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sábado, 16 de janeiro de 2016

Eles não têm mais vinho


Depois das festas natalinas, inicia-se o Tempo Comum, em que continuamos a viver os principais Mistérios da Salvação na caminhada histórica da Igreja. O Evangelho deste Segundo Domingo do Tempo Comum (Jo 2, 1-11) nos fala das Bodas de Caná. O motivo da escolha desse texto para este domingo – o segundo depois da Epifania – é explicado na frase conclusiva: Jesus, em Caná da Galiléia, deu início aos sinais e manifestou sua glória, e seus discípulos creram Nele (Cf. Jo 2, 11).

Falar de bodas, casamento nos remete a vários trechos bíblicos em que a comparação do povo eleito com Deus se faz como um casamento, às vezes fiel e outros momentos infiel por parte do povo. Mas sempre demonstrando a fidelidade do Senhor que vai em busca da esposa perdida.

O início dos sinais de Jesus, segundo João, é justamente vir ao encontro do povo de Deus para restaurar a alegria da festa do casamento simbolizada no vinho novo, que é melhor que o antigo. Aparece a figura de Maria como mãe preocupada com a situação dos filhos e recomenda o caminho do recomeço da aliança: “fazei tudo o que Ele disser”. 

Corrobora com esse aspecto a primeira leitura deste domingo (Is 62, 1-5) em que se conclui a perícope com a clareza dos esponsais eternos: “assim como o jovem desposa a donzela, assim teus filhos te desposam; e como a noiva é a alegria do noivo, assim também tu és a alegria do teu Deus”! Esses dois textos do domingo (primeira leitura e o evangelho) se comentam entre si e nos fala do amor de Deus por seu povo, e a necessidade de colocar em prática o que Jesus, o Filho de Deus, nos coloca para que tudo se transforme na vida do povo de Deus.

Merecem ser destacadas as palavras de Maria: “Eles não têm mais vinho”; “Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2, 3.5). Em ocasião de festas, era costume que as mulheres amigas da família se encarregassem de preparar tudo. A Virgem Maria, que presta a sua ajuda, percebe o que se passa. Mas Jesus, seu Filho e seu Deus, está ali; acaba de iniciar-se o seu ministério público. E ela sabe melhor que ninguém que o seu Filho é o Messias. E dá-se então um diálogo cheio de ternura e simplicidade entre a Mãe e o Filho, que o Evangelho nos relata: “A Mãe de Jesus disse-lhe: Não têm vinho”. Pede sem pedir, expondo uma necessidade. E desse modo nos ensina a pedir.

“Em Caná, ninguém pede à Santíssima Virgem que interceda junto de seu Filho pelos consternados esposos. Mas o coração de Maria, que não pode deixar de se compadecer dos infelizes, impele a assumir, por iniciativa própria, o ofício de intercessora e a pedir ao Filho o milagre. Se a Senhora procedeu assim sem que lhe tivessem dito nada, que teria feito se lhe tivessem pedido que interviesse?” (Santo Afonso Maria de Ligório). Que não fará quando – tantas vezes ao longo do dia! – lhe dizem “rogai por nós”? Que não iremos conseguir se recorremos a Ela? 

Portanto, o Evangelho deste segundo domingo do tempo comum, narra uma festa de casamento e não informa nada sobre o nome dos noivos. O Evangelista tomou um fato histórico e deu-lhe um sentido espiritual e teológico: o verdadeiro noivo é o Cristo, Deus em pessoa, que vem desposar sua esposa, o povo de Israel e, mais precisamente, o novo Israel, a Igreja, representada pela Mulher – a Virgem Maria! Tudo, na perícope do Evangelho, fala disso: porque o Messias-Esposo chegou, a água da Antiga Aliança (água da purificação segundo os ritos judaicos da Lei de Moisés) é transformada no vinho da Nova Aliança (o vinho, símbolo da alegria e da exultação do Espírito Santo, que é fruto da morte e ressurreição do Senhor). É esta a glória que Jesus manifestou, é este o sinal! “Sinal” não é um simples milagre; “sinal” é um gesto do Senhor Jesus carregado de sentido profundo, que revela Sua pessoa, Sua missão e Sua obra de salvação.

Também nós hoje temos necessidade, neste ano do jubileu da misericórdia, de escutarmos o Senhor que nos manda a ter atitudes simples (como encher as vasilhas com água) para fazer grandes maravilhas neste nosso necessitado tempo (o vinho novo). 



Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)