quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Aquele que por nós quis nascer não quis ser por nós ignorado


Embora no mesmo mistério da Encarnação do Senhor os sinais da sua divindade tenham sido sempre claros, também a solenidade que celebramos manifesta e revela de muitas formas que Deus assumiu um corpo humano, para que a nossa natureza mortal, sempre envolvida por tantas obscuridades, não perca por ignorância o que por graça mereceu receber e possuir. 

Com efeito, Aquele que por nós quis nascer não quis ser por nós ignorado; e por isso Se manifestou deste modo, para que o grande mistério da sua bondade não fosse ocasião de grande erro. 

Hoje os Magos, que O buscavam resplandecente nas estrelas, encontram-n’O chorando no berço. Hoje os Magos vêem claramente envolvido em panos Aquele que há tanto tempo procuravam de modo obscuro nos astros. 

Hoje os Magos consideram com profunda admiração o que vêem no presépio: o Céu na terra, a terra no Céu, o homem em Deus, Deus no homem, e Aquele a quem todo o universo não pode conter incluído num pequenino corpo de criança. Vêem, crêem e não discutem, como o demonstram os seus dons simbólicos: com o incenso reconhecem-n’O como Deus, com o ouro aceitam-n’O como Rei, com a mirra exprimem a fé n’Aquele que havia de morrer. 

Assim, os gentios, que eram os últimos, passaram a ser os primeiros: graças à fé dos Magos foi consagrada a crença de toda a gentilidade. 

Hoje entra Cristo nas águas do rio Jordão para lavar o pecado do mundo. Para isso veio ao mundo, como dá testemunho o mesmo João: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Hoje o servo recebe o Senhor; o homem recebe a Deus; João recebe a Cristo; recebe-O para obter o perdão, não para o dar. 

Hoje, como anuncia o Profeta, a voz do Senhor ressoa sobre as águas. Que voz? Este é o meu Filho amado em quem pus toda a minha complacência. 

Hoje o Espírito Santo paira sobre as águas em forma de pomba, para que, assim como a pomba de Noé anunciou o fim do dilúvio, assim esta fosse sinal de haver cessado o perpétuo naufrágio do mundo; não trouxe, porém, como aquela, apenas um pequeno ramo da velha oliveira, mas derramou a plenitude do crisma sobre a cabeça do novo Progenitor, cumprindo-se assim o que o Profeta anunciou: Por isso, o Senhor teu Deus te ungiu com o óleo da alegria, de preferência a todos os teus companheiros. 

Hoje Cristo dá início aos sinais celestes, convertendo a água em vinho. Mas a água havia de converter-se no sacramento do Sangue, para que Cristo oferecesse aos que têm sede o cálice puro da sua graça em plenitude, como diz o Profeta: O meu precioso cálice transborda.



Dos Sermões de São Pedro Crisólogo, bispo (Sermo 160: PL 52, 620-622) (Sec. V)