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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Por que os cristãos não seguem todas as normas do Livro do Levítico?


Virou modinha entre os anticatólicos e entre os cristãos relativistas citar certos preceitos do Levítico - que são vistos por eles como leis estúpidas - para zombar da Bíblia e daqueles que nela apoiam a sua fé. Os defensores da causa gay, em especial, questionam, com ironia: "O Levítico, que condena os atos homossexuais, também proíbe comer camarão e aparar a barba dos lados. Os cristãos não pecam contra essa lei?". Monas militantes, vão interpretar a letra do último hit da Lady Gaga, porque de Bíblia vocês não sacam nada!

Levítico - livro dos levitas (sacerdotes) - tinha o objetivo de expor para o povo de Israel quais as normas religiosas e sociais deveriam seguir. Como todos os demais livros da Bíblia, foi totalmente inspirado por Deus. Podemos dizer, a grosso modo, que era para os israelitas o equivalente do que são para nós o Catecismo, o Código de Direito Canônico e a Instrução Geral do Missal Romano, adicionando ainda instruções de higiene, agricultura e bons costumes.

Algumas regras levíticas são perfeitamente compreensíveis para nós, tais como: as condenações à vingança, ao incesto, ao sexo com animais e aos sacrifícios humanos. Porém, vários preceitos do Levítico soam estranhos à maioria das pessoas, entre eles:

·       a proibição de usar um tecido feito com dois tipos de fios;
·       a proibição de cortar o cabelo em redondo e aparar a barba dos lados;
·       a proibição de comer carne de porco, camarão, mariscos, coelho etc.;
·       a proibição de tocar em uma mulher menstruada;
·       a proibição de comer os frutos dos três primeiros anos de colheita.

Apesar de parecerem incompreensíveis à primeira vista, essas normas possuem uma lógica bastante acessível. Elas não são seguidas pelos cristãos, o povo da Nova Aliança, mas tiveram um papel muito importante na Antiga Aliança. 

POVO DE ISRAEL, UM POVO SEPARADO

Ao redor do povo de Israel, viviam povos das mais diversas crenças, que poderiam exercer sobre ele uma forte influência. Deus, então, levou os hebreus a cultivarem costumes que evidenciavam a sua diferença dos demais povos, reduzindo assim o perigo de contaminação espiritual.

O Senhor disse a Moisés: “Dize aos israelitas o seguinte: eu sou o Senhor, vosso Deus. Não procedereis conforme os costumes do Egito onde habitastes, ou de Canaã aonde vos conduzi: não seguireis seus costumes. (Lev 18,1-3)

Portanto, se entre os pagãos a moda era a barba aparada dos lados e o cabelo cortado em redondo, os israelitas jamais adotariam um visual parecido. Quem o fizesse, cometia crime de idolatria: é como se, com sua aparência, estivesse indicando que adorava o mesmo falso deus dos idólatras.

Não juntarás animais de espécies diferentes. Não semearás no teu campo grãos de espécies diferentes. Não usarás roupas tecidas de duas espécies de fios. (Lev 19,19)


Quanto à proibição de misturar dois fios diferentes (como linho e lã), a intenção é clara: Deus simboliza aqui o seu desejo de separação entre o povo escolhido e os pagãosNão se deve misturar duas coisas diferentes, pois haverá confusão e contaminação. Tomando o cuidado constante de não misturar os tipos diferentes de animais, grãos e fios de tecido, os israelitas reforçavam em sua consciência a importância de se manterem puros, distintos e separados.

As restrições alimentares (que foram abolidas depois, no Novo Testamento) seguem a mesma lógica. O capítulo 11 do Levítico estabelece a distinção entre os animais "puros" e os "impuros"; não podem ser comidos coelho, porco, camarão, avestruz, cisne e morcego (viu, Ozzy?), entre outros. Isso fez com que o povo fosse mais saudável, e funcionou como uma conveniente barreira para a interação entre os israelitas e os demais povos. Imaginem como era complicado para um israelita comparecer a uma festa ou a um jantar na casa de um pagão: na mesa, muitas vezes, quase tudo lhe era proibitivo.

A IMPUREZA DA MENSTRUAÇÃO

A lei mosaica listava uma série de atos e ocasiões de tornavam uma pessoa "impura": comer sem lavar as mãos, tocar no cadáver de um animal, tocar em um leproso ou tocar em uma mulher menstruada. Colocamos "impura" entre aspas, porque não se tratava de uma impureza interior, mas meramente uma impureza ritual, exterior.

Dom Estêvão Bettencourt explica que essas normas de higiene, seguidas também por vários povos pagãos da Mesopotâmia, foram devidamente revertidas de um significado superior. Elevadas à categoria de lei religiosa, elas eram aceitas e observadas de modo muito mais eficaz pelo povo, e assim se garantia a saúde pública (BETTENCOURT, "Para Entender o Antigo Testamento"). Os israelitas, portanto, deveriam zelar por sua pureza interior e exterior, de igual maneira.

Na tradição dos cananeus, observada antes mesmo da instituição da lei mosaica, era impura mulher por certo número de dias toda mulher que estivesse vertendo sangue, seja por causa da menstruação, do parto ou de uma hemorragia. De certa forma, esse costume contribuiu para o cumprimento da divina promessa: a descendência de Abraão seria mais numerosa do que os grãos de areia e do que as estrelas no Céu. Ora, se um homem fica impedido de tocar em sua mulher enquanto ela está menstruada, certamente isso aumenta as chances de que ele faça isso quando ela estiver fértil.

Alem disso, e acima de tudo, os ritos de purificação exterior na Antiga Aliança eram uma imagem da purificação interior (arrependimento e Confissão) que, na Nova Aliança, os cristãos devem fazer para poderem comungar. O Antigo Testamento, afinal, educa e prepara o povo de Deus para a Revelação da Boa Nova.

OS FRUTOS DA COLHEITA E 
A PROVIDÊNCIA DIVINA

Tudo é dom de Deus. Se comemos e se temos bens necessários à nossa sobrevivência e bem-estar, é acima de tudo graças à Providência Divina. Sim, os homens trabalham e colhem os frutos de seu empenho e criatividade. Mas, acima de tudo é o Senhor quem os provê. Tudo depende d'Ele.

Para ensinar essa verdade aos hebreus, Deus ordenou que, nos primeiros anos após se estabelecerem na Terra Prometida, eles renunciassem a se beneficiarem dos frutos da terra nascidos de seus esforços; colheriam somente os frutos das árvores já existentes no local. Assim, poderiam atestar que Deus os sustentava, sendo então vacinados da tentação de confiar em si mesmos mais do que no Pai.

Quando entrardes na terra e tiverdes plantado toda sorte de árvores frutíferas considerareis os seus primeiros frutos como incircuncisos; eles o serão durante três anos, e não se comerá deles. No quarto ano todos os seus frutos serão consagrados ao Senhor com ações de graças. No quinto ano comereis de seus frutos para que a árvore continue a produzi-los. Eu sou o Senhor, vosso Deus. (Lev 19, 23-25)

Como vemos, o Levítico apresenta orientações de caráter local e provisório - que faziam sentido somente no tempo da Antiga Aliança - e também preceitos religiosos e morais imutáveis (como a condenação ao roubo, por exemplo). Como distinguir, então, o que deve vigorar eternamente e o que foi abolido com o advento da Nova Aliança? Simples: é só buscar a devida instrução na Tradição da Igreja.

Especificamente em relação aos atos homossexuais, estes não são condenados somente no Levítico, mas também no Novo Testamento (saiba mais aqui) e em toda a Tradição. E é sempre importante lembrar que aqueles que sentem atração por pessoas do mesmo sexo não devem ser estigmatizados nem condenados por essa condição. Eles devem ser acolhidos na Igreja com todo o respeito, sendo encorajados a prosseguir com alegria no caminho da santidade.
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O Catequista