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domingo, 11 de junho de 2017

RCC: 50 anos


Neste ano, a Renovação Carismática Católica (RCC) completa 50 anos de vida, jubileu de ouro, de modo que vale a pena refletir sobre a atualidade desse movimento eclesial com seus frutos e carismas, bem como com alguns desvios e equívocos, ainda que os pontos positivos pareçam superar, de longe, as falhas aí encontradas.

A RCC pode ser entendida como um movimento de renovação espiritual na vida da Igreja, muito desejado pelo Beato Papa Paulo VI, conforme o Documento de Puebla, n. 267, e que vem produzindo muitos e bons frutos à Igreja

Podemos, portanto, elencar aí seis frutos: 1) a consciência da presença do Espírito Santo na Igreja como um todo, bem como no coração de cada fiel; 2) o gosto pela oração no e pelo Espírito Santo; 3) a oportunidade, por meio da fraternidade dos grupos de oração, de as pessoas afastadas voltarem à Igreja; 4) o amor pela Sagrada Escritura e a consequente leitura e estudo da Palavra de Deus escrita; 5) o grande interesse pela catequese e demais pastorais da Igreja e 6) o alimento a grupo de jovens nas paróquias dos quais saem vocações consagradas e sacerdotais.

A propósito dos carismas – enquanto dons gratuito de Deus para o bem da Igreja – há uma distinção entre os essenciais a todos os fiéis, os essenciais a alguns fiéis ou os extraordinários também a alguns fiéis.

Dentre os primeiros estão dons sem os quais a Igreja não pode subsistir: o senso da fé (sensus fidei), que leva o Povo de Deus a não se desviar da otodoxia; o dom da graça, a conduzir o povo na vivência da intimidade com o Senhor; o sacerdócio comum, por meio do qual todos podem cultuar a Deus e oferecer-Lhe dádivas; a função profética e régia, por ela, o fiel anuncia o Reino (função profética) e o constrói (função régia), bem como a caridade (ágape), o maior de todos os carismas (1Cor 13,13). São dons essenciais derivados dos sacramentos do Batismo e da Crisma.

Na vocação especial, o Espírito Santo concede, também por via sacramental, três dons ou carismas indispensáveis à Igreja: o diaconato, o presbiterado e o episcopado. São formas de consagração definitiva do homem a Deus em favor do povo a fim de manter nele a santidade. Há quem coloque ao lado do ministério ordenado a vida consagrada pelos votos de pobreza, castidade e obediência para o bem da humanidade, por meio da oração ou do apostolado ou de ambas as modalidades.

Existem ainda dons extraordinários concedidos a algumas pessoas e geralmente se destinam a santificar e converter os fiéis em geral. São eles: o dom dos milagres, comum a alguns – não, porém, a todos – santos e inclui curas físicas e espirituais; o dom de línguas e da interpretação delas. Sim, apenas falar línguas estranhas nunca antes estudadas pode parecer portentoso, porém não ajuda a comunidade, caso inexista quem interprete a mensagem (cf. 1Cor 14,13.19; 14,22-23), além do dom do êxtase e da iluminação interior, também muito raro na vida mística dos santos. 

É certo que a grandiosa graça divina recebida na pequenez humana está sujeita a desvios em todo o ambiente eclesial. Também na RCC não é diferente. Apontam-se aí cinco falhas mais comuns: 1) alguns membros se julgam muito especiais: só eles teriam o Espírito Santo; 2) em consequência, se acham “prontos” e “perfeitos” a ponto de não terem de se aprofundar na doutrina da Igreja, que é tão rica; 3) os dois pontos anteriores podem levar ao fundamentalismo (interpretação da Bíblia ao pé da letra sem a Igreja) que não cria unidade, mas, sim, divisões; 4) quem faz uma interpretação muito literal da Bíblia, corre o risco de ver, em demasia, casos de possessão diabólica e, por conseguinte, buscar o exorcismo, fora das normas da Igreja para esse fim; 5) há, ainda, quem confunda estado emocional alterado com dons do Espírito Santo, de modo a fazer da ação divina uma bobagem e de uma bobagem ação divina etc.

Em um balanço geral, podemos dizer que os desvios parecem, como se vê, pontuais e sanáveis pela Igreja, de modo que não se sobrepõem aos bons frutos colhidos no Jubileu de ouro da RCC.


Vanderlei de Lima,
eremita na Diocese de Amparo.
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