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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Homilética: Solenidade do Natal do Senhor - Missa da Aurora (25 de dezembro): "Rejubilai, nasceu Jesus".


Hoje sobre nós resplandece uma luz: nasceu o Senhor. O seu nome será Admirável, Deus forte, Pai da eternidade, Príncipe da paz. E o seu reino não terá fim.

Na Missa da Noite, a Igreja apresentou-nos o seu Cristo – o Verbo eterno, o dominador, porém, em carne, habitando entre nós, no meio do Seu povo. E nós contemplamos a Sua glória e a Sua humilhação, ao mesmo tempo que, unidos aos anjos e a todos os homens, demos graças a Deus pela paz que nos ofereceu em Cristo. Agora a liturgia, inundada pela luz da nova aurora, que desponta para o mundo, descreve-nos os efeitos do Nascimento do Salvador para a humanidade de todos os tempos.

O Natal não é um acontecimento passado. Através da Igreja, o mistério do Natal conserva toda a sua atualidade. N'Ela, todos os homens são chamados a receber de Jesus a vida divina, «tornando-se filhos no Filho único». Como os pastores viemos ao encontro de Jesus. Ele está aqui. Viemos adorá-Lo, trazer-lhe as nossas ofertas, estar com Ele e ouvi-Lo. Vamos aproximar-nos com o coração limpo. Olhemos para a imundície que há em nós e tiremo-la com a dor de amor.

Comentário dos textos bíblicos

I leitura (Isaías 62, 11-12)

Na primeira leitura, o profeta Isaías canta para nós: “Eis, aí vem teu Salvador!”. O profeta, qual um arauto, dirige-se à Filha de Sião, isto é, os habitantes de Jerusalém, para anunciar a Salvação de Deus; ele re-adotou o seu povo, chamando-o de volta do exílio. Não porque o povo o mereceu, mas porque Deus assim quis fazer. Os nomes que a Cidade agora recebe ultrapassam a sua libertação política: só ganham seu pleno sentido no novo povo dos redimidos, na nova e eterna Aliança. Deus volta como salvador e remunerador da humilhação sofrida pelo seu povo. Perante Deus eles serão santos e, diante dos outros povos, redimidos pelo Senhor, enquanto a sua cidade não será mais como uma mulher abandonada, mas como uma mulher ansiosamente desejada.

A leitura recolhe dois versículos do III Isaías, referidos à Jerusalém restaurada após o exílio. «Até aos confins da terra»: a perspectiva universalista típica da última parte de Isaías corresponde bem à realidade de um «Natal para todos».

«Filha de Sião, Filha de Jerusalém», forma poética de o profeta se dirigir aos habitantes da cidade, e mesmo a todos os israelitas (como aqui sucede). A Igreja é o novo «Israel de Deus», «o monte Sião» (Gal 4, 26; 6, 16; Hebr 12, 22; Apoc 14, 1; 21). «Sião» (etimologicamente lugar seco) era a cidadela da capital, Jerusalém. Inicialmente designava a fortaleza conquistada por David aos jebuseus, a colina oriental de Jerusalém (Ofel), que começou a ser chamada «cidade de David», para onde este transladou a Arca da Aliança. Quando Salomão construiu o Templo, a Norte de Sião, e para lá levou a arca, também se começou a dar a esse lugar o nome de Sião. Depois veio a designar o conjunto da cidade de Jerusalém, ou todos os seus habitantes e mesmo todo o povo de Israel. Na tradição cristã, veio a dar-se uma confusão acerca da localização topográfica do monte Sião, ao situá-lo no Cenáculo, na colina ocidental da cidade alta. Esta confusão parece ter origem em que o Cenáculo foi considerado a sede da primitiva Igreja de Jerusalém, o novo «monte Sião», segundo Hebr 12, 22 e Apoc 14, 1. Atualmente a Arqueologia veio esclarecer estes locais.

O profeta Isaías transmite uma mensagem de esperança à Cidade Santa: o Senhor vai chegar, acompanhado do povo, que resgatou do exílio e salvou da solidão e do sofrimento. Desponta a aurora duma vida nova para Jerusalém, pois o salvador vem visitá-la, para a cumular de graça.

Esta mensagem de alegria não se destina apenas à Cidade Santa, mas deve ser proclamada até aos confins da terra, visto que só em Jesus Cristo se realiza, totalmente, a promessa divina de salvação para todos os homens. «N'Ele, de facto, todas as promessas de Deus se tornaram sim» (2 Cor 1, 20). Deus amou-nos tanto que nos mandou o Seu Filho para nos salvar e fazer de nós um Povo Santo

Evangelho: Lucas 2,15-20

O Evangelho desta aurora natalina nos apresenta a adoração dos pastores. Os pastores são pouco contados na sociedade daquele tempo e na nossa. Não são graúdos, nem cultos, nem piedosos. São insignificantes. Mas recebem, por primeiro, a Boa-Nova, um Deus Menino nos é dado para nos salvar. Acreditam na Palavra e reconhecem na pobre criança o Salvador. Maria guarda suas palavras no coração, até o momento de as entender plenamente.

O Evangelho descreve os pastores que vão a Belém adorar o Senhor. O acontecimento é de salvação. Como é a salvação este evento deve ser anunciada. Os pastores acolhem o anúncio do Nascimento do Messias e por isso, encontram-se com Cristo. Deste doce e santo encontro emanam, como força irresistível, o anúncio ou testemunho e o louvor de Deus. Os pastores encontraram a Luz divina, que é Cristo. Esta luz invade o nosso coração, como há dois mil anos, invadiu os corações dos pastores. Mais do que uma luz, Jesus nasce no nosso coração e deve brilhar as nossas mentes, com uma fé viva, porque o Príncipe da paz, o Pai do mundo novo, o Filho Admirável de Deus está em nosso meio, e o seu reinado jamais terá vim.

A leitura mostra a reação dos pastores perante o anúncio do nascimento de Jesus que bem pode marcar a atitude do cristão ao tomar consciência do Natal de Jesus: a decisão (tão presente nos nossos vilancetes), de ir a Belém, apressadamente, sem delongas nem escusas ao encontro pessoal com Jesus, Maria e José.

18 Os «pastores» contaram as maravilhas daquela noite, mas os conterrâneos não os deveriam tomar muito a sério. Como poderia o Messias revelar-se a gente tão miserável, mal conceituada e tida por pecadora?

19 «Maria» ensina-nos a viver o mistério do Natal no recolhimento, ponderação e intimidade com Jesus: «guardava todos estes acontecimentos, meditando-os em seu coração».

A aurora do Natal nos ensina a ter duas atitudes importantes diante do presépio: a fé e a transformação interior de nossas vidas. Se os pastores foram prestativos em atender ao convite do anjo, o que devemos acentuar nesta aurora é a nossa fé. Não a fé meramente doutrinária, mas a fé que consiste em ter confiança no Mistério que envolve a nossa existência com uma luz inesperada – acreditar numa voz de anjo, adorar um menino numa manjedoura, constatar que Deus é diferente, bem mais próximo de nós do que imaginávamos.

Maria Santíssima nos serve aqui de exemplo e de imitação: Maria guarda no seu coração e medita o que os pastores lhe contaram. Homenagem filial à fé dos simples, pois a fé dos simples é guardada no coração da Mãe do Salvador.
 

II leitura: Tito 3,4-7

Na Carta de São Paulo a Tito, observamos que em Jesus manifestou-se a bondade de Deus, que faz ver que diante de Deus ninguém é bom por si mesmo. A auto-justificação é auto-ilusão, por isso mesmo, somente Deus nos liberta em Jesus Cristo. Aprofundando um ponto fundamental da doutrina apostólica, São Paulo apresenta a manifestação de Jesus – no natal e em toda a sua vida: como não exigida pela obra do homem, mas como fruto unicamente do amor e da misericórdia de Deus. A finalidade desta ação de Deus é tornar-nos seus filhos, regenerando-nos através do batismo por meio do Espírito Santo, para que possamos tender à posse total da salvação. Deus amou tanto o mundo que nos mandou o seu Filho Unigênito. É graça, misericórdia, porque Deus é movido pelo amor por nós, não pelos nossos méritos e obras. Deus sente por nós benignidade e ternura, como uma mãe por seus filhos. Deus nos justifica, de graça. Sua única exigência é que aceitemos a sua benignidade e o seu amor humano; e este aceitar é a fé fiducial, a confiança que nos leva a dar pleno crédito a Deus.

O cristão recebeu pelo Batismo a salvação que Jesus veio trazer à terra. Por ele derramou sobre nós o Seu Espírito e nos tornou herdeiros da vida eterna.

Esta belíssima síntese soteriológica bem podia ser uma espécie de fórmula de fé corrente na Igreja primitiva que tenha sido inserida na Carta.

5 «banho de regeneração e renovação do Espírito Santo» é o Baptismo, que nos faz nascer de novo (Jo 3, 3.5) e que nos torna «nova criatura» (Gal 6, 15; 2 Cor 5, 17). O Natal é ocasião propícia para meditar também no nosso natal, o Baptismo, e para daí tirar consequências práticas: «reconhece, ó cristão, a tua dignidade; tornado participante da natureza divina, não regresses à antiga baixeza duma vida depravada; lembra-te de que Cabeça e de que Corpo és membro. Pelo Baptismo, tornaste-te templo do Espírito Santo» (S. Leão Magno, Homilia para o dia de Natal).

Pistas para reflexão

Vamos a Belém

Vamos procurar Jesus como os pastores, depois da aparição dos anjos.

Encontrá-Lo-emos pela fé, que nos faz descobri-Lo para além das aparências. Também eles não viram Jesus na Sua divindade. Contemplaram um menino envolvido em paninhos, reclinado numa manjedoura. Mas tinham fé no que os anjos lhes tinham dito e adoraram-No. E contaram cheios de alegria o que lhes tinha acontecido.

Temos a Jesus conosco neste momento, mas não podemos contemplá-Lo como é. Avivemos o desejo de O ver, repitamos o ato de fé do apóstolo que duvidava da ressurreição: -Meu Senhor e meu Deus (Jo 20, 28).

Que oração tão bela para estes dias de Natal! Ou então aquela de S.Tomás de Aquino: «Adoro-Te com amor Deus escondido» (Adoro Te de devote, latens Deitas). 

Há anos, no Peru, um miúdo estava em risco de não ser admitido à primeira comunhão, pois o pároco duvidava se ele saberia o suficiente. O bispo, que estava ali, interrogou o rapaz. E, na igreja, perto do sacrário, perguntou-lhe: -Olha lá, onde é que está Jesus?

O pequeno respondeu apontando para a cruz: - Ali parece que está mas não está. Mais abaixo parece que não está mas está.

O bispo disse ao pároco: – pode admiti-lo à primeira comunhão sem receio.

Que bela lição na sua simplicidade!

Temos de procurar a Jesus cada dia na Santa Missa, na comunhão, e no sacrário das nossas igrejas.

Que bom se neste Natal procuramos aumentar a nossa fé na presença de Jesus no Sacrário! E nos esforçamos por viver em cada domingo o encontro com Ele na Santa Missa!

Encontraram Maria e José

Os pastores encontraram a Jesus com Maria e José. A nós hoje acontece o mesmo.

Eles são modelos para nós, pela sua simplicidade e pela sua fé. O Espírito Santo, pela boca de Isabel, louvou a fé de Maria, feliz porque acreditou (Lc 1, 45). Primeiro na encarnação virginal. Depois no presépio de Belém. Ela via um menino na sua pequenez humana e não na Sua natureza divina, escondida também para Ela. Mas era como se visse.

Aparentemente aquele menino era como os outros. Chorava, precisava que O amamentasse, que O vestisse. Dormia tranquilamente no Seu colo. Jesus, perfeito Deus, quis ser também perfeito homem, em tudo igual a nós exceto no pecado (Heb 4, 15).

Vamos olhar para Jesus Menino, contemplar a Sua Humanidade Santíssima, enamorar-nos dela. No Sacrário está como em Belém. Podemos falar-Lhe como a um amigo. Melhor, como ao Amigo com letra grande, o Amigo de verdade.

Quando comungamos temo-Lo em nosso peito. Podemos imaginar como Lhe pegaria a Virgem e também S. José e imitá-los no carinho, na fé, na confiança, na delicadeza.

Tantos vão comungar sem se confessarem. Sem se preocupar em agradecer a Jesus após a comunhão. Que pena se alguém vai ao altar apenas porque é moda, ou para dar nas vistas!

Meditando-os em Seu Coração

Maria guardava todas aquelas coisas meditando-as em Seu coração. A fé de Maria levava-a a fazer do dia todo oração, a saber encarar todos os acontecimentos com os olhos de Deus.

A nossa há de levar-nos a encarar tudo também com olhos diferentes. Não entendemos tudo o que acontece, mas sabemos que está nas mãos de Deus, que tudo conduz para o bem: tudo concorre para o bem dos que amam a Deu (Rom 8, 28). É uma das lições do presépio. Desilusões, alegrias tudo ali se mistura. E a Virgem aparece serena, porque sabe encarar as coisas com os olhos de Deus, com visão sobrenatural.

Também nós pelo dia fora, temos de imitar Nossa Senhora. Sabermos vir até Jesus no Sacrário, procurar nEle a serenidade. Vinde a Mim, vós todos que andais sobrecarregados e fatigados e Eu vos aliviarei (Mt 11,28). Ir a Jesus, ao Amigo que nos espera e pode dar solução a todas as nossas necessidades.

«Para mim -dizia um sacerdote santo do nosso tempo -o Sacrário foi sempre Betânia, o lugar tranquilo e aprazível onde está Cristo, onde Lhe podemos contar as nossas preocupações, os nossos sofrimentos, as nossas aspirações e as nossas alegrias, com a mesma simplicidade e naturalidade com que aqueles amigos seus, Marta, Maria e Lázaro, lhe falavam» (J.ESCRIVA, Cristo que passa, 154)

Sabermos falar-Lhe na comunhão, fazendo os nossos pedidos, contando as nossas alegrias e apresentando os nossos queixumes.

Sabermos oferecer com Ele na Santa Missa os nossos trabalhos e sofrimentos. Ao vir à terra – diz a Carta aos Hebreus, com palavras dum salmo do Antigo Testamento -Jesus exclama para o Pai: Eis que venho para fazer a Tua vontade (Heb 10, 7).

Isso foi a vida de Jesus, desde o presépio até ao Calvário, em que se consumou o Seu Sacrifício. E este torna-se presente na Santa Missa, onde havemos de nos oferecer com Ele. Pondo sobre a mesa do altar as nossas penas e alegrias.

“A mensagem de Natal leva-nos a reconhecer a escuridão dum mundo fechado, e deste modo clarifica sem dúvida uma realidade que vemos diariamente. Mas isto diz-nos também que Deus não Se deixa fechar fora.  Ele encontra um espaço, entrando nem que seja para o curral; existem homens que veem a sua luz e a transmitem” (Papa Bento XVI).


Celestino Ferreira Correia
Geraldo Morujão
Nuno Westwood
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