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domingo, 29 de outubro de 2017

Particularidades de linguagem dos semitas (Capítulo 3 – Parte 1/4)


No capítulo anterior, dizia-se que a inspiração divina não extingue a contribuição do escritor humano na redação dos livros sagrados. É o que nos leva agora a investigar e analisar as particularidades de expressão e estilo com que os autores do Antigo e do Novo Testamento marcaram as páginas bíblicas.

Três são os idiomas comumente ditos sagrados, idiomas de que Deus se quis servir para falar aos homens na Bíblia: o hebraico, o aramaico e o grego.

O adjetivo "hebraico" se deriva do nome do Patriarca Heber ('Êbher ou 'Ibhri, um dos pósteros de Sem, filho de Noé (cl. Gên 10,21-25). Foi de Heber que tomou nome o povo oriundo de Abraão, também descendente de Sem: o povo hebreu", cuja língua materna, tradicional, é o hebraico. 1
  

Entre outros descendentes de Sem, conta-se ainda Arara, do qual tomou nome a nação Araméia ou Síria, residente na Sina e na Alta Mesopotâmia; era dotada de língua muito semelhante ao hebraico, mais rica, porém, e sutil do que este. O aramaico se foi tornando cada vez mais comum entre os povos do Oriente (principalmente em suas relações diplomáticas; cf. 4 Rs 18,26), de modo a vir a ser nos séc. IV/III a.C. a língua usual do próprio povo de Abraão (cf. Ne 13,24), ficando o hebraico reservado para o culto sagrado; no tempo de Cristo, era o aramaico o idioma falado entre os judeus.

Os idiomas hebraico e aramaico, portanto, pertencem ao grupo das línguas semíticas. 2

Em hebraico foram redigidos quase todos os livros do Antigo Testamento. O aramaico é o idioma original de fragmentos do Antigo Testamento (Dan 2,4b-7,28; Esdr 4,8-6,18; 7,12-26; Jer 10,11), assim como do Evangelho de S. Mateus, o qual, porém, hoje só existe em tradução grega.

É possível que também os livros de Tobias e Judite, dos quais atualmente só se conhecem traduções, hajam sido redigidos originariamente em aramaico.

Em grego foram concebidos, no Antigo Testamento, o livro da Sabedoria e o 2º dos Macabeus; outrossim todo o Novo Testamento (com exceção do Evangelho de S. Mateus). 

Deve-se notar ainda que a tradução grega do Antigo Testamento dita dos Setenta Intérpretes, oriunda em Alexandria (Egito) nos séc. III/II a.C., é de grande valor filológico para se reconstituir tanto o teor original de algumas passagens como a mentalidade dos antigos judeus.

Esses três idiomas são, na Sagrada Escritura, veículos de mentalidade bem característica - a mentalidade semítica ou, mais precisamente, hebraica. Com efeito, os escritores bíblicos, mesmo os que escreveram em língua grega, eram hebreus ou, pelo menos (como no caso de S. Lucas), herdeiros, em grande parte, da cultura religiosa do povo de Israel. 3

Sendo assim, torna-se importante para o estudo dos livros sagrados ter em vista as notas constitutivas do que se chama "o gênio" ou "espírito" da língua hebraica. Serão expostas abaixo no § 1.0, ao qual se seguirá o § 2.0, concernente aos antropomorfismos bíblicos em particular. De resto, o presente capítulo se prolongará no cap. IV, que há de considerar o uso do nome e dos números nas páginas sagradas.

Dom Estêvão Bettencourt, OSB

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1 Este mesmo povo é também dito "israelita", nome derivado de Israel (ou Jacó), um dos netos de Abraão. Chama-se igualmente "o povo judeu", apelativo proveniente de Judá. Judá era um dos doze filhos de Jacó ou Israel; já que a tribo de Judá se tornou a estirpe do Messias, todo o povo messiânico ou israelita tomou outrossim o nome de "judeu" ou "judaico", mormente quando após o exilio babilônico foram os filhos de Judá que, em maior número, voltaram à Palestina e reconstituíram a nação sagrada (séc. VI a.C.).

2 Eis como se localizam os dois idiomas dentro da respectiva família linguística.

3 C. Charlier julga que o Evangelho de S. João, embora escrito em grego vulgar correto, pode ser considerado obra-prima do gênio literário semita. Cf. La Zecture chréticnne de Ia Bible (Maredsousa, 1950), 45.
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Para Entender o Antigo Testamento

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