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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Homilética: 3º Domingo do Advento - Ano A: "Os sinais do Salvador".


Quando dirigimos pelas estradas ou pelas ruas das cidades, encontramos muitos sinais de trânsito. Seria extremamente ridículo a pessoa parar o carro em frente a um sinal verde para admirar a cor. O resultado seria uma batida. E se a pessoa parasse para examinar se a placa é de latão ou de madeira, se os símbolos ou as letras estão bem ou mal desenhados? O sinal não é para ser admirado ou discutido, mas para ser entendido e seguido.

Fazemos isso frequentemente com as narrativas de milagres nos Evangelhos. Chegamos a pensar que talvez Jesus tenha feito curas e mandado seus discípulos fazer curas como demonstrações de poder em favor dos que nele cressem. Estamos cansados de ver “igrejas” que curam a torto e a direito, não se sabe por quais interesses.

Depois do episódio dos pães no capítulo 6 do Evangelho de João, muitas pessoas vão à procura de Jesus. Ele as acolhe, dizendo: “Vocês me procuram não porque viram sinais, mas porque comeram e ficaram satisfeitos”. O que interessa não é a placa, mas o que ela indica; não é o milagre ou seu resultado, mas o que aquilo significa dentro da mensagem de Jesus.

No Evangelho de hoje, reaparece a figura do Batista. Ele manda seus discípulos perguntar a Jesus se este é o Messias esperado e recebe de Jesus os maiores elogios.

A resposta de Jesus é indireta: fala dos sinais que estão acontecendo. Abrir os olhos aos cegos, soltar a língua dos mudos, abrir os ouvidos dos surdos, soltar os braços e as pernas dos entrevados, enfim, dar nova vida aos mortos é o núcleo da missão do Messias.

Nós não esperamos um simples curandeiro; esperamos o Messias, que dá nova vida à multidão cega, muda, surda, inválida, morta.

Comentários aos textos bíblicos

I leitura: Is 35,1-6a.10

O povo estava no cativeiro. Os inimigos tinham vazado os olhos de alguns, outros estavam mutilados, todos desiludidos e desanimados. O profeta canta de maneira espetacular a esperança de saída do cativeiro e retorno para a própria terra. Será para nós símbolo de uma esperança maior.

O caminho da volta é o deserto, tal como o caminho da escravidão do Egito até a Terra Prometida. É um novo êxodo. O caminho é o deserto, mas a certeza da esperança faz do deserto um jardim.

A esperança é a força para a caminhada: nada de braços cansados ou joelhos cambaleantes, nada de medo, coragem! É Deus que vem para salvar! Se o caminho da liberdade e da vida é difícil, é um deserto, a certeza de que a salvação vem de Deus dá força e coragem e transforma o deserto em jardim.

Aí já não haverá cego, surdo, mudo ou pessoas com deficiência física. Estas não apenas vão andar por si: vão pular como cabritos; os mudos vão soltar a voz e cantar um hino. Acabou a cegueira, a mudez, a surdez, a invalidez a que eram submetidos no cativeiro; a libertação que chega faz a todos videntes, ouvintes, falantes, caminhantes, até saltitantes e agentes. Deixam de ser objetos, tornam-se sujeitos, senhores de si. Vivam! 

II leitura: Tg 5,7-10

Depois de fazer fortes ameaças aos ricos (vv. 1-6), o escrito de Tiago parece se dirigir aos pobres. Para a gente sofrida e cansada, ele fala de esperança, paciência e resistência, confiantes na vinda do Senhor, juiz justo.

A comparação com o agricultor é clara. A certeza do agricultor de que a semente lançada na terra vai produzir frutos é que lhe dá segurança de esperar até o dia da colheita. A natureza não dá saltos, já dizia o antigo ditado, e o agricultor sabe bem disso; por isso, espera tranquilo e seguro.

A expectativa próxima da vinda do Senhor, justo juiz, significa a certeza da vitória da justiça, por mais que demore e por mais que a injustiça pareça prevalecer. Isso leva ao comportamento mais moderado e maduro de quem não se queixa dos outros, atribuindo-lhes os próprios males, mas aguarda seguro o verdadeiro juiz, que está às portas.

Evangelho: Mt 11,2-11

João Batista tinha dito, no texto lido domingo passado, que depois dele viria um mais forte que ele, pronto para cortar e queimar as árvores que não estivessem produzindo e para abanar o cereal, guardar os grãos no celeiro e pôr a palha para queimar. Seria o juiz definitivo e implacável.

O que João ouviu falar de Jesus, entretanto, parece não corresponder exatamente a essa ideia de juiz rigoroso. Donde o sentido da pergunta que ele manda fazer a Jesus: é você mesmo ou virá outro para o julgamento definitivo?

João ouviu falar das curas, sem dúvida, e da compaixão de Jesus pelas pessoas, também pelos pecadores. A resposta de Jesus aponta para esses sinais. Ele primeiro veio salvar, libertar. As curas são sinais da solidariedade com os sofredores e do mais importante de sua missão: abrir os olhos a todos os cegos, mesmo aos que tenham olhos perfeitos; abrir os ouvidos a todos os surdos, mesmo aos que tenham ouvidos perfeitos; fazer andar e agir os inválidos, mesmo os que têm mãos, pés e pernas perfeitos; purificar todos os leprosos, tirar da exclusão social todos os “sujos” postos à margem; enfim, dar vida a todos os que vivem mortos.

Tudo isso se resume numa palavra: anunciar a Boa-nova aos pobres. Alguém perguntou certa vez por que se fala tanto em evangelizar os pobres, já que eles geralmente estão mais perto da fé do que os ricos. É que “evangelizar” significa levar boa notícia. E que melhor boa notícia há do que fazer os oprimidos ver, ouvir e agir, algo proibido na sua atual situação?

Muitos não gostam disso, de dizer que a missão de Jesus é levar boa notícia aos pobres, levar esperança e força aos que são o refugo da sociedade, abrir os olhos, os ouvidos, a boca aos que são proibidos de fazê-lo. Muitos se escandalizam com a afirmação de que Jesus veio para libertar os oprimidos. Mas Jesus termina: “Felizes os que não se escandalizam comigo!”.

Depois que os discípulos de João se afastam, Jesus se dirige ao povo para falar de João. Pergunta inicialmente o que foram ver no deserto e responde: não foram ver um bambu agitado pelo vento, de um lado para o outro, nem alguém vestido com roupas finas. No deserto estava um profeta; mais do que um profeta, aquele que abre os caminhos.

“No entanto, o menor no Reino dos céus é maior do que ele.” Reino dos céus é o mesmo que reino de Deus, conforme está no texto paralelo de Lucas. Esse reino de Deus aqui se entende como a comunidade cristã. Assim, qualquer membro da Igreja do Novo Testamento é maior do que João Batista.

O reino sofre violência, diz o versículo 12, que segue o trecho do Evangelho lido hoje e faz parte da mesma perícope. A afirmação soa um tanto misteriosa. Significa que a comunidade dos discípulos de Jesus é perseguida, vítima de violência? Parece, no entanto, que se trata da violência exigida de quem quer conquistar ou arrebatar o reino. É a práxis contra a entranhada mentalidade deste mundo e dos que o dominam. Não significa exercer essa mesma forma de violência, mas vencê-la com firmeza por meio do amor.

Pistas para reflexão

Será que estamos prontos para conquistar, raptar, como diz o texto evangélico, o Reino de Deus?

A ação de evangelizar os pobres constitui o principal sinal de que Jesus é o Messias esperado pela humanidade. Evangelizar não é impor a alguém um conjunto de doutrinas ou submetê-lo a enorme código de leis e regulamentos. Evangelizar é levar boa notícia, levar esperança e ânimo a quem precisa, aos pobres, aos sofredores, às vítimas deste mundo.

A um morador de rua, você não vai dizer que ele deve ir à missa todo domingo; você vai dizer que Jesus também era “trecheiro”, não tinha nem uma pedra onde encostar a cabeça.

A boa notícia para os oprimidos pode ser má notícia para os opressores, mas é a mensagem de Jesus. Quando ficamos com medo de magoar os opressores, não nos estamos escandalizando com Jesus?

É preciso saber combinar a ideia do juiz implacável, que separa o que presta (o grão) do que não presta (a palha, que vai para o fogo), com a ideia daquele que vem curar a todos, abrir os olhos aos cegos, os ouvidos aos surdos e purificar os “sujos”, enfim, trazer boas notícias para os pobres.

Abrir os olhos aos cegos, os ouvidos aos surdos, a boca aos mudos, fazer os inválidos ficar de pé, com o entendimento disso como milagres ou manifestações de poder, em pouco ou nada modifica o nosso comportamento e a caminhada da humanidade. Quando essas coisas são sinais do objetivo de fazer todos se tornarem sujeitos, senhores da própria vida, já incomodam bem mais.

O reino sofre violência. Não é fácil a busca do reinado de Deus. O mais difícil talvez seja desembaraçar-se do reinado do dinheiro e de tudo o que ele oferece. “Só os violentos o arrebatam”, só os fortes raptam esse reinado.

Trata-se da força usada por João, o precursor, que preparou a vinda daquele que haveria de começar o reinado de Deus no mundo. Ele não era um ramo agitado por qualquer vento, nem vestia roupas chiques: era um profeta, já pela própria austeridade e firmeza, e mais do que um profeta, pois preparava os caminhos do Senhor.

Mais violento ainda foi Jesus, ao entregar-se livremente à morte de cruz a fim de rasgar os caminhos para uma humanidade nova. Essa sua violência e o mundo novo celebramos na eucaristia.

Advento não é preparação para comemorar o Natal. Advento é celebrar a chegada do Senhor e reunir forças para arrebatar o reinado de Deus.
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Vida Pastoral