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terça-feira, 29 de novembro de 2016

A verdadeira religiosidade varonil


Muitos jovens se afastam da vida religiosa ao verificarem o contraste entre a aparente religiosidade exterior de alguns companheiros e sua esterilidade espiritual.

Outros trazem à prática da religião demasiado sentimento, e, por seu sentimentalismo, fazem com que a religiosidade seja mal interpretada pelas pessoas sérias.

Religiosidade é o culto de Deus conjuntamente prestado pela razão, pelo coração e pela vontade.

O coração, ou sentimento, tem, pois, também o seu papel, mas um elemento não deve demasiar-se em detrimento dos outros dois. (…)

E quando [a religiosidade] será real e varonil?

Podem alguns ter ideias de religião adulteradas quanto quiserem: não poderão negar que ela é um dos mais belos ornatos que constituem a verdadeira nobreza do homem.

Em nossos tempos, tentaram tirar da religião a sua autenticidade e substituí-la por diversas especulações científicas; em vão! Onde se atacou a religião, começou a decadência da virtude, da honestidade, do sentimento do dever, da consciência, do caráter — em suma, dos mais belos ideais da humanidade. Podemos buscar exemplos na história dos antigos gregos, dos romanos e de outros povos. Ali, a vida dos próprios sábios, que procuravam tudo o que era bom e nobre, não se isentava de falhas, porque eles não conheciam a verdadeira religiosidade. 

Mas o que é a verdadeira religiosidade?

Verdadeira religiosidade é a submissão da alma humana a Deus, nosso Criador e Supremo Fim. Esse “dobrar-se” nos dá forças contra o nosso egoísmo, nos torna independentes do mundo e das nossas inclinações desregradas. A religiosidade prodigaliza à alma tal ascendência sobre o mundo que Kant a chamou, com razão, de “medicina universal”, pois nos torna capazes de suportar todas as penas.

Um grande general dizia: “Ser soldado é não comer quando se tem fome, não beber quando se tem sede, ajudar o companheiro ferido quando a gente mesmo apenas consegue arrastar-se”.

Soldado de Cristo, no entanto, significa ser religioso; quer dizer não cometer pecado, muito embora a tentação nos alicie; cumprir em todo momento o dever, por mais pesado que nos pareça; servir a Deus pelo cumprimento heroico de todas as obrigações da vida.

Se salvares alguém de um incêndio, ou retirares da água quem está se afogando, farás uma ação heroica. Em outras circunstâncias, contudo, terás o mesmo merecimento se recolheres um caco de vidro ou uma casca de laranja para evitar que alguém corte o pé ou quebre uma perna. Ouvi contar que um jovem aventureiro se sentara à margem do Danúbio esperando que alguém caísse à água, para salvá-lo. Acho que ainda hoje lá está sentado e que envelheceu de tanto esperar. Entrementes, ele perdeu mil ocasiões pequenas, que se teriam apresentado diariamente, para fazer algum bem. O valor de uma boa ação não depende da dificuldade que ela apresentou, do tempo que durou, mas sim da prontidão, atenção, alegria e espírito de sacrifício com que foi realizada.

Meu ideal não é um jovem a quem a errônea interpretação de religiosidade tire a alegria, o temperamento juvenil. Na realidade, há desses “jovens piedosos” que se retraem timidamente dos companheiros, não têm amizades e consideram inconveniência e até pecado um bom humor tumultuoso, balbúrdia e chistes inocentes. São indubitavelmente jovens sinceros e dignos de respeito; mas julgam, ilusoriamente, que o sentimento religioso se restringe apenas a exterioridades.

O jovem realmente religioso nunca é excêntrico. Não fala muito de religião, mas vive segundo ela; não quero dizer com isso que dela se envergonhe. Entre bons companheiros, não procura ser a todo custo o mais valente; em companhia, porém, de camaradas levianos, não cede nem um ponto sequer de suas convicções.

Infelizmente, na alma de muitos moços, o sentimento religioso murmura apenas como um fio de água! “Há por aí, lá longe, acima das nuvens, um bom velhinho, Deus, a quem devemos rezar de vez em quando ou porque dele queremos alguma coisa, ou porque o tememos”; nisso consiste toda a sua religiosidade…

Santo Deus! Que esqueleto de religiosidade é essa, que pão seco em vez de alimento vivificante! O moço de fé profunda não representa a Deus muito acima das nuvens, uma vez que Ele é incomensurável e ocupa o mundo inteiro, “pois nele vivemos, nos movemos e somos”, e, mesmo que o quiséssemos, não poderíamos fugir dele.

Nem por sombra deveríamos fugir de Deus: Ele é o amor infinito que nos leva a dobrar os joelhos; é a bondade inesgotável que atrai o coração do homem com força magnética!

Para o jovem verdadeiramente religioso, Nosso Senhor não é uma ideia oca, uma história que se aprende: onde nasceu, onde viveu, onde padeceu… Jesus é para ele uma realidade cujo ser divino se grava em sua alma e nela se incorpora! Sem Ele, a alma é uma gélida câmara frigorífica; no melhor dos casos, um jazigo mortuário, ornado de joias preciosas; mas sempre um túmulo sem vida, sem calor, sem coração a pulsar.

Muitos jovens julgam que a religiosidade é certo gosto de rezar e ir à igreja. São apenas formas exteriores de religião – aliás, necessárias; mas se a religiosidade se resumir só nisto, corre o perigo de ser mera exterioridade.

Por verdadeira e varonil religiosidade eu entendo muito mais. Entendo a certeza que enche toda a minha vida; o pensamento de que sou, em todo o meu ser, em cada pulsação do coração, em cada instante, com todos os meus pensamentos, um humilde filho do Pai Onipotente, com quem, portanto, gosto de conversar, de quem visito as igrejas com alegria, mas a quem também quero servir a todas as horas, com todos os meus alentos. Para o jovem realmente religioso, rezar não é somente recitar o pai-nosso, mas qualquer trabalho e o próprio lazer se transformam em ato de oração. Oração é a sua refeição, o seu estudo, o cumprimento dos seus deveres, a sua vida toda, porque ele quer com tudo isso glorificar a Deus.

Vê, filho meu: isso é religiosidade varonil! Já refletiste desta maneira sobre o que quer dizer ser jovem religioso?

O que sabe, de tudo isso, o moço sem vibração de alma, para quem a religiosidade consiste em recitar sem atenção, à noite, a sua oração, e assistir à missa aos domingos porque está obrigado? Pobrezinho! Contenta-se com um fio de água quando têm à mão torrentes copiosas de águas vivificantes!

Verdadeira religiosidade é alegria e consolação, estímulo e vibração na vida do homem.


Dom Tihamer Toth,
em “Religião e Juventude
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Disponível em: Aleteia