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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Homilética: 2º Domingo do Tempo do Advento - Ano B: "Trigo ao celeiro, palha ao fogo!"


No domingo passado Deus nos pedia para estar alertas e vigiar. Hoje através do profeta Isaías (1ª leitura) e João Batista nos urge a preparar o caminho do nosso coração para receber Cristo (evangelho). Isto supõe uma luta contra o pecado e um imenso trabalho pela santidade para levar uma vida sem mancha nem censura (2ª leitura). São João Batista, ao falar assim tão forte e convicto, sacudiu as colunas da religião e os corações dos homens, e os nossos corações. Então, os homens e mulheres abriram para ele as contas correntes das suas vidas- e nós? -, os sacerdotes de Jerusalém lhe abriram um expediente - também nós? -, o rei Herodes lhe abriu as portas da masmorra de Maqueronte e, a pedido de uma corista, cortou a cabeça de João para não escutar esses gritos ensurdecedores, tomara que nós nunca!-. Caiu eliminado como um profeta.

Pontos da ideia principal

Textos: Is 40, 1-5.9-11; 2 Pe 3, 8-14; Mc 1, 1-8 

Em primeiro lugar, não podemos negar que este São João Batista, que em cada ano vem ao nosso encontro no Advento, é um “sujeito esquisito” aos olhos deste mundo cheio de prazeres, consumista, que se interessa só com esta vida e é ambiciosamente competitivo. Vestia áspero como um camelo, comia gafanhotos na grelha do sol e mel silvestre, bebia agua do rio, vivia solteiro conventual e amanhecia do mesmo jeito que quando chegava o anoitecer: rosto por terra e em oração. Ele era radical. E durante o dia, era gritar para preparar os caminhos do Senhor. Sim, os caminhos da consciência, para livrá-la de tanta fuligem acumulada pelo pecado. Sim, os caminhos da mente, para que se abra aos critérios de Deus, e não ande por ai destilando ideias liberais e opostas à sua Palavra salvadora no campo da moral familiar, sexual e doutrinal que raspa à ambiguidade, quando não à heresia. Sim, os caminhos da afetividade, para que essa força poderosa que temos ame Deus sobre todas as coisas e o próximo, por cima do egoísmo, dos apegos e das túrbidas ovações pessoais. Sim, os caminhos da vontade, para que sempre escolha na liberdade e no amor o que Deus pede para a nossa felicidade temporal e para a nossa salvação eterna, embora exija sacrifício, renúncia e meter freio no capricho e na inconstância. Obrigado, João Batista, por nos lembrar disto neste tempo do Advento, embora a sua voz nos incomode e atordoe!

Em segundo lugar, embora este João Batista seja, num certo sentido, um “sujeito esquisito”, aos olhos de Cristo, porém, é amigo do Esposo e um grande profeta porque durante a sua curta vida só falou das três coisas que preocupam os homens e as mulheres de todos os séculos, raças, culturas, religiões, continentes: primeiro, que somos maus; segundo, que temos que ser bons; e terceiro, que devemos nos reconciliar com Deus. Pouca coisa! Os leigos, os padres, os bispos e o Papa, pregamos estas verdades? Três verdades: pecado, arrependimento e reconciliação. João Batista atirava a flecha nessas três dianas. O tiro certeiro da sua flecha chegou a todos?

Finalmente, se hoje voltasse este João Batista com esses cabelos, essa palavra afiada e essa vida, não seria anacrônico? Seria bem recebido, quando não lhe interessa o dinheiro, nem o bem-estar nem a comodidade nem o prazer nem…? Não tenho a menor dúvida de que, se hoje voltasse e fundasse cátedra de espartano nas margens de qualquer rio de um lugar perdido por ai ou num arranha-céus americano… Seria um eletroímã: todos iriam onde ele estivesse. Porque vendo bem as coisas, se os homens de hoje buscam algo, é a autenticidade e ele foi bem autentico; bravura, ele foi bravo; toque divino, ele era um tocado de Deus; visionário de transcendências divinas, ele era um visionário. Ou talvez eu esteja errado.
Para refletir

A liturgia do Tempo do Advento não somente nos faz recordar as promessas de Deus sobre o Messias, mas também nos vai mostrando os traços da missão desse Salvador tão prometido e tão esperado.

O profeta Isaías usa uma imagem impressionante: do velho tronco de Jessé, isto é, da dinastia já antiga de Davi, nascerá uma hastesinha, modesta, frágil, pequena: um rebento! Querem coisa mais frágil, mais débil? Qualquer criancinha pode, travessa, quebrar, estiolar uma haste… E, no entanto, sobre este rebento tão frágil repousará o Espírito do Senhor. Esta haste é o ungido pelo Espírito, é o Messias, o Cristo de Deus, brotado da Casa de Davi! João, o Batista, dirá no Evangelho de hoje que “ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo”, isto é, com o fogo do Espírito! Só ele pode fazer isso, porque somente ele é pleno do Espírito: “Espírito de sabedoria e discernimento, Espírito de conselho e fortaleza, Espírito de ciência e temor de Deus”. Como é Santo o Messias prometido pela boca dos profetas! Porque pleno do Espírito, ele é justo: ele não julgará pelas aparências nem decidirá somente por ouvir dizer, mas trará a justiça para os humildes e uma ordem justa para os pacíficos”. Eis: ele vem para quem tem um coração pobre, para os que têm consciência que, sozinhos, não poderão nunca levar o peso da vida. Somente os pobres poderão acolhê-lo, reconhecê-lo, alegrar-se com sua chegada: sua justiça é justiça para quem chorou, para quem sentiu fraqueza física, moral, psíquica, econômica ou existencial… “Com justiça ele governe o vosso povo; com equidade ele julgue os vossos pobres. No seus dias a justiça florirá e grande paz até que a lua perca o brilho! Libertará o indigente que suplica, e o pobre ao qual ninguém quer ajudar. Terá pena do humilde e do infeliz, e a vida dos humildes salvará. Todos os povos serão nele abençoados, todas as gentes cantarão o seu louvor!” Que Rei bendito! Que santo Messias! Que esperança para o nosso coração cansado, para o nosso mundo desiludido! Porque ele vem curar os corações, vem trazer o perdão de Deus, aqueles que o acolherem conhecerão a paz verdadeira: “O lobo e o cordeiro viverão juntos e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito; o bezerro e o leão comerão juntos e até mesmo uma criança poderá tangê-los. A vaca e o urso pastarão lado a lado, enquanto suas crias descansam juntas; o leão comerá palha como o boi; a criança de peito vai brincar em cima do buraco da cobra venenosa; e o menino desmamado não temerá pôr a mão na toca da serpente. Não haverá danos nem mortes… porque a terra estará repleta da ciência do senhor quanto as águas que cobrem o mar…” Que sonho: uma humanidade reconciliada, um mundo de paz, um homem uma criação em harmonia… Eis o sonho do Messias, eis o dom que ele traz! São Paulo diz, na Carta aos Romanos, que Cristo realiza este sonho prometido. A primeira reconciliação que ele trouxe foi unir num só povo, numa só humanidade, o que antes era dividido: judeus e pagãos. Quem o acolhe agora é parte de um novo povo – a Igreja!

Mas, esta paz precisa ainda aparecer claramente no mundo! E aqui, não nos iludamos: o mundo não conhecerá a paz de verdade, o coração humano não conhecerá o sossego enquanto não acolher de verdade o Cristo do Pai, o Senhor Jesus! O sonho que Deus sonhou para nós e para toda a humanidade ao enviar Jesus, não poderá ser sonhado e realizado sem o nosso “sim”. E o trágico é que o mundo vai dizendo “não”. Este Natal encontrará o mundo mais pagão que o do ano passado… Que pena!

Nós, cristãos, temos, no entanto, uma missão neste mundo, nesta situação atual. Escutemos o profeta: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo! Raça de víboras! Quem vos ensinou a fugir da ira que v ai chegar? Produzi frutos que provem a vossa conversão! O machado está na raiz da árvore e toda aquela que não produzir fruto será cortada e lançada ao fogo!” Caros irmãos, o Advento, tempo de alegre expectativa, é também tempo de juízo. O mundo precisa do nosso testemunho, da nossa palavra de esperança, do nosso modo de viver inspirado no Evangelho! Chega de um bando de cristãos vivendo como todo mundo vive, pecando como todo mundo peca, medíocres como todo mundo é medíocre! Se não dermos frutos, seremos cortados! Vivemos num mundo que não somente é descrente como também zomba da fé: as porcarias das novelas, a corrupção dos governantes, a imoralidade sexual, e dissolução das famílias, a imoralidade da ciência prepotente que se julga senhora do bem e do mal, as calúnias e mentiras contra a Igreja, o modo de viver de quem não tem esperança… E muitos de nós, que nos dizemos crentes, não notamos isso, vivemos numa boa entre os pagãos e como os pagãos… E ainda nos dizemos cristãos!

O roxo desse tempo convida-nos à vigilância, a compreendermos que Aquele que vem com amor, que vem como Salvador, nós o podemos perder para sempre se não nos abrirmos para ele no aqui e no agora de nossa existência. Não brinquemos com a vida que temos: ela poderá ser plenificada pelo Santo Messias com a glória do céu; ou poderá ser perdida para sempre, longe do Cristo de Deus, num total absurdo, a que chamamos inferno! Não esqueçamos: o sonho de Deus é lindo: é de salvação e de paz! Levemo-lo a sério, vivamo-lo e sejamos suas testemunhas no mundo de hoje! Não relaxemos, não desanimemos, não nos cansemos de esperar. Como diz a profecia de Isaías, numa de suas passagens mais misteriosas: “Sentinela, que resta da noite? Sentinela, que resta da noite? A sentinela responde: ‘A manhã vem chagando, mas ainda é noite’. Se quereis perguntar, perguntai! Vinde de novo!” (Is 21,11s). Quanto restará da noite deste mundo? Não sabemos! Mas, a manhã, a aurora radiosa do dia do Messias virá! Nós somos as sentinelas que o Senhor colocou na noite deste mundo. Vigiemos! Ainda que tantas vezes nos perguntemos: Meu Deus, “quanto resta de noite?” O Senhor não nos impede de perguntar: “se quereis perguntar, perguntai…” Mas – atenção! – ele não aceita que percamos a esperança, que deixemos nosso posto de vigia: “Vinde de novo!” eis, novamente, o convite que ele nos faz: Vinde de novo! Recomeçai, retomai a esperança, vigiai: ainda é noite, mas a manhã luminosa vem chegando! Vem, Senhor Jesus! Vem, ó Santo Messias! Tem piedade de nós! Amém.