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sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O último padre exorcista


“Não queria mais ser exorcista"
diz único padre do DF que expulsa demônios

Quem escuta a voz calma e vê o olhar sereno do padre responsável por uma das igrejas mais bonitas de Brasília, a paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, na QI 8 do Lago Sul, nem desconfia que Pe. Vanilson exerce um dos ministérios mais místicos e curiosos do catolicismo. Basta ter acesso à sala do religioso, porém, para que o seu ofício comece a se tornar evidente. Uma imagem de cerca de 60cm de São Miguel Arcanjo, pisando em um ser que representa o “mal”, e um livro com os rituais contra possessões demoníacas não deixam dúvidas: Vanilson é exorcista.

“Se eu pudesse escolher, sinceramente, eu não seria mais exorcista”, desabafa o padre com os olhos quase cerrados. Acordar de noite e sentir-se observado, andar pela casa e ter a certeza de estar acompanhado e não ver ninguém são apenas algumas das coisas presentes na rotina do sacerdote, que jura não sentir medo de nenhuma delas. “O meu aborrecimento é outro. Às vezes eu queria falar de outras coisas, tocar em outro assunto, jogar conversa fora. Não existe lugar onde eu vá que não abordem esse tema”, lamenta. Vanilson, no entanto, não consegue dizer não ao chamado. Acha importante demais o ministério que exerce dentro da Igreja Católica.

Ao apresentar a agenda de compromisso deste ano, o exorcista de Brasília mostrou mais de 100 pessoas na fila de espera. A maioria dos casos, segundo o sacerdote, poderiam ser resolvidos por um padre comum, mas as pessoas não abrem mão de um padre autorizado a expulsar demônios.

Segundo o Catecismo da Igreja Católica** o exorcismo é um ritual que “protege e afugenta o demônio de uma pessoa ou objeto”. Apesar de ser exaustivamente explorado em filmes e seriados na televisão, Pe. Vanilson diz que o fenômeno é bastante raro.

Se são tão raros assim, por que há tantas pessoas que se dizem influenciadas pelo demônio? De acordo com o padre, há dois tipos de influência dos espíritos malignos: a opressão e a possessão. “O mal é como uma chama, você não pode vê-lo, mas sentir a sua presença. Quanto mais perto dele, maior o calor ou a influência dele sobre você”, metaforiza o padre para explicar a opressão. “Se o demônio entrar em uma pessoa, aí sim é possessão. Ele tem o controle de quem ele adentrar”, explica.

Segundo Vanilson, a presença de padres exorcistas só é necessária quando há, de fato, uma possessão. “Algumas pessoas não entendem isso e por isso que às vezes somos sobrecarregados, e não conseguimos ajudar quem realmente precisa”, lamenta.


“Uma oração mais forte já pode assistir quem está com obsessão”

De tão imerso no mundo do exorcismo, Pe. Vanilson não sabe explicar bem quando começou a ser considerado um forte inimigo dos demônios. “Acho que aconteceu. Meus superiores viram algo em mim e me chamaram. Não posso reclamar, foi a vontade de Deus”, relembra. O sacerdote teve de passar dois meses no Vaticano, em Roma, para aprender as técnicas e exercer bem seu ministério. “Foi uma experiência enriquecedora”, avalia.

Sobre as experiência mais macabras que já presenciou, Vanilson jura ter visto pessoas trocando de vozes, contorcionismos sobrenaturais e até aparecimentos inexplicáveis de marcas na pele dos afetados pelo demônio.

“Já vi cruzes e estrelas surgindo no corpo de pessoas. É assustador, mas não tenho medo, tenho fé em Deus.”

Testemunho

Durante a entrevista, o religioso interrompe a conversa para atender a porta. Quando identifica a visitante, exclama com um sorriso largo: “Que bom que você veio, minha filha. Precisamos de seu testemunho”. Na entrada da Paróquia estava Cláudia Silva*, uma servidora pública de 46 anos que contou ter sofrido de obsessão. “Vim pra provar que isso é real. E com a intercessão do Pe. Vanilson, Deus me curou”, disse com os olhos cheios d’água.

Cláudia contou que, há cerca de dois anos, estava com o corpo cheio de feridas. Foi a muitos médicos, mas nada resolvia. Sem esperanças, participou, acompanhada da irmã, de uma missa celebrada por Vanilson. Depois do culto, tocada com o sermão, a servidora entrou em contato com o padre para explicar sua situação. “Ele foi muito solícito e viu que eu estava com obsessão”, conta. Segundo ela, os machucados em sua pele eram obra de “um espírito mau”.

*Nome fictício para preservar a integridade da personagem.

Ao Vivo

Vômitos, gritos e contorcionismos. Uma oração de cura e libertação ministrada por Pe. Vanilson, único religioso católico de Brasília autorizado pelo Papa Francisco a expulsar demônios, muito se assemelha aos filmes de terror que retratam casos de possessão demoníaca. O olhar calmo e a voz serena do pároco da Igreja Nossa Senhora do Perpétuo no Socorro, no entanto, contrastam com a seriedade e força que Vanilson usa para rezar sobre as pessoas atormentadas pelos espíritos malígnos. 

“Você tem certeza que quer mesmo fazer isso?”, perguntava minha mãe com as mãos agarradas no terço que reza fervorosamente toda noite antes de dormir. Respondi que eu apenas iria conversar com um padre exorcista e que a chance de eu ver um ‘espírito mau’ em ação era muito remota.

A ideia de investigar um dos rituais mais místicos e desconhecidos da Igreja Católica surgiu logo após eu assistir ao filme Invocação do Mal II. Duvidei de que existisse, nos dias de hoje, alguém que utilizasse frases decoradas e líquidos ungidos para tirar um suposto demônio de um ser humano que está em surto.

Após sugerir a matéria aos meus editores, que imediatamente pediram que “eu fosse atrás da história”, entrei em contato com a Arquidiocese de Brasília, setor da Igreja Católica responsável pelos padres e por outros serviços paroquiais. Lá eles me informaram que “oficialmente, apenas o Pe. Vanilson era autorizado a realizar exorcismos em Brasília”.

Conseguir a entrevista com o religioso não foi difícil. Ele me atendeu prontamente em uma sala apertada em sua paróquia, a Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Lago Sul. Na conversa, contou sobre as dificuldades de ser o único padre exorcista de Brasília, sobre o curso de expulsão de demônios que participou no Vaticano e fez uma revelação: “Se eu pudesse escolher, sinceramente, eu não seria mais exorcista”.

Após contar um pouco sobre sua rotina e admitir que sente-se perseguido dia e noite, mesmo morando sozinho, o padre me convidou a assistir de perto uma “oração de cura e libertação”, feita para uma pessoa que sofre de opressão demoníaca.

Aceitei instantaneamente o convite de assistir Vanilson em ação. Como ele me explicou que a pessoa para quem ele iria rezar não estava possessa, mas sim oprimida, não senti medo e marquei de revê-lo em duas semanas.

A Sessão

Voltando à paróquia na data marcada, segunda-feira (24/10), sentei-me em uma poltrona bem em frente à sala do padre, junto com outras quatro pessoas, que esperavam o pároco para receber a “oração de cura e libertação”. Todas elas sofriam de problemas comuns. Desemprego, dramas amorosos, brigas familiares. Histórias tristes, mas longes de serem assustadoras.

Assim que o padre chegou, pontualmente às 9h, ele me chamou e explicou como funcionaria a dinâmica do dia: “Vou conversar em particular com cada fiel e depois te chamo para a oração, ok?” Concordei com as condições e, após cinco minutos de espera, assisti o religioso rezando.

Nenhuma destas quatro primeiras orações teve nada de anormal. O padre apenas colocava suas mãos em cima da cabeça dos fiéis e, após uma série de frases decoradas, encerrava a prece. Mas, quando eu achava que voltaria para a casa sem uma história forte, como dizemos no jornalismo, o Vanilson me alertou: “Veja, comigo orando nessa mulher, você vai poder ver o que procura”, disse, com um sorriso nos lábios, já consciente do que viria a seguir.

“A ação de Satanás para atingir os filhos de Deus não é novidade para nós, cristãos. A Palavra está repleta de versículos e relatos que falam acerca das constantes tentativas do diabo de derrotar os salvos. Jesus preparou seus discípulos para que tivessem vitória na luta contra o inimigo” - Mt 26,41

Está repreendido!

Vanilson apontava para uma mulher de cerca de 30 anos, razoavelmente baixa e de olhos e cabelos escuros. Após 10 minutos em uma conversa particular com ela, o padre me chamou para a sala e começou, assim como fez com todos os outros fiéis, começou a orar sobre ela. Mas foi totalmente diferente.

Ao contrário dos outros fiéis que recebiam a reza calados, a moça acompanhava o pároco, como se de tanto ir a essas sessões, tivesse decorado cada frase do padre. Assim, que terminou de recitar o que parecia um roteiro, o religioso começou a improvisar: 

“Está repreendido tudo aquilo que sua mãe fazia com aquela bacia” disse com um tom muito mais severo que o habitual. No mesmo momento em que o religioso terminou de dizer estas palavras, a mulher começou a tossir. Tossiu três vezes e vomitou sobre o chão da sala da paróquia. Depois, com a voz muito mais grossa do que tinha antes da oração, a mulher deu um profundo grito, balbuciando palavras inaudíveis. Gelei.

A partir daí minha visão escureceu e comecei a sentir um intenso calor em meu corpo. Não sei se por medo ou se porque havia de fato um espírito mau dentro daquela sala atormentando aquela mulher. Me esquivei para a quina do cômodo e continuei assistindo o que me parecia um show de horrores.

A mulher caiu da cadeira e passou a tentar agredir o padre com socos em sua perna. “Pelo poder de Jesus, Todo Poderoso, fiquei quieto”, disse Vanilson usando os substantivos no masculino para falar com a mulher, o que indicava que ele já não mais falava com aquela serva de Deus, mas com o espírito que a atormentava. Com a ordem do padre, a mulher desabou, bateu a cabeça na chão e passou a se contorcer, de uma forma que nada lembrava um ser humano.

A partir deste momento, a mulher gritava sempre que o padre se referia à mãe dela, que aparentemente “havia feito algo horrível”. “Afasta-se da influência de todo mal, de todo demônio”, falava o padre, que tinha sua voz abafada pelos gritos desesperados da mulher.

Durante a sessão, o padre aspergiu em mim e na mulher um bocado de água benta, que funcionava como “um escudo contra a influência malígna”. Após 15 minutos de uma intensa sessão — que parecia ter durado quase uma hora — o padre gritou mais um “afasta-se”, fazendo com que a mulher adormecesse no chão da sala.

Após a tempestade...

Depois de alguns segundos no chão e, com a ajuda do padre, a mulher se levantou e voltou à cadeira. Como se nada tivesse acontecido, disse aliviada: “Obrigada, padre. Já estou me sentindo bem melhor” e despediu-se em poucos segundos.

A sós com Vanilson, perguntei assustado o que acontecera na sala. “Não foi um exorcismo, foi apenas cura e libertação”, reforçou. “Mas, se a mulher não estava possuída, por que ela tentou agredir o senhor?”, questionei. A partir daí o padre passou a me responder de forma mais séria. “Por conta da oração, o mal é atingido e ela passa a ser controlada, mesmo que por alguns segundos”.

Então o pároco me contou rapidamente a história da mulher, que é atormentada por um demônio. Há cerca de três anos ela recebe regularmente as orações do padre exorcista. De acordo com o religioso, assim como um tratamento médico, cada caso exige um número específico de sessões para que a pessoa fique completamente “curada”.

Questionado sobre o porquê de a mulher se retorcer sempre que ele se referia à mãe dela e a bacia com água, Vanilson explicou que os pais da moça atormentada a ofereciam como sacrifício para espíritos ruins. “Por isso que ela sofre tanto quando me refiro a este fato”, comentou. “No início era muito pior, muito mais triste. Ela já chegou a quebrar uma mesa e uma imagem de um santo. Graças a Deus houve muitos avanços”, finalizou.

Terminado o encontro com o padre, saí da igreja com um sentimento difícil de descrever… Uma mistura de empolgação —  por ter conseguido (e presenciado) uma grande história — e medo. Saber da possibilidade de um espírito maligno atormentar a minha vida como ele atormentou a da moça que eu conheci continua me causando um extenso frio na espinha. Desde aquele dia, nunca mais deixei de me benzer. Inclusive, utilizando água benta que pedi a um padre conhecido que a ungisse para mim.  E, por via das dúvidas, guardo sempre na carteira o cartão com o telefone de Vanilson.”

Dicionário do exorcismo

Opressão: é quando o espírito malígno fica perto da pessoa, próximo, como um encosto, mas não chega a entrar. Ele age na vida da vítima, com pensamentos negativos, etc.

Possessão: é quando um demônio, de fato, entra no corpo da pessoa. A vítima não tem controle sobre si. Voz, gestos, diálogos, força. Tudo é controlado pelo próprio maligno.


Wellington Hanna*
sob supervisão de Anderson Costolli
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Correio Braziliense