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sexta-feira, 16 de junho de 2017

Homilética: 12º Domingo do Tempo Comum - Ano A: «Não tenhais medo!»


O tema central da Palavra de Deus, neste domingo, é a confiança em Deus. Não devemos ter medo de nada nem de ninguém. «Não temais os que podem matar o corpo mas não matam a alma». Em Cristo encontramos toda a segurança.

Na nossa vida passamos por momentos duros, quem não? (1ª leitura). Cristo não nos escondeu nunca que a nossa vida cristã seria difícil, pois não podemos ter melhor sorte que Ele, o nosso Mestre (Evangelho) que passou por dificuldades terríveis. Porém devemos viver com a confiança, dado que em Cristo temos a sobre abundância de graça (2ª leitura).

Como é insegura a confiança nos homens! Repare-se que hoje quase não se confia em ninguém. Por um lado o homem progride em diversos campos de forma vertiginosa. Porém, de modo paralelo, fala-se de corrupção, roubos, diversos tipos de violência, faltas de respeito pela dignidade da pessoa humana, incapacidade de assumir compromissos duráveis, etc. Pode dizer-se que o homem de hoje perdeu credibilidade. Mas Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança. Após a queda do homem envia Jesus Cristo para nos salvar (2ª Leitura). O homem foi reabilitado mas continua a afastar-se de Deus. Aqui radica a sua pobreza; o seu fracasso, a sua impotência para solucionar os problemas com que se debate.

Se o homem não confia em Deus, como pode confiar nos outros homens? Não confiando em Deus o homem perdeu o ponto de referência, para a sua conduta. O homem de hoje faz este raciocínio: – «Se não tenho de prestar contas a Deus dos meus atos, para que hei de prestar contas aos homens»? «Se os homens se atrevem a pedir-me contas dos meus atos, eu saberei libertar-me das malhas da lei humana, através do meu dinheiro e das minhas influências. Só os pobres são julgados e condenados». Quando o homem não acredita que, após esta vida, terá de prestar contas a Deus, liquida tudo o que lhe dava segurança e garantia de ser feita justiça.

«Não tenhais medo dos homens, porque não há nada encoberto que não venha a descobrir-se. Nada há oculto que não venha a conhecer-se». De tudo isto conclui-se que o homem, queira ou não, terá de prestar contas a Deus do bem e do mal que praticar neste mundo. A Deus ninguém pode enganar.

Pontos da ideia principal

Textos: Jr 20, 10-13; Rom 5, 12-15; Mt 10, 26-33

Em primeiro lugar, todos passamos por situações e horas terríveis, como Jeremias na primeira leitura: nos traem, nos criticam e difamam, nos abandonam e nos deixam na guinada; riem de nós; perdemos o trabalho e algum ser querido vai embora de casa; uma doença que vai minando a nossa saúde; não podemos pagar as nossas dívidas acumuladas. Para que continuar. Situações duras e medos que rondam hoje o mundo, a Igreja e as nossas famílias e filhos são: o secularismo ditador que tira Deus da mesa e das nossas decisões, o ateísmo militante que boxeia contra Deus com a foice e o martelo, e a despersonalização ideológica do católico, que não se sabe ao que vai e com quem comunga. Estes inimigos nos fazem tremer.

Continuamos hoje a ter uma série de instruções e advertências de Jesus aos Apóstolos para a sua missão, que se aplicam a todos os discípulos de Cristo. As exortações desta secção (vv. 26-33) aparecem condensadas logo na frase inicial: «Não tenhais medo!».

26 «Não tenhais receio dos homens». Jesus ensina-nos que não devemos temer o que os homens digam de nós, murmuração ou calúnia (cf. v. 25), pois chegará um dia em que tudo vem a descobrir-se.

Em segundo lugar, nestes momentos devemos escutar no coração a palavra consoladora de Cristo: “Não tenham medo”. E Cristo, ao dizer isso, sabia bem que dos seus ouvintes, Pedro morreria em Roma de cabeça para baixo, o seu irmão André morreria em Patras crucificado em forma de X, a São Tiago cortariam a cabeça em Jerusalém, e colocariam a cabeça do seu irmão João sobre brasas ardentes, o tirariam ileso e o desterrariam nas minas de metal de Patmos, ilha flutuante no Egeu. Parece que nenhum dos discípulos morreu na cama. Que Cristo diga também a nós: “Não tenham medo”; isso já é outra história. Não nos intrometemos com ninguém; diante do materialismo, do hedonismo, do secularismo e outros “ismos” nem sequer damos um “piu”; nos currais da pornografia ficamos vermelhos como os demais, no matrimonio brincamos de andar sobre a corda bamba, trapaceamos com o dinheiro alheio, dinheiro que só administramos, com o exemplo ensinamos os nossos filhos grandes trapaças… Como os demais. Vou ter medo?

27 «Dizei-o em plena luz». Se o Senhor falava aos seus particularmente, isso era para vir a ser anunciado. Por sábia pedagogia divina assim atuava o Senhor, especialmente para evitar agitações populares. Mas Jesus manda que os seus Apóstolos preguem a verdade do Evangelho abertamente e a todos, com clareza e sem ambiguidades, pondo de parte uma falsa prudência humana. 

Finalmente, ai de mim se não tenho medo! Seria sinal de que não vivo o evangelho radical, de que não sou testemunha de nada, de que sou um mais na camada deste mundo. Estaria mal se ninguém me insultasse de trabalhador à consciência, de livre na perseguição sindical, de respeitoso com Deus quando do lado cai o trovão da blasfêmia, de católico comprometido que pisa forte na esteira do respeito humano. Pois não, senhor! Não devemos ter medo porque estamos nas mãos de Deus; se Ele leva a conta até dos cabelos da nossa cabeça e dos pardais do campo, quanto mais não cuidará de nós, que somos os seus filhos. Não tenhamos medo, não, pois os que perseguem os discípulos de Jesus poderão matar o corpo, mas não a alma nem a liberdade interior. Não tenhamos medo, pois o mesmo Jesus, diante do seu Pai, dará testemunho de nós se nós formos fiéis. Sejamos cristãos de lei.

28 «A perdição da alma e do corpo no Inferno». O Inferno é uma verdade de fé claramente ensinada por Jesus Cristo (cf. Mt 5, 22-29; 18, 9; Mc 9, 43.45.47; Lc 15, 5; etc.), uma verdade que a doutrina da Igreja sempre tem lembrado. O Inferno existe, um castigo eterno para os que morrem em estado de pecado mortal, de deliberada rejeição de Deus. E não é isto um sinal de menos misericórdia de Deus, pois os condenados não são capazes de arrependimento para pedir o perdão e a misericórdia divina. O Inferno é uma realidade misteriosa e é a prova da liberdade humana e de como Deus a respeita e a toma a sério.

Para refletir

O Evangelho que escutamos neste Domingo é parte do capítulo décimo do Evangelho de São Mateus, que traz o Discurso Apostólico de Jesus: aí, ele chama os Doze – como ouvimos no Domingo passado, previne seus discípulos para as incompreensões e perseguições que sofrerão, exorta-os a não terem medo de falar, afirma claramente que ele mesmo, Cristo, é causa de divisão e, finalmente, renova o convite para segui-lo. Então, estejamos atentos, pois o Senhor nos está falando dos desafios próprios da missão de ser cristão, ontem como hoje!

Claramente, ele nos previne sobre as dificuldades e perseguições: “Não existe discípulo superior ao mestre, nem servo superior ao seu Senhor. Se chamaram Beelzebu ao chefe da casa, quanto mais chamarão assim seus familiares” (Mt 10,24s). Estamos vivendo hoje, neste início de terceiro milênio, a verdade dessas palavras de Jesus. Basta que recordemos as terríveis censuras à Igreja por suas posições o campo da moral sexual e da bioética. Num mundo que não aceita mais Deus e a religião – a não ser no âmbito da vida privada, sem nenhuma importância para a sociedade, anunciar o Cristo e suas exigências virou um crime insuportável para a sociedade neo-pagã! E, no entanto, a ordem que o Senhor nos dá é clara: “O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados!” A Igreja e cada cristão não podemos calar a novidade e a vida que encontramos em Cristo, não podemos passar por alto as exigências do amor ao Senhor! E o sofrimento? E as incompreensões? Fazem parte do anúncio do Evangelho. São Paulo claramente afirmava aos Gálatas: “Se eu quisesse agradar agradar aos homens não seria servo de Cristo” (1,10). Seria trair o nosso Senhor esconder, mascarar as exigências do Evangelho em nome de um falso diálogo com o mundo, de uma falsa misericórdia e de uma falsa compreensão do homem de hoje. Somente Cristo liberta de verdade o ser humano – o Cristo inteiro, pregado integralmente, com todas as conseqüências do seu Evangelho! Qualquer um que deseje fiel a Deus experimentará a incompreensão e a solidão. Recordemos, na primeira leitura, a queixa do Profeta Jeremias, as calúnias por ele sofridas. Ora, a Igreja não pode fugir desse destino; o cristão – eu, você – não podemos fugir desse compromisso com Cristo! Aliás, o século XX, apenas terminado, foi o século que mais matou cristãos, que mais os perseguiu e exterminou. Só que os meios de comunicação e os governos politicamente corretos mudam e disfarçam a expressão “perseguição religiosa” com a mentira açucarada chamada “choque de culturas”. Não! É perseguição por causa do Evangelho, perseguição por amor a Cristo, perseguição que gera mártires! Também nós, estejamos prontos e nos acostumemos aos ataques contra a Igreja, que visam desmoralizar o cristianismo: na imprensa, muitas vezes, nas universidades, na opinião pública em geral…

Como responder a essa dolorosa realidade? Certamente, com uma atitude de fé, colocando-se nas mãos do Senhor, como Jesus colocou-se nas mãos do Pai: “Ó Senhor, que provas o homem justo e vês os sentimentos do coração… eu te declarei a minha causa!” Não irá se sustentar na fé quem não cravar os olhos e o coração no Senhor crucificado por nós, quem não estiver disposto a participar do mistério de sua cruz! As perseguições de hoje dão-nos a chance de testemunhar nosso amor ao Senhor e escutar aquelas comoventes palavras suas aos discípulos: “Fostes vós que permanecestes comigo em todas as minhas tentações” (Lc 22,31). O que não podemos, caríssimos, é nos acovardar, negociar com um mundo que refuta Jesus: “Todo aquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus!” Também não podemos pagar o mal com o mal, violência com violência, calúnia com calúnia, mentira com mentira! Não devemos nunca nos deixar vencer pelo mal: “Cristo sofreu por vós, deixando-vos um exemplo, a fim de que sigais seus passos. Quando injuriado, não revidava; ao sofrer, não ameaçava; antes, punha a sua causa nas mãos daquele que julga com justiça” (1Pd 1,21.23). A Igreja – e nós somos Igreja – não deve se calar ante os inimigos do Evangelho. Com paciência, firmeza, coragem e amor à verdade deve fazer ouvir sua voz, quer agrada quer desagrade, quer aceitem quer não!

Mas – pode alguém perguntar -, por que essas dificuldades? Por que a rejeição ao anúncio do Evangelho? Todos ouvimos São Paulo falar hoje, na segunda leitura, do mistério do pecado: “O pecado entrou no mundo por um só homem. Através do pecado, entrou a morte”. O Apóstolo quer dizer que toda a humanidade encontra-se numa situação de fechamento em relação ao Deus da vida, encontra-se, portanto, numa situação de morte! “Todos pecaram!” – quão triste é a condição do coração humano; quão triste, a situação do mundo! Pecaram os judeus, desobedecendo os preceitos da Lei; pecaram os pagãos, mesmo sem terem conhecido um preceito como aquele dado a Adão ou os preceitos da Lei de Moisés! Pecamos e embotou-se o nosso entendimento, a nossa sensibilidade para as coisas de Deus! O Senhor, tanta vez, parece-nos pesado demais; as exigências do seu amor, às vezes parecem nos oprimir. É que somos egoístas, somos fechados sobre nós mesmos! Por isso, a primeira palavra de Jesus é “convertei-vos”!

E, no entanto, ainda que dirigido a um mundo fechado no seu pecado e na sua prepotência, o anúncio de Cristo é anúncio de uma maravilhosa novidade para a humanidade: se nos primeiros homens, iniciou-se uma corrente maldita, uma cadeia de pecado, em Cristo, o novo Adão, iniciou-se a possibilidade de uma humanidade nova: “A transgressão de um só levou a multidão humana à morte, mas foi de modo bem superior que a graça de Deus, ou seja, o dom gratuito concedido através de um só homem, Jesus Cristo, se derramou em abundância sobre todos”. Eis! Ainda que incompreendida, o anúncio que a Igreja faz é de vida e salvação para toda a humanidade! O cristianismo não é negativo, nunca dirá que o mundo está perdido, que as coisas não têm jeito! É verdade que o mundo crucificou o Senhor Jesus – e nos crucifica com ele; mas também é verdade que o Senhor ressuscitou, venceu para a vida do mundo e estará sempre presente conosco!


Caríssimos, vivamos com coerência, com coragem, com amor a nossa fé! Não tenhamos medo, não desanimemos, não vivamos como os que não conhecem a Cristo! Não nos fechemos em nós mesmos! De esperança em esperança, vivamos e anunciemos o Senhor, certos de sua presença e de seu amor. Ele jamais nos deixará! A ele a glória para sempre. Amém.