segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Acordo entre China e Vaticano é “iminente”


Um acordo entre o governo da China e o Vaticano sobre a situação da Igreja Católica no país não seria apenas uma possibilidade, mas seria iminente para os próximos meses.

Embora não haja um momento específico para a assinatura do acordo, “ouvi que é iminente. E na China, em muitos lugares, já se considera um trato feito”, disse Henry Cappello, presidente da organização ‘Caritas in Veritate International’, a CNA, agência s em inglês do grupo ACI, em 2 de fevereiro.

Capello viaja à China regularmente para oferecer formação aos bispos do país e tem fortes vínculos tanto com os prelados aprovados pela Santa Sé quanto com os apoiados pela associação católica patriótica chinesa, apoiada pelo governo.

Em 1951, o governo chinês rompeu suas relações diplomáticas com o Vaticano e, desde a década de 1980, cooperou vagamente nas nomeações episcopais.

Entretanto, o governo também nomeou bispos sem a aprovação do Vaticano. Isso levou a uma relação tensa e complicada entre a associação patriótica e a “igreja clandestina”, que inclui sacerdotes e bispos que não são reconhecidos pelo governo.

Muitos fiéis católicos e sacerdotes que rejeitaram o controle do governo foram presos, assediados e perseguidos.

Atualmente, todo bispo reconhecido pelo governo chinês deve ser membro da associação patriótica e muitos bispos nomeados pelo Vaticano, que não são reconhecidos ou aprovados pelo governo chinês, são perseguidos.

Vários bispos aprovados pelo Vaticano na China estão completando 75 anos, idade na qual devem apresentar a sua renúncia, e muitos outros morreram, enquanto poucos sucessores foram nomeados, provocando questões sobre se o acordo poderia estar próximo.

Capello visitou a China há duas semanas e se reuniu com Joseph Ma Yinglin, bispo de Kunming, aprovado pelo governo, o qual lhe explicou o acordo proposto.

Sem o consentimento do Vaticano, Ma foi nomeado pela associação patriótica para liderar a diocese em 2006. Depois da sua ordenação episcopal, o Vaticano declarou a sua excomunhão, porque foi ordenado bispo sem a aprovação de Roma.

Em 2010, Ma foi nomeado presidente da conferência dos bispos da associação patriótica chinesa.

Como parte do acordo, que foi amplamente divulgado nos últimos dias, espera-se que o Vaticano reconheça oficialmente sete bispos que não estão em comunhão com Roma, entre eles, dois ou três bispos, incluindo Joseph Ma Yinglin, cujas excomunhões foram explicitamente declaradas pelo Vaticano.

O novo acordo definiria aparentemente os papéis do governo da China e do Vaticano em futuras nomeações episcopais: o Vaticano proporia os novos bispos e o governo teria a decisão final.

Capello disse que a proposta já foi discutida na China e acredita que “esta é a direção na qual as coisas avançam”.

Em relação aos sete bispos que seriam reconhecidos, Dom Anthony Figueiredo, que trabalhou com eles através da ‘Caritas in Veritate’ nos últimos anos e esteve na China em julho de 2017, confirmou a notícia do acordo e afirmou que, “se o Vaticano aceitá-los e alcançarem um acordo, isso será para todos”.

Figueiredo, que vive em Roma (Itália) e viaja várias vezes por ano ao país com ‘Caritas in Veritate’, disse que trabalhou junto com os sete bispos e “eles desejam esta comunhão há vários anos”.

Ele entregou pessoalmente uma carta dos bispos ao Papa em 2016, na qual, disse, expressam ao Pontífice o seu desejo de comunhão com Roma.

“Eles não propuseram o acordo, certamente não propuseram na carta que me entregaram”, disse, indicando que, em várias ocasiões, o Vaticano enviou delegações à China para discutir os detalhes de um possível acordo.

Figueiredo assinalou que este acordo poderia ocorrer nos próximos meses e, “acho que poderia vir nesta primavera, com certeza”.

Por sua parte, Capello disse que não poderia confirmar ou negar os detalhes específicos do acordo, mas há aproximadamente duas semanas, durante sua visita à China, viu que “estamos na direção correta” sobre o que foi relatado.

“Os bispos chineses teriam uma grande voz, mas sabendo que a Igreja na China está em uma nação comunista, então a linha entre a Igreja e o Estado é muito fina”, sublinhou.

“Realmente não há preto e branco, há sobreposição, então, com certeza haveria uma contribuição do governo... seria uma colaboração”, acrescentou.

Depois de ter viajado por várias províncias da China nos últimos 25 anos, segundo Capello, há significativos progressos ??em termos de relações entre a Igreja e o governo na última década, especialmente nos últimos cinco anos.

Com este acordo, o Papa Francisco “está construindo pontes”, disse e acrescentou que acredita que os principais opositores do acordo “estão no lado equivocado da história”.

Um dos críticos mais abertos do acordo com o governo chinês foi o Cardeal Joseph Zen, Arcebispo Emérito de Hong Kong.

O Cardeal Zen foi ordenado sacerdote em 1961 e bispo em 1996. Ele teve uma longa carreira missionária na China e foi um crítico dos abusos contra os direitos humanos no país.

Suas preocupações aumentaram tanto que recentemente viajou a Roma, a fim de se reunir com o Papa Francisco e falar sobre o acordo proposto.

Em uma carta publicada em seu blog em 29 de janeiro, o Cardeal Zen disse que, apesar de o encontro com o Papa na semana passada ter sido consolador, acredita que “o Vaticano está vendendo a Igreja Católica na China e estão indo na direção na qual estão segundo o que eles estão fazendo nos últimos anos e meses”.

O Cardeal sugeriu que o Santo Padre não era consciente de tal situação e questionou se poderia ter um ponto comum com um “regime totalitário”, comparando isso a um acordo hipotético entre São José e o rei Herodes.

Além disso, afirmou que “estaria muito feliz de ser o obstáculo” do acordo entre a China e o Vaticano.

O Vaticano respondeu com um comunicado divulgado em 30 de janeiro, dizendo que o Papa está bem informado sobre o diálogo com a China, “por isso é uma surpresa e lamentável que se afirme o contrário por parte de pessoas de Igreja e se alimentem assim confusões e polêmicas”.

Em uma entrevista concedida ao jornal italiano ‘La Stampa’ em 31 de janeiro, o Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Pietro Parolin, falou sobre o acordo e, embora não tenha mencionado os comentários do Cardeal Zen, disse que “ninguém deveria aferrar-se ao espírito de oposição para condenar o seu irmão ou usar o passado como uma desculpa para provocar novos ressentimentos e fechamentos”.

Em relação ao acordo, disse que, “se pedem alguém para fazer um sacrifício, tanto grande quanto pequeno, deve ser claro para todos que esse não é o preço de uma troca política, mas entra na perspectiva evangélica do bem maior, o bem da Igreja de Cristo”.

Figueiredo disse à CNA que acredita que o Vaticano foi rápido para responder o Cardeal Zen para proteger o acordo, pois “realmente só precisa de uma pessoa do lado chinês que diga ‘não deveria seguir’, o que, disse, ocorreu no passado”.

A China é extremamente complexa, afirmou, explicando que o Vaticano chegou a um ponto de entendimento da nação que é “encorajador e significativo”.

A CNA entrou em contato com o Vaticano para uma confirmação, mas não comentaram a respeito desta situação.
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ACI Digital