTVRedentor.

15, domingo, Pentecostes - 10:00h, Peregrinação dos confirmados ao longo de 2016, Catedral (Encontro dos crismados)

Junho

1º, quinta-feira – Jornada de Santificação dos Sacerdotes 08:00h, Peregrinação dos sacerdotes, Divina Misericórdia

11, sábado, Peregrinação dos Deficientes – 09:00h – Catedral, RioCelebra

18, sábado –Peregrinação do Apostolado da Oração, N. S. Conceição, Santa Cruz, 09:00h, RioCelebra

Julho

9, sábado - 12:00h, Peregrinação dos atletas, Corcovado

18 a 31, JMJ Cracóvia, com pré-jornada em Braga, Portugal.

Agosto

6, sábado - 09:00h, peregrinação dos diáconos, Divina Misericórdia, Vila Valqueira, com Rio Celebra. Proximidade da festa de S. Lourenço.

13, sábado - 09:00h, peregrinação das famílias, no encerramento da Semana da Família, Catedral. Rio Celebra

27, sábado, Romaria Arquidiocesana a Aparecida - Participação especial dos grupos de Terço dos Homens. 

Setembro

01, quinta-feira – Jornada Mundial de oração pela proteção de todo o criado. Nos sete lugares de porta santa, bênção e envio de uma muda de árvore nativa pra plantio em local previamente indicado.

17, sábado - Peregrinação dos(as) mescs, Catedral – 09:00h, RioCelebra

24, sábado - Peregrinação dos(as) catequistas, Mãe Rainha Três Vezes Admirável de Schoensatt - 09:00h, RioCelebra

25, domingo - 16:00h, Peregrinação dos grupos marianos no encerramento da festa da Penha

Outubro

8, sábado – Dia do Nascituro -Peregrinação dos grupos ligados à promoção e defesa da vida, Divina Misericórida, 09:00h, RioCelebra.

30, domingo - 16:00h, Peregrinação dos grupos marianos no encerramento da festa da Penha

Novembro

2, quarta-feira – Finados - Em todos os cemitérios, ação missionária de oração, levada a efeito pelos batizados cariocas. 

19, sábado – Véspera da solenidade de Cristo Rei e ação de graças pelo Ano Santo da Misericórdia.

Recordando:

É importante recordar que cada comunidade paroquial ou religiosa ou grupos e equipes podem e devem marcar suas peregrinações para o local escolhido e combinar com os responsáveis o acolhimento, confissões, etc.

A celebração penitencial em locais diferenciados (ruas, estações do metrô e dos trens, shoppings centers, praças, etc) deverão ser programadas conforme o vicariato, forania ou paróquia.


Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)