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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Homilética: 5º Domingo Comum - Ano C: "A santidade se revela na prática da justiça".


Muitas vezes temos uma compreensão relativamente inadequada e parcial sobre o significado da palavra “santidade”. Na maioria das vezes, pensamos que santidade está ligada unicamente ao indivíduo que a busca. Nesse sentido, a santidade diria respeito restritivamente a uma pessoa. Todavia, os textos bíblicos nos sugerem que a santidade, ou o fato de ser santo, se manifesta principalmente na prática da justiça. Dessa forma, ser santo e/ou buscar a santidade não significaria tão somente aquilo que faço para Deus, mas também, e especialmente, aquilo que faço para os outros.

Comentários aos textos bíblicos

1. I leitura: Is 6, 1-2a.3-8

Para o profeta Isaías, ser santo significa principalmente a prática da justiça: “O Deus santo mostra sua santidade através da justiça” (Is 5,16). Isaias entende que a santidade passa, automática e predominantemente, pela purificação dos pecados de injustiça (Is 1,10-20). Na vocação de Isaías no templo, sobressai sua visão do “santo, santo, santo” (Is 6,3). Visto que o Deus santo de Israel julga com justiça e exige a prática da justiça (Is 11,3-6), nada mais evidente que exigir do seu povo a mesma prática (Is 5,18-19). Isaías salienta que a proposta de santidade, enquanto luta pela justiça, rejeita todas as formas de ritualismos que não sejam acompanhadas da efetiva prática da justiça. É preciso lembrar que os relatos de vocação trazem sempre uma dimensão coletiva. Deus chama para que se preste um serviço ao povo e, por conseguinte, o beneficiário da vocação não é, em primeiro lugar, aquele que é chamado.

É por meio do impacto ocasionado pela declaração da santidade de Deus que a pessoa chamada se torna consciente de sua impureza como ser humano. Se de um lado encontramos a santidade, do outro encontramos a impureza. A impureza é causada pelo pecado e por qualquer comportamento desfavorável à comunidade. O texto mostra a reação do profeta diante da visão. Nota-se a purificação e consagração de sua boca, exatamente porque ele será destinado a falar. Além disso, convém salientar que o texto considera que tanto o profeta quanto os destinatários possuem “lábios impuros”. No entanto, somente o profeta é objeto de purificação. E os destinatários, os líderes, o povo? Vai depender de como irão responder à mensagem do profeta. Morar em meio a um povo de lábios impuros implica também “estar aprisionado na solidariedade da culpa coletiva”. Há diálogo entre os “dizeres”: o profeta ouve, mas também fala. Isaías e Javé se comunicam. Há protagonismo do profeta e, necessariamente, uma autoafirmação como sujeito que tem direito à palavra. Javé não manipula o discurso. Que fique claro: no relato de vocação de Isaías não existe, por parte de Javé, o monopólio da palavra.

2. II leitura: 1Cor 15,1-11

A afirmação da segunda leitura é fundamental para a fé cristã: Jesus morreu e ressuscitou. Trata-se do credo que Paulo recebeu e estava anunciando. Ele, Paulo, não é discípulo sozinho. É, sim, continuador de um caminho iniciado por muitos outros. Consciente de que é apenas mais um elo na grande corrente da fé, Paulo se apresenta como continuador do projeto de evangelização. Na expressão “segundo as Escrituras” podemos perceber que, para os primeiros cristãos, recorrer às Escrituras era o modo de afirmar a veracidade do presente que viviam. Assim, os primeiros missionários tinham a necessidade de demonstrar o caráter de cumprimento profético dos fatos que testemunhavam.

 Nota-se também a descrição do testemunho das aparições: a Pedro, aos doze apóstolos, aos quinhentos irmãos, a Tiago e finalmente a Paulo. O caráter do testemunho é essencial na vida cristã. Todos são testemunhas do enorme impacto de Jesus em sua vida. E, mais do que isso, cada uma dessas pessoas deve ser vista como elos da mesma corrente. São testemunhas que assumem, em seu próprio tempo, uma responsabilidade. Podemos até dizer que elas têm consciência do que são. Ao olhar para elas, enxergamos algo diferente: nelas transborda a vida de Jesus. Como as pessoas crerão se não há quem fale? Somente a mensagem sobre Jesus que morreu e ressuscitou pode levar as pessoas a viver em novidade de vida. 

3. Evangelho: Lc 5,1-11

A cena acontece no lago de Genesaré. Jesus, Simão, Tiago, João e uma multidão estão presentes. Num primeiro momento, Jesus ensina a multidão e, logo depois, sobe numa das barcas e segue pelo lago. Nesse momento se inicia um episódio no mínimo curioso. Jesus, que havia sido treinado por José na arte da carpintaria, passa a dar orientações sobre a arte de pescar. Jesus orienta: levem o barco para águas mais profundas e lancem suas redes.

 Provavelmente a orientação de Jesus pareceu muito estranha aos ouvidos daqueles pescadores experientes. Mestre, trabalhamos duramente a noite toda e não pescamos nada! A reação de Simão é absolutamente natural. O que um carpinteiro poderia ensinar a um pescador? Será que Jesus não estava indo longe demais? Por que ele não se preocupava tão somente em ensinar a Palavra de Deus? No entanto, sobrenatural é o que Simão diz logo a seguir: Por causa das tuas palavras, jogarei as redes. O que de fato importa é depositar a fé nas palavras de Jesus.

A obediência fez com que pescassem tanto peixe, que as duas barcas estavam a ponto de afundar. Diante do espanto, Jesus inicia seu processo de fazer discípulos. Desse momento em diante, Simão será um pescador de gente. Simão e seus amigos são chamados para espalhar a boa-nova e, para isso, precisarão ir ao encontro das pessoas. Não ficariam mais envolvidos com redes, anzóis, barcos e peixes. Da solidão de um grupo pequeno, eles farão o caminho que os levará ao encontro das pessoas para que elas possam saber que ainda lhes resta o fundamental: o encontro com Jesus. Nesse momento, eleição e vocação se encontram numa pessoa: Simão.

Jesus dirige a Simão uma palavra de movimento que colocou o pescador diante de uma prova de fé. Era o exato momento para crer contra toda a falta de esperança. E a fé põe Simão e seus companheiros em movimento. Ainda que cansados, após terem pescado por horas em vão, a fé para eles se tornou elemento motivador. Se à noite, que era o tempo mais propício para a pescaria, o resultado fora completamente nulo, sob a palavra de Jesus as redes se encheram ao clarão do dia. Não se frustra aquele que deposita fé nas palavras de Jesus. Se antes os amigos eram sócios na atividade pesqueira, a partir do encontro com Jesus estariam muito mais ligados para dar início à construção de uma nova sociedade. É interessante observar que os locais de vida de Pedro, por exemplo, o lugar onde ele orava, sua casa e seu local de trabalho, são libertados da miséria, da doença, da desgraça e da falta de êxito. Mais vale a vida com a presença de Jesus!

“Não tenha medo!” É a expressão admirável de Jesus. Ele tira o medo de Simão e lhe dá uma tarefa. A presença de Jesus lança fora o medo e permite que sejam assumidas funções antes ignoradas e/ou tidas como impossíveis. O exemplo de Abraão e de Maria fala por si mesmo.

Pistas para reflexão

– É a presença de Jesus que lança fora o medo! A experiência de Simão é fundamental para compreendermos a maneira pela qual podemos “desmontar” os muitos projetos que nos causam medo. Antes de mais nada, é preciso considerar que Simão assume como suas as palavras e, com elas, o projeto de Jesus. São as palavras de Jesus que realmente importam. Simão passa a olhar a própria vida a partir de outro ângulo e, fazendo isso, percebe que algo pode ser diferente. Jesus ensina Simão a olhar para o mesmo lugar, porém de forma diferente, e isso faz toda a diferença.

– Somente um Deus santo poderia exigir santidade de seu povo. Assim como somente um Deus justo poderia exigir que seu povo viva na prática da justiça. Santidade e prática da justiça são complementares. A santidade de Deus se manifesta por meio de sua justiça. É a declaração do profeta Isaías. Talvez esteja mais do que na hora de pensarmos que a busca pela santidade passa necessariamente pela prática da justiça na vida cotidiana.



Luiz Alexandre Solano Rossi
Doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), pós-doutor em História Antiga pela Unicamp e em Teologia pelo Fuller Theological Seminary (Califórnia, EUA). É professor no Programa de Mestrado e Doutorado em Teologia da PUC-PR. Publicou diversos livros, a maioria pela PAULUS, entre os quais: A falsa religião e a amizade enganadora: o livro de Jó e Deus se revela em gestos de solidariedade. E-mail: luizalexandrerossi@yahoo.com.br
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