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domingo, 14 de fevereiro de 2016

A Secularização e a dessacralização do Sagrado.


Lá vou eu, novamente, escrevendo do que percebo, do que meu coração intui...

É triste e trágico o que tem acontecido com a Igreja católica nas últimas décadas. Vou logo dizendo que se trata de uma interpretação torta, unilateral e truncada do Concílio Vaticano II. De modo algum é culpa do Concílio, mas de uma certa leitura dele, que se impôs vulgarmente...

Estou pensando concretamente no fenômeno da secularização e de sua consequência mais palpável: a dessacralização. Pouco a pouco, a golpe de picaretas de vulgaridade, superficialidade, mau gosto e informalidade, vão-se jogando fora expressões veneráveis que eram importantes mediações do Mistério. Símbolos, sinais, gestos, comportamentos, tudo vai sendo jogado fora, ridicularizado, tratado com zombaria como forma de causar constrangimento...

O Deus invisível, visível no Senhor Jesus e, ainda assim, misterioso, era serenamente mediado continuamente nos símbolos, gestos, palavras, ritos, costumes que, inspirados pela fecunda e discreta ação do Espírito na Igreja, foram se desenvolvendo paulatinamente no seio da Comunidade eclesial. Esse conjunto simbólico e consuetudinário colocava o fiel como que imerso no Mistério divino, ajudando-o a perceber psicológica e existencialmente a realidade ontológica que envolve aqueles que em Cristo são feitos novas criaturas.

Após o Concílio, muitíssimos esposaram a ideia torta de que a secularização aproximaria a Igreja do mundo. Não perceberam, não percebem que tal atitude somente banaliza a fé, mundaniza a Igreja, amolece e adormece nos corações dos crentes o sentido do sagrado, da presença de Deus e de Sua santidade... Sem esta mediação da sacralidade, a Igreja vai perdendo a capacidade de perceber o Mistério, de abrir-se a Ele, de escutá-Lo. Ela vai perdendo a atitude fundamental que brota do "Ouve, ó Israel" e vai se tornando uma Igreja autorreferencial, que se preocupa o tempo todo consigo mesma, em ser atraente e aplaudida diante do mundo secularizado... Mas, o resultado é o oposto!

Neste caso, vamos perdendo a qualidade de religião para assumirmos, na percepção dos de fora, a característica de ONG encarregada de temas humanitários... Sem dúvida, uma Instituição ainda com alguma utilidade, mas, não mais religiosa. Porque a religião somente pode ser expressa enquanto tal quando nos liga ao Mistério divino e, a Ele nos ligando, liga os fieis entre si e liga os múltiplos aspectos da vida no coração de cada fiel.

Um exemplo que exprime de modo dramático o que estou afirmando - poderia citar outros - é a tremenda crise da vida religiosa. Um dos principais motivos é a secularização. Dessacralizada, tendo perdido símbolos e observâncias, tendo deixado de lado a materialidade de suas práticas, reduzindo muitíssimo de sua riqueza a ideias e conceitos abstratos ela não atrai, não traz aos que a procuram a doce alegria de perceber-se e ser percebido como alguém que tudo deixou e foi separado do mundo secular para servi-lo como sinal e mediação do Eterno. Não é por acaso que tantos, depois da primeira profissão deixam tudo e voltam à vida secular... Não é por acaso que as novas comunidades atraem a tantos, e tantos que se entregam de modo tão generoso! Alguns podem contestar o que afirmo, mas isto não muda a dura realidade das coisas!

Deveríamos ter a coragem de reconhecer a tremenda crise na qual nos metemos... Deveríamos deixar de lado preconceitos, triunfalismos ilusórios e desbotados discursos ideológicos mais próprios dos anos 60 ou 70 do século passado (!) e dialogar de modo desarmado e fecundo com o imenso patrimônio da Igreja nos seus vinte séculos de caminho...
Atenção, que aqui não defendo uma volta ao passado, mas um diálogo aberto, desarmado e positivo com esse passado, diálogo a partir do tempo em que vivemos, da Igreja do pós-Vaticano II, do início do século XXI, mas chamada a ser sacramento do Mistério, do Eterno, do Santo, do Invisível. Interpretar o Concílio como ruptura - seja para renegar o passado em nome do Concílio, seja para renegar o Concílio em nome do passado - é um erro! O mal é pensar que podemos nós fazer a Igreja, planejá-la do nosso modo como se propriedade nossa ela fosse!

Alguns podem sentir-se contrariados com estas afirmações, pensando de modo unilateral e simplístico que a Encarnação do Verbo seja álibi para a secularização. O Verbo Se fez mundo, poderiam exclamar! Errado! Em Cristo Jesus, verbo divino feito humano, feito matéria, feito mundo, Deus Se nos dá, vem a nós, faz-Se Emanuel, mas continua o Santo, o Misterioso!

A Encarnação nos diz que a Igreja e seus filhos devem estar no mundo com uma atitude benévola e benigna e nele serem luz, serviço, mansidão, misericórdia, humildade, testemunho, mas como sinais do Santo, do Eterno, do Senhor, do Deus que nos convida à conversão e não Se dobra às nossas malandragens! O Jesus aparecido entre nós na Sua humilde e pobre humanidade continua Deus e, ressuscitado gloriosamente, é adorado como Senhor, Vivente tremendo, diante de Quem João cai prostrado no Apocalipse.

O Senhor não é nosso compadre e a Igreja não é nossa propriedade , não é uma organização que possamos manipular a nosso arbítrio para fazê-la mais simpática e atraente. Assim, ela será somente insignificante enquanto religião e já não mais evocará sacramentalmente o Mistério Daquele Único Necessário que dá sentido e Vida à vida do mundo e de cada um de nós... Infelizmente, é assim que muitos, dentro e fora dela, a compreendem e imaginam...

Alicerçados numa certeza

Vivemos num mundo de tantas ideias, diversas, desencontradas e contraditórias... Mil visões sobre a realidade que nos envolve: têm-se opiniões e teorias sobre o universo, sobre a natureza, sobre a história e suas leis, sobre a biologia, sobre o psiquismo humano, o sentido da sexualidade, da cultura... No entanto, nenhuma dessas ideias explica e engloba o todo da realidade, nenhuma satisfaz realmente o nosso coração, com suas perguntas infindáveis...

Também as religiões: tantas! E agora, com a globalização dos meios de comunicação e a inédita intensidade de deslocamentos humanos, vamos nos dando conta da diversidade impressionante no modo como a humanidade concebe o Divino, o sagrado e suas relações com Ele...

Também no cristianismo mesmo: nunca se viu tantas denominações, tantas seitas, tantas “igrejas” pegue-e-pague como agora! Igrejas de araque, pastores de araque, missionários de araque com milagres de araque e promessas de araque... Ante tal realidade tão complexa e inusitada, não são poucos os que se sentem perplexos e se questionando se existe mesmo a Verdade e a religião verdadeira.

Não seria o cristianismo, não seria a nossa fé católica simplesmente mais uma possibilidade entre tantas, mais uma tentativa ilusória de explicar e enfrentar a existência?
É necessário, meu caro Amigo, recordar de onde viemos, qual o nosso nascedouro: não uma filosofia, uma ideia, um sonho utópico.

Tudo começou com um fato bem concreto, histórico, desconcertante. Pedro e João dele falaram, bem no iniciozinho do nosso caminho de Igreja neste mundo; falaram diante do Sinédrio de Israel: “O Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, a quem vós matastes suspendendo-O no madeiro. Deus, porém, O exaltou com a Sua Direita, fazendo-O Chefe e Salvador. Nós somos testemunhas destas coisas, nós e o Espírito Santo!” (At 5,30ss).

Eis aqui o princípio de tudo: homens ignorantes, rudes, sem grande instrução religiosa nem posição social (cf. At 4,13) testemunharam corajosamente um fato, uma experiência objetiva que modificou para sempre a vida deles!

Quando, na corrida da vida, o turbilhão de ideias e ideologias nos apoquentarem e ameaçarem nos desviar do essencial, recordemos a simplicidade do princípio, a concretude contundente das nossas origens: Jesus de Nazaré pregador e taumaturgo, crucificado e morto, ressuscitado com Poder pelo Pai, que constituiu com autoridade, coragem e sabedoria os Doze primeiros, a ponto de derramarem o sangue para testemunhar o que viram e ouviram!

Cristão, tu não vieste de uma ideia, tua origem não se funda numa lenda: tu vens de Alguém concreto, tua fé se funda num anúncio e num testemunho selado com o próprio sangue!

Atenção, cristão, para não confundires nunca a verdade do Evangelho que te foi anunciado com as fantasias e opiniões tão provisórias deste mundo! Recorda-te: os céus e a terra passarão, mas o que te foi anunciado jamais passará!


Dom Henrique Soares Fernandes
Bispo de Palmares, PE