quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Pedagogia Litúrgica - Janeiro 2018: "Paróquia e vida espiritual".


No decorrer destes 17 anos do Sal — serviço de Animação Litúrgica —, publicamos a Pedagogia Litúrgica inspirando-nos nas celebrações Dominicais de cada mês. A partir de janeiro de 2018, com este número, mudaremos o foco propondo uma Pedagogia Litúrgica de caráter mais prático, com conteúdos de Espiritualidade Litúrgica, Pastoral Litúrgica, Catequese Litúrgica e outros temas litúrgicos.

A finalidade é fornecer temas para se pensar a atividade Litúrgica dentro da comunidade de modo mais abrangente, não se limitando às celebrações Dominicais. Temas que, inclusive, poderão ser utilizados em reflexões com pessoas que atuam nos ministérios celebrativos, em reuniões de Equipe Litúrgica e de Equipes de Celebrações. Espero que acolham nossa proposta como uma contribuição para avivar e tornar a Pastoral Litúrgica cada vez mais proativa e transformadora à luz do Evangelho.

Nosso primeiro tema trata de uma necessidade e finalidade de toda Pastoral Litúrgica: avivar a vida espiritual dos membros da comunidade paroquial.
PARÓQUIA E VIDA ESPIRITUAL

Existem momentos e dias que um padre olha para seu trabalho e é tentado a se perguntar: que sentido tem tanto trabalho debaixo do sol? (Ecl 2,22). É um questionamento justo porque, diferentemente do trabalho de uma empresa, cujos resultados são visíveis, por exemplo, a maior parte dos resultados espirituais nem sempre é visível. São resultados que acontecem nos corações e nas mentes das pessoas. E isso pode desanimar tanto o padre como os agentes de pastorais e nós que atuamos na Pastoral Litúrgica (PL).

A primeira regra para quem atua na PL é não esperar elogio. Dependendo da comunidade, as críticas sempre superam os elogios; isso cansa e desanima. Não esperar elogio porque sempre haverá aquele ou aquela que colocará um defeito. São os críticos de plantão, que tampouco colocam a mão na massa. Vivem na zona de conforto das críticas. O que fazer, então?

Fazer o simples, o ordinário; adotar o movimento da semente, que vai produzindo vida escondendo-se no fundo da terra. Quem cultiva a espiritualidade da simplicidade é um bom candidato para trabalhar na PL. Quem entra na PL para aparecer, cedo ou tarde deixará o ministério por não ter sido reconhecido com “seus talentos, com seu esforço e bla bla bla”. Muitos agentes da PL são injustiçados; tenho certeza disso. Por isso, com maior razão, a necessidade do cultivo da espiritualidade da simplicidade, inspirando-se no ensinamento de Jesus: “fizemos o que precisava ser feito; somos servos inúteis” (Lc 17,10) Inúteis não no sentido de imprestáveis, mas no sentido que “útil”, no trabalho da PL, é a atividade realizada pelo Espírito Santo. Dito em duas palavras: a PL não é palco para aparecer na comunidade, é um serviço para favorecer a ação do Espírito Santo na comunidade.

Um primeiro passo, portanto, consiste em descobrir o valor da simplicidade e até mesmo da pobreza naquilo que é essencial para a PL. O essencial não é criar Missas animadíssimas, com cantos e gestos, com palavras de ordem e coisas do gênero. O essencial não é entupir a celebração de símbolos e sinais, de cantos e de coreografias. Isso pode existir, mas quando perde a simplicidade, então deixa de ser essencial. Inspiro-me no que diz a SC 34 ao caracterizar o ato celebrativo pela brevidade, simplicidade, clareza e solenidade.

A PL torna-se eficaz à medida que exerce um trabalho simples e persistente, não superior aos seus limites e às suas próprias forças (SL 131,1). A PL é uma das principais responsáveis pela vida espiritual da paróquia e de cada comunidade. Não tenho receio em afirmar que a espiritualidade paroquial não se inspira em algum movimento ou em alguma congregação ou ordem religiosa, mas na espiritualidade litúrgica. E, como reconhece aqueles padres e leigos que se dedicam ao trabalho espiritual, a espiritualidade é semeada com o mesmo critério da parábola do semeador (Mt 13,1-9). O processo de semear sempre, de não voltar para colher, porque a colheita não pertence a Paulo ou a Apolo; é o Espírito Santo que faz produzir os frutos e é Deus quem colhe (1Cor 3,6). Na PL nós trabalhamos com a pequena semente do Reino (Mc 4,26). Jesus fala de uma semente de mostarda, a menor de todas as sementes (Mt 13,32), e não da semente do coco-do-mar, a maior semente do mundo, que pesa 22 quilos. É até bom que não seja essa semente; seria extenuante semeá-la todos os dias? Nosso trabalho de favorecer a espiritualidade paroquial consiste em semear a menor de todas as sementes em cada celebração.

O que caracteriza a PL na paróquia é a criatividade para cultivar as pequenas e ordinárias sementes de vida que aparece no cotidiano de cada paroquiano. Isso acontece dentro da celebração. Se as celebrações forem dispersivas, a semente será levada pelo vento da distração, das cantorias que embalam e de longas e cansativas pregações. Ou, poderá cair em terreno arenoso: cresce um pouco, mas sem consistência. Por isso, o grande, o maior desafio da PL, consiste em ser criativa para ajudar cada celebrante a viver o Evangelho na simplicidade do dia-dia e, para isso, serve celebrar a Liturgia em toda sua simplicidade orante, meditativa, cantante, adorante.


Serginho Valle