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domingo, 23 de julho de 2017

Homilética: Transfiguração do Senhor - Ano A: "A Glória do Pai na face de Cristo".


Na transfiguração, no monte Tabor, Jesus se manifesta aos seus discípulos em todo o esplendor da vida divina que está nele. Este esplendor é apenas uma antecipação daquele que o envolverá na noite de Páscoa e que nos comunicará, tornando-nos filhos de Deus. Nossa vida cristã é, desde então, um processo de lenta transformação em Cristo até a transfiguração na imagem de Cristo glorioso.

A festa da transfiguração foi estendida ao Ocidente no ano 1456 por Calisto II, em memória da “gloriosa” vitória sobre o Islã.

A luz é a mais perfeita forma de comunhão; permite o conhecimento recíproco e a mais absoluta compenetração. Por esta razão é vista como o sinal mais expressivo da Eucaristia. São João, escrevendo “in códice” o livro litúrgico por excelência, o Apocalipse, define Cristo como “a estrela radiosa da manhã” (Ap 2,28; 22,16). É o dom eucarístico às Igrejas que se “convertem”, aos que “alvejaram” suas vestes no sangue do Cordeiro e caminham com o Senhor “em vestes brancas”. Compreende-se como transfiguração, com o tema da luz, tenha sido escolhida bem cedo como leitura fundamental para a catequese litúrgica em preparação ao batismo (2º Domingo da Quaresma). Os orientais cantam uma antífona muito expressiva depois da comunhão: ídomen to phós (“vimos a luz”).

Também nós, em cada missa “vemos a luz” comungando o Ressuscitado: como Moisés na sarça ardente ou no Sinai; como o povo sob a nuvem luminosa, Elias arrebatado pelo carro de fogo, Simeão no Templo de Jerusalém; como Pedro, Tiago e João no Tabor; como os Apóstolos com Maria no Cenáculo no Pentecostes, Paulo na estrada de Damasco... À espera de sermos revelados como “filhos da luz na eucaristia celeste quando Deus será “tudo em todos”.

Comentário dos Textos Bíblicos

1ª Leitura: Dn 7,9-10. 13-14

Já nas escatologias proféticas, antes que Deus instaure o seu reinado, se celebra um julgamento universal.

Os “tronos” são os assentos do tribunal, formado por Deus com sua corte. O ancião é Deus mesmo: anterior a tudo, que “reina desde sempre”. Senta-se tranquilamente, acima da tempestade terrestre dos impérios. Venerável por sua cabeleira, vestido com o branco da majestade celeste. O fogo que o rodeia torna-o inacessível e radiante.

Com o fogo que brota diante dele, executa a sentença. Fogo com flexibilidade de rio de lava para chegar aonde o mandem. Os servos são inumeráveis. Abrem-se os livros em que estão registradas as ações dos homens. Não esqueçamos que, para o autor, trata-se de uma visão.

O próprio autor sagrado interpreta os quatro animais que saem do mar como símbolos de quatro grandes impérios antigos. Dentro do quadro que nos é oferecido pela história não é possível identificar esses impérios. O momento culminante da luta contra o Deus de Israel será constituído pela aparição de Antíoco Epífanes, representado pelo pequeno chifre na cabeça do quarto animal.

Depois dos quatro grandes impérios, particularmente depois da condenação do quarto animal, por parte do Altíssimo, realiza-se a glorificação de “alguém semelhante a um filho de homem”, isto é, semelhante a um homem. Na visão tudo era figura, semelhança; também neste ponto aparece uma “figura humana” ou “figura de um homem”. Substituir a expressão aramaica por “filho de homem” é calcar, não traduzir. É uma figura humana contraposta às quatro feras; não é um ser misterioso e celeste. Não desce, sobe; mas, do ponto de vista do vidente, ela “vem”.

No pensamento do autor sagrado, o símbolo se refere ao povo de Israel, ou seja, aos santos do Altíssimo que terão como guia, segundo o pensamento dos profetas e a concepção da época, o rei davídico, o esperado Messias. Na visão do autor já existe uma compenetração entre o povo de Israel e o seu mais alto representante, o rei messiânico. A aplicação pessoal da passagem de Daniel ao Messias, baseada nesse texto, pode ser documentada pela época pré-cristã. 

Nos evangelhos, Jesus costuma indicar a sua pessoa com o epíteto de Filho do homem; em dois momentos significativos ele utiliza esta expressão evocando textualmente esta passagem de Daniel.

2ª Leitura: 2Pd 1,16-19

Temos aqui o próprio testemunho de Pedro sobre a Transfiguração. Mas Pedro não se limita a uma informação do fato. Anuncia-nos o que significou para ele a experiência do Cristo transfigurado no meio dos profetas. O acontecimento foi para ele confirmação do que os profetas haviam dito. Aceitar, pois, o testemunho dos profetas, isto é, das Escrituras, para conhecer o Cristo, não é fundar nossa fé sobre fábulas, mas sobre a palavra mesma de Deus, lâmpada que brilha num lugar obscuro.

Como confirmação do seu ensinamento e da esperança na parusia aduz o fato – não fábula – da transfiguração, da qual se apresenta como testemunha ocular. A “sublime Majestade” é título ou equivalente de Deus. A montanha santa é a da revelação da sua glória (o Tabor, segundo tradição não comprovada), não o Sinai nem Sião. Essa revelação, enquanto cumprimento, corrobora a validade das profecias, incluída a da futura vinda. Assim confirmadas, as profecias e toda a Escritura são lâmpada que ilumina nossa noite, até que amanheça o sol (chamado aqui de estrela da manhã); ou seja, até sua vinda com glória. 

Evangelho: Mt 17,1-9

A manifestação da glória de Cristo é um momento culminante, que antecipa a ressurreição e foi escrito à luz da páscoa. Situa-se entre dois anúncios da paixão, justificando o projeto do Pai e o destino de Jesus.

A glória de Jesus atrai Moisés e Elias, o mediador da Aliança e o primeiro dos profetas; outrora representantes da Lei e dos profetas, agora testemunhas e interlocutores de Jesus. O Antigo Testamento testemunha a favor de Jesus Messias. A nuvem é companheira ordinária de teofanias, também na liturgia. À Transfiguração segue imediatamente a apresentação das exigências de Cristo: o discípulo deve também arriscar a própria vida pelo seu Mestre. Da nuvem soa a voz de Deus. Aqui é a voz do Pai dando testemunho de Seu Filho: “O Pai conhece o Filho” e o revela. Escutai-o: também quando anuncia a paixão e pede seguimento. A força do discípulo está no ouvir Cristo.

A intervenção de Pedro expressa a alegria da visão e poderia aludir à Festa das Tendas. Como ele identifica Moisés e Elias, o narrador não diz. É a terceira intervenção de Pedro e expressa um desejo de ficar no mistério glorioso. O silêncio imposto por Jesus ao descer une a transfiguração passageira com a glorificação definitiva. Pelo que viram e ouviram, os três poderiam repetir: “Contemplamos a sua glória, glória como de Filho único do Pai” (Jo 1,14; cf. Is 35,2; 40,5). 

O fato da transfiguração garante ao discípulo que Cristo é Filho de Deus, aquele que dá acabamento à história da salvação (Moisés e Elias), a shekiná, isto é, a verdadeira tenda, a verdadeira habitação de Deus entre os homens. Escutar a Cristo é obedecer ao Pai e caminhar na fé. 

Para Refletir

A Igreja celebra hoje a Festa da Transfiguração do Senhor. Antes Pedro, Tiago e João, admirados, Jesus é transfigurado pelo Pai, que o envolve com a Nuvem, símbolo do Espírito Santo, glória e presença de Deus. Na glória de Jesus aparecem Moisés e Elias. E o Pai proclama: “Este é o meu Filho amado! Escutai-o! ”Que realidades do céu podemos encontrar nesse Mistério tão impressionante? Eis alguns, para sua contemplação, meu caro Visitante:

Recorde-se do Antigo Testamento: Moisés subiu ao Monte Sinai/Horeb e, ali, viu o Senhor Deus pelas costas, viu a glória de Deus de relance. Elias também, após quarenta dias de caminho, subiu ao Sinai/Horeb e, como Moisés, viu de relance, pelas costas, a glória de Deus. Mas, agora, ambos sobre o Monte, contemplam face a face a glória de Deus, glória que refulge radiante na face bendita de Cristo. Em outras palavras: Cristo é Deus e nele podemos contemplar a glória do Pai!

Outro aspecto importante: Moisés e Elias resumem todo o Antigo Testamento: o primeiro simboliza a Lei; o segundo, os Profetas. Eis, pois: a Lei e os Profetas dão testemunho de Cristo e são por ele iluminados. Somente na glória de Cristo é que o Antigo Testamento pode ser compreendido em plenitude!

Mas, o que aconteceu mesmo com Cristo? Sua humanidade, sua natureza humana, sujeita ao mesmo estado de servidão que a nossa, foi totalmente envolta pelo Espírito de Glória, de modo que nela transparece, de modo impressionante e inimaginável, a própria glória divina da Pessoa do Filho eterno! Por um momento, Jesus faz-se ver naquela glória que sua natureza humana terá depois da Ressurreição! Por isso mesmo o tema sobre o qual conversa com Moisés e Elias: sua Paixão, que iria acontecer em Jerusalém.

Aqui também há uma profunda lição: somente poderá compreender a glória de Cristo quem for com ele até a cruz. Não é por acaso que, ao descerem do Monte, Jesus os proíbe de falar a quem quer que seja sobre o que testemunharam “até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos”. Também não é por acaso que as três testemunhas da Transfiguração serão as testemunhas da Agonia no Horto. Quem não ama a cruz de Cristo, tampouco verá a glória de Cristo. Uma glória do Senhor compreendida sem a cruz é mundana e não tem nada a ver com o desígnio de Deus.

Um outro aspecto: a glória que contemplamos no Cristo, nossa Cabeça, é a glória que está destinada a toda a Igreja, Corpo de Cristo, e a cada um de nós, membros seus. Deste modo, a Festa de hoje é também festa nossa, penhor da nossa futura glorificação!