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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Homilética: 24º Domingo do Tempo Comum - Ano A: "A 'Terapia do Perdão'”.




Diz o Senhor no livro do Eclesiástico: “Quem se vingar  encontrará a vingança do Senhor, que pedirá severas contas dos seus pecados.Perdoa a injustiça cometida por teu próximo: assim quando orares, teus pecados serão perdoados. Se alguém guarda raiva contra o outro, como poderá pedir a Deus a cura? Senão tem compaixão do seu semelhante, como poderá pedir perdão dos seus pecados?” (Eclo 28, 1-4.). Quem não perdoa o irmão, não poderá exigir o perdão de Deus. A felicidade do homem não está em cultivar sentimentos de ódio e de rancor, mas sim em cultivar sentimentos de perdão e misericórdia.

Viveríamos mal o nosso caminho de discípulos de Cristo se, ao menor atrito  – no lar, no escritório, no trânsito… – , a nossa caridade se esfriasse e nos sentíssemos ofendidos e desprezados. Às vezes –  em matérias mais graves, em que a desculpa se torna mais difícil-,  faremos nossa a oração de Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (Lc 23,34). Em outros casos, bastará um sorriso, retribuir o cumprimento, ter um pormenor amável para restabelecer a amizade ou a paz perdida. As ninharias diárias não podem ser motivo para perdemos a alegria, que deve ser profunda e habitual na nossa vida.

Pontos da ideia principal

Textos: Sir 27, 33; 28, 9; Rm 14, 7-9; Mt 18, 21-35

Em primeiro lugar, na mentalidade semita, a de Jesus, o 7 é um número vindo da Lua e símbolo de perfeição. Como a Lua tem 4 fases-quarto crescente, minguante, etc. – e cada fase tem 7 dias, resulta que o 7 define um ciclo completo, é um número redondo, a ideia de um todo acabado. Diziam os rabinos de Israel que 2.000 anos antes da criação do mundo, Deus tinha criado 7 coisas: a Torá (lei), a penitencia, o Éden, a gehena (inferno), o Trono da Glória, o santuário celeste e o nome do Messias. 7 é um número que cheira algo divino: Deus fez o mundo em 7 jornadas, dos dons do Espírito são 7, a família macabeia foi perfeita porque teve 7 filhos-dizia são Gregório Nazianzeno, da Capadócia. Na catedral de Aachen temos o trono de Carlos Magno, fundador do Sacro Império Romano Germânico, com os seus 7 degraus em honra do trono de Salomão. Diante do Knesset, parlamento de Jerusalém, está o candelabro de bronze, dos 7 braços, símbolo do poder total de Deus e da plenitude da luz, que é Deus.

Em segundo lugar, Jesus diz a Pedro que deve- que devemos- perdoar 70 vezes 7; isto é, sempre. Cristo sabe que o homem é vingativo por natureza. Não entrava na cabeça de Pedro o perdão ilimitado de Jesus. Natural, pois na sinagoga ouviu muitas vezes que um judeu se perdoa até três vezes, mas a um estrangeiro jamais. E também ouvia que uma mulher se perdoa uma vez, cinco um amigo. Sente-se então generoso e resolve perguntar a Jesus se se pode perdoar ate 7 vezes. Para ter força para perdoar temos que contemplar muitas vezes a Deus que sempre nos perdoa. E mais, temos que pedir-lhe um transplante de coração e uma infusão do seu Espírito de amor na alma. Se não, é impossível. Jesus passou toda a vida perdoando. E nos ofereceu o sacramento da reconciliação onde encontramos o perdão de Deus, sempre, a todas as horas, sem limites. Basta que estejamos arrependidos e com propósito de emendar-nos.

Finalmente, e nós? Temos muitas ocasiões, na vida de família e de comunidade, nas relações sociais e laborais, de imitar ou não esta atitude de Deus que sabe perdoar. Os pais tem que perdoar os filhos a sua progressiva decolagem, a sua resistência e as suas trapaças. Os filhos têm que perdoar os seus pais o egoísmo, o seu autoritarismo, o seu paternalismo, a sua incompreensão. O marido a mulher e o fato de que não saiba valorizar o seu trabalho, nem respeitar a sua fatiga ou o irrite com pretensões descabeladas. Como a mulher o marido a sua incompreensão das 60 horas laborais em casa- ele que tem somente 40- as suas faltas de sensibilidade afetiva, a sua cegueira, diária e defraudadora de sonhos, para o detalhe. Que os laicos perdoem os seus sacerdotes os extravios, a sua ignorância para ajudar e compreender, a sua gravidade ao falar. Como o sacerdote deve perdoar os fiéis as suas escapadas da igreja, as suas inapetências religiosas, inclusive o seu fazer caso omisso à palavra de Deus. E assim o patrão o obreiro e vice-versa, o governante os súditos, os alunos o professor… E sempre vice-versa. Todos diariamente 70 vezes 7. 

Para refletir

Caríssimos, no Evangelho ouvimos a parábola do devedor implacável. Recordemos que estamos terminando o capítulo 18 de São Mateus, no qual Jesus trata da vida da Igreja, a Comunidade dos seus discípulos. No Domingo passado, o Senhor Jesus nos mandava corrigir o caso o irmão nos fizesse o mal. Corrigir para salvar, corrigir para dar o perdão. Hoje, Pedro pergunta quantas vezes se deve dar o perdão a quem nos fez mal na Comunidade. Jesus responde: Perdoa sempre! Mas, aprofundemos esta Palavra de Deus que nos é dirigida como luz e caminho da nossa vida.

Uma coisa que a humanidade atual, tão cheia de si, não compreende é que a verdadeira liberdade nossa, a autêntica maturidade, somente é possível se formos abertos para Deus na nossa vida. O homem fechado em si é presa de suas paixões, de sua tendência à auto-afirmação, à amargura, ao rancor, à vingança… Quando nos abrimos para Deus e temos a coragem de nos deixar medir por ele, aí sim, somos obrigado a nos deixar a nós mesmos e nos sentimos compelidos a ver, sentir e agir conforme o coração de Deus. Tomemos a primeira leitura da Missa. Observemos como Deus nos coloca freio, como nos educa, como nos serve de medida e modelo: “Quem se vingar encontrará a vingança do Senhor, que pedirá severas contas dos seus pecados. Perdoa a injustiça cometida por teu próximo: assim, quando orares, teus pecados serão perdoados. Lembra-te do teu fim e deixa de odiar; pensa na destruição e na morte, e persevera nos mandamentos. Pensa na aliança do Altíssimo, e não leves em conta a falta alheia!” Eis, irmãos, Deus no colocando freio e rédeas às paixões! E por quê? Porque, como diz o Salmo: “Ele te perdoa toda culpa, e te cerca de carinho e compaixão. Não fica sempre repetindo as suas queixas, nem guarda eternamente o seu rancor. Não nos trata como exigem nossas faltas nem nos pune em proporção às nossas culpas…”É esta a grande diferença entre quem crê e não crê, entre quem é aberto para Deus e para ele se fecha. Para quem crê, a medida é Deus, é o coração do Pai do céu, tal qual Jesus no-lo revelou!

Esta idéia aparece muito clara na segunda leitura de hoje. O Apóstolo nos recorda que a vida não nos pertence de modo fechado, absoluto; a vida é um dom e como dom deve ser vivida: “Ninguém dentre nós vive para si mesmo ou morre para si mesmo. Se estamos vivos, é para o Senhor que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos. Vivos ou mortos, pertencemos ao Senhor”.Ele, portanto, é nossa medida, nosso critério e nossa realização; ele, que por nós morreu e ressuscitou, para ser o nosso Senhor.

Pensando nisso, detenhamo-nos, agora, no Evangelho. Como já disse, a questão aqui é ainda a vida na Igreja. Quantas vezes perdoar? Até quando conservar um coração aberto, disponível, sem deixar-se levar pela tristeza e a amargura, o rancor e o fechamento? Até quando manter a doçura, filha da esperança, fruto da certeza da vitória do Senhor? O Senhor Jesus nos adverte que o perdão deve ser dado sempre porque o coração do Pai, como o do rei da parábola, é assim: cheio de compaixão, capaz de perdoar toda a dívida. Observem, caríssimos, que Jesus começa dizendo que o Reino dos Céus é assim: o reinado de um rei que é Pai e perdoa. Ora, o Pai somente reina no coração de quem perdoa como ele mesmo perdoa, como ele mesmo nos perdoou e acolheu em Jesus, que morreu e ressuscitou para ser o perdão de Deus para nós! Eis o que é a Igreja: o espaço, o ambiente no qual o reinado de Deus deve manifestar-se no mundo; lugar da misericórdia, do acolhimento, do amor, do perdão mil vezes, da esperança que não desiste, da doçura aprendida e bebida daquele Coração aberto na cruz. A Igreja deve ser assim, Não porque sejamos bonzinhos, mas porque aprendemos assim do coração do Pai de Jesus. Com efeito, como experimentará o perdão de Deus quem tem o coração fechado para os outros? Quem reconhecerá de verdade que tudo deve a Deus e nunca pagará o bastante quem não perdoa as dívidas dos irmãos? É preciso que compreendamos ser impossível experimentar Deus como amor e doçura – e nosso Deus é assim; Jesus no-lo revelou assim! – se não nos deixar inundar pelo amor e doçura de Deus, inundar nosso coração, até transbordar para os irmãos!

Caríssimos, no Senhor, que o silêncio da oração, que a contemplação persistente do Cristo e de seus gestos e palavras, que a participação piedosa, recolhida e devota da Eucaristia, faça o nosso coração aprender do Coração do Pai de Jesus. Eis aqui como a Comunidade chamada Igreja – esta Comunidade reunida para a Eucaristia – será sinal do Reino, início do Reino, semente do Reino. Somente assim, poderemos dizer ao mundo sedento de Deus: Vinde e vede! Que o Senhor no-lo conceda. Amém!