domingo, 26 de fevereiro de 2017

Um homem simples e reto, temente a Deus


Há um gênero de simplicidade que melhor se deverá chamar ignorância; é a simplicidade daqueles que não sabem sequer o que é a retidão; e porque não se elevam até à virtude da retidão, esses perdem a inocência da verdadeira simplicidade: sem a prudência que a retidão exige, a sua simplicidade deixa de ser verdadeira inocência. É por isso que São Paulo exortava os discípulos com estas palavras: Quero que sejais prudentes para o bem e simples para o mal. E ainda: Não sejais crianças na maneira de julgar, mas sede crianças na ausência de malícia. É por isso também que a própria Verdade ordena aos seus discípulos: Sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas. Na sua advertência junta as duas coisas de modo inseparável, para que a astúcia da serpente complemente a simplicidade da pomba e, por sua vez, a simplicidade da pomba modere a astúcia da serpente. Foi por isso que o Espírito Santo manifestou aos homens a sua presença não só em figura de pomba, mas também sob a forma de fogo: na pomba está representada a simplicidade, e no fogo o zelo. Esta sua manifestação em figura de pomba e de fogo contém um duplo ensinamento: os que estão cheios do Espírito Santo de tal modo devem proceder com mansidão e simplicidade que não deixem de se inflamar de zelo pela retidão contra as culpas dos delinquentes. 

Simples e reto, temente a Deus e afastado do mal.

Todo aquele que anseia pela pátria eterna vive com simplicidade e retidão: simples nas suas obras, reto na sua fé; simples na prática do bem cá na terra, reto na aspiração interior pelos bens celestes. De fato, há pessoas a quem lhes falta a simplicidade no bem que realizam, porque buscam a retribuição material e não a espiritual. Por isso, com razão dizia o Sábio: Ai do homem que vai por dois caminhos! Vai por dois caminhos o homem pecador, quando as suas obras parecem ser de Deus, mas as suas intenções são do mundo. Bem se diz de Jó: Temente a Deus e afastado do mal, porque a santa Igreja dos eleitos inicia o seu caminho de simplicidade e retidão pelo temor, mas leva-o à perfeição pelo amor. Afasta-se radicalmente do mal aquele que, por amor de Deus, detesta o pecado. Mas quando pratica o bem apenas por temor, ainda não se afastou totalmente do mal; e nisto não evita o pecado, porque queria pecar, se o pudesse fazer impunemente. Por isso, quando se diz que Jó temia a Deus, justamente se afirma que se afastava do mal: quando o amor segue o temor, é eliminada toda a culpa na consciência pelo firme propósito da vontade.


Do Comentário de São Gregório Magno, papa, sobre o livro de Jó
(Lib. 1, 2.36: PL 75, 529-530.543-544) (Sec. VI)