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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

O Gênio da Língua Hebraica (Capítulo 3 - Parte 2/4)


Não há dúvida, difícil é à maioria dos fiéis que desejem ler a Sagrada Escritura, adquirir o conhecimento dos idiomas originais. Todavia quem se compenetra da mentalidade ou do gênio semítico, torna-se capaz de discernir os matizes e as finuras de expressão que os livros sagrados, em boa tradução vernácula, lhe oferecem.

"O conhecimento mesmo das línguas originais se torna inútil, se não é vivificado por uma comunhão simpática e intuitiva com o gênio próprio da civilização à qual pertencia o escritor bíblico. É preciso aprender a ler entre as linhas e procurar penetrar aos poucos no ambiente de vida em que se movia o autor sagrado, ambiente que transparece no texto bíblico." 4

Pergunta-se, pois, quais as principais características de pensamento e linguagem dos autores bíblicos?

1. O gênio semita é intuitivo muito mais do que abstrativo. O que quer dizer: o judeu, ao perceber um objeto; não se preocupava grandemente com o discernimento de notas essenciais e acidentais do mesmo; apreendia-o e descrevia-o simplesmente com suas características concretas, individuais. O concreto interessava-o mais do que o abstrato.

Eis alguns casos em que o israelita, em vez de usar conceitos e termos abstratos, universais, se comprazia em circunlocuções de caráter mais concreto: Em lugar de dizer "tomar posse, dominar", o judeu às vezes preferia a expressão "lançar a sandália sobre...", que lembrava o gesto concreto ou o cerimonial da tomada de posse: 5

"Sobre Edom lançarei a minha sandália, Sobre a terra dos filisteus cantarei o meu triunfo" (Sl 59,10) cf. Sl 107,10; Gen 13,17; Dt 25,9; Jos 10,24; Rut 4,7.

A expressão "sentir-se feliz, alegre" podia ser substituída pelos dizeres "ter a alma saciada de gordura", visto ser a gordura sinal de suficiência ou plenitude, ainda hoje o alimento predileto dos árabes da Palestina:

"Minha alma será saciada como que de alimento gorduroso, E de meus lábios alegres prorromperá o teu louvor." (Sl 62,6; cf. Sl 35,9.)

Quando alguém se julgava "em perigo de vida", dizia concretamente que "trazia a sua alma nas mãos", já que "ter nas mãos" é a atitude que imediatamente precede a entrega:

"Minha alma está sempre em minhas mãos, mas não esqueço a tua lei." (Sl 118,109.) Cf. Jz 12,3; 1 Sam 19,5; Jó 13,14; Est 14,4.

"Expor a própria vida" ou "estar decidido a morrer" era equivalente a "tomar a própria carne entre os dentes", ou seja, morder-se:

"Tomo a minha carne entre os meus dentes, coloco a minha vida em minha mão." (Jó 13,14)

A ideia abstrata de posse ou de largueza, liberalidade era expressa pelo termo concreto "mão", já que a mão é o órgão que diretamente apreende ou distribui. Assim lê-se em Lev 5,7:

"Se sua mão não atingir o valor de uma ovelha...". O que quer dizer: "Se suas posses não lhe permitirem comprar uma ovelha”.

3 Rs 10,13: "O rei Salomão deu à rainha de Sabá tudo que ela desejava, como a mão do rei Salomão", isto é, "...de acordo com a opulência de um rei tal como Salomão";

Gen 43,34: "A porção de Benjamim era cinco mãos mais abundante que as porções de todos eles (seus irmãos)", frase em que "cinco mãos" significam "cinco vezes".

A figura de linguagem "mão curta" ou 'encurtada" designava parcimônia ao dar:

"A mão do Senhor seria curta demais? Verás sem demora se acontecerá ou não o que te disse!", falava Javé ao anunciar as codornizes no deserto (Num 11,23);

"A mão do Senhor não é curta demais para salvar." (Is 59,1.)

"Governar" tinha por sinônimo o termo mais concreto "julgar", e, em vez de 'Governador", podia-se dizer "Juiz", visto que, num povo primitivo, a função mais frequente de quem governa é a de julgar os litígios entre os súditos. Haja vista o título do livro dos "Juízes" (= governadores de Israel desde os tempos de Josué até a monarquia).

"Poder, força" era conceito expresso pelo vocábulo "chifre", pois é neste que parece residir a força de muitos animais:

"(Deus é) meu escudo é o chifre de minha salvação (= a força que me salva)" (SI 17,3.)

"Abaterei todos os chifres dos malvados, e os chifres dos justos serão exaltados." (S1 74,11.)

2. A tendência a fixar a atenção sobre os indivíduos concretos levava o hebreu a realçar o que há de dinâmico em cada ser; comprazia-se em considerar o comportamento e os efeitos de pessoas e coisas, mais do que o seu Valor estático, essencial. Assim tudo, de certo modo, se podia tomar vivo e agente, para o semita. 6

Os substantivos do vocabulário hebraico são os próprios verbos ou derivam-se de verbos; o verbo (ordinariamente constituído por três consoantes) é a palavra fundamental do léxico israelita. Isto bem mostra que o aspecto principal sob o qual o judeu visava cada objeto era o aspecto dinâmico, ativo. Em particular, note-se que o termo dabhar, que originariamente significava "palavra", podia igualmente designar "coisa", pois toda coisa era pelos judeus concebida primariamente como efeito, efeito, sim, direto ou indireto, da palavra criadora de Deus. Consequentemente às premissas até aqui expostas, tendia o semita a focalizar, acima de tudo, a importância vital, a mensagem prática, que pudesse estar ligada às pessoas ou coisas apreendidas. O orador e o escritor, ao dissertarem, baseavam-se muito na sua experiência pessoal e visavam despertar impressões semelhantes, muito vivas, nos seus ouvintes e leitores. Procuravam transmitir da maneira mais penetrante possível um estado de alma. Isto faz que uma página de literatura semita seja impregnada de movimento, variedade de pessoas e coisas que se sucedem com realismo; emoções, afetos diversos a perpassam. Já que a linguagem semita ficava particularmente ligada à experiência, diz-se que ela evocava ainda mais do que exprimia. 

4. Consciente de que, para transmitir a experiência ou as intuições, as palavras são por vezes pobres, o semita recorria frequentemente aos gestos, às pausas, aos artifícios da entoação de voz. O falar dos antigos judeus terá sido exuberante, teatral, como o de certos povos orientais de nossos tempos. Dada a sua vivacidade, o israelita era muito dado às expressões fortes, hiperbólicas ou contrastantes.

Hipérbole muito ousada é a do rei Benadad da Síria, que, desejando chamar a atenção para o seu numeroso exército, exclamava:

"Tratem-me os deuses com todo o rigor se a poeira da Sarnaria basta para encher a palma da mão de toda a gente que me segue!" (3 Rs 20,10.)

Hiperbólicas também são as expressões "a terra inteira, todos os povos", que certamente se referem a certas regiões ou nações apenas, em Gên 41.54.57; Dt 2,25; 2 Crôn 20,29; At 2,5.

Visando distinguir entre "amar mais" e "amar menos", o judeu empregava os termos "amar" simplesmente e "odiar", a fim de que a oposição mais se evidenciasse. É o que se verifica, por exemplo, na frase de Jesus: "Se alguém vem a Mim e não odeia pai, mãe, esposa, filhos, irmãos e irmãs, até mesmo a própria vida, não pode ser meu discípulo." (Lc 14,26s.)

O "odiar" desta frase é otimamente explicado pelo texto paralelo de Mt 10,37, onde se lê "amar menos". No mesmo sentido, em Mal 1,3, diz o Senhor: "Amei Jacó, e odiei Esaú." (Cf. Ram 9,13.) Em Jo 12,25 afirma Jesus:

"Quem ama a sua vida, perde-a; e quem odeia a sua vida no mundo presente, guarda-a para a vida eterna."

Nesta sentença a oposição "amar-odiar" significa "satisfazer desregradamente" e "coibir devidamente" as tendências da alma, podendo a coibição ou renúncia levar até a morte do martírio.

Os judeus eram particularmente dispostos a recorrer aos contrastes pelo fato de que a língua hebraica carece de forma própria para indicar o grau comparativo dos adjetivos. O confronto podia ser expresso pela justaposição de termos opostos, sendo a oposição subentendida como algo de relativo ou gradativo apenas. Esta observação ajuda a entender o texto do Antigo Testamento citado por Jesus:

"Desejo (a prática de) misericórdia, não (a oferta de) sacrifício." (Mt 9,13; cf. Os 6,6; 1 Sam 15,22.)

A afirmação quer dizer: "Mais do que os sacrifícios rituais, agrada-me o exercício da caridade e da misericórdia.' Em Mt 22,14 declara ainda o Senhor: "Muitos são chamados, poucos escolhidos." Axioma que no seu contexto semítico provavelmente significa: "Maior número é o dos homens chamados (à fé); menor número, o dos escolhidos (para a bem-aventurança eterna)”.

5. Após quanto foi dito acima, entende-se bem que os israelitas usassem de frequentes comparações e imagens, visando também por esta via impressionar mais profundamente os ouvintes. Já Que os hebreus tendiam a considerar o aspecto dinâmico e vital de cada ser, sabiam aproveitar-se largamente dos objetos materiais que os cercavam, para ilustrar verdades abstratas ou sobrenaturais; daí, na Sagrada Escritura, o uso abundante de símbolos. Estes constituem, sem dúvida, um artifício muito apto a traduzir o sentido concreto e o valor que para a vida têm as proposições religiosas. 7

As parábolas não são senão símbolos mais desenvolvidos ou explicados: constam de uma história fictícia, à qual o narrador liga determinada mensagem doutrinária. Para se depreender esta lição, não se pode esquecer que na parábola nem todos os elementos são portadores de significado superior; alguns são envolvidos na narrativa unicamente para sustentar os elementos-chaves (assim na parábola do filho pródigo, em Lc 15,11-32, não se queira atribuir valor doutrinário ao anel nem ao calçado dados ao perdulário que volta, nem ao vitelo abatido, vv. 22s; estes pormenores visam unicamente tornar mais viva a lição da parábola, que inculca a misericórdia de Deus para com o pecador).

O simbolismo tinha especial aplicação para exprimir atitudes ou qualidades de alma; em vez de usar termos próprios, neste árduo setor os judeus recorriam frequentemente a expressões derivadas do mundo irracional, às quais não deixam por vezes de nos causar estranheza (contudo o recurso se compreende bem à luz da mentalidade dos semitas: considerando primariamente a natureza em função do Criador e do homem, facilmente ligavam o conceito de determinada qualidade de Deus ou do homem com tal elemento material). Haja vista um ou outro exemplo:

a) a ideia de fraqueza humana (tanto moral como física) era expressa pelos termos 'carne, poeira e cinza: "Os egípcios são homens, não Deus 1 Os seus cavalos são carne, não espirito." (Is 31,3; cf. Gên 18,27; Jó 30,19);

b) a fortaleza, ao contrário, era associada à ideia de montanha, rochedo. Por isto Javé é a montanha, é "meu rochedo", no qual o homem se abriga encontrando amparo (cf. Si 17,3; 18,15; 613.8);

c) a beleza, o encanto (mesmo espiritual) eram significados por símbolos muito materiais. Particularmente interessante, sob este ponto de vista, é a figura do esposo no Cântico dos cânticos, cujo aspecto atraente é assim descrito:

10. "Meu bem-amado é fresco e rubicundo; Distingue-se entre dez mil.

11. Sua cabeça é ouro puro, Seus cachos de cabelos, flexíveis como ramos de palmeira, são negros como o corvo.

12. Seus olhos são como pombas à margem dos riachos, As quais se banham em leite.

13. Suas faces são como plantações de bálsamo, como canteiros de plantas aromáticas. Seus lábios são como lírios dos quais corre a mirra mais pura.

14. Suas mãos são cilindros de ouro ornados com pedras de Tarsis. Seu busto é obra-prima de marfim, recoberta de safiros.

15. Suas pernas são colunas de alabastro, pousadas sobre bases de ouro puro. Seu olhar é como o do Líbano, elegante como o cedro.

16. Sua palavra é doçura. Toda a sua personalidade é puro encanto. Tal é meu bem-amado, tal meu amigo, Ó filhas de Jerusalém!"

(Cânt 5,10-16)

Neste quadro são postas em realce três qualidades do esposo: fortaleza e virilidade, designadas pela comparação de seus membros com peças de ouro, mármore, marfim (vv. 11.14.15) ou com os imponentes cedros do Líbano (v. 16); raça e beleza masculinas, significadas pela menção de cores, elementos aromáticos ou doces (flores, árvores) nos vv. 10.11.13.15.16; pureza e fidelidade, traduzidas pelas imagens da pomba, da água, do leite (v. 12). A mente do autor não se deixava perturbar pela combinação de símbolos tão heterogêneos; de cada um destes focalizava apenas o aspecto que se enquadrava dentro do conjunto e podia evocar a ideia de encanto masculino. Para desfazer a impressão de rigidez, talvez suscitada pelos símbolos de pedras e metais preciosos, o hagiógrafo em outros lugares recorria a imagens de ordem diversa, que completavam as anteriores:

"Corre meu bem-amado, e toma-te semelhante à gazela ou ao pequenino da corça sobre as montanhas de bálsamo!" (8,14; cf. 2,17.)

Por sua vez, a figura da esposa no Cântico dos Cânticos é descrita com imagens paralelas às do esposo: a beleza feminina aparece sob os sinais de flores, palmas, objetos perfumados ou doces (cf. 2,1s; 4,10s.14); por seu encanto e pureza, a jovem é comparada à pomba (6,8s; 1,15; 4,1; 2,14); a sua fecundidade é assemelhada à de animais domésticos e cereais (4,2; 6,5s; 7,3s); 8

d) a índole agradável, aceitável, de uma oferta feita a Deus era simbolizada pelo imaginário perfume da oferenda. Para dizer que Javé a aceitava, o semita afirmava que o Senhor sentia tal aroma com prazer. Foi o que, conforme Gên 8,24, se deu quando Noé ofereceu o sacrifício após o dilúvio; Davi, estando para oferecer, esperava que a mesma coisa se desse (cf. 1 Sam 26,19). Em Ap 5,8 (cf. 8,3s), as orações dos santos sobem a Deus como agradável incenso.

Em suma, os semitas, nossos hagiógrafos, não se detinham em analisar as linhas e o contorno de cada objeto: em vão se procuraria na Bíblia a descrição de uma paisagem de sol nascente ou poente, de uma noite de luar ou de estrelas múltiplas, a evocação de uma floresta com sua vegetação, suas fontes, suas aves a cantar...

O que estes quadros têm de belo, o semita o exprimia afirmando diretamente as impressões que tais cenas causam no observador, ou seja, considerando a ação de tudo isso na sensibilidade e na mente do homem. Confirma-se assim a observação já feita: não se preocupavam tanto com o valor estático quanto com o aspecto dinâmico de cada ser. 9

6. Outra particularidade do estilo semita conexa com as anteriores é a exposição das ideias em frases paralelas coordenadas. O israelita não era muito propenso a subordinar entre si as proposições do Seu discurso. Ao contrário, tendia a desenvolver o pensamento conforme um esquema que se poderia assim reproduzir: numa proposição inicial, o orador afirmava compendiosamente o que tinha em vista dizer (propunha como que um prelúdio musical, onde já ressoava antecipadamente todo o grande tema que, a seguir, seria desenvolvido); feito isto, em frases coordenadas à primeira, repetia a mesma ideia acrescentando-lhe de cada vez uma circunstância nova, até completar a enunciação do pensamento ou a enumeração dos pormenores.

Tem-se dito, e com razão, que a arte conforme a qual os escritores judeus compunham as suas frases, não era a dos arquitetos, que constroem gradativamente de baixo para cima, mas a dos músicos, que logo de início propõem o seu tema ou leitmotiv e, no decurso da melodia, o fazem voltar com variações sempre novas.

A figura de uma espiral que se vai estreitando na direção de cima para baixo, ilustra igualmente bem o proceder estilístico dos semitas: a linha, da espiral, percorrendo círculos, volta periodicamente aos lados direito e esquerdo do eixo; nenhuma dessas voltas, porém, é simplesmente a repetição da anterior; o observador que faça o trajeto da espiral, voltando aos mesmos lados, apreende com clareza cada vez maior o ponto final. Assim também as frases paralelas dos semitas não são meras repetições, mas apresentam-se cada vez mais densas, dando a perceber ao leitor novos matizes da ideia dominante. O judeu contemplava o seu objeto de um lado, contemplava-o do outro lado, para ir aos poucos abrangendo toda a realidade; esta, principalmente quando era realidade religiosa, lhe parecia grande demais para poder ser abraçada de uma só vez. 10

A tendência dos hebreus a coordenar as ideias antes do que a subordiná-las se traduz também num pormenor filológico: para o israelita, o conceito "compreender" era expresso pelo vocábulo bin, cujo significado original é "separar, dividir"; bina vem a ser "compreensão, inteligência". Não quer isto dizer que, para o judeu, o processo de compreender consistia principalmente em perceber os diversos aspectos da verdade e formulá-los em justaposição?

Ao contrário, entre os gregos, que tanto cultivaram o raciocínio e os silogismos (cf. Aristóteles, Porfírio e outros), a "razão" era dita logos, vocábulo derivado de lego, recolher. Esta denominação não insinuaria que os gregos atribuíam a razão, como tarefa primária, o "colecionar" e 'pôr em ordem" as diversas facetas da realidade?

O silogismo (de syn e lego) não é, etimologicamente falando, senão o ato de recolher. O paralelismo semita de que falávamos acima pode ter caráter sintético ou antitético. Caráter sintético, ele o tem, quando a frase posterior acrescenta algo de novo (mas acidental) à anterior: circunstâncias de tempo, lugar, causa, etc. O caráter antitético se verifica quando a frase paralela repete em termos negativos o que a precedente disse em termos positivos; a verdade é então realçada pela justaposição dos contrastes; a segunda proposição tem por finalidade agir mais vivamente sobre o espírito do leitor. O semita, de resto, comprazia-se em despertar a impressão de "choques" de ideias. Fala-se também do paralelismo sinônimo dos hebreus, embora nem todos os estudiosos o reconheçam. Este se verificaria quando as frases só diferem entre si pelo emprego de termos equivalentes. Também neste caso a repetição não se torna supérflua; ao contrário, é bem calculada de modo a impressionar o ouvinte.

A título de exemplos de paralelismo, eis algumas passagens características:

a) no cap. VI do seu Evangelho, o Apóstolo S. João, após narrar o milagre da multiplicação dos pães (1-15), refere a longa promessa da S. Eucaristia que o Senhor fez a seguir (22-72). Notemos o lento desabrochar do pensamento de Cristo neste sermão:

Os judeus aglomeravam-se em torno do Mestre em Cafarnaum por causa do pão terrestre ou natural que ele acabara de multiplicar; diz-lhes então o Salvador:

"Em verdade, em verdade vos digo: vós me procurais, não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e estais saciados." (v. 26.)

É deste fato que Jesus parte no seu discurso. Começa por insinuar que a multiplicação dos pães devia ser entendida como sinal de realidades transcendentes. E quais seriam estas realidades?

Primeiramente em oposição ao pão da terra, que os judeus procuravam, Jesus anuncia um pão do céu, objeto mais digno das aspirações dos ouvintes.

Todavia, um pão do céu, superior ao da terra, os judeus já o conheciam: era o maná, dado por intermédio de Moisés outrora no deserto (cf. 6,31s e Ex 16,13s; Si 77,24s; Sab 16,20). Por isto, repetindo e desenvolvendo a ideia, Jesus, em ulterior instância, acrescenta tratar-se de novo pão do céu; à diferença do maná de Moisés, que não preservara da morte os israelitas no deserto, o maná dado por Cristo poderia ser dito simplesmente o pão da vida (eterna):

"Em verdade, em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu, mas é meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu; pois o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá a vida' ao mundo." (v. 32s.)

Não é tudo... Jesus mais uma vez aprofunda o seu pensamento: o novo maná, dito não apenas "pão do céu" (como no Antigo Testamento), mas já "pão da vida", é identificado com a carne e o sangue do próprio Cristo:

"Eu sou o pão da vida... Sou o pão vivo, que do céu desci.., e o pão que hei de dar, é a minha carne, para a vida do mundo... Se não comerdes a carne do Filho do homem e beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia." (v. 48.51.52.54s.)

Uma derradeira precisão ainda se impunha: tratar-se-ia da carne e do sangue do Filho do homem, não, porém, tomados em sua realidade natural e material apenas, mas enquanto vivificados pela Divindade (no caso, dita "Espirito"), que a eles estaria unida:

"É o Espirito que vivifica; a carne para nada serve." (v.64.)

Todo este discurso se deixa dispor em círculos concêntricos: Jesus falou, passando dos conceitos mais vastos e dos elementos visíveis a conceitos mais precisos, para finalmente atingir o objeto invisível, principal, contido no Pão da Vida.

Este objeto, visado desde o início do discurso, foi sendo considerado sob vários aspectos, cada vez mais próximos da realidade final, à semelhança do que se dá com a águia que, depois de ter fitado a sua futura prosa, voa sobre ela aproximando-se em círculos concêntricos, para finalmente "dar o bote" com toda a precisão:


b) outro exemplo, embora menos claro do que o anterior, encontra-se na epístola de S. Paulo aos Romanos 6,2-8. O Apóstolo ensina que todo cristão, por efeito do batismo, se acha num estado de morte (ao velho homem) e vida nova, configurada à de Cristo. Exprime-se no ritmo de "vai-e-vem" contemplativo a que acenamos:

"Nós que morremos ao pecado, como ainda viveríamos no pecado? Então não sabeis que nós todos, que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados (imersos) em sua morte? Por conseguinte, fomos com Ele sepultados pelo batismo em sua morte, a fim de que, como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, vivamos também nós uma vida nova. Se, por morte semelhante à de Cristo, fomos enxertados em Cristo, seremos enxertados também por ressurreição semelhante à dEle. Sabemos que nosso velho homem foi crucificado com Cristo, a fim de que o corpo contaminado pelo pecado fosse destruído e já não sejamos escravos do pecado... Ora, se morremos com Cristo, cremos que viveremos também com Ele.”

Este trecho não apresenta propriamente proposições concatenadas de modo a formar um raciocínio; antes, verifica-se nele a coordenação de frases que, cada qual com seus matizes, afirmam sempre a mesma verdade;

c) o paralelismo antitético dos semitas podia tomar a seguinte modalidade: para exprimir a 'totalidade", o autor enunciava os termos opostos ou extremos que circunscreviam o seu conceito ou entre os quais girava o seu pensamento. 11 Assim:

a)    a ideia de "tudo, todas as coisas" podia ser circunscrita pela expressão "o bem e o mar', já que tudo que existe de concreto é bom ou mau (cf. Eclo 11,6)

"(O Senhor) encheu-os (os primeiros pais) de ciência e inteligência; deu-lhes a conhecer o bem e o mal (ciência muito ampla)" 12


Este modo de falar ocorre também nos lábios de Jesus em Mc 3,4, onde se lê verbalmente:

"É permitido em dia de sábado fazer o bem ou fazer o mal, salvar uma vida ou extingui-la?" (Cf. Lc 6,9.)

Como conceber que Jesus tenha perguntado se é licito cometer o mal ou matar em dia de sábado? A tradução, demasiado servil, é infiel ao pensamento de Cristo, que propõe, sim, a seguinte questão: "Em sábado, quais, dentre a totalidade das obras possíveis, as que é licito praticar?" (haja vista o rigor dos fariseus em relação à observância do repouso do sábado). Ou em termos ainda mais claros: "Em dia de sábado, não será lícito fazer absolutamente nada? Não será permitido nem mesmo praticar o bem salvando uma vida?";

b) "homens e gado" era o binômio equivalente a "todos os seres vivos" (cf. Ser 36, 29; 50,3);

c) "homens e mulheres, crianças e anciãos" significava "todos os habitantes, toda a população" (cf. J05 6,21; Ser 51,22);

d) "alma e carne" designava "o homem inteiro" (cf. Is 10,18; Já 14,22);

e) "céu e terra" supria o termo "o Universo", de que carecia o hebraico (cf. Gên 1,1; Si 123,8);

f) "sair e entrar", tendo ambos os verbos o mesmo sujeito, servia para exprimir toda a atividade de um indivíduo, até mesmo as tarefas de administração régia:

"Disse-lhes (Moisés): Tenho hoje cento e vinte anos, e não posso mais sair nem entrar," (Dt 31,2.)

em 3 Rs 3,7 diz o rei Salomão ao Senhor: "Sou pequenino e jovem, não sei sair nem entrar.";

em 2 Cron 1,10 diz o mesmo: "Dai-me sabedoria e inteligência a fim de que eu possa sair diante deste povo e entrar.";

cf. 1 Sam 18, 13.16; 29,6; 2 Sam 3,25; 3 Rs 15,17; 4 Rs 11,8; 19,27; Is 31,28; Ez 43,11; Sl 120,8; J0 109; At 1,21; 9,28.

"sair e entrar", sendo diversos os sujeitos dos dois verbos, empregava-se para designar "todos os indivíduos" (sair e entrar, para o hebreu, parece ser atividade que caracteriza qualquer homem) 13

"Naquele tempo não haverá paz nem para quem sair nem para quem entrar, mas haverá terror em toda parte para todos os habitantes da terra." (2 Cron 15,5);

"Para quem sai e para quem entra (= para ninguém), não há paz." (Zac 8,10); "E retirarei de lá aquele que vai e aquele que vem (= todos)." (Ez 35,7) 14

g) "estar assentado e estar em pé", "caminhar e repousar-se" são outras fórmulas que designam toda a atividade de um indivíduo:

"Sabes quando estou assentado e quando estou em pé; Tu me observas quando caminho e quando repouso", diz o salmista ao Senhor querendo inculcar que Deus tudo sabe a respeito do homem (Si 138,2s); 15

também a expressão "ligar e desligar" indicava toda a operosidade de um homem, não somente a que se exercia em torno de vínculos. Assim diz o Senhor a Pedro, usando de uma construção tipicamente semítica:

"Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; tudo que ligares na terra, será ligado nos céus, e tudo que desligares na terra, será desligado nos céus." (Mt 16,19.)

Nesta passagem, "as chaves" designam o poder; a expressão bipartida que se segue exprime a totalidade desse poder, e significa: 'Tudo que na terra fizeres para introduzir os homens no reino dos céus, será ratificado por Deus." Não seria condizente com a filologia querer especificar os poderes expressos por "ligar e desligar".

No Antigo Testamento, lê-se em sentido análogo uni oráculo do Senhor referente ao Messias:

"Colocarei sobre as suas espáduas a chave da Casa de Davi. E, quando ele abrir, ninguém fechará; quando ele fechar, ninguém abrirá." (Is 22,22.)

O que quer dizer: "será detentor de supremo poder, extensivo a todo e qualquer setor". 16

Eis as principais natas do "gênio" linguístico dos semitas. Para se avaliar ainda melhor o que acima foi dito, é mister nos detenhamos agora sobre um ou outro particular do estilo literário semítico. É o que se fará no parágrafo e capítulo seguinte deste estudo.

Dom Estêvão Bettencourt, OSB

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4 Charll.er, ob. cit., 144

5 Observamos que as traduções modernas da sagrada Escritura não raro usam os verbos próprios, em vez de ficar presas às expressões mais concretas do texto original. Os semitismos não seriam sempre inteligíveis ao leitor moderno.

6 "Ce que, par ãxemple, nolLs considérons comme personnification littéraire correspond chez les Sémites à une perception animée du monde extérietr, car l'esprit sémitique saisit l'un4vers dans son moizvement; ii est plus sensible au dylZanflSme de la vie qu'd la cotitemplation des idées et des /orines." (E. Beaucamp, "Poésie et seus de la nature dans Ia Bible". em Bible et vie chrétienne 11 [19551 25.)

7 veja-se o Apêndice a este capítulo.

8 Ao interpretar desta forma os símbolos do Cântico dos Cânticos, seguimos a autoridade de T. Boman na sua famosa obra Das hebraeische Denken im Verglelch mit dem griechischen (Goettingen, 1954), 62-69.

9 O "Les écrivain,s sacrés te se rnontrent guêre enelins à analyser Les lignes et à dessiner Les contours. Le dynamisme de la peizsée d'israel te discerne -dans la nature que ce qui bouge. Aussi La communion entre l'homme et Les réalités extërteures s'établit-eLle par relation de mouvement à m,ouvement, ei norz par une mise en correspondance de nos dii férenis états d'àme avec lordonnance du monde matérieL" Eeaucamp, art. cit., 30.

10 "O semita diz tudo em cada frase, mas volta sucessivamente à carga, acrescentando de cada vez um retoque ou nova precisão, enriquecendo incessantemente ora este aspecto, ora outro aspecto do pensamento, apresentado compendiosamente na fórmula introdutória. Este proceder lembra um pouco os métodos da Escola de pintura impressionista de fins do séc. XIX. O escritor semita esboça primeiramente uma rápida silhueta do conjunto; a seguir, em pinceladas sucessivas, acumula sobre este esboço multidão de traços aparentemente autónomos e não raro contraditórios, traços, porém, que o olho da alma sabe polir e combinar num plano superior." Charlier, La lecture chrétienne de la Bible, 150s.

11 Aliás, não somente entre os semitas, mas entre os povos antigos em geral, assim como nas línguas modernas (se bem que em proporções mais restritas), ocorre o mesmo artificio de estilo. Ainda hoje, por exemplo, se diz: "Farei por ti o possível e o impossível" no sentido de "tudo farei por ti". Sejam mencionados alguns textos extra bíblicos da antiguidade:

Um documento egípcio fala do grande deus de Tebas, Amom, o qual criou "o que existe e o que não existe" (= todas as coisas).

Num relato egípcio do Médio Império, um camponês se dirigia ao seu juiz nestes termos: "Grande intendente, meu mestre, grande dos grandes, que governas as coisas que não existem e as que existem (= todas as coisas) ." Cf. E. Suys, Etude sur te coizte dii FelZah plaidoyeur (Rome, 1933), 1. Plauto, o poeta satirico latino, dizia de um homem glutão: "Manducavit quod fim et quod non pai. - Comeu o que havia e o que não havia." Trinummus, 360. Veja-se ainda Eurípides, Bacchantes, 800; Sófocles, Electro, 305; Ãnttgono 1109; Edipo Rei 300. Estas referências se devem a O. Lambert, "Lier-Délier. L'ezrpression de la totalíté par l'opposition de deur contraireC', em Vivre et Penser, 3éme série (1945), 91-103.

12 Verifique-se também: Gên 24,50; 31,24; 2 Sam 14,22; 14,17. Aponta-se na literatura grega um emprego semelhante da mesma expressão: conforme Sófocles, Antígono 1245, a rainha se retirou "antes de proferir algo de bom ou de mau". Entenda-se: "desapareceu sem dizer palavra".

13 A semântica da expressão "sair e entrar" é assaz curiosa e digna de nota: imagine-se uma cidade bem defendida por muralhas, como as que os antigos costumavam edificar; quanto mais fortificado era o reduto, tanto menor era a área que ocupava. Disto se seguia que qualquer atividade de certa importância implicava geralmente um "sair da cidade", ao qual se associava naturalmente um "entrar" após terminados os afazeres; assim é que o "sair" e o "entrar" (note-se bem a ordem dos termos!) compreendiam e definiam a atividade dos cidadãos. Com significado idêntico, ocorre algumas poucas vêzes na Sagrada Escritura o binómio "ir e vir".

14 Muito interessante é que a versão grega dos LXX traduziu o objeto da frase acima por "homens e gado".

15 Também se encontram paralelos desta expressão fora de Israel: O vizir do faraó Huni entregou a seus filhos, qual tesouro, um escrito em que consignara os resultados de suas longas experiências. "Então prostraram-se sobre o ventre; leram o livro como estava redigido, e isto lhes foi mais agradável do que tudo que se encontrava na terra do Egito; levantaram-se e sentaram-se de acordo com essa doutrina." (citação de A. Erman, Die Literatur der Aegypter, 100.) Assim se interpretará a frase final: os filhos do vizir dispuseram toda a sua conduta em conformidade com as instruções deixadas por seu pai.

16 A expressão também era usual fora da literatura bíblica. Sófocles, por exemplo, coloca nos lábios de Ismena a seguinte exclamação: "Ó infeliz, se as coisas chegaram a este ponto, eu, quer ligue, quer desligue, que poderia ainda conseguir?" (Antigoizo, 40). Entenda-se: eu, por nenhum expediente, poderia mudar a situação.
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Para Entender o Antigo Testamento
Livraria Agir Editora