sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Os doentes, não os sãos, necessitam de médico


Deus nos livre dos exageros e dos paradoxos, mas naturalmente nos vem à memória as palavras de um bispo a uns missionários que se queixavam dos pecados que presenciavam no exercício do seu ministério: “Qual seria a vossa razão de ser, meus bons padres, se não houvesse pecadores?” Jesus Cristo, Sacerdote eterno, nossa Salvador, permita-nos que vo-lo diga: qual seria a razão de ser da vossa vida mortal e dos vossos sofrimentos inauditos, e de que serviriam os vossos sacramentos e a vossa Igreja, se não houvesse pecados que perdoar? Que faríeis da vossa misericórdia, se não houvesse miseráveis?”

Disse certa vez Santa Gertrudes: “Quando Jesus não encontra almas tão virgens às quais possa ir como Esposo, permite que a doença as assalte a fim de poder ir a elas como médico”. A alegria e a honra que o doente proporciona ao médico, a quem confia as suas chagas e todas as suas possibilidades de cura, são as mesmas que o pecador proporciona ao divino Samaritano quando lhe apresenta as suas faltas para que as cure. Se Deus foi ofendido pelo pecado, o Salvador é glorificado pelo perdão que o destrói. A julgar pelos favores de que Deus inunda os filhos pródigos que retornam, dá verdadeiramente a impressão de Ele quer agradecer-lhes por lhe terem dado ocasião de satisfazer os desejos e as necessidades da sua clemência.

“Portanto, minha alma, conclui o Venerável Alexandre de São Francisco, se te reconheces doente, peço-te, por favor, que não tenhas receio de recorrer ao Médico; pelo contrário, procura-o com tanto mais confiança quanto foi por ti que Ele desceu com passos de gigante das alturas do Céu (cf. SI 18). Ele veio curar-te da doença do pecado, porque ele sabe que o médico é necessário aos enfermos e não àqueles que têm saúde (Mt 9,12). É uma loucura nociva a dos pecadores que encontram motivos para fugir do médico justamente naquilo que deveria dar-lhes maior confiança para o procurarem! Insensato quem receia encontrar um adversário indignado naquele que veio curá-lo!”

O ímpio foge sem que ninguém o persiga (Pr 28,1). E se é estranho que uma pessoa fuja sem que ninguém a persiga, quanto mais estranho é o ímpio fuja quando não só ninguém o persegue, mas a própria Bondade divina o chama insistentemente e corre para junto dele, oferecendo-lhe a sua misericórdia e apresentando-lhe um antídoto para os seus males, com a promessa de que lhe dará tudo o que ele pedir para a sua eterna salvação!
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Retirado do livro: “A Arte de Aproveitar as Próprias Faltas”. Joseph Tissot. Ed. Cléofas.