quarta-feira, 22 de julho de 2015

Homilética: 17º Domingo Comum: “Dai-lhes vós mesmos de comer”.


A liturgia do 17º domingo Comum dá-nos conta da preocupação de Deus em saciar a “fome” de vida dos homens. De forma especial, as leituras deste domingo dizem-nos que Deus conta connosco para repartir o seu “pão” com todos aqueles que têm “fome” de amor, de liberdade, de justiça, de paz, de esperança.

Na primeira leitura, o profeta Eliseu, ao partilhar o pão que lhe foi oferecido com as pessoas que o rodeiam, testemunha a vontade de Deus em saciar a “fome” do mundo; e sugere que Deus vem ao encontro dos necessitados através dos gestos de partilha e de generosidade para com os irmãos que os “profetas” são convidados a realizar.

O Evangelho repete o mesmo tema. Jesus, o Deus que veio ao encontro dos homens, dá conta da “fome” da multidão que O segue e propõe-Se libertá-la da sua situação de miséria e necessidade. Aos discípulos (aqueles que vão continuar até ao fim dos tempos a mesma missão que o Pai lhe confiou), Jesus convida a despirem a lógica do egoísmo e a assumirem uma lógica de partilha, concretizada no serviço simples e humilde em benefício dos irmãos. 

Alguns dos que testemunharam a multiplicação dos pães e dos peixes têm consciência de que Jesus é o Messias que devia vir para dar ao seu Povo vida em abundância e querem fazê-lo rei (vers. 14-15). Jesus não aceita… Ele não veio resolver os problemas do mundo instaurando um sistema de autoridade e de poder; mas veio convidar os homens a viverem numa lógica de partilha e de solidariedade, que se faz dom e serviço humilde aos irmãos. É dessa forma que Ele se propõe – com a colaboração dos discípulos – eliminar o sistema opressor, responsável pela fome e pela miséria. O mundo novo que Jesus veio propor não assenta numa lógica de poder e autoridade, mas no serviço simples e humilde que leva a partilhar a vida com os irmãos.


Na segunda leitura, Paulo lembra aos crentes algumas exigências da vida cristã. Recomenda-lhes, especialmente, a humildade, a mansidão e a paciência: são atitudes que não se coadunam com esquemas de egoísmo, de orgulho, de auto-suficiência, de preconceito em relação aos irmãos.

Durante cinco domingos seguidos lemos no capítulo seis de São João, onde se narra o discurso-catequese de Jesus sobre o Pão da vida. João é o teólogo da Eucaristia. A vida cristã tem o seu centro na Eucaristia. Sem a Eucaristia não podemos viver. A Eucaristia exige e nos compromete a compartilhar também os nossos diversos pães com os irmãos: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Sim, dar o nosso pão para o povo (1 leitura). E dá-lo com humildade, amabilidade, compreensão (2 leitura).

Comentários dos Textos Bíblicos

Textos: 2 Re 4, 42-44; Ef 4, 1-6; Jo 6, 1-15

Em primeiro lugar, Jesus hoje dá um exemplo maravilhoso para todos nós, cristãos e não cristãos: vê a multidão que o segue, sente compaixão por ela porque a vê faminta e soluciona esta necessidade básica- a fome-, símbolo de outra necessidade profunda, a necessidade de Deus, da sua Palavra e do seu amor. Agora bem, Cristo quer também a nossa colaboração e por isso diz: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. É um grande desafio que requer fé, confiança e generosidade da nossa parte para compartilhar o muito ou o pouco que tivermos. Graças à colaboração de todos Deus operou o grande milagre da multiplicação dos pães e dos peixes. Assim foi também no caso de Eliseu na primeira leitura de hoje. 

Em segundo lugar, a Igreja seguiu o exemplo de Jesus durante estes 21 séculos de história, obedecendo ao imperativo “Dai-lhes vós mesmos de comer”. A Igreja repartiu generosamente o pão da compaixão e da ternura com os doentes, anciãos, órfãos. Soube conjugar a evangelização com a beneficência e o cuidado material dos mais pobres, colaborando e completando o que num princípio pertenceria aos deveres de cada Estado. Testemunho desta ação caritativa e de promoção humana e cristã são as diversas ordens e congregações religiosas: As Missionárias da Caridade da beata Madre Teresa de Calcutá; as irmãzinhas dos Anciãos desamparados de Santa Teresa de Jesus Jornet e Ibars; os Irmãos Hospitaleiros de São João de Deus; os servidores dos enfermos de São Camilo de Lélis; as servas de Maria ministras dos enfermos de Santa Soledad Torres Acosta; os Oratorianos de São Felipe Neri... E uma coroa de cristãos comprometidos, missionários, voluntários, religiosos e religiosas que trabalham desinteressadamente no campo sanitário e educativo, e “compartilham o seu pão” com os que não o têm. Esta colaboração é às vezes econômica e outras, a doação de si mesmos, do seu tempo, do seu trabalho. E fazem isso não só com os países do Terceiro Mundo, mas bem próximo, no seu próprio ambiente, no qual os anciãos e os enfermos ou os pobres necessitam o “pão” da nossa acolhida, ternura e proximidade. 

Finalmente, esse “Dai-lhes vós mesmos de comer” implica, pois, compartilhar o pão material. Mas, sobretudo, é um símbolo muito expressivo de outros “pães” dos que também tem fome a humanidade: a cultura, pois muitos não têm escola; trabalho digno e estável; moradia para os que estão na rua dormindo debaixo das pontes ou jogados em qualquer praça; possibilidades de vida especialmente para emigrantes que abandonam o seu país em busca de um futuro melhor. Cristo não só da de comer ou cura os doentes e ressuscita os mortos; também prega o Reino, perdoa os pecados, conduz a Deus. Não quer que fiquem somente no mero fato do milagre material, mas que deem o salto à fé e ao compromisso da doação. Este discurso de São João no capítulo seis levará pouco a pouco os leitores à compreensão mais profunda do sacramento da Eucaristia.    

Para refletir

Salta à vista o tema do pão na liturgia de hoje: ele aparece claramente na primeira leitura e no evangelho e, de modo implícito, está presente também no salmo. Na tradição bíblia, o pão recorda duas coisas importantíssimas. Lembra-nos, primeiramente, que não somos auto-suficientes, não possuímos a vida de modo absoluto: devemos sempre renová-la, lutar por ela. O homem não se basta a si próprio; precisa do pão de cada dia. E aqui, um segundo importante aspecto: o homem não pode, sozinho, prover-se de pão: é Deus quem faz a chuva cair, quem torna o solo fecundo, quem dá vigor à semente. Assim, a vida humana está continuamente na dependência do Senhor. Portanto, meus caros, todos necessitamos do pão nosso de cada dia – e este é dom de Deus. “O que tens tu, ó homem, que não tenhas recebido? E, se recebeste, do que, então, te glorias?”

Desse modo, caríssimos irmãos em Cristo, Jesus, ao multiplicar os pães, apresenta-se como aquele que dá vida, que nos sacia com o sentido da existência – sim, porque não há vida de verdade para quem vive sem saber o sentido do viver! – Dá-nos, Jesus a vida física, a vida saudável, mas dá-nos, mais que tudo, a razão verdadeira de viver uma vida que valha a pena!

Mas, acompanhemos com mais detalhes a narrativa do Quarto Evangelho. Jesus, num lugar deserto, estando próxima a Páscoa, Festa dos judeus, manda o povo sentar-se sobre a relva verde, toma uns pães e uns peixes, dá graças, parte, e os distribui… multiplicando os pães e os peixes. Todos comeram e ficaram saciados. Não aparece no evangelho deste Domingo, mas sabemos, pela continuação do texto de São João, que o povo, após o milagre, foi à procura do Senhor e ele recriminou duramente a multidão: “Vós me procurais não porque vistes os sinais, mas porque comestes pão e ficastes saciados!” Que sinal o povo deveria ter visto? Recordemos que no final do trecho que escutamos no evangelho o povo exclama: “Este é verdadeiramente o profeta que devia vir ao mundo”. Eis: o povo até que começou a discernir o sentido do milagre de Jesus; mas, logo depois, fascinado simplesmente pelo pão material, pelas necessidades de cada dia, esquece o sinal. Insistimos: que sinal? Primeiro, que Jesus é o Novo Moisés, aquele profeta que o próprio Moisés havia anunciado em Dt 11,18: “O Senhor Deus suscitará no vosso meio um profeta como eu”. Pois bem: como Moisés, Jesus reúne o povo num lugar deserto, como Moisés, sacia o povo com o pão… Mas, Jesus é mais que Moisés: ele é o Deus-Pastor que faz o rebanho repousar em verdes pastagens (“Havia muita relva naquele lugar… Jesus mandou que o povo se sentasse…”) e lhe prepara uma mesa. Era isso que o povo deveria ter compreendido; foi isso que não compreendeu…

E nós, compreendemos os sinais de Cristo em nossa vida? Somos capazes de descortinar o sentido dos seus gestos, seja na alegria seja na tristeza, seja na luz seja na treva? Os gestos de Jesus na multiplicação dos pães é também prenúncio da Eucaristia. Os quatro gestos por ele realizados – tomou o pão, deu graças, partiu e deu – são os gestos da Última Ceia e de todas as ceias que celebram o sacrifício eucarístico do Senhor: na apresentação das ofertas tomamos o pão, na grande oração eucarística (do prefácio à doxologia – “Por Cristo, com Cristo…”) damos graças, no “Cordeiro de Deus” partimos e na comunhão distribuímos. Eis a Missa: o tornar-se presente dos gestos salvíficos do Senhor, dado em sacrifício e recebido em comunhão.


Vivendo intensamente esse Mistério, nos tornamos realmente membros do corpo de Cristo, que é a Igreja. Cumprem-se em nós, de modo real, as palavras do Apóstolo: “Há um só Corpo e um só Espírito, como também é uma só a esperança a que fostes chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por meio de todos e permanece em todos”. Eis, caríssimos! Que o bendito Pão do céu, neste sinal tão pobre e humilde do pão e do vinho eucarísticos, nos faça compreender e acolher a constante presença do Senhor entre nós e nos dê a graça de vivermos de verdade a vida de Igreja, sendo um sinal seu no meio do mundo. Amém.

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