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domingo, 25 de dezembro de 2016

Um Menino nos foi dado


“Um Menino nasceu para nós: um Filho nos foi dado! O poder repousa nos Seus ombros. Ele será chamado ‘Mensageiro do Conselho de Deus’” (Is 9,6).

Na noite de ontem, na madrugada deste hoje, contemplamos como Igreja um mistério inaudito: um Menino nos nasceu, pobre e frágil de uma Virgem Mãe! Quantos vieram ao Sacrifício eucarístico foram inundados pela paz desse Menino, descido do Céu no meio da escuridão deste mundo. Agora, passada a noite, vencida a aurora, com o sol já alto, aproximemo-nos, inclinemo-nos para ver melhor: Quem é Aquele que repousa nos braços da Virgem Maria?

Ele é o prometido aos nossos pais, Ele é o anunciado pelos profetas, Ele é o esperado por Israel: “Muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora aos nossos pais, pelos profetas; nestes dias, que são os últimos, Ele nos falou por meio do Filho, a Quem constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também criou o universo”.

Atenção! Este Menino não é simplesmente humano, não é uma pessoa qualquer: por Ele o Pai criou o universo! Escutai: “Ele é o esplendor da glória do Pai, a expressão do Seu ser. Ele sustenta o universo com o poder de Sua palavra. Ele sentou-Se à direita da majestade divina, nas alturas”. Só a Ele o Pai diz: “Tu és o Meu Filho, Eu hoje Te gerei!”

Caríssimos, Ele, esse Menino, não é um mensageiro de Deus, não é um portador qualquer: Ele é a própria mensagem de Deus para nós, Ele é a própria Palavra de Deus; aquela pela qual o Pai criou tudo! Escutai, pasmos de admiração: No princípio era o Verbo, a Palavra, e o Verbo estava com Deus; e o Verbo era Deus. No princípio estava com Deus. Tudo foi feito por Ele, e sem Ele nada se fez de tudo que foi feito”. Compreendei, sem sombra de dúvidas, sem rastro de hesitação: esse Menino é Deus! Esse Verbo, essa Palavra, esse Filho, esse Menino é a fonte de toda a vida do mundo, é a fonte da nossa vida e o único que pode saciar o nosso coração. Ouvi ainda: é sobre o Verbo! “Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens!” Ele, o Verbo, a Palavra, veio para nos iluminar, veio assumir a nossa vida humana para nos encher da Sua Vida divina; Ele tomou o que é nosso – fraqueza, mortalidade, fragilidade – para dar-nos o que é Seu – força, imortalidade, vigor! Ele veio para encher a nossa vida de graça e de verdade, num mundo que nos ameaça com tantas desgraças e com uma vida ilusória e mentirosa...

Pois, que sejas bem-vindo, Santo Menino! Que sejas sempre em nós, ó Santo Emanuel, Deus-conosco! Pensando em Ti, repetimos com unção as palavras de Santo Isaías profeta: “Como são belos andando sobre os montes, os pés de quem anuncia e prega a paz, de quem anuncia o bem e prega a salvação e diz a Sião, diz à Igreja: ‘Reina o teu Deus’! O Senhor desnudou Seu santo braço aos olhos de todas as nações; todos os confins da terra hão de ver a salvação que vem do nosso Deus”. 

Mas, caríssimos, neste dia de tanta luz e paz, a mesma Palavra de Deus que nos enche de doçura traz uma nota de treva, traz já uma ponta de cruz. Ouvi com cuidado e sábio realismo: “O Verbo estava no mundo – e o mundo foi feito por meio dele – mas o mundo não quis conhecê-Lo. Veio para o que era Seu, e os Seus não O acolheram!” É quase inacreditável, mas ainda hoje – e sobretudo hoje! - estas palavras são tristemente verdadeiras! O mundo aí fora não acolheu Aquele que nasceu para nós; o mundo continua envolto em trevas; nossa Pátria continua envolta em trevas! Basta que saiamos daqui e veremos como a nossa paz será desmentida pela futilidade, pela decadência moral, pela soberba prepotente de um mundo cheio de si e satisfeito com sua própria treva! O mundo não O acolheu – que dura e cruel realidade! O mundo O perseguiu por Herodes, O exilou na fuga para o Egito, o mundo O contestou nos escribas e fariseus, o mundo O julgou e condenou como blasfemo em Caifás, como louco em Herodes Antipas, o mundo lavou as mãos ante Ele e O crucificou em Pilatos! O mundo ainda hoje Nele cospe com o aborto e o desprezo pela vida humana, o mundo o flagela com o consumismo e a impiedade, o mundo o crucifica com a imoralidade e a destruição da família... Que Mistério de piedade: Deus veio a nós, nasceu para nós! Que Mistério de iniquidade: o mundo O rejeitou, o mundo O desprezou, o mundo O renegou, o mundo transformou o Seu Natal numa festa de consumo alienante e desprezível!

Mas, nós, cristãos, temos a graça de acolhê-Lo, de contemplá-Lo, de Nele crer, de ouvir Sua Palavra e comungar com imensa alegria e gratidão Seu Corpo e Sangue nascido de Maria, morto e ressuscitado por nós! É verdade que o mundo não O acolheu, mas, ouvi: “A todos que O receberam, deu-lhes a capacidade de se tornarem filhos de Deus isto é, aos que acreditam em Seu Nome, pois estes não nasceram do sangue nem da vontade da carne nem da vontade do homem, mas de Deus mesmo!” São para nós estas palavras estupendas! Porque Nele cremos, porque O acolhemos, nascemos nas águas do Batismo, recebemos o Seu Espírito Santo e fomos tornados filhos de Deus, filhos Nele, o Filho unigênito e bendito!

Eis, irmãos, quão grande é, por causa Dele, a nossa dignidade; quão grande nossa esperança, quão grande nossa responsabilidade! Não reneguemos com o nosso modo de viver a realidade tão grande que nos foi dada! E, como por nós mesmos, nada podemos, a não ser sermos infiéis, terminemos essa meditação com a oração da segunda Missa da Solenidade de hoje, a Missa que a Igreja celebrou na Aurora, quando o céu começava a clarear: “Ó Deus onipotente, agora que a nova luz do Vosso Verbo encarnado invade o nosso coração, fazei que manifestemos em ações o que brilha pela fé em nossas mentes!” Isto Vos pedimos por Aquele que, nascido eternamente do Vosso seio como Deus, hoje nasceu, humano, da Virgem Maria, como o sol nasce da aurora. Ele, que é Deus convosco pelos séculos dos séculos. Amém.


Dom Henrique Soares da Costa

Bispo de Palmares, PE