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terça-feira, 31 de outubro de 2017

Os Antropomorfismos Bíblicos I (Capítulo 3 - Parte 3/4)


A natureza personificada

Já que o oriental se comprazia em conceber o mundo inteiro como animado, fazendo eco ao dinamismo do homem, compreende-se que os hagiógrafos não tenham hesitado em atribuir figura humana, partes ou membros do corpo humano, aos elementos irracionais. Praticavam assim o antropomorfismo11 ao falar da natureza, antropomorfismo do qual eis aqui alguns casos típicos:

o poço de Beer é convidado a subir (!) e soltar clamores de alegria, por ocasião da vitória de Israel (cf. Núm 21,17s)

os montes prorrompam em júbilo, e as árvores do campo batam as mãos em aplausos; exultem os céus e as profundezas da terra; rejubilem-se as colinas e suas florestas, por ocasião da libertação de Israel detido no exílio babilónico (cf. Is 44,23; 55,12);

o sol é como um herói que exulta ao percorrer a sua via (ci. SI 18,6);

a terra abriu a boca para tragar Datã e Abiron (cf. Núm 16,32) e receber o sangue de Abel (cf. Gên 4,11);

este sangue, por sua vez, profere um brado, que se ergue da terra aos céus (cf. Gên 4,10);

as estrelas da manhã cantavam em coro, quando Deus criou a terra (cf. Jo 38,7).

Pergunta-se: que sentido terá um modo de falar tão alheio ao nosso? 

Tais expressões constituem para os hagiógrafos mais do que ornamentos literários. Com efeito, por elas se traduz uma concepção religiosa intimamente arraigada na alma do israelita e nos escritos bíblicos em geral: a natureza toda é solidária com o homem, seu rei; é transmissora de mensagem divina, ora de repreensão (para o indivíduo ou os povos pecadores), ora de louvor e congratulação jubilosa (para quem é reto); em outros termos: a natureza reflete a voz de Deus, por ela se manifesta o Criador e o Senhor Providente. Esta verdade, aliás, é insinuada já pelas primeiras páginas da Escritura, que referem ter a natureza entrado em desordem por efeito do pecado do homem (cf. Gen 3); S. Paulo, em consequência, diz que até o fim dos tempos os irracionais "gemem", sujeitos aos abusos que deles faz o homem, e aguardam a glorificação dos filhos de Deus (cf. Rom 8, 19-22).

Expressão muito viva de solidariedade são as palavras de Já, que assim interpela o justo:

"Tu te rirás da devastação e da fome, não temerás os animais da terra. Terás uma aliança com as pedras do campo, e o bestiame da terra estará em paz contigo." (5,22s.)

Mas não somente aos elementos irracionais se aplicam os antropomorfismos na Sagrada Escritura; os hagiógrafos nos apresentam mesmo o Senhor Altíssimo sob traços humanos...

Dom Estêvão Bettencourt, OSB

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16 A expressão também era usual fora da literatura bíblica. Sófocles, por exemplo, coloca nos lábios de Ismena a seguinte exclamação: "Ó infeliz, se as coisas chegaram a este ponto, eu, quer ligue, quer desligue, que poderia ainda conseguir?" (Antígono, 40). Entenda-se: eu, por nenhum expediente, poderia mudar a situação.

17 Palavra derivada do grego: (ánthropos = homem; morphé = forma.
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