terça-feira, 28 de julho de 2015

Homilética: 18º Domingo Comum - Ano B: "Do pão material é preciso passar ao pão espiritual".


Todo o homem tem anseio de felicidade e procura-a geralmente em coisas materiais: prazeres, passeios, bebidas, festas, boa comida, sexo… mas acaba por reconhecer que continua insatisfeito.

A liturgia da Palavra deste Domingo fala-nos do maná dado por Deus ao seu povo e que o alimentava dando robustez a um corpo destinado a perecer. Todavia, diz-nos ainda, o verdadeiro pão da vida é a Sua Palavra, encarnada em Jesus de Nazaré, que é capaz de modificar toda a nossa vida transformando-nos em «homens novos», conduzidos a uma vida que não acaba.

Pensemos um pouco nas vezes que procuramos a felicidade onde ela não se pode encontrar e desprezamos a Palavra que dá vida. E, com humildade, peçamos perdão ao Senhor.
Pontos da ideia principal



Textos: Ex 16, 2-4.12-15; Ef 4, 17.20-24; Jo 6, 24-35

Que coisa desnorteadora quando sentimos a presença da ausência de alguém que queremos bem. Jesus Cristo quis poupar-nos desse sentimento tendo em conta o cumprimento da sua missão e as nossas reais necessidades e capacidades. Um cristão já não precisa fazer a pergunta que nós escutamos no Evangelho da Missa: “Mestre, quando chegaste aqui?” (Jo 6,25). Ao contrário, avisará a todos, como o fez Maria à sua irmã Marta: “O Mestre está aí e te chama” (Jo 11,28).

Vi certa vez um filme, um desenho animado, no qual se perguntava a uma criança: “Qual é a diferença entre o Crucifixo e a Eucaristia?” A criança respondeu então com muita sabedoria: “No Crucifixo parece que Jesus está, mas não está; na Eucaristia parece que ele não está, mas está”.

Parece que não está, mas está! A Igreja sempre acreditou que após as palavras da consagração n a Missa, toda a realidade do pão se muda, se converte no Corpo de Jesus Cristo; toda a realidade do vinho se transforma no sangue do Senhor Jesus. Esta verdade de fé é conhecida pelos católicos como transubstanciação. Neste sentido vale a pena trazer a colação as vigorosas palavras do Papa Paulo VI no texto do “Credo do Povo de Deus”, de 1968. Copio ao leitor as palavras do Papa que se referem à Missa e à transubstanciação (n. 24-25):

“Cremos que a Missa, celebrada pelo sacerdote, que representa a pessoa de Cristo, em virtude do poder recebido no sacramento da Ordem, e oferecida por ele em nome de Cristo e dos membros do seu Corpo Místico, é realmente o Sacrifício do Calvário, que se torna sacramentalmente presente em nossos altares. Cremos que, como o Pão e o Vinho consagrados pelo Senhor, na última ceia, se converteram no seu Corpo e Sangue, que logo iam ser oferecidos por nós na Cruz; assim também o Pão e o Vinho consagrados pelo sacerdote se convertem no Corpo e Sangue de Cristo que assiste gloriosamente no céu. Cremos ainda que a misteriosa presença do Senhor, debaixo daquelas espécies que continuam aparecendo aos nossos sentidos do mesmo modo que antes, é uma presença verdadeira, real e substancial(cf. Concílio de Trento, Sessão 13, Decreto sobre a Eucaristia).

“Neste sacramento, pois, Cristo não pode estar presente de outra maneira a não ser pela mudança de toda a substância do pão no seu Corpo, e pela mudança de toda a substância do vinho no seu Sangue, permanecendo apenas inalteradas as propriedades do pão e do vinho, que percebemos com os nossos sentidos. Esta mudança misteriosa é chamada pela Igreja com toda a exatidão e conveniência transubstanciação. Assim, qualquer interpretação de teólogos, buscando alguma inteligência deste mistério, para que concorde com a fé católica, deve colocar bem a salvo que na própria natureza das coisas, isto é, independentemente do nosso espírito, o pão e o vinho deixaram de existir depois da consagração, de sorte que o Corpo adorável e o Sangue do Senhor Jesus estão na verdade diante de nós, debaixo das espécies sacramentais do pão e do vinho(cf. ibid.; Paulo VI, Encíclica Mysterium Fidei), conforme o mesmo Senhor quis, para se dar a nós em alimento e para nos associar pela unidade do seu Corpo Místico(cf. Suma Teológica III, q. 73, a. 3)”.

O maná do deserto (1ª leitura), que Moisés conseguiu para o seu povo durante o deserto, é uma prefiguração do Pão celestial que Cristo nos dará na Eucaristia. Moisés quis que o seu povo superasse o cansaço, o desanimo e a rebelião. O maná do Antigo Testamento não dava a vida; todos os que dele se alimentavam, cedo ou tarde sucumbiam. O Pão verdadeiro que é Cristo, ao contrário, dá a vida que não morre, pois o homem também tem outras fomes profundas: fome de amor, de felicidade, de verdade, de segurança, de sentido da vida. O pão corporal era o pão de morte, porque só se ordenava a restaurar as forças, sem evitar com isso a morte ulterior. O Pão espiritual, pelo contrario, vivifica, porque destrói a morte. Por isso, Cristo é o Pão verdadeiro, do qual o maná era somente a figura. E Deus se preocupa de dar o seu “pão” aos cansados. E esse Pão é o seu Filho em dois pratos gratuitos em cada missa: o pão da Palavra e o pão da Eucaristia. É um grande pesar que alguns fiquem felizes com a “panela de carne” do Egito. A coisa má não é ter fome, mas não ter fome das coisas que valem a pena, não saber que nos faz falta o autêntico pão. A coisa má e ficar satisfeito com a “panela de carne” que oferece o mundo, com valores que não são últimos.    

Todos sabemos como é o processo do pão. Grão que se enterra na terra e passa o seu inverno. Depois floresce em espiga. A espiga é cortada e levada ao molinho e se tritura. Assim também aconteceu com Cristo que é o Pão vivo, feito Palavra e Eucaristia. Também Ele se enterrou durante 30 anos em Nazaré. Brotou a espiga da sua maturidade. E antes de se fazer comível e digerível como alimento de imortalidade, passou pela Paixão, onde se deixou triturar pelos golpes, pelas chicotadas, pelo ódio, pela lança, para fazer-se Pão da nossa Eucaristia. Como o trigo, Cristo deve ser moído antes de se tornar Pão de vida eterna. A Igreja chama isto a Eucaristia como sacrifício. É verdade que Cristo já ofereceu o sacrifício na cruz uma vez por todas naquela primeira Sexta-feira Santa. A Eucaristia prolonga este aspecto sacrificial: é o sacrifício de Cristo, renovado, perpetuado, atualizado sobre os nossos altares. Ao celebrar esse sacrifício na missa fazemos memória da sua morte, dessa morte que foi uma e não muitas. A Eucaristia é, pois, o sacramento do sacrifício da Cruz, onde nos dá a comer o Pão que é a sua Palavra e o seu Corpo.      

Assim como o pão material nos faz crescer no corpo, assim também o Pão da Eucaristia, que é Cristo mesmo, faz-nos crescer em virtudes. Crescemos para cima, para uma visão sobrenatural, superando a visão rasteira e humana. Crescemos para os lados, estendendo as nossas mãos para ajudar os demais, superando o nosso egoísmo e o nosso fechamento. Crescemos para dentro, para poder ter em nós os mesmo afetos e sentimentos de Cristo Jesus. Não somos nós que assimilamos Cristo, mas é Cristo quem nos assimila, dir-nos-á Santo Agostinho. E nos faz crescer, até alcançar a sua estatura, como diz São Paulo na carta aos Efésios. Não só nos faz crescer, mas que também nos une ao seu próprio sacrifício. Na Eucaristia nós também comemos e participamos da sua paixão, morte, ressurreição e ascensão. O seu sacrifício passa também pelas nossas mãos e pela nossa vida; completando em nós “o que falta à Paixão de Cristo”.   

No dia de hoje, graças sejam dadas a Deus pela nossa fé no Santíssimo Sacramento da Eucaristia, vida da Igreja!

Para refletir

Caríssimos em Cristo, no Domingo passado, deixamos o Senhor Jesus orando a sós no monte, após ter multiplicado os pães e despedido a multidão. Está no capítulo VI de São João: do monte, Jesus atravessa o mar da Galileia, caminhando sobre as águas. Ao chegar do outro lado, lá esta o povo a sua espera… Sigamos, as palavras do Senhor nesta perícope, pois elas nos falam de vida, falam-nos do Cristo nosso Deus!

Primeiramente, Cristo censura duramente o povo: procuram-no – como tantos hoje em dia – não porque viram o sinal que ele realizou! Mas, que sinal? Fez o povo sentar-se na relva, como o Pastor do Salmo 22 faz a ovelha descansar em verdes pastagens; prepara uma mesa para o fiel, multiplicando-lhe os pães, como Moisés no deserto… Ante tudo isto, amados em Cristo, o povo ainda pensou em Jesus como sendo o Profeta que Moisés prometera (cf. Dt ); mas, infelizmente, não passou disso. Daí a repreensão do Senhor: aqueles lá o procuravam simplesmente porque comeram pão, como hoje tantos o procuram para ganhar benefícios – e, assim, são enganados pelos charlatões de plantão! A prova de que o povo não compreendeu o sinal, é que ainda vai perguntar no Evangelho de hoje: “Que sinal realizas? Que obra fazes?” Como estes, lá com Jesus, se parecem conosco, tantas vezes cegos para os sinais do Senhor na nossa vida!

Observai, irmão! Notai como os judeus não conseguem compreender que o que Jesus quer deles é a fé na sua pessoa e na sua missão! Vede como eles pensam que podem agradar ao Senhor simplesmente com um fazer exterior, sem compromisso de amor que brota do coração: “Que devemos fazer para realizar as obras de Deus?” Fazer! De nós, Jesus quer muito mais do que um simples fazer! Eis a resposta do nosso Salvador: “A obra de Deus é que acrediteis naquele que ele enviou!” Resposta admirável: tua obra, cristão, já não é cumprir a Lei de Moisés; também não é fazer e fazer coisas, mas crer e amar a Jesus! Daí sim, tudo decorre, e também tuas boas obras, feitas por amor a Jesus e na fé em Jesus, serão aceitas pelo Senhor!

Diante da palavra do Cristo, os judeus duros de compreender, pedem a Jesus outro sinal! Não compreenderam o que ele fizera! E ainda citam Moisés, como que dizendo: Tu nos deste pão agora; Moisés nos deu o maná por quarenta anos! Aí, o nosso Salvador faz três revelações surpreendentes e consoladoras! Ei-las:

Primeiro: Aquele maná dado por Moisés não é o pão que vem do céu. É pão terreno mesmo, dado por Deus; pão que mata a fome do corpo, mas não enche de paz o coração; pão que alimenta esta vida, mas não dá a Vida divina, a Vida que dura para sempre! Aquele maná do deserto era apenas pálida imagem de um outro maná, de um outro pão que o Pai daria mais tarde.

E aqui vem a segunda revelação, surpreendente, consoladora: agora o Pai está dando o verdadeiro maná, o verdadeiro Pão do céu, que dá a vida divina ao mundo: Moisés não deu (no passado); meu Pai vos dá (agora, no presente)! Os judeus ficam perplexos, admirados; e pedem: Dá-nos desse pão! Pão que alimenta a fome de vida, de paz, de sentido, de eternidade!

Jesus faz, então, a terceira e desconcertante revelação: “Eu sou o Pão da vida!” Pronto: o pão verdadeiro é uma Pessoa, é ele mesmo! Os pães que ele multiplicara eram imagem dele mesmo, que se nos dá, que nos alimenta, que nos enche de vida: “Eu sou o Pão da vida! O Pão que desce do céu e dá a vida ao mundo! Quem vem a mim nunca mais terá fome de vida e de sentido de existência; quem crê em mim nunca mais terá sede no seu coração!”

Eis, meus caros! Corramos para Jesus! Seja ele nosso alimento! E dele nos alimentando, sejamos nele, novas criaturas, despojando-nos do homem velho, deixando o velho modo de pensar, que conduz não à Vida, mas ao nada, como diz o Apóstolo na segunda leitura! Se nos alimentamos de Cristo, se bebemos de sua santa palavra, como poderemos pensar como o mundo, agir como o mundo, viver como o mundo? Como ainda poderíamos consentir nas velhas paixões que nos escravizam?

Que alimentando-nos de Jesus, Pão bendito de nossa vida, nós atravessemos o deserto desta vida não como o povo de Israel, que murmurou e descreu, mas como verdadeiros cristãos, renovados pelo Senhor, despojados da velhice do pecado e saciados de vida eterna, vida que é o Cristo nosso Deus, bendito pelos séculos dos séculos. Amém.

Nenhum comentário:

Postar um comentário