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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Multiforme Deformidade


"Assassinato sem culpa, amor sem sentido", filme Blow-Up, de Antonioni. Nos tornamos incapazes de culpabilizar o transgressor quando já não temos mais categorias para justificar o Amor. Se não há Mal, não há Bem. Se não há Certo, não há Errado. Se tudo é Bom e Certo, não há mais maldade e tropeço. Se tudo é Bom e Certo, nada é Bom e nada é Certo - o Bom é Mal e o Certo é Errado. Sem distintivos, sem qualificativos, Tudo é Um, Tudo é Nada. Enchemo-nos de nulidade.

O Amor, enquanto doação do eu, depende do reconhecimento das mazelas do outro - e se não há barreiras e ideais, não pode haver mazela ou transgressão; não pode haver Eu e não pode haver Outro. Sem Pecado não existe Compaixão. Sem Eu e sem Outro não há Compaixão e não há Pecado. Na medida em que relativizamos o Crime, relativizamos o Amor; na medida em que "terrorismo" pode ser Tudo e Nada, o Amor dilui-se no matagal de afetividades, perversidades e fluídos humanos e inumanos. Dizem que o Amor é "multiforme" para não dizer "disforme". Se não há "forma", só resta a indeterminação. Assassinar é Amar, e ambos são Qualquer Coisa, são Tudo, são Nada. 
Ao tornarmo-nos incapazes de culpar o assassino em seu terrorismo, fazemo-nos inaptos para amar aqueles que morrem em suas mãos. Resta apenas o cinismo e a defesa do status quo para a manutenção narcísica do próprio hedonismo.


Natanael Castoldi
*Ilustração: Saturn Devouring His Son (Detail),1636, Peter Paul Rubens
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