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terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Arcebispo critica sistema prisional e anuncia missa em memória aos 60 detentos mortos na rebelião em Manaus


Uma rebelião no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), em Manaus (AM), com duração de 17 horas deixou 60 mortos, sendo considerado o maior massacre prisional do Estado. Para o Bispo auxiliar de Manaus, Dom José Albuquerque de Araújo, “esta situação nos traz muita tristeza e apreensão” e, frente a tal realidade, todos são convocados a se unir em oração.

O motim teve início na tarde de domingo, 1º de janeiro, quando seis detentos foram decapitados e seus corpos foram jogados para fora da unidade. Segundo o secretário de Segurança Pública do Amazonas, Sérgio Fontes, o motim se deu devido a uma briga interna entre as facções Família do Norte (FDN) e o Primeiro Comando da Capital (PCC).

De acordo com informações, os mortos são integrantes da facção PCC e presos por estupro. Houve ainda a fuga de alguns detentos, mas não foram divulgados os números oficiais.


Em entrevista à Rádio Vaticano, o Bispo auxiliar, Dom José Albuquerque de Araújo, expressou que “a voz da Igreja que está em Manaus é de grande lamento e profunda tristeza; estamos todos unidos em oração: padres, diáconos, agentes de pastoral, nós bispos, os agentes de pastoral carcerária”.

“Todo mundo está se mobilizando em oração e pedindo para que esta situação se resolva o quanto antes. Sabemos dos grandes desafios dos cárceres no Brasil, e aqui em Manaus não é diferente”, manifestou o Prelado, sublinhando que “a cidade toda está em alerta” e que todos estão “acompanhando as notícias locais”.

Dom José Albuquerque informou que todos na Arquidiocese estão rezando e lembrando as palavras do Papa Francisco em sua mensagem para o Dia Mundial da Paz, celebrado também no domingo, 1º de janeiro, cujo tema foi “A não violência: estilo de uma política para a paz”.

“Em todas as comunidades aqui de nossa Arquidiocese elas foram lidas, refletidas e rezadas e de fato, esta é uma situação muito triste e que nos lança um grande desafio, de tratar a situação em nossos presídios com serenidade e muita justiça, respeitando os direitos humanos e procurando fazer com que a paz aconteça nos cárceres, o que não está acontecendo aqui em Manaus e em nosso país”, ressaltou.

O Bispo recordou ainda que esta rebelião, segundo as notícias, “aconteceu justamente em relação ao domínio do tráfico de drogas em Manaus e na região metropolitana”. “As informações que chegam até nós são de que facções criminosas estão organizadas e de que seus líderes estão presos. Mas, nos presídios, eles conseguem uma articulação que impressiona”.

Além disso, lembrou que já “uma situação muito difícil no que diz respeito à realidade dos presos”. Ele divulgou uma nota no início da noite desta segunda-feira, na qual critica ainda a terceirização da gestão e penitenciária e disse "o sistema não recupera o cidadão". 

Dom Sérgio se referiu aos trabalhos realizados pela Pastoral Carcerária, que trabalha diretamente com os detentos, desenvolvendo atividades ligadas à igreja católica, bem como ações sociais. "A Pastoral Carcerária visita o Sistema Prisional há 40 anos, por isso afirma que o Sistema Prisional não recupera o cidadão, pelo contrário oportuniza escola de crime, em vez de oferecer atividades ocupacionais aos internos".

Para o religioso, falta uma gestão humana no sistema penitenciário. "A terceirização também fragiliza o sistema, onde o preso representa apenas valor econômico". 

Dom Sérgio afirmou ainda que a Igreja Católica fará uma missa em memória aos detentos assassinados, mas ressaltou que o foco agora será em dar consolo aos familiares das vítimas. “Queremos acompanhar de perto, prestar apoio, estar junto dessas pessoas. Somos todos irmãos perante Deus”.

O Complexo Penitenciário Anísio Jobim possui capacidade para abrigar 454 presos, mas está com superlotação, abrigando 1224 pessoas.

Esta foi a segunda rebelião com o maior número de mortos no Brasil, ficando atrás apenas do ocorrido em 1992 no Carandiru, em São Paulo, quando 111 presos foram mortos.

Confira a nota na íntegra:  



 NOTA À SOCIEDADE
  

“Porque é do interior do coração dos homens que saem os maus pensamentos” (Marcos 7,2)

Diante do massacre ocorrido neste domingo, 1º de janeiro de 2017, no Sistema Penitenciário de Manaus, onde morreram ao menos 60 detentos, a Pastoral Carcerária da Arquidiocese de Manaus, se pronuncia, em defesa da vida e manifesta solidariedade às famílias enlutadas. 

A Pastoral Carcerária, afirma em primeiro lugar que é dever do Estado cuidar e garantir a integridade física de cada detento, oferecendo as condições para cumprimento das suas respectivas penas. 

A Pastoral Carcerária visita o Sistema Prisional há 40 anos, por isso afirma que o Sistema Prisional não recupera o cidadão, pelo contrário oportuniza escola de crime, em vez de oferecer atividades ocupacionais aos internos. 

Considera ainda que a raiz do problema carcerário no Estado do Amazonas e no Brasil é falta de políticas públicas. A terceirização também fragiliza o sistema, onde o preso representa apenas valor econômico. 

Manifestamos nosso repúdio contra a mentalidade daqueles que banalizam a vida, achando que a mesma é descartável, onde se pode matar e praticar todo tipo de crime e violência contra os cidadãos (as). 

Enfim, não se pode responder violência, com violência, mas com não-violência, visando uma cultura de paz. 

Confiando na misericórdia divina, convidamos todos para uma missa em sufrágio dos falecidos. Esta acontecerá no dia 7 de janeiro, sábado, na Catedral da Imaculada Conceição, centro da capital, às 16h. A celebração será presidida pelo arcebispo de Manaus, Dom Sérgio Eduardo Castriani.


Pastoral Carcerária

Dom Sérgio Eduardo Castriani
Arcebispo Metropolitano de Manaus (AM)
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ACI Digital / Arquidiocese de Manaus / Acrítica