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quinta-feira, 2 de novembro de 2017

O Valor da Linguagem Simbolista


Após a acerba campanha ou desconfiança que o racionalismo do séc. XIX ocasionou contra o simbolismo, diz-se que hoje em dia o mundo ocidental (a cultura européia e americana) está de novo descobrindo o valor dos símbolos.

Com efeito, os recentes estudiosos da história, da psicologia, e até da psicanálise, afirmam cada vez mais categoricamente que o recurso a imagens e figuras é espontâneo ao indivíduo que pensa e fala; constitui uma exigência da natureza psicofísica do homem. Este adquire, sim, todas as suas noções a partir dos sentidos ou de imagens materiais; e, embora reflita sobre estas, abstraindo conceitos universais, metafísicos, jamais se pode desvencilhar, nem ao raciocinar nem ao exprimir as suãs conclusões, das figuras sensíveis donde parte o seu conhecimento. Mesmo no homem moderno, por mais "racionalista" que pretenda ser, tem sido comprovada a sobrevivência subconsciente de grande número de imagens, símbolos, que são o suporte e veículo de sua ciência. Isto quer dizer também: mesmo o indivíduo mais "realista" vive de imagens; e este simbolismo subconsciente é às vezes mais forte do que a vida consciente do indivíduo. O que o homem pode fazer, é apenas camuflar ou mutilar os símbolos; nunca, porém, os consegue eliminar de sua mente. O simbolismo tem por fim exprimir as mais secretas modalidades, os finos matizes dos objetos, ou ainda aquilo que a intuição apreende, mas as fórmulas já não sabem traduzir adequadamente. A imaginação, devidamente utilizada, mostra o que é refratário ao conceito, ao raciocínio. A justo título se diz que o homem que não tem "imaginação" ou dela não quer usar, se separa da realidade profunda da vida e do seu próprio psiquismo; esteriliza a sua atividade e produtividade. 

Ora bem se compreende que, principalmente ao se tratar de exprimir verdades religiosas, o simbolismo tenha função importante; as proposições religiosas, por definição, versam em torno de objetos transcendentes, que a razão e os conceitos humanos não podem definir de maneira cabal e exaustiva. Assim se explica que a Escritura Sagrada, aproveitando a inclinação inata do homem (mesmo do varão culto) ao simbolismo, faça uso deste (e uso assaz frequente) para transmitir verdades sobrenaturais. Podem-se encontrar conclusões de estudos modernos sobre o assunto na obra de Mircea Eliade, Images et Symboles (Paris, 1951).


Dom Estêvão Bettencourt, OSB
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Para Entender o Antigo Testamento

Livraria Agir Editora