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quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Crise de fé, crise moral


A crise da fé e a crise da ética atual são realidades intimamente conexas, já que a moral ocidental nasceu da cultura gerada pelo judeu-cristianismo.

A questão fundamental é a fé em Jesus Cristo, o encontro com a sua Pessoa. A fé é um dom; mas, deve suscitar uma resposta, impregnando o modo de pensar e de viver e compreender a realidade.

A fé nos faz ver e avaliar a partir de Deus como Se revelou em Jesus Cristo e é anunciado pela Igreja desde os tempos apostólicos. Ela nos dá uma nova percepção da realidade e da vida, mais global, profunda e verdadeira que qualquer outra percepção, gerada por qualquer outro ponto de vista, por válido e positivo que seja: a fé nos faz avaliar e viver segundo Cristo, segundo os critérios do Evangelho de Cristo!

O conhecimento provindo da fé nos ajuda a compreender Deus, nós mesmos e o próprio mundo. Tem-se, então, um conhecimento mais profundo que o filosófico e científico. Fé, filosofia e ciência não se contrapõem, mas a fé abre novas possibilidades àquelas pois, sem em nada forçar ou desfigurar os métodos dessas áreas de saber, oferece-lhes uma possibilidade mais profunda para interpretar a realidade.

É somente como resposta do homem livre a Deus que Se nos revelou e Se nos deu em Jesus Cristo que se pode compreender a moral cristã: não como algo imposto de fora, mas consequência de um “sim” livre e amoroso dado a Deus em Cristo. Todo amor é consequente, é exigente! Daqui brota uma ética da fé: um modo de viver inspirado, fundado e alimentado pela fé em Cristo, nascido do encontro vivo com Ele.
Tal encontro, no entanto, porquanto pessoal, dá-se sempre no “nós” da Igreja. É na Comunidade que ouve a Palavra, celebra os sacramentos e procura viver no Senhor, que o encontro pessoal com Cristo torna-se sempre objetivo, real e não fruto de uma ilusão ou delírio subjetivo.

Um Jesus que não seja o Jesus da Igreja de todos os tempos e presente na Igreja atual fiel à fé apostólica, é ilusório, fruto de nossos preconceitos. Por isso, a moral tal como a Igreja apresenta, não é algo que nos vem de fora para impor, mas, expressão exigente de um amor radical: o de Deus que tanto nos amou em Cristo, e o nosso, que deve concretizar-se no dizer “sim” aos apelos do Senhor com um modo de pensar, julgar e agir próprios do Evangelho.

A espiritualidade e a moral devem caminhar juntas: Uma moral sem espiritualidade seria moralismo asfixiante e desumanizador. Se o mundo percebe a moral cristã assim, é porque falta a experiência viva e pessoal do encontro com Jesus Cristo! Por outro lado, a espiritualidade verdadeira exige a moral: seguir a Cristo compreende a resposta concreta aos seus apelos. Daqui nasce a moral cristã!

A crise moral atual é gerada, sem dúvida, pela falta dessa experiência viva de Jesus!


Dom Henrique Soares da Costa

Bispo de Palmares - PE