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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Psicologia da Tentação


Segundo o Doutor Angélico, o oficio próprio do demônio é tentar. No entanto, imediatamente acrescenta que nem todas as tentações que os homens padecem procedem do demônio, há as que têm sua origem na própria concupiscência, como diz o apóstolo Tiago: “Cada um é tentado pela sua própria concupiscência, que o atrai e alicia” (São Tiago 1,14). 

Contudo, é certo que muitos tentações procedem do demônio, que é conduzido por sua inveja contra homem e seu orgulho contra Deus. Consta expressamente na revelação divina: “Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio; pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal nos ares” (Efésios 6,11-12). E São Pedro compara o demônio a um leão enfurecido que anda dando voltas em torno de nos, desejando devorar-nos (I São Pedro 5,8).

Não existe uma regra fixa ou sinal claro para distinguir quando a tentação procede do demônio ou de outras causas. No entanto, quando a tentação é repentina, violenta e tenaz; quando não houve nenhuma causa próxima nem remota que possa produzi-la; quando causa profunda perturbação na alma ou sugere o desejo de coisas maravilhosas ou espetaculares, ou incita a desconfiar dos superiores ou a não comunicar nada do que acontece ao diretor espiritual; pode se tratar bem tudo isso de uma intervenção mais ou menos direta do demônio.

Deus não tenta nunca a ninguém incitando-o ao mal (Tiago 1,13). Quando Escritura fala das tentações de Deus, usa a palavra "tentação” em seu sentido amplo, como um simples experimento de uma coisa – tentare, id est, experimentum semure de aliquo – e não com relação à ciência divina (que sabe tudo), mas sim em relação ao conhecimento e proveito do próprio homem. Mas Deus permite que sejamos incitados ao mal por nossos inimigos espirituais para dar-nos oportunidade de obter maiores merecimentos. Jamais permitira que sejamos tentados além de nossas forças: “Deus é fiel: não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, mas com a tentação ele vos dará os meios de suportá-la e sairdes dela” (1 Coríntios 10,13 ). São inumeráveis as vantagens da tentação vencida com a graça e ajuda de Deus. Porque humilha Satanás, faz resplandecer a glória Deus, purifica nossas almas, enchendo-as de humildade, arrependimento e confiança no auxílio divino; obriga-nos a estar sempre vigilantes e alerta, a desconfiar de nós mesmos, esperando tudo de Deus, mortificar os nossos gostos e caprichos; incita à oração, aumenta nossa experiência e nos torna mais circunspectos e cautelosos na luta contra nossos inimigos. Com razão São Tiago diz que é “bem-aventurado o homem que suporta a tentação, porque, depois de sofrer a provação, receberá a coroa da vida que Deus prometeu aos que o amam” (São Tiago 1,12). Mas para obter todas estas vantagens é mister praticar a luta com o fim de obter a vitória com o auxilio de Deus. Para isso Ele nos ajudará muito a conhecer a estratégia do diabo e a forma de reagir conta ela.

Psicologia da Tentação

Talvez em nenhuma outra página inspirada apareça com tanta transparência e claridade a estratégia sacada pelo demônio em seu oficio de tentador como o relato impressionante da tentação da tentação da primeira mulher, que causou a ruína de toda humanidade. Examinemos o relato bíblico, deduzindo os seus ensinamentos mais importantes.

a) O tentador se aproxima – Nem sempre o temos ao nosso lado. Alguns  Santos Padres e teólogos acreditam que ao lado do anjo da guarda, delegado por Deus para o nosso bem, todos nós temos um demônio, designado por Satanás para nos tentar e nos empurrar para mal, mas esta suposição não pode apoia-se em nenhum texto da Sagrada Escritura totalmente claro e indiscutível. Parece mais provável que a presença do demônio ao nosso lado não é permanente e contínua, mas sim circunscrita aos momentos da tentação. Isso parece se depreender de certos relatos bíblicos, sobretudo as tentações do Senhor no deserto, as quais terminadas o texto sagrado diz expressamente que o demônio se afastou d’Ele por certo tempo: “diabolus recessit ab illo usque ad tempus” (São Lucas 4,13). Mas, embora às vezes se afaste de nós, o certo é que outras muitas vezes o demônio nos tenta. Embora muitas vezes se lance repentinamente ao ataque sem prévia preparação – com o fim de surpreender a alma – outras muitas, no entanto, se insinua cautelosamente, não propondo em seguida o objeto de tentação, mas sim envolvendo em diálogo a alma.

b) Primeira insinuação – “É verdade que Deus vos proibiu comer do fruto de toda árvore do jardim?”

O demônio ainda não tenta, mas leva a conversa ao terreno que lhe convém. Sua tática continua sendo a mesma hoje como sempre. As pessoas particularmente inclinadas a sensualidade ou as dúvidas contra fé sugerirá em termos gerais e sem incita-las ainda mal, o problema da religião ou da pureza. “Realmente Deus exige o assentimento cego de vossa inteligência ou a total imolação de seus apetites naturais?”

c) A resposta da alma – Se a alma, percebendo que a simples abordagem do problema representa para ela um perigo, se recusar a dialogar com o tentador – direcionando, por exemplo, seus pensamentos e imaginação a outros assuntos completamente alheios - a tentação é estrangulada ainda na preparação e vitória obtida é tão fácil como redundante: o tentador se retira envergonhado ante olímpico desprezo. Mas se a alma imprudentemente aceitar o diálogo com o tentador, se expõem grande perigo de sucumbir:

“A mulher respondeu-lhe: Podemos comer do fruto das árvores do jardim. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Vós não comereis dele, nem o tocareis, para que não morrais”.

A alma se da conta de que Deus lhe proíbe terminantemente realizar aquela que ação, entreter-se naquela duvida, fomentar aquele pensamento ou alimentar aquele desejo. Não quer desobedecer a Deus, mas está perdendo tempo recordando que não deve fazer isso. Muito mais simples seria não haver chegado sequer a ter que recordar seus deveres morais, estrangulando a tentação em seu inicio e não se preocupando sequer a ponderar as razões pelas quais deve fazer aquilo assim!

d) A proposta direta ao pecado – A alma deu terreno ao inimigo, e este ganha força e audácia para tentar o ataque direto:

“Oh, não! – tornou a serpente – vós não morrereis! Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecedores do bem e do mal”.

O demônio apresenta um panorama deslumbrante. Por trás do pecado se encontra uma felicidade inefável. Ele não sugere a alma o pensamento de que "sereis como Deus" – esta utopia só pôde apresentar uma vez – mas lhe diz que será feliz se se entregar ao pecado novamente. “Em todo caso – ele acrescenta – Deus é infinitamente misericordioso e perdoara com facilidade. Goza uma vez mais do fruto proibido. Nenhum mal te acontecerá. Não tem a experiência de outras vezes? Enquanto desfruta, que coisa fácil te és sair do pecado pelo arrependimento imediato!”

Se a alma abre seus ouvidos para estas insinuações diabólicas, está perdida. Em absoluto ainda há tempo para retroceder – a vontade ainda não deu seu consentimento – mas se não cortar o ato com energia, estará em gravíssimo perigo de sucumbir. Suas forças vão se debilitando, as graças de Deus são menos intensas e o pecado vai se apresentando cada vez mais sugestivo e fascinante.

e) A hesitação – Escutemos o relato bíblico:

“A mulher, viu que o fruto da árvore era bom para comer, de agradável aspecto e mui apropriado para alcançar a sabedoria...”

A alma começa a hesitar e perturbar-se profundamente. O coração bate violentamente dentro do peito. Um estranho nervosismo se apodera de todo seu ser. Não quer ofender a Deus. Mas, por outro lado, um panorama tão sedutor se coloca a diante! Inicia-se uma luta muito violenta que não pode prolongar-se muito tempo. Se a alma em um esforço supremo e sob a influência de uma graça eficaz, percebe que se fez indigna por sua imprudência, se decide permanecer fiel à seu dever, será fundamentalmente vencedora, mas com suas forças abaladas e com um pecado venial em sua consciência (negligência, semi-consentimento, hesitação diante o mal). Mas na maioria das vezes dará o passo fatal até o abismo.

f) O consentimento voluntário – “Tomou dele, comeu, e o deu dele também ao seu marido, que comeu igualmente”.

A alma sucumbiu plenamente à tentação. Cometeu o pecado e muitas vezes – por escândalo ou cumplicidade – faz os demais cometerem também.

g) A desilusão – “Então os seus olhos abriram-se; e, vendo que estavam nus, tomaram folhas de figueira, ligaram-nas e fizeram cintos para si”.

A pobre alma percebe que perdeu tudo. Está completamente nua diante de Deus: sem a graça santificante, sem as virtudes infusas, sem os dons do Espírito Santo, sem a habitação amorosa da Santíssima Trindade, com perda total de todos os méritos feitos à custa de um enorme esforço ao longo de toda sua vida. Causou um desmoronamento instantâneo de toda sua vida sobrenatural, e está só, em meio daquela pilha de ruinas, sua amarga decepção e gargalhada sarcástica do tentador.

h) A vergonha e o remorso – Imediatamente se faz ouvir, inflexível e terrível, a voz da consciência que censura o crime cometido:

“Ouviram Yahweh Deus que passeava no jardim à brisa do dia. Então o homem e a mulher esconderam-se da presença de Yahweh Deus, entre as árvores do jardim. Yahweh Deus chamou o Adão: “Adão, onde estás?

Esta mesma pergunta formulada ao pecador por sua própria consciência, não tem contestação possível. Só cabe ante ela cair de joelhos e implorar o perdão de Deus pela infidelidade cometida e aprender com a dolorosa experiência a resistir diante do tentador, desde o primeiro momento, ou seja, desde a simples apresentação da questão, quando a vitória é fácil e o triunfo seguro debaixo do olhar amoroso de Deus.


(Royo Marin O.P, Teologia de La Perfeccion Cristiana , pag. 308-312)
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