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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

A Igreja e Maria


Maria é redimida como todos os outros, mas o é de maneira particular, fundada na sua missão de tornar-se a mãe de Jesus. Ela é “pré-redimida”, a fim de poder dar à luz o Redentor.

E Jesus faz questão de sublinhar o efeito: “Quem é minha mãe?... os que fazem a vontade de meu Pai” [1]. E Ele responde à mulher que exalta Sua mãe: “Sim, bem-aventurados os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” [2].

Então a única prioridade seria a da maternidade física? Sim e não. Não, porque ninguém como ela tinha necessidade de receber e de fato recebeu tal plenitude de fé e disponibilidade com relação de se tornar fisicamente mãe. E justamente tal plenitude a coloca em primeiro lugar, numa posição exemplar também nas palavras libertadoras de Jesus. Ninguém como ela “ouviu e pôs em prática a Palavra de Deus”, até as últimas fibras do corpo, de modo que nela a fá de Abraão na promessa Divina foi levada à plena realização: a sua fé realizou a encarnação da Palavra de uma promessa; naturalmente só porque o próprio Deus, em Sua soberana liberdade, quis tornar-se homem nela, a humilde serva.

Com, efeito, Maria, enquanto serva do Senhor, se encontra de certa forma nivelada no interior da Igreja – todo aquele que como ela for servo ou escravo de Deus pode ser mãe de Jesus, pode permitir à Palavra Divina que se torne Corpo e Carne -, e, contudo não pode ser perfeitamente nivelada aos outros crentes, porque só ela foi mãe corpórea de Jesus, e, portanto, a “pré-redimida”.

Voltemos mais uma vez à imagem das ondas concêntricas que se sobrepõem: entre os demais círculos, Maria é o maior, aquele cujo raio se sobrepõe e contém todos os outros; em outras palavras ela é coextensiva à Igreja na medida em que esta é a Igreja dos Santos, “esposa sem mácula e sem ruga” [3].

Isto é verdade desde o primeiro instante da encarnação. A conseqüência que deriva disso é extremamente importante para o nosso tema e para toda a concepção da Igreja: esta existiu desde a encarnação, certamente não em sua forma institucional – somente muito mais tarde Jesus chamará os doze e os enviará com plenos poderes para pregar e administrar os Sacramentos -, mas numa forma tão perfeita (“imaculada”) como jamais se registrará depois.

Em Maria, a Igreja já assumiu a atitude corpórea antes de estar organizada em Pedro.

A Igreja é em primeiro lugar – e este “em primeiro lugar” é algo permanente – feminina, antes de receber o seu lado masculino complementar no ministério eclesiástico.

Desde que os teólogos começaram a refletir sobre a figura de Maria, sempre o fizeram achando para Cristo e para a Igreja.

Para Cristo, Maria é a nova Eva, a qual, com a obediência; portanto, ela é a Virgem porque reserva seu corpo para a encarnação de sua fé, conseqüentemente do Verbo Divino nesta fé, o que lhe permite tornar-se mãe de maneira inimitável.

“Somente Maria gerou corporalmente o Filho de Deus; os outros cristãos devem imitá-la fazendo isso espiritualmente” (Santo Agostinho).

Contra o culto pessoal de Maria, surgiu na Idade Média ocidental e que degenerou em vários exageros e deformações, não há nada a objetar enquanto se tiver presente que todas as pessoas que vivem na comunhão dos santos recebem do único Redentor, Cristo, um lugar de colaboradores, cada um segundo a natureza e a particularidade da sua missão. Ora, a missão de Maria Está justamente na sua maternidade, e assim se torna claro que não só no sentido corpóreo, mas “no sentido espiritual, ela é também realmente mãe dos membros de Cristo, porque com a sua dedicação e amor cooperou para que os fiéis nascessem na Igreja” (Santo Agostinho).

Tal dimensão pessoal-espiritual pode ser inserida sem dificuldade na dimensão eclesiológica, desde que se tenha presente a concepção fundamental da comunhão dos santos e os crentes não sejam tratados – de modo particular os santos – como átomos sem vínculos entre si.

Se estivermos dispostos a fazer isso, então também nós, hoje, conseguiremos ver de novo na face da Igreja aquele traço e aquela expressão materna que foi tão evidente e benéfica para os primeiros séculos do Cristianismo.

Partindo da fé perfeita de Maria como último fruto do Antigo Testamento, da sua qualidade de serva, da sua pobreza exaltada por Cristo, deveria ser possível estabelecer um diálogo ecumênico também com as igrejas da reforma.

Aqui não deveria ser difícil encontrar um acordo quanto ao lado mais soteriológico do mistério de Maria, sublinhando que ela é realmente redimida por Cristo (como todos os outros homens), como afirma expressamente Efésios 5 quando diz que Cristo purificou a Igreja, Sua esposa, “com o banho da Água e santificou-a pela Palavra”, para “apresentá-la a si próprio resplandecente de glória”[4].

Por fim, no interior da Igreja Católica, seriam tiradas as conseqüências necessárias e seria plasmada toda a figura da Igreja – incluindo o seu ministério -, de modo que ela irradie toda a sua maternidade (que não é sinônimo de Laxismo), aquela feminilidade, que não focaliza a si própria, mas que, através de sua atividade serviçal e genuinamente caseira, prepara um lugar para o Senhor nos corações e na sociedade humana, um lugar onde Ele possa reclinar a cabeça.

Todos os fiéis devem dar a sua contribuição para esta renovação na face da Igreja. A simples promoção da piedade e das devoções marianas não é suficiente para se alcançar este escopo. A essência mariana, que plasma objetivamente desde sempre a Igreja nos seus melhores membros, deve ser assimilada quanto possível também pela “igreja dos pecadores” que somos nós, como modelo original de serviço a Cristo e à Sua obra para o mundo, na esperança de que o Espírito, que cobre com sua sombra a Virgem Maria, socorra também a nossa fraqueza.

Naturalmente, a forma verbal de louvor a Maria sempre expressa em cântico:

A Nossa Senhora toda Santa, imaculada, exaltada e por todos venerada, a sempre Virgem Mãe de Deus, Maria. És mais venerável que os Querubins e incomparavelmente mais gloriosa do que os Serafins. 
Permanecendo inviolada, deste à luz Deus, o Verbo eterno, 
és verdadeiramente mãe de Deus, louvor a ti.



[1] Mt 12,48-50
[2] Lc 11,27-28
[3] Efésios 5,27
[4] Ef 5,26-27
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O Culto a Maria Hoje