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domingo, 30 de julho de 2017

Como interpretar a frase “Seja feita a vossa vontade”?


Sempre achei que a frase do Pai-Nosso “Seja feita a vossa vontade” fosse um convite a aceitar a vontade de Deus; de fato, em momentos difíceis da minha vida, sempre foi muito útil refletir sobre estas palavras que dizemos com frequência na oração. Recentemente, durante um encontro, um padre nos convidou a ler esta frase como um convite a agir, a trabalhar para que a vontade de Deus seja feita no mundo: uma exortação ao compromisso dos cristãos na construção de uma sociedade segundo o que Deus quer. Qual seria, então, a interpretação mais correta, para a Igreja? Ou será que as duas leituras são corretas e podem ser integradas?
  
Para entender o Pai-Nosso, é preciso olhar para Aquele que nos ensinou esta oração. É a sua oração que se torna nossa. Não existe oração mais santa, mais exata, mais verdadeira que esta, porque ela surge da própria relação que Jesus tem com o Pai no Espírito Santo. Ele não nos passou uma formulação, e sim nos transmitiu o conteúdo do seu diálogo com o Pai. Por isso, a graça destas palavras é imensa, e a riqueza do seu significado, como de cada palavra que sai da boca de Deus, é inesgotável.

Por este motivo, inclusive sua interpretação ao longo da história até o dia de hoje não deixou de interpelar teólogos, exegetas e santos escritores (recordemos os mais antigos e famosos, como Tertuliano, Orígenes, Cipriano, Agostinho, Tomás de Aquino), bem como indivíduos fiéis e pastores. E é bom que seja assim, para que estas palavras não se atrofiem em uma fórmula estereotipada.

A pergunta, portanto, é pertinente, e a resposta se encontra dentro da sua formulação. De fato, não se pode separar a disposição interior do cristão de sua prática efetiva. Dessa maneira, não se pode simplesmente concordar com o coração e a vontade à vontade divina sem que esta disposição interior tenha uma correspondência em nossa maneira de agir e atuar nas diversas situações da vida.

O problema que a pergunta traz implicitamente me parece ser outro, ou seja, uma concepção estática, determinista do que é a vontade divina, à qual o homem deveria, inevitavelmente e muitas vezes de má vontade, ceder. De fato, esta é a impressão que frequentemente temos da vontade de Deus, ou seja, como se ela fosse algo inamovível e que não corresponde à nossa vontade. Daí o esforço em aceitá-la. 

Que a vontade de Deus se manifeste por meio das diversas circunstâncias da vida – muitas vezes inevitáveis – a torna ainda mais dura de acolher, porque não há nada mais imprevisível e misterioso que as circunstâncias que vivemos e que dificilmente podemos controlar.

No entanto, a Bíblia nos dá testemunho, da primeira à última página, da radical bondade e benevolência de Deus, de uma obstinada e insistente vontade do bem da sua parte, da positiva disposição da criação, da sua vontade de salvar o homem e de favorecer a vida até sua plenitude.

Deus convidou o ser humano a participar dessa vontade do bem desde o início, dando-lhe os meios necessários para realizar este bem. Portanto, somos por natureza orientados à vontade do bem de Deus, para participar e colaborar, junto dele, com a vida.

Mas, desde sua origem, a humanidade também vive uma fratura (que a Bíblia documenta continuamente) entre a própria liberdade e a vontade de Deus, fazendo-as parecer antagonistas, inclusive inimigas. O antigo pecado original está precisamente nesta discrepância entre a vontade humana e a divina, razão pela qual sentimos às vezes que a vontade de Deus é alheia a nós.

Em Jesus Cristo, esta fratura foi consertada, a ferida foi curada, a oposição foi conciliada. E é necessário também ser conscientes de como isso aconteceu. O Evangelho nos mostra o caminho de Jesus em contínua tensão para fazer a vontade do Pai. Não sem dificuldade.

Recordemos brevemente algumas cenas. Aos 12 anos, na passagem à vida religiosa adulta, Jesus diz aos seus pais: “Por que me buscavam? Não sabiam que eu devo me ocupar das coisas do meu Pai?” (cf. Lc 2, 49). No momento do seu retiro no deserto, tentado pelo diabo, Cristo reafirma sua pertença total ao Pai (cf. Mt 4, 1-11). Finalmente, temos a cena do Getsêmani, o momento mais dramático da sua existência, que nos faz entender a enorme luta que o homem vive desde sempre para colocar sua vontade em sintonia com a de Deus.

Nesse momento, “está presente no próprio Jesus toda a resistência da natureza humana contra Deus. A obstinação de todos nós, toda a oposição contra Deus está presente, e Jesus, lutando, arrasta a natureza recalcitrante, elevando-a à sua verdadeira essência. (…). Ele acolheu em si mesmo a oposição da humanidade e a transformou, para que, dessa maneira, na obediência do Filho, estejamos presentes todos nós, sejamos atraídos à condição de filhos” (Bento XVI, “Jesus de Nazaré”).

Assim, na graça da comunhão com Cristo, a vontade de Deus se torna familiar (somos filhos!) e nos abre a toda a harmonia do bem, fazendo de nós colaboradores leais do seu plano de amor por toda a humanidade.

Fazer a vontade de Deus, então, não é apenas aceitar as inevitáveis circunstâncias da vida e o seu mistério de bem, mas colaborar, de fato, com todas as nossas forças, com o bem de Deus para a humanidade. É por isso que fomos criados; é por isso também que fomos salvos.


Filippo Belli, 
docente de teologia bíblica
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Aleteia/ Toscana Oggi