domingo, 20 de maio de 2018

Homilética: 8º Domingo do Tempo Comum - Ano B: "O Esposo que traz a alegria".



"Esposo" é um dos nomes que Deus dá a si mesmo (Is 54,5) para exprimir seu profundo amor pelo homem. Quando os profetas querem representar a relação Deus-Israel recorrem às imagens expressivas e audazes do simbolismo nupcial.

Oséias, particularmente (1ª leitura), em sua experiência conjugal, descobre o mistério da aliança entre Deus e seu povo. Se a aliança assume um nítido caráter esponsal, a traição de Israel se torna não só prostituição e idolatria, mas um verdadeiro adultério.

As leituras de hoje sublinham, no sentido nupcial, sobretudo o aspecto positivo de alegria e festa: alegria pelo amor reencontrado e reconquistado (1ª leitura) e alegria pela presença do esposo (evangelho). Numa aldeia palestinense, um casamento era ocasião de grande festa e alegria para todos. O ponto culminante da festa era naturalmente o banquete nupcial, de que participavam parentes, amigos e conhecidos. O banquete nupcial tinha, para Israel, uma densidade de sentido desconhecida do homem moderno. Evocava os fatos culminantes de sua vitória e prefigurava, no plano do sinal, a festa jubilosa do tempo messiânico.

Os dias do Messias são geralmente comparados, na literatura rabínica, a um banquete nupcial, e a figura do esposo evocava o Deus da aliança, o Esposo por excelência.

Com a vinda de Jesus, o esposo está presente. Celebra as suas núpcias com o povo presente ao banquete.

Seus discípulos têm razão em alegrar-se; não se jejua quando se participa das núpcias do esposo, núpcias que Jesus celebra com a Igreja, novo povo de Deus, em seu sangue, e que revive no banquete da nova e definitiva aliança. Isto nos permite descobrir o verdadeiro sentido da alegria cristã, que é alegria pascal, a que Jesus conquistou para nós "passando" através do sofrimento e da morte. Por isso, a nossa alegria também passará através do sacrifício e da paixão de Cristo. É a alegria das bem-aventuranças, que nasce de uma vida de pobreza, mansidão e paz. É a alegria que nasce do Espírito (Gl 5,22). A alegria cristã, típica do reino de Deus, se alimenta da participação na celebração eucarística, que é, por excelência, o lugar da comunhão esponsal entre Deus e seu povo, que a ele eleva a ação de graças como resposta aos seus dons. 

Comentários dos Textos Bíblicos

1ª Leitura: Os 2,16b.17b.21-22

Oséias descreve o amor de Deus por Israel sob a imagem do amor perseverante do esposo que procura reconquistar a esposa que o traiu. As poucas palavras relatadas no trecho provém de um contexto em que se descreve a reabilitação total da esposa (2,16-25) e delineiam bem os vários aspectos da salvação: libertação do mal ou perdão (2,19), encontro de amor, de paz, de alegria, com Deus (texto litúrgico), reconstituição da aliança.

Notem-se os termos do último hemistíquio dos vv. 21-22: assim como Deus se dá a conhecer ao homem unindo-se a ele por uma aliança, manifestando-lhe sua benevolência (termo que no hebraico implica a misericórdia, o perdão) e o seu amor, também o homem conhece Deus em sentido bíblico, isto é, mediante uma atitude que implica fidelidade à sua aliança, reconhecimento dos benefícios recebidos, amor.

2ª Leitura: 2Cor 3,1b-6

Uma segunda acusação lançada contra Paulo era a de arrogância: ele se acreditava o único puro no anúncio do evangelho (2,17). Refutando tal acusação, Paulo descreve o ministério apostólico. Não são as cartas de recomendação que acreditam o apóstolo junto à comunidade, mas o resultado de sua obra. Ora, a Igreja de Corinto é, para Paulo, uma carta que traz o selo de Cristo e do Espírito (vv. 1-3). Realçando deste modo a Cristo, Paulo reconhece, por sua vez, ser somente um ministro. O que fez é fruto da capacidade que vem de Deus, que o fez ministro de uma aliança fundada no Espírito que dá vida (vv. 4-6; Cl 1,23-25).

Evangelho: Mc 2,18-22

Jesus está em atitude de revelação (cf. 7º Domingo Comum, Ano B). Essa continua depois do fato do paralítico, com a declaração de Jesus durante um banquete: vim procurar os pecadores (2,17). A ideia do banquete leva Marcos a propor aqui uma discussão sobre o jejum, que provoca outra revelação de Jesus: ele é o esposo. Naquele ambiente, semelhante indicação não podia deixar de ser ligada à ideia messiânica (1ª leitura; Jo 3,29). Mas a preocupação eclesiástica que transparece deste texto é a seguinte: devem os cristãos jejuar? A resposta está na expressão: “No dia em que lhes for tirado o esposo” (primeiro anúncio velado da paixão). A Igreja sempre sentiu a necessidade de dar testemunho, com o jejum da sexta-feira, da paixão de Cristo.

Para Refletir

Se a alegria é uma característica dos tempos messiânicos, o cristão deveria ser um mensageiro de alegria. Ele sabe que é "salvo"; por isto pode viver na alegria.

E, no entanto, se há um aspecto no qual os cristãos, hoje, são particularmente vulneráveis, é exatamente este. O evangelho pregado em nossas igrejas terá o tom jubiloso de uma "alegre mensagem" de libertação e vitória, ou não será proclamado fastidiosamente com um tom insípido e sombrio de uma lei a suportar?

Que haverá de verdadeiro no clichê de certa literatura que apresenta o cristão triste, pessimista, temeroso de cometer pecado,, falando em renúncia e mortificação? Se entra um estranho em nossas assembleias terá a impressão de encontrar-se no meio de um povo de homens libertados? Somos testemunhas do Deus vivo ou somos os "coveiros" de um Deus dos mortos?

"Devemos reconhecer o valor desta crítica e perguntar-nos se nossa falta de alegria provém do fato de sermos cristãos ou, antes, do fato de não o sermos suficientemente" (P. Tillich).

A verdadeira santidade traz sempre consigo o dom da alegria do Espírito. A sabedoria popular o compreendeu bem quando afirma que: "um santo triste é um triste santo".

"Só existe uma tristeza, a de não sermos santos", dizia Léon Bloy. A alegria cristã é o sinal da nossa fidelidade ao evangelho e de nossa efetiva pertença ao reino de Deus.

Não é o entusiasmo passageiro e superficial que a provação e a tribulação destroem; é a alegria espiritual e profunda, alimentada pela oração, fundada na esperança; não é a alegria ruidosa e vazia que nasce do atordoamento ou da leviandade; é a alegria contida e íntima que brota da boa consciência e da certeza da proximidade de Deus. Uma alegria que nos faz "bem-aventurados", também na aflição e nas perseguições.