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terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Homilética: 4º Domingo do Advento - Ano B: "Conceberás e darás à luz um Filho"


Acabamos de escutar esse Mistério no evangelho de hoje: um menino foi concebido, de mãe solteira, já prometida em casamento, mas não casada. E esse filho não tem pai. Ponto final! Foi concebido um menino; o filho é de outro. Aborto? Mas a mãe é mulher demais, mãe demais e crê demais como para assassinar o filho e o filho é filho demais porque é Filho de Deus, que não se deixaria assassinar impunemente. E esse filho não tem pai; nem conhecido nem desconhecido nem suspeitado. Simplesmente não tem pai. Surpresa? Aliás, nem geração espontânea nem inseminação artificial nem menino à prova de teste. Caso único de partenogênese humana na história da biologia cientifica. Ponto final! Creiamos, admiremos, agradeçamos e adoremos o Mistério.

Pontos da ideia principal

Textos: 2 Sam 7, 1-5.8-12.14.16; Rom 16, 25-27; Lc 1, 26-38

Em primeiro lugar, temos que encaixar este Mistério. As pessoas perderam o sentido do poderoso, do sagrado e do divino. Por isso existem tantos que rejeitam os mistérios. Isso é interessante, pois essas pessoas tomam café da manhã, almoçam, merendam e jantam com mistérios: a eletricidade na televisão, os átomos e moléculas, o amor e a vida. Por que elas comungam com estes mistérios com minúsculo e não se admiram diante do grande Mistério da Encarnação que tanta alegria deveria produzir, ao saber que Deus quer armar a sua tenda entre nós? Em alguns que negam este Mistério é porque não encaixa nas suas mentes compostas só de matéria cinza e dizem que é irracional: não encaixa no seu coração onde só cabe ele sozinho como a história do gigante egoísta; não encaixa na sua vontade porque este mistério pede muita mudança de vida e dizem que é chato. Maria nos dá exemplo de como encaixar esse Mistério: abrindo os ouvidos da alma, refletindo com serenidade no que implicava esse mistério e abrindo-se a esse Mistério, deixando-se possuir por ele.

Em segundo lugar, temos que crer neste Mistério. Crer é muito mais que entender. É mais, é ir além do mero entender, confiando na Palavra de Deus que não engana, nem decepciona. Crer é entregar o cheque em branco a Deus para Ele escrever o que Ele quiser, porque sempre será para a nossa salvação e felicidade. Maria nesses segundos ou minutos de silêncio reflexivo de discernimento, antes de dar o seu “sim, creio”, repassaria toda a história de fidelidade de Deus no Antigo Testamento, desde Abraão até o último profeta… e deixou que uma imensa paz a invadisse e também um contentamento interior e uma grande certeza, a fé em Deus. Diz-nos santo Agostinho: “Cheia de fé concebeu Cristo na sua mente antes que no seu seio, ao responder: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa Palavra” (Lc 1,35)”. Antes de habitar o Filho de Deus no seio de Maria, sem dúvida já “morava Cristo pela fé no coração” (Ef 3,17) de quem, pela fé, “concebeu antes na sua mente que no seu ventre virginal”. “Na alma a fé, y no ventre Cristo”. Assim “Maria foi mais feliz por receber a fé de Cristo do que por conceber a carne de Cristo” “já que na teria nenhum proveito a divina maternidade de Maria, se não tivesse sido mais feliz por levar Cristo no seu coração que na sua carne”.

Finalmente, temos que viver este Mistério e segundo este Mistério. Logicamente este Mistério não pode ficar só no nível intelectual e afetivo. Tem que invadir a nossa vida, tocar e transformar a nossa vida. São João Paulo II na sua primeira viagem ao México em 1979 ao tratar da fé, vista em Maria, disse: “Coerência, é a terceira dimensão da fidelidade. Viver de acordo com o que se crê. Ajustar a própria vida ao objeto da própria adesão. Aceitar incompreensões, perseguições antes que permitir rupturas entre o que se vive e o que se crê: esta é a coerência. Aqui se encontra, talvez, o núcleo mais íntimo da fidelidade… E só pode chamar-se fidelidade uma coerência que dura ao longo de toda a vida. O fiat de Maria na Anunciação encontra a sua plenitude no fiat silencioso que repete ao pé da cruz. Ser fiel é não trair nas trevas o que se aceitou publicamente”. Por isso, que se abre a este Mistério da Encarnação tem que viver as consequências da sua fé: uma fidelidade nas boas e nas más, nos momentos duros e nos momentos alegres.
Para refletir

Estamos às portas do Santo Natal. Eis o que vamos contemplar nos ritos, palavras e gestos da sagrada liturgia: o Verbo eterno do Pai, o Filho imenso, infinito, existente antes dos séculos, fez-se homem, fez-se criatura, fez-se pequeno e veio habitar entre nós. Sua vinda ao mundo salvou o mundo, elevou toda a natureza, toda a criação. A sua bendita Encarnação lavou o pecado do mundo e deu vida divina a todo o universo! Mas, atenção: este acontecimento imenso, fundamental para a humanidade e para toda a criação, a Palavra de Deus hoje nos diz que passou pela vida simples e humilde de um jovem carpinteiro e de uma pobre menina moça prometida em casamento numa aldeia perdida das montanhas da Galiléia. O Deus infinito dobrou-se, inclinou-se amorosamente sobre a pequena e pobre realidade humana para aí fazer irromper o seu plano de amor. Acompanhemos piedosamente o Evangelho deste Quarto Domingo do Advento.

São Mateus diz que a Mãe de Jesus “estava prometida em casamento a José, e, antes de viverem juntos ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo”. As palavras usadas pelo Evangelista são simples, mas escondem uma realidade imensa, misteriosa, inaudita. Pensemos em José e Maria, ainda jovens. Eles certamente se amavam; como todo casal piedoso daquela época pensavam em ter filhos – os filhos eram considerados uma bênção de Deus. Mas, eis que antes de viverem juntos, a Virgem se acha grávida por obra do Espírito Santo! Deus entra silenciosamente na vida daquele casalzinho. Nós sabemos, pelo Evangelho de São Lucas, que Maria disse “sim”, que Maria acreditou, que Maria deixou que Deus fosse Deus em sua vida: “Eu sou a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1,38) De repente, eis que uma vida de família, que tinha tudo para ser pacata e serena, viu-se agitada por uma tempestade. Por um lado, a Virgem diz “sim” a Deus e, sem saber o que explicar ou como explicar ao noivo, cala-se, abandonando-se confiantemente nas mãos do Senhor. Por outro lado, José sabe que o aquele filho não é seu; não compreende como Maria poderia ter feito tal coisa com ele: ter-lhe-ia sido infiel? E, no entanto, não ousa difamar a noiva. Resolve deixá-la secretamente. Quanta dor, quanta dúvida, quanto silêncio: silêncio de Maria, que não tem o que dizer nem como explicar; silêncio de José que, na dor, não sabe o que perguntar à noiva; silêncio de Deus que, pacientemente, vai tecendo a sua história de salvação na nossa pobre história humana. E, então, como fizera antes com a Virgem, Deus agora dirige sua palavra a José: “José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo de seus pecados”. Atenção aos detalhes! O Anjo chama José de “filho de Davi”. É pelo humilde carpinteiro que Jesus será descendente de Davi. Se José dissesse “não”, Jesus não poderia ser o Messias, Filho de Davi! Note-se que é José quem deve dar o nome ao Menino, reconhecendo-o como seu filho. Note-se ainda o nome do Menino: Jesus, isto é, “o Senhor salva”! Deus, humildemente, revela seu plano a José e, depois de pedir o “sim” de Maria, suplica e espera o “sim” de José. E, como Maria, José crê, José se abre para Deus em sua vida, José mostra-se disposto a abandonar seus planos para abraçar os de Deus, José diz “sim”: “Quando acordou, José fez conforme o Anjo do Senhor havia mandado, e aceitou sua esposa!”.

Eis! Adeus, para aquele casal, o sonho de uma vida tranqüila! Adeus filhos nascidos da união dos dois! Agora, iriam viver somente para aquele Presente que o Senhor lhes havia dado, para a Missão que lhes tinha confiado… O plano de Deus passa pela vida humilde daquele casal. Para que São Paulo pudesse dizer hoje na Epístola aos Romanos que é “apóstolo por vocação, escolhido para o Evangelho… que diz respeito ao Filho de Deus, descendente de Davi segundo a carne”, foi necessária a coragem generosa da Virgem Maria e o sim pobre e cheio de solicitude do jovem José. Para que a profecia de Isaías, que ouvimos na primeira leitura, fosse concretizada, foi necessário que aquele jovem casal enxergasse Deus e seu plano de amor nas vicissitudes de sua vida humilde e pobre!

Também conosco é assim! O Senhor está presente no mundo. Aquele que veio pela sua bendita Encarnação, nunca mais nos deixou. Na potência do seu Espírito Santo, ele se faz presente nos irmãos, nos acontecimentos, na sua Palavra e, sobretudo nos sacramentos. Sabemos reconhecê-lo? Abrimo-nos aos seus apelos? E na nossa vida? Essa vida miúda, como a de José e Maria, será que reconhecemos que ela é cheia da presença e dos apelos do Senhor? No Advento, a Igreja não se cansa de repetir o apelo de Isaías profeta: “Céus, deixai cair o orvalho; nuvens, chovei o Justo; abra-se a terra e brote a Salvador!” (Is 45,8). É interessante este apelo: a salvação choverá do céu, vem de Deus, é dom, é graça… mas, por outro lado, ela brota da terra, da terra deste mundo ferido e cansado, da terra da nossa vida.

Supliquemos à Virgem Maria e a São José que intercedam por nós, para que sejamos atentos em reconhecer o Senhor nas estradas de nossa existência e generosos em corresponder aos seus apelos, como o sagrado Casal de Nazaré. Assim fazendo e assim vivendo, experimentaremos aquilo que o Carpinteiro e sua santa Esposa experimentaram: a presença terna e suave de Jesus no dia-a-dia humilde de nossa vida.