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terça-feira, 22 de novembro de 2016

Pensamentos sobre o Fim


Estamos para terminar o Ano Litúrgico. Mais uma vez as leituras que a Mãe Igreja nos propõe para este período falam-nos do fim – fim no sentido de término da história, mas também fim no sentido de plenitude, de finalidade.

O grande teólogo Hans Urs von Balthasar, refletindo sobre as realidades finais, afirmou: “Deus é o Fim último (Eschaton) das criaturas: Ele é o Céu para quem O alcança, o inferno para quem O perde, o juízo para quem por Ele é examinado, o purgatório para quem é por Ele purificado... E tudo isto no modo em que Ele dirigiu-Se ao mundo, isto é, no Seu Filho, Jesus Cristo, que é a possibilidade de revelação de Deus e, portanto, a síntese das coisas últimas”.


Trata-se de uma afirmação simplesmente estupenda, admirável, própria de um teólogo dos maiores! O que ele afirma?

Que as realidades últimas somente podem ser compreendidas e afirmadas a partir de Deus e Deus como Se revelou em Jesus Cristo, único Caminho para o mistério. Morte, juízo, inferno, paraíso, não são realidades neutras, compreensíveis sem uma referência a Deus e ao Seu Cristo. Veja:

O que é o Céu?


Para além de qualquer descrição (que seria insuficiente e até errônea, pois descrevendo, estaríamos falando não da realidade do Além, mas transformaríamos o céu num pobre aquém, num prolongamento do nosso mundo e desta nossa vidinha – e o Céu não é isso!) Balthasar nos diz que o Céu é Deus – e Deus como Se nos deu em Cristo O Céu é estar no "banquete" eterno no qual Deus nos sacia de Vida, reclinando a nossa cabeça de peregrinos sobre o seio de Cristo, como o Discípulo Amado, na Última Ceia. O Céu é Deus: é estar Nele, participar da Sua Vida, mergulhar no mar sem fim do Seu Coração!

– Deus Amado, Escondido e Revelado, Desejado com ânsia, Tu és meu Céu, meu refúgio, meu remanso, minha vida, meu descanso e eterna felicidade! Ganhar-Te é viver de verdade, é o gozo da plenitude sem fim e sem limites!
 

E o inferno?


Não poderia jamais ser compreendido sem Deus, sem o infinito amor que Ele nos revelou em Jesus morto e ressuscitado! Sem a infinito do amor de Deus, o inferno seria incompreensível e impossível!

Se Deus é nossa saudade e nosso repouso, se Deus é nosso destino e nossa plenitude, perdê-Lo é nosso tormento, nossa frustração radical, nossa depressão sem cura, nosso absurdo visceral.

De certo modo, podemos dizer que Deus é nosso Inferno, pois o aconchego do qual temos saudade – aconchego no Seu Coração – nós o perderíamos para sempre, ficando longe do Senhor, e veríamos que nossa existência tornara-se absolutamente vazia, absurda, sem sentido.

Deus é meu inferno como amor perdido, distante, irremediavelmente frustrado! Não um amor, mas O Amor; não perdido e recuperável, mas perdido para sempre; não um amor que possa ser substituído por outro, mas O Amor para o qual nascemos, do qual temos sede e no qual podemos ser pessoa!

Não há inferno maior – e não se pode imaginar o quanto tão grande seja – que ver o Amor e se perceber irremediavelmente excluído dele; ver a Plenitude e saber-se para sempre longe dela, conhecer e reconhecer Aquele que é mais íntimo de nós que nós mesmos e sabê-Lo eternamente perdido para nós!

Como não se pode imaginar a alegria do Céu, tampouco se pode imaginar a frustração danada do inferno...

Deus é também nosso juízo


No Seu Filho pleno do Santo Espírito de Amor, fogo que ilumina, purifica e transfigura, nós veremos o que fomos, o que somos.

Por aqui, por este mundo, mais das vezes nos vemos na nossa própria luz, segundo nossos próprios critérios. Mas, no Dia de Cristo, ver-nos-emos na Sua luz (e esta luz é o Espírito Santo): “Na Tua luz veremos a luz!” É Cristo morto e ressuscitado o critério da verdade e da mentira, do bem e do mal, da vida e da morte. Veremos, então, como somos vistos por Deus, ver-nos-emos na nossa verdade – e a nossa verdade é o modo como Deus nos vê!

E o purgatório?


Von Balthasar insiste: é Deus! Deus é nosso purgatório, pois no Fogo devorador, que é o Espírito do Seu Filho Jesus, nos purifica, queimando amorosamente a escória dos nossos pecados no abrasamento apaixonado da Sua caridade, libertando-nos daquelas pequenas impurezas das quais não tivemos a coragem de nos libertar nos dias desta vida. Deus é nosso purgatório, pois no Santo Espírito de Jesus arremata a obra iniciada em nós nesta vida!

Pensemos, pois: Deus é nosso tudo, nossa Origem e nosso Destino. E tudo isto Ele é em Jesus Cristo, o Filho amado, através de Quem e para Quem o Pai tudo criou na potência do Espírito...

É este o sentido profundo da meditação cristã sobre as coisas últimas. Toda a linguagem simbólica, todas as imagens que usamos e que o imaginário popular utiliza são para ilustrar esta realidade tão profunda e tão consoladora, mas que não pode ser descrita com nossas pobres ideias e com nossas limitadas palavras, aptas para descrever e comunicar coisas deste mundo, mas não daquilo que o Eterno nos prepara para além deste nosso tempo, na Glória que ultrapassa a nossa pobre e confusa história...


Dom Henrique Soares da Costa

Bispo de Palmares, PE