quinta-feira, 10 de maio de 2018

Ponderações para os dias que correm...



Caro Amigo, gostaria de partilhar com você algumas ponderações sobre a leitura [de Atos dos Apóstolos, 17]... Talvez lhes pareçam meio técnicas; mas são importantes... Deveriam nos ajudar a pensar sobre como ser cristãos, como ser Igreja e como anunciar o Evangelho nos dias atuais...

Trata-se do capítulo 17 dos Atos dos Apóstolos.

São Paulo está na sua segunda viagem missionária. Chegado da Macedônia, onde tinha sido colocado para correr de Filipos, de Tessalônica e de Bereia, o Apóstolo alcançou Atenas, na Ática.

Aí, pregava e discutia com judeus e tementes a Deus, na sinagoga, e pregava e debatia com os pagãos na ágora, na praça pública ateniense (cf. v. 17).

Falando aos pagãos na ágora, no Areópago, São Paulo, procurou entrar em diálogo com eles a partir da própria cultura gentia, pagã.

Ele tinha consciência de que aqueles pagãos eram pecadores diante de Deus, eram idólatras (cf. vv. 16.24.29.30.31); sabia muito bem que aqueles pagãos viviam na ignorância e precisavam ser notificados do Evangelho para que tivessem a chance de se converterem receberem a salvação em Jesus nosso Senhor (cf. vv. 30s). O Apóstolo não mascarou a verdade, não relativizou nem escondeu Jesus: "Ele é o homem a Quem Deus designou... ao ressuscitá-Lo dos mortos" (v. 31).

Contudo, procurou dialogar: começou elogiando a religiosidade dos gregos, eles que dedicaram um altar ao Deus desconhecido... Nas verdade, o altar era "aos deuses desconhecidos" mas São Paulo, num gesto de boa vontade, deu uma arrumadinha no sentido da dedicatória: "Ao Deus desconhecido!" E se saiu com esta: "O que adorais sem conhecer, isto venho anunciar-vos!" (v. 23)

Aí, usando a pura razão humana e a filosofia grega, mostrou que Deus é o criador de tudo, é o criador e o provedor dos homens e, portanto, não é um ídolo. Por fim, avisou aos atenienses com franqueza que esse Deus único a todos jugaria através de um homem que Ele enviara e ressuscitara dos mortos, Jesus!

O resultado da pregação foi um fracasso quase completo! Os atenienses não deram bola! Desapontado, São Paulo partiu para Corinto, capitada Acaia, uma das cidades mais depravadas do Império Romano (cf. 18.1).

Em Corinto, o Apóstolo mudou de tática completamente: agora resolveu não mais partir da lógica humana, da razão e das razões da cultura helenista, mas do escândalo da Cruz!

Ele mesmo escreveu isto aos coríntios: "Eu mesmo, quando fui ter convosco, irmãos, não me apresentei com o prestígio da palavra ou da sabedoria para vos anunciar o mistério de Deus. Pois não quis saber de outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado... a fim de que a vossa fé não se baseie na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus" (cf. 2,1-5).

O que pensar disto tudo?

A Igreja, os cristãos, a pregação cristã certamente pode e deve dialogar com as culturas, dialogar com as mentalidades de cada época... Mas, NUNCA, sobre pretexto algum, pode esconder o escândalo da Cruz e a loucura do Evangelho! A fé não se baseia em floreios da razão e das razões humanas! O arrazoado humano pode ser caminho, pode ser pretexto de diálogo, mas não pode nunca mutilar ou condicionar a fé!

Esta não pode ser negociada, a integridade da doutrina e a inteireza do dogma não podem ser arranhados sob o pretexto de compreensão, compaixão, ou seja lá o que for! Não se pode colocar o homem e seus estreitos limites, sua razão embotada pelo pecado, no lugar do Senhor Deus e do Seu Cristo!
 

Ademais, prestemos bem atenção: a pregação não é primeiramente uma questão de perícia lógica ou de racionalizações, mas é ação do Espírito Santo do Cristo Senhor! São Paulo - e disto ele compreendia bem - nos adverte de que a sabedoria do Evangelho NÃO é a sabedoria deste mundo: "sabedoria que não é deste mundo nem dos príncipes deste mundo, votados à destruição... Nenhum dos príncipes deste mundo a conheceu, pois se a tivessem conhecido não teriam crucificado o Senhor da Glória" (1Cor 2,6ss). São palavras muito fortes!

Além do mais, das coisas de Deus não adianta esperar que sejam compreendidas simplesmente nos limites de uma razão carnal (pecaminosa, superficial, soberba, corrompida pelos prazeres e facilidades do mundo) ou de uma razão psíquica (simplesmente no nível terra-terra, fechada para as exigências do Evangelho). Somente quando o homem dá o passo de abrir-se para o Espírito, deixando que sua razão se torne espiritual, espirituada, ele pode chegar, inebriado pelo Espírito, a uma verdadeira compreensão da loucura e da beleza do Evangelho.

Então, compreender o modo atual, sim; dialogar, sim!

Mas, esconder, mutilar, deturpar a mensagem do Evangelho para ser aceito e aplaudido e conseguir elogios ou adesões de araque, não!

A resposta ao Evangelho é a fé, que supõe sempre e constantemente conversão, mudança de vida, ruptura com o pecado!

E NUNCA se pode chamar de bom, de aceitável ao pecado! NUNCA será possível à Igreja abençoar o pecado, seja sob qual pretexto que se invente! O Senhor ama o pecador, mas abomina o pecado!

Que o grande Apóstolo São Paulo, inigualável pregador do Evangelho, sempre a caminho pelas estradas do Império Romano, interceda por nós e pela inteira Igreja, para que sejamos fieis à tremenda missão de testemunhar o Cristo Jesus, enviado do Pai, ungido pelo Espírito, Messias de Deus, único Salvador da humanidade! Amém.


Dom Henrique Soares da Costa
Bispo de Palmares, PE