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quarta-feira, 19 de julho de 2017

Homilética: 18º Domingo do Tempo Comum - Ano A: "Deus quer saciar a nossa fome e a nossa sede".


A Palavra de Deus, em Mt 14, 13 – 21, mostra-nos Jesus, ao desembarcar num lugar deserto, viu-se rodeado de uma grande multidão que O procurava. Jesus “encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes” (Mt 14, 14). Curou-os por própria iniciativa, porque, levar os doentes para aquele lugar isolado, deserto, era já uma bela oração e uma forte expressão de fé.

Os Apóstolos ficam preocupados com a multidão que não tem o que comer naquela região desértica e manifestam essa preocupação a Jesus. Eram cinco mil homens, sem contar as mulheres e as crianças; para comer tinham apenas cinco pães e dois peixes.

Depois de mandar que se sentassem na relva, Jesus, tomando os cinco pães e os dois peixes, levantando os olhos ao Céu, pronunciou a bênção e, partindo os pães os deu aos discípulos e os discípulos às multidões. Todos comeram até ficarem saciados. O Senhor cuida dos seus, dos que O seguem!

O relato do Milagre começa com as mesmas palavras e descreve os mesmos gestos com que os Evangelhos e São Paulo nos transmitem a instituição da Eucaristia (Mt 26, 26; Mc 14, 22; Lc 22, 19; 1Cor 11, 25). Esse milagre, além de ser uma manifestação da misericórdia divina de Jesus para com os necessitados, era figura da Sagrada Eucaristia, da qual o Senhor falaria pouco depois, na sinagoga de Cafarnaum (Jo 6, 26 – 59). Assim o interpretaram muitos padres da Igreja.

Deus sabe da nossa fome e sede radicais. Por isso preparou desde sempre pratos substanciosos e vinhos soleira (primeira leitura). Mas foi distribuindo de gole em gole. E quando já não aguentou o seu coração nos deu para comer generosamente como manjar o Corpo e para beber o Sangue do seu Filho Jesus Cristo, e ficamos satisfeitos (evangelho). Com este alimento teremos forças para satisfazer as nossas necessidades espirituais e sair vitoriosos diante das lutas diárias (segunda leitura). E inclusive nos sobrará para alimentar os nossos irmãos necessitados.

São João indica-nos que o milagre causou um grande entusiasmo naquela multidão que se tinha saciado (Jo 6, 14). Refletia São Josemaria Escrivá: “Senhor, se aqueles homens, por um pedaço de pão – embora o milagre da multiplicação tenha sido muito grande –, se entusiasmam e te aclamam, que não devemos nós fazer pelos muitos dons que nos concedeste, e especialmente porque te entregas a nós, sem reservas, na Eucaristia ?(Forja, 304).

Pontos da ideia principal

Textos: Is 55, 1-3; Rm 8, 35.37-39; Mt 14, 13-21

Em primeiro lugar, vejamos as diversas fomes e os diversos tipos de sede que tem o homem de hoje. Fome e sede de Deus, que se não é canalizada nos faz cair na tentação paradisíaca do “sereis como deuses”. Fome e sede de espiritualidade, que se não é orientada se converte em supermercado onde cada um satisfaz as suas emoções e sentimentos. Fome e sede de liberdade, que se não é formada desemboca em libertinagem. Fome e sede de fama e de honra, que se não é purificada nos faz cair no espetáculo de apoteose como tantos faraós, reis, guerreiros, legisladores, cantores e atores. Fome e sede de dinheiro, que se não é controlada nos rouba o sono e a paz. Fome e sede de sexo, que se não é integrado com as outras dimensões do amor afetivo, amistoso e espiritual, nos devora, engole e no faz cair no erotismo. Fome e sede, que se não se faz irmã da misericórdia, nos empurra à crueldade. Fome e sede de saúde, que se não é equilibrada se converte em fonte de hipocondria. Fome e sede de descanso, que se não é dosificada é motivo de preguiça e vagabundagem.

Em segundo lugar, Deus em Cristo vem para saciar completamente a nossa fome e sede interior. Desde o Antigo Testamento, Isaias nos fazia o convite de Deus: “Ide por água… vinde, comei sem pagar vinho e tomai leite grátis… comereis bem…”. Esta multiplicação de pães e de peixes, narrada hoje no evangelho, é o anúncio e o prelúdio do que Cristo será para todos nós: o nosso alimento, antecipação do mistério da Eucaristia. A metáfora da comida e da bebida é bem apropriada para fazer-nos compreender outros bens que Deus nos presenteia: a sua proximidade, o seu perdão, o seu amor. Quantas vezes Jesus utilizou o ambiente de uma refeição para fazer-nos sentar à mesa do perdão e da salvação! Ali está Cristo Alimento em cada missa. Ali está Cristo Alimento no evangelho.

Finalmente, mas também nos encarrega “dai vós mesmos de comer”. Deus não se encarrega de fazer tudo. Cristo não prevê tudo com o seu milagre. Cristo dá os pães e os peixes multiplicados aos discípulos, e depois eles repartem entre as pessoas. Devemos compartilhar com Ele a sua compaixão e a sua sintonia com o faminto, em todos os sentidos de fome e de sede. Somos colaboradores desse Cristo que quer saciar a fome e a sede da humanidade. Que triste seria ficarmos num cantinho comendo, sozinhos, o pão da nossa fé, da nossa esperança, do nosso amor, da nossa bondade! Que triste seria não compartilhar o vinho da nossa alegria, do nosso otimismo, da nossa solidariedade, do nosso conselho! São João Paulo II disse: “Penso no drama da fome que atormenta a milhares e milhares de seres humanos, nas doenças que flagelam os países em desenvolvimento, na solidão dos anciãos, na desolação dos não têm emprego, na tortura dos emigrantes. Não podemos criar castelos no ar: pelo amor mútuo e, em particular, pela atenção aos necessitados seremos reconhecidos como verdadeiros discípulos de Cristo. Em base a este critério se comprovará a autenticidade das nossas celebrações eucarísticas” (Mane nobiscum Domine, 28).

Para refletir

Hoje o Evangelho nos apresenta Jesus como a plenitude da compaixão de Deus no nosso meio. Multiplicando os pães, ele realiza de modo pleno aquilo que Moisés e Elias, os mesmos personagens da Transfiguração, representantes da Lei e dos Profetas, já haviam realizado: Moisés deu de comer ao povo no deserto; Elias sustentou com alimento a viúva de Sarepta durante todo o tempo da seca em Israel. Ora, Jesus é aquele que nos alimenta em plenitude, é o Messias prometido a Israel e à humanidade. Como o Bom Pastor, de que fala o Salmo, ele faz seu rebanho descansar na relva mais fresca e lhe prepara uma mesa. Seu alimento não se reduz ao pão. Primeiro nos alimenta porque sente compaixão de nós, de nossa pobreza e indigência: “Viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes”. Mais do que de pão, é de amor, de ternura e compaixão que o Senhor nos alimenta! Alimenta-nos também com sua Palavra de vida eterna: vê a multidão cansada e abatida como ovelhas sem pastor e ensina-lhe, fala do Reino até o entardecer… Olhando o nosso Salvador, vemos cumprir-se nele o convite tão terno, tão comovente do Deus de Israel: “Ó vós todos que estais com sede, vinda às águas; vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, cinde comprar sem dinheiro, e alimentai-vos bem, tomar vinho e leite, sem nenhuma paga!’

Que belo convite! Num mundo no qual tudo é pago, tudo gira em torno do lucro, tudo tem a preocupação do retorno econômico e do interesse (até nas seitas por aí a fora, o dízimo é a chave de entrada no céu), o Senhor se revela graciosamente! Quem dera, o mundo compreendesse esse amor apaixonado de Deus que se manifesta em Jesus! Quem dera se reconhecesse faminto e sedento! Quem dera se deixasse interpelar: “Por que gastar dinheiro com outra coisa que não o pão, desperdiçar o salário senão com satisfação completa? Ouvi-me com atenção e alimentai-vos bem! Inclinai vosso ouvido e vinde a mim, ouvi e tereis vida!” Infelizmente, o nosso é um mundo cansado, mas também auto-suficiente, prepotente, que pensa poder sozinho, do seu modo se saciar e viver de verdade! Também nós, nas nossas pobrezas, tanta vez fugimos do Senhor, ao invés de correr para ele, nosso Poço, nossa Água, nosso Pão, nosso Refrigério!

Mas, nós, cristãos, sabemos que em Cristo Jesus encontra-se a vida, encontra-se o verdadeiro caminho, a verdadeira vida do mundo! É isso que São Paulo exprime com palavras comoventes: “Quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação? Angústia? Perseguição? Fome? Nudez? Perigo? Espada? Em tudo isso somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou!” É por essa experiência do amor tão terno e presente de Jesus na nossa vida que somos cristãos! Deixemo-nos saciar pelo Senhor e experimentaremos que “nem a morte, nem a vida, nem o presente nem o futuro, nem outra criatura qualquer, será capaz de nos separar do amor de Deus por nós, manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor!”

Caríssimos, a verdadeira Boa-Nova para o mundo atual é esta: o amor terno e próximo de Deus, manifestado em Jesus Cristo! Mas, atenção: somente poderemos ser testemunhas de tal amor se nós mesmos nos deixarmos tocar e envolver pela ternura do Cristo! Atendamos, portanto, ao seu convite de ir gratuitamente a ele, apesar de nossas pobrezas! Deixemos que ele nos alimenta e sacie de vida e de paz!

Não esqueçamos também que, sobretudo na Eucaristia essa vida, essa alimento, essa paz vêm a nós! Neste Ano Eucarístico, sintamo-nos convidados pela Igreja a recobrar nossa devoção e piedade eucarísticas. Primeiro pela participação consciente e piedosa da Santa Missa todos os domingos. Mas, também pela adoração ao Santíssimo Sacramento. Aí o Senhor Jesus nos espera para nos falar ao coração e encher-nos da sua paz. Estejamos atentos a alguns aspectos desse carinho pela presença eucarística de Cristo. Eis alguns pontos para nossa meditação: (1) como está minha participação na Missa? (2) Tenho consciência do que é a Missa? Compreendo que ela é o sacrifício de Cristo tornado presente no Altar para vida nossa e do mundo inteiro? (3) Tenho respeito pela presença de Cristo na Eucaristia? Quando entro na Igreja, dobro meu joelho ante o Santíssimo? Detenho-me em adoração ou fico conversando e disperso? (4) Tenho reservado alguns minutos durante a semana para uma visita ao Santíssimo Sacramento, para falar-lhe em espírito e verdade, como um amigo ao outro amigo?

Eis, meus caros! Procuramos vida e realização em tantas bobagens! A Vida, a Realização, é Jesus que se dá a nós no Altar e por nós espera no sacrário! Saibamos valorizar esse Dom tão grande: “Ó vós todos que estais com sede, vinda às águas; vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, cinde comprar sem dinheiro, e alimentai-vos bem, tomar vinho e leite, sem nenhuma paga!’ Que o Senhor nos dê a graça de aceitar seu convite! Amém.
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ZENIT/ Presbíteros