sábado, 17 de dezembro de 2016

O sacramento da nossa reconciliação


De nada serve afirmar que Nosso Senhor é filho da bem-aventurada Virgem Maria, homem verdadeiro e perfeito, se não se acredita também que é descendente daquela estirpe que no Evangelho se menciona.

Escreve Mateus: Genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. E a seguir apresenta a ordem da descendência humana, com todas as gerações, até chegar a José, com quem estava desposada a Mãe do Senhor.

Lucas, por seu lado, seguindo a ordem inversa, faz retroceder os graus de ascendência, remontando-se à própria origem do gênero humano, para demonstrar que o primeiro Adão e o último Adão têm a mesma natureza.

Com efeito, para ensinar e justificar os homens, a onipotência do Filho de Deus poderia ter aparecido da mesma forma que aos Patriarcas e aos Profetas, a saber, sob aparência humana, como, por exemplo, quando travou combate com Jacob e falou, ou quando aceitou a hospitalidade que Lhe ofereceram e tomou os alimentos que Lhe apresentaram.

Mas estas imagens eram apenas sinais e prefigurações místicas daquele homem que havia de assumir da descendência desses mesmos Patriarcas uma verdadeira natureza humana.

Nenhuma daquelas figuras podia realizar o mistério da nossa reconciliação, preparado desde a eternidade, porque o Espírito Santo não tinha descido ainda sobre a Virgem Maria, nem a virtude do Altíssimo a tinha coberto com a sua sombra; a Sabedoria eterna não edificara ainda a sua casa no ventre puríssimo de Maria, para que o Verbo Se fizesse homem; ainda o Criador dos tempos não tinha nascido no tempo, unindo a natureza divina e a natureza humana numa só pessoa, de modo que Aquele por quem tudo foi criado fosse contado entre as suas criaturas.

Se este homem novo, feito à semelhança da carne peca­dora, não tivesse assumido a nossa condição, envelhecida pelo pecado; se Ele, que era consubstancial ao Pai, não Se tivesse dignado ser também consubstancial à Mãe; se Ele, livre de todo o pecado, não tivesse unido a Si a nossa natureza, toda a humanidade teria permanecido cativa sob o jugo do demônio. Não poderíamos ter beneficiado da vitória do Triunfador, se ela fosse conseguida numa natureza distinta da nossa.

Como consequência desta admirável participação da nossa natureza, brilhou para nós o mistério da regeneração, porquanto, graças ao mesmo Espírito por cuja virtude Cristo foi concebido e nasceu, também nós conseguimos uma nova geração, espiritual.

Por isso diz o Evangelista, referindo-se aos crentes: Estes não nasceram do sangue, nem da carne, nem da vontade do homem, mas nasceram de Deus.


Das Cartas de São Leão Magno, papa

(Ep. 31,2-3: PL 54, 791-793)                                                   (Sec. V)