sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

O valor do silêncio


Convivemos num mundo cada vez mais barulhento. Despertamos com uma música forte. O celular já ligado vai anunciando as mensagens. Trânsito, rádio, buzinas, sirenes. Salas de espera com TV. Filas que “falam”. Reuniões. Aulas. O fone conectado o tempo todo. Estamos com o som continuadamente. Chegamos a esquecer de que ainda existe o silêncio. Para muitos já se tornou uma sensação estranha ou até mórbida, de risco. É preciso não se sentir sozinho. Será que ele – o silêncio – não está nos fazendo falta? 

É no silêncio que temos a oportunidade de ser ouvidos sobre nós mesmos. Lá está alguém que deixamos passar dias, ou meses, no isolamento, sem saber ao certo o que está acontecendo com ele. O silêncio tem sido levado tão a sério, que cresce muito o número de publicações sobre a importância da “mindfulness”, ou seja, técnicas de meditação que permitem uma melhora da qualidade de vida, com maior capacidade de concentração, entre outros benefícios. Como procurar pelo silêncio no nosso dia a dia?

Evidentemente, não podemos esperar as condições de monges ou religiosos de clausura, que vivem em circunstâncias diferentes do que a encontrada grande maioria da população. Aprendemos deles, porém, que o silêncio desejado é algo que nasce no nosso interior e se propaga para o ambiente em que estamos. No entanto, quando se inicia essa busca, procurar afastar-se dos ruídos externos desnecessários e reservar um espaço e tempo para esse encontro com o silêncio é fundamental. 

A poluição sonora é muito presente. Colocarmos alguns filtros ajuda muito. Exemplo concreto é procurar evitar a frequência a lugares de extremo barulho e por tempo desnecessário. Outra condição é evitar que os ouvidos permaneçam constantemente ocupados por algum ruído, seja ele musical, de conversa, seja qualquer outro. Aprender a falar numa tonalidade mais baixa favorece a não elevar os decibéis do ambiente. Ouvir mais do que falar. Evitar tagarelar à exaustão...

Nada disso será o suficiente, no entanto, se você não se programar para um tempo e lugar no seu dia para conviver com o silêncio. Apesar de o silêncio não ser possível e nem desejado 24 horas por dia, com certeza cultivá-lo alguns minutos todos os dias fará com que você tenha uma nova proposta de comportamento em sua vida. Jamais o silêncio compromete o entusiasmo, a alegria e a vibração presentes em nossos dias, mas ele ajuda a percebermos um sentido de maior significado nessas manifestações.

Como dizia Paracelso, médico do século XVI, em sua quinta das sete regras para melhor viver: “Deves recolher-te todos os dias onde ninguém possa perturbar-te, por cerca de  meia hora, senta-te o mais comodamente possível com os olhos meio fechados e não penses em nada. Isso fortifica energeticamente o cérebro e o espírito e te colocará em contato com as boas influências. E neste estado de recolhimento e silêncio, sucede ocorrer as vezes luminosas ideias, suscetíveis de mudar toda uma existência. Com o tempo, todos os problemas que se apresentam serão resolvidos vitoriosamente por uma voz interior que te guiará em tais instantes de silêncio, a sós com tua consciência.”


Dr. Valdir Reginato
é médico de família.
E-mail: vreginato@uol.com.br
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O São Paulo