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sexta-feira, 7 de julho de 2017

Homilética: 16º Domingo do Tempo Comum - Ano A: "Por que Deus permite tanto mal no campo do mundo?"


A essa pergunta nos responde a primeira leitura de hoje: “Ao pecador lhe dás tempo para que se arrependa”. E para isso, Deus nos manda o seu Espírito que nos ajuda na nossa debilidade (segunda leitura). Mas também temos que colocar a nossa parte: vigilância, porque o inimigo da nossa alma não dorme e quer semear o seu joio nos momentos de sonolência e distração da nossa parte (evangelho).

A Igreja Católica, sendo Santa, sempre fugiu dos diversos puritanismos, rigorismos e da mentalidade de seita, ou seja, duma visão estreita e separatista. Ela deseja que os seus filhos estejam no meio do mundo, convivendo com os seus iguais, como o bom trigo, e no mesmo campo que o joio. No entanto, o trigo não se sente mal, não se sente estranho no seu próprio ambiente. Se tivesse consciência, o trigo saberia que aquele é o seu lugar natural, deve estar aí, nem deseja que o plantem nos ares, aí não sobreviveria. Ainda que o joio, esta planta que engloba os vegetais e cresce às suas custas, lhe subtraia algumas energias, deve continuar aí no mesmo lugar.

Como o cristão é da terra, está inserido nas coisas deste mundo e as ama, tem que ter as ideias bem claras. Sem formação não poderá informar o mundo com a forma que Cristo quer para esse mundo. Que tipo de formação? É muito importante que esteja bem formado nos “rudimentos” da fé, deve ter pelo menos uma linha geral da história sagrada que se nos narra na Bíblia e ter uma informação amplia pelo menos dos últimos documentos mais importantes do Magistério da Igreja. Mais concretamente, o conhecimento da Sagrada Escritura, do Catecismo da Igreja Católica e dos documentos do Concílio Vaticano II é importantíssimo. Seria interessante que nos programássemos para, pouco a pouco, ir lendo esses três livros e ter sempre uma pessoa de referência para que possamos perguntar-lhe algumas coisas que não entenderemos na nossa leitura.

Com as ideias claras é preciso lutar por vivê-las. Todo o amplo mundo das virtudes humanas que podemos resumir nas quatro cardeais –prudência, justiça, fortaleza e temperança– e das virtudes teologais –fé, esperança e caridade– deveria ser o campo de um trabalho pessoal, constante e alegre. Não nos esqueçamos de que Deus teve a iniciativa, ele nos amou e colocou no nosso coração a capacidade de amá-lo.

Pontos da ideia principal

Textos: Sab 12, 13.16-19; Rm 8, 26-27; Mt 13, 24-43

Em primeiro lugar, é um fato que Deus dia e noite semeia no nosso coração excelente semente de bondade, verdade, beleza, honestidade, justiça, pureza, caridade. E faz isso só ao entrarmos com a alma aberta em oração e abrirmos a Bíblia, ou só ao irmos à missa e participarmos consciente e fervorosamente da mesa da Palavra e da Eucaristia, ou quando escutamos atentamente uma homilia ou assistimos com prazer um retiro, ou estamos sentados conversando com bons amigos, ou no meio de um contratempo ou doença. Deus nunca dorme.

Em segundo lugar, mas também é um fato que o inimigo da nossa alma, o diabo, também não dorme, e nos espia e nos rodeia como um leão a rugir, buscando quem devorar. Ele não quer destruir a boa semente de Deus, mas quer semear o seu joio para ele cresça e se confunda com a semente boa, e inclusive quer conquistar essa boa semente e convertê-la em joio. E tudo com um único objetivo: perder a nossa alma. Não quer que o bom trigo de Deus se expanda pelos cantinhos deste mundo, das famílias, dos corações. Quer semear o joio do ódio, da divisão, da insensibilidade e da indiferença diante de tanta pobreza e miséria de muitos de nossos irmãos. E quer semeá-la no campo da medicina com esses métodos anticonceptivos e abortivos; no recinto sagrado do matrimônio semeando a ideologia de gênero e aplaudindo a legalização das uniões de pessoas do mesmo sexo; no campo da cultura, inoculando o liberalismo e a ditadura do relativismo; até mesmo já entrou na Igreja santa de Cristo e semeou e provocou durante séculos e séculos heresias e cismas e escândalos.

Finalmente, qual é a relação de Deus diante da ação do inimigo? Ele poderia perfeitamente arrancar de uma vez o joio e tampar a boca de Satanás, e estava acabado, pois para isso é onipotente. Mas não Ele não faz isso. Alguma razão terá no seu coração; sim, o seu amor misericordioso. Por uma parte, tem paciência e misericórdia e espera que algum dia esse joio se converta em bom trigo, pois Ele não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva. Por outra parte, também quer que o bom trigo faça sem parar e com consciência o seu trabalho de fermento e seja provado diante do joio, para que assim se fortaleça e cresça mais firme e convencido. Deus nos quer livres e respeita a nossa liberdade.

Para refletir

Hoje, o Senhor nos apresenta três parábolas: a do trigo e do joio semeados no campo do mundo e do nosso coração, a do grão de mostarda que cresce a abriga as aves dos céus e, finalmente, a do tiquinho de fermento que leveda toda a massa… É assim o Reino dos Céus!

As três parábolas mostram a fraqueza do Reino, sua fragilidade escandalosa, mas também sua força invencível, seu poder, sua capacidade de tudo impregnar e transformar, até chegar à vitória final. Só que para compreender isso – os mistérios do Reino -, é necessário ter a paciência, a sabedoria que nos dá a capacidade de acolher os tempos e modos de Deus! Mas, vamos às parábolas.

Primeiro, a do trigo e do joio. Que nos ensina aqui o Senhor? Que lições nos quer dar? Em primeiro lugar: Deus não é inativo, indiferente ao mundo, à nossa vida de cada dia. No seu Filho, semeou o trigo do Reino no campo deste mundo e no campo do nosso coração. Como diz o Livro da Sabedoria, na primeira leitura de hoje: “Não há, além de ti, outro Deus que cuide de todas as coisas!” Sim: nosso Deus é um Deus presente, um Deus atuante, um Deus que cuida de nós com amor e com amor vela por suas criaturas! Não duvidemos, não percamos de vista esta realidade: num mundo de cimento armado e homens bombas, fome, mortes e mensalões, Deus está presente, Deus cuida de nós! Uma segunda lição desta parábola: no mundo e no coração de cada um de nós infelizmente há o mal, o pecado, a treva. Por favor, não mascaremos o mal do mundo nem o mal do nosso interior! É preciso desmascará-lo, é preciso chamá-lo pelo nome! Não mascare, irmão, irmã, o mal da sua vida, do seu coração, da sua consciência! Esse mal não vem de Deus; vem do Antigo Inimigo, do Diabo que, mais esperto que nós, tantas vezes faz o mal nos parecer bem e até achar que nós mesmos estamos acima do bem e do mal! O Diabo é assim: semeia o mal e faz com que ele se confunda com o bem, como o trigo e o joio. E nós, tolos, confundimos tudo e pensamos ser bem ao que é mal – mal semeado pelo Maligno! Por favor, olhe o seu coração: não se engane, não finja, não mascare, não minta pra você mesmo! Chame o mal de mal e o bem de bem! Numa terceira lição, a parábola de Jesus nos ensina a paciência, sobretudo com o mal que vemos no mundo e nos outros! Somos impacientes, caríssimos, e até julgamos Deus e o seu modo de agir no mundo. O querido Bento XVI, na sua homilia de início de pontificado, falava da paciência de Deus que salva e da impaciência nossa que coloca a perder… Jesus nos pede que confiemos em Deus, que acreditemos na sua ação e nos seus desígnios, tempos e modos: Não há, além de ti, outro Deus que cuide de todas as coisas e a quem devas mostrar que teu julgamento não foi injusto. A tua força é princípio da tua justiça e o teu domínio sobre todos te faz para com todos indulgente. Dominando tua própria força, julgas com clemência e nos governas com grande moderação; e a teus filhos deste a confortadora esperança de que concedes o perdão aos pecadores”.

Escutemos ainda um pouco o Senhor; aprendamos com as parábolas do grão de mostarda e do fermento que leveda a massa. Precisamente porque o modo de pensar e agir de Deus não é como o nosso, o Reino dos Céus aparece tão frágil, tão inseguro, tão precário… pequenino como um grão de mostarda, pouquinho como uma pitada de fermento! E, no entanto, será grande, será forte, será vitorioso e abrigará as aves dos céus! Será eficaz, forte, e penetrará toda a massa deste mundo! Mas, quando, Senhor? Por que demoras? Por que parece que estás longe? Por que pareces dormir? Observem, irmãos, que em todas as parábolas do Reino, Jesus deixa claro que, ao fim, haverá um julgamento de cada um de nós e o Reino triunfará!

Mas, para não descrer, para não desesperar, para não ver e sentir simplesmente na nossa medida e com nossas forças, supliquemos que o Espírito do Ressuscitado venha nos socorrer, “pois não sabemos o que pedir, nem como pedir!” Só o Espírito do Cristo, o Semeador do Reino, pode nos fazer perceber os sinais do Reino, os sinais de Deus no mundo e na vida. Só o Espírito nos sustenta, fazendo-nos caminhar sem desfalecer, de esperança em esperança… Só o Espírito nos ensina as coisas do Reino: ele torna o Reino presente porque torna Jesus presente. Por isso mesmo, em vários antigos manuscritos do Evangelho de São Lucas, na oração do Pai-nosso, onde tem “Venha o teu Reino” aparece “Venha o teu Espírito”! É o Espírito de Cristo que torna o Reino presente em nós e no mundo. Deixemo-nos, portanto, guiar por ele, pois “o Reino de Deus é paz e alegria no Espírito Santo!”

Eis, caríssimos! Aprendamos do Senhor, vigiemos e acolhamos sua palavra. Se formos fiéis e perseverarmos até o fim, escutaremos cheios de esperança sua promessa, que encerra o Evangelho de hoje: “… então, os justos brilharão como o sol no Reino do seu Pai!” Que assim seja! Amém!