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sábado, 24 de junho de 2017

Homilética: 13º Domingo do Tempo Comum - Ano A: "Cristo pede radicalidade a quem lhe segue e, sobretudo, Cruz".


O discurso apostólico termina com dois itens principais: seguimento de Cristo e recompensa aos que ajudarem os que acreditam nele e são seus mensageiros. Respondem ao que muitos pensam o que seja a essência do verdadeiro discípulo: uma doação dupla. A doação de si mesmo a Deus/Pai e a doação de si mesmo aos irmãos. Produto de um amor que se torna base da vida mesma.

Cristo não tem meias palavras nem coloca panos quentes. Posto que somos batizados, a cruz é nosso sinal como cristãos. Cruz que pede levar uma vida nova (segunda leitura). Cruz que pede morrer ao pecado e viver para Deus (segunda leitura). Pede amá-lo por cima da família e carregar com a cruz (Evangelho).

Pontos da ideia principal

Textos: 2 Reis 4, 8-11.14-16; Romanos 6, 3-4.8-11; Mateus 10, 37-42

Em primeiro lugar, o amor de Deus é devorador, consumindo nas almas todo amor que lhe seja rival. O amor de Deus tem asas para voar a estes picos que o Evangelho hoje nos mostra. O amor de Deus goza considerando que possui o atrativo necessário para superar qualquer outro tipo de amor, na medida em que se oponha ao amor de Jesus Cristo. O amor de Deus não poupou o sofrimento e a cruz do seu Filho. Ondas imensas de tormentos golpearam o coração de Jesus na sua Paixão.

A primeira leitura conta-nos como o Senhor recompensou aquela família de Sunam que acolhia com generosidade o profeta Eliseu. Olhavam para ele com fé vendo nele um homem de Deus, como realmente era. E o Senhor prometeu-lhes aquilo que mais ansiavam todas as famílias em Israel: ter filhos, considerados a riqueza maior dum casal.

Em segundo lugar, o amor de Deus não nos priva da cruz. Aí está a cruz, impávida, em pé. Como reza o lema dos cartuxos: “Stat Crux dum volvitur orbis” (A Cruz estável enquanto o mundo dá voltas, ou Cruz constante enquanto o mundo muda). Cruz corporal. Cruz na alma. Cruzes provenientes de nós mesmos. Cruzes provenientes das nossas famílias, dos que estão ao nosso redor e do ambiente. Cruz proveniente dos inimigos invisíveis de nossa alma. Cruz permitida por Deus. A nossa cruz é uma partícula da cruz de Cristo. Não existe sofrimento que de alguma maneira não esteja contido na cruz do Senhor, nem causa de tormento que na cruz não esteja simbolizada. 

Finalmente, o quê fazer diante de uma cruz tamanha? Devemos carregá-la voluntariamente, com resignação e até com gozo, se é possível. Devemos beijá-la. Devemos chorar sobre ela. Quem rejeita a cruz, por rebeldia, deve saber que assim não poderá seguir o Cristo que a levou por nós. Humilhar a cabeça diante da cruz significa não pretender esquadrinhar os insondáveis juízos de Deus, nem dar curso às rebeldias instintivas que brotam no nosso interior contra o plano da Providência divina. Humilhar a cabeça diante da cruz é ver com os olhos da fé que a cruz de Cristo é misericórdia divina, que é uma expressão do amor que Deus tem por nós. Humilhar a cabeça diante da cruz significa que os nossos juízos se submetem ao juízo de Deus.

O texto evangélico de hoje pertence ao final de uma série de instruções aos discípulos para o exercício da sua missão apostólica (Mt 10, 16-42); nestes versículos sobressaem a radicalidade no seguimento sem meias tintas (vv. 37-39) e a identificação com o Mestre (vv. 40-42).

37 «Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim…» Note-se que Jesus não se coloca simplesmente no plano de qualquer rabi seu contemporâneo a exigir dos seus discípulos (talmidîm) os mesmos serviços que se deviam prestar aos pais, ou ainda mais. As palavras de Jesus apelam para uma radicalidade de um amor que só é devido a Deus, mais acentuada ainda no texto paralelo de Lucas (14, 26-27). Só um homem que é Deus poderia falar assim com verdade. De qualquer modo, não existe nenhuma oposição entre o amor a Deus e à família, entre o primeiro e o quarto mandamento. O que Jesus exige é uma recta ordem no amor; por isso, não é licito pôr o amor dos pais e dos filhos antes ou acima do amor de Deus.

O Senhor pede generosidade para O seguir. Ele há de ser o nosso primeiro amor. Para os sacerdotes e para todos os cristãos. Não podemos compartilhar o nosso coração como se tivéssemos vários deuses para adorar. Todos os amores humanos, por mais nobres que sejam, têm de passar pelo coração de Deus. É na medida em que amamos os pais, os filhos, a mulher, o marido, ou os amigos por amor de Deus que esses amores têm garantias de serem verdadeiros e duráveis. O resto são ilusões e construir sobre areia movediça.

Saibamos purificar o nosso amor humano, sabendo sacrificar tudo com alegria para amar e servir a Deus. E teremos um coração grande para amar os que estão mais perto de nós e a todos os homens.

38-39 «Quem não toma a sua cruz para Me seguir». A cruz era um suplicio mortal. Tomar a cruz significa renunciar à vida, uma renúncia total como a daquele que voluntariamente caminha para a morte, para o sacrifício total. A sua cruz significa a cruz – exigências e renúncias – que Deus pede concretamente a cada um, pois a uns exige mais do que a outros, porque também lhes dá mais. Mas a renúncia cristã não é algo negativo, é exigência libertadora, uma condição – «para Me seguir» – para «encontrar a vida», uma forma semítica de dizer que, por oposição a «perder a vida», significa garantir a vida, salvá-la. Quem quiser salvar a todo o custo a sua vida terrena, negando a Cristo ou satisfazendo os seus gostos à margem da vontade de Deus, esse perderá a vida eterna; pelo contrário, quem sacrificar a sua vida terrena por Cristo tem garantida a vida eterna. Esta bem-aventurança dirige-se num sentido eminente aos mártires, mas também é para todos os que, no dia a dia, se esquecem de si e entregam a sua vida, servindo a Deus e ao próximo por amor de Deus.

Muitos têm medo da cruz, do sacrifício. E só por esse caminho se pode seguir a Jesus e encontrar a alegria. «O que perder a vida por Minha causa há de encontrá-la» – dizia-nos no Evangelho. Os próprios psiquiatras vieram dar razão a Jesus. Os doentes de nervos estão normalmente centrados em si mesmos: não são capazes de jogar a vida. «Aquele que quiser conservar a vida há de perdê-la».

A cruz tornou-se sinal mais e sinal de multiplicar. Nós cristãos temos de pedir esta valentia que vem da fé, que vê as coisas com os olhos de Deus. Que sabe ver o dedo de Deus mesmo por trás das coisas difíceis da vida, das doenças e daquilo que muitas vezes se chamam desgraças.

A cruz é também companhia do cristão que quer cumprir o seu dever de cada dia, dar tempo à oração, ajudar os outros. No baptismo morremos com Cristo para o pecado e com Ele ressuscitámos para uma vida nova. E temos de morrer todos os dias, vencendo as nossas más inclinações, sabendo renunciar voluntariamente mesmo em coisas legítimas. O amor de Deus e dos outros manifesta-se nas pequenas renúncias de cada dia.

Para refletir

A Palavra de Deus (Mt 10,37-42) nos convida a meditar nas características do verdadeiro discípulos de Jesus.

Discípulo é todo aquele que, pelo Batismo, se identifica com Jesus, fez de Jesus a sua referência e O segue. A Missão do discípulo é tornar presente na história e no tempo o projeto de salvação que Deus tem para os homens.

Jesus nos ensina, em muitas ocasiões, que Deus deve ser o nosso principal amor, e que as criaturas devem ser amadas de modo secundário e subordinado. Diz Jesus: “Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim. Quem procura conservar a sua vida vai perdê-la. E quem perde a sua vida por causa de mim vai encontrá-la” (Mt 10, 37.39).

Só Deus merece ser amado de modo absoluto e sem condições; tudo o mais deve ser amado na medida em que é amado por Deus. O Senhor pede-nos, sem dúvida, que amemos a família e o próximo mas nem mesmo estes amores devem ser antepostos ao amor de Deus, que deve ocupar sempre o primeiro lugar. Amando a Deus, os demais amores da terra purificam-se e crescem, o coração dilata-se e torna-se verdadeiramente capaz de amar, superando os obstáculos e as reservas de egoísmo, sempre presentes na criatura humana. Quando se ama a Deus em primeiro lugar, os amores limpos desta vida elevam-se enobrecem-se ainda mais.

Para amar a Deus, como Ele pede, é necessário, além disso, perder a própria vida, a do homem velho. Torna-se necessário eliminar as tendências desordenadas que inclinam a pecar, destruir o egoísmo, às vezes brutal, que leva o homem a procurar-se a si próprio em tudo o que faz.

O cristão que luta por negar-se a si próprio encontra uma nova vida: a de Jesus. Respeitando o que é próprio de cada um, a graça nos transforma até nos fazer adquirir os mesmos sentimentos de Cristo em relação aos homens e aos acontecimentos; vamos imitando as suas atitudes, de tal maneira que surge em nós uma nova maneira de pensar e de agir, simples e natural; passamos a ter os mesmos desejos de Cristo: cumprir a vontade do Pai, que é expressão clara do amor.

Não há peso nem medida para amar a Deus. Ele espera que O amemos com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente (Mt 22, 37-38). O amor a Deus sempre pode crescer. O Senhor diz aos seus filhos, a cada um em particular: “Eu te amo com amor eterno; por isso, compadeço de ti e te atraí a Mim” (Jer. 31,3). Peçamos-Lhe que nos convença desta realidade; só existe um amor absoluto, que é a fonte de todos os amores retos e nobres.

O caminho do discípulo é acolher e seguir Cristo no caminho do amor e da entrega; significa arriscar esta vida para ganhar a eterna!

Temos, portanto, de converter toda a nossa vida numa procura constante de Jesus: nas horas boas e nas que parecem más, no trabalho e no descanso, na rua e no seio da família.

Amamos a Deus quando convertemos a nossa vida numa procura incessante da união com Ele.

Possamos fugir, ou morrer a tudo quanto nos afasta de servir generosamente ao Senhor, renunciar a tudo quanto compreende a preferência absoluta e o primado do amor que Lhe pertencem inteiramente. Só assim, associado inteiramente à morte e à vida de Cristo, é que o cristão é verdadeiro discípulo de Cristo.