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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Não queremos a lógica de Caim


Caros amigos, a onda de violência urbana que atingiu nossos irmãos capixabas nos deixou perplexos diante da crueldade sem sentido. Segundo números oficiais, foram 143 mortos, sem falar das perdas materiais e da imensa insegurança que até hoje se abate naquela região. Mas quem foram os saqueadores e assassinos que executaram esta barbárie? Não foram terroristas, nem membros de outra facção criminosa ou partido político beligerante, mas os próprios moradores daqueles centros urbanos, que se armaram em violência contra seus irmãos.

Esta é mesma lógica de Caim (Cf. Gn 4), que por inveja tirou a vida do seu irmão Abel. Tal situação representa a violência do indivíduo contra os outros e, por isso, contra a sociedade em desprezo ao bem comum.

Entretanto, cabe recordar que foi o pensamento político e econômico de nossa atual sociedade do bem-estar que gerou este mal que se irradia incontrolavelmente por todos os lados. As definições de que “o homem é o lobo do homem” e “antes de toda regulação estatal a sociedade é uma guerra de todos contra todos” (Thomas Hobbes) são pensamentos negativos de liberdade que levam ao absolutismo demente e homicida do ser humano que, ao fim, destrói a si mesmo e a tudo aquilo que ama.

O homem, criado a imagem e semelhança de Deus Uno e Trino, não se realiza fora da sociedade e do amor fraterno. Assim sendo, qualquer alternativa que não seja este caminho de comunhão e justiça será sempre falsa ou incompleta. 

Recordo uma reflexão do Papa Francisco, quando ainda era Cardeal de Buenos Aires: “Que outro sentido pode ter a liberdade senão abrir-me para possibilidade de ‘ser com os outros’? Para que quero ser livre se não tenho nem um cão que lata para mim? Para que quero construir um mundo se nele eu vou estar sozinho num cárcere de luxo? A liberdade, desde este ponto de vista, não ‘termina’, senão ‘começa’ com os demais. Como todo bem espiritual, ela é maior quanto mais partilhada seja” (18/04/2007).

Este princípio social, fundado na justiça e no amor, é coerente com o Evangelho de Nosso Senhor e bem pode ser aplicado à família, à comunidade laboral, à cidade ou qualquer outra comunidade. Contudo, para que seja realidade é preciso uma tomada de consciência de toda a sociedade, que deve parar de educar seus cidadãos para o individualismo e o lucro, e transmitir outros valores mais elevados e verdadeiros. Não queremos a lógica fratricida de Caim, mas o mandamento novo do Evangelho de Jesus Cristo.


Dom Edney Gouvêa Mattoso

Bispo de Nova Friburgo (RJ)