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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Por que a Colômbia disse 'não' ao acordo de paz com as Farc?


Como é possível que um país recuse um acordo que colocaria fim a um conflito armado que se arrasta a mais de meio século e já custou as vidas de mais de 200 mil pessoas?

Esse é o sentimento que tiveram muitos observadores do referendo colombiano sobre o acordo de paz com a guerrilha, realizado no domingo.

O acordo requereu quatro anos de difíceis negociações entre o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, e o líder das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), Rodrigo Lodoño, também conhecido como Timoleón Jimenez ou Timochenko.

A campanha pelo "Sim" tinha o apoio de Santos e de uma série de políticos dentro e fora da Colômbia, incluindo o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Os partidários do "Não" eram liderados pelo ex-presidente colombiano Álvaro Uribe.

Mas esbarrou na opinião pública, depois que a opção por não ratificá-lo foi escolhida por 50,2% dos votos válidos. A diferença entre o "não" e o "sim" foi de menos de 60 mil votos.

Líderes defensores da vida e da família explicaram que a vitória do “Não” no plebiscito do Acordo de Paz assinado entre o governo da Colômbia e a guerrilha das FARC também foi devido à inclusão da ideologia de gênero e do aborto nos documentos.

Abstenção nas alturas

Mas o acordo de paz parecia contar com mais entusiasmo internacional do que entre os próprios colombianos. A taxa de abstenção na consulta foi a mais alta em décadas: 63%.

Eleitores ouvidos pela BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, indicaram que as feridas abertas pelo conflito com as Farc continuam latentes. Durante todo o processo de paz falou-se muito de perdão, mas perdoar 50 anos de agressões e violência não é fácil, afirmaram.

A contadora Mercedes Castañeda, que mora em Bogotá, é uma das que acreditam que "não" significou "a vitória da Justiça".

"A verdade triunfou, porque havia manipulação nos acordos. Nós não queremos que as Farc tenham um espaço político que não merecem", disse Castañeda.

Para Castañeda, a guerrilha forjou seu caminho "com sequestros, assassinatos e narcotráfico". "A Colômbia não se esqueceu".

Já para a professora universítária e jornalista Ana Cristina Restrepo, a oposição ao acordo é fruto do medo - "o grande eleitor na Colômbia".

"Não fomos capazes de dar esse passo. Voltamos ao mesmo ponto de 1982, quando se começou a negociar com as Farc", disse ela. 

Pontos de divisão


No plebiscito de domingo, os colombianos tiveram de responder à seguinte pergunta: "Você apoia o acordo final para o fim do conflito e a construção de uma paz estável e duradoura?"

Não era uma simples decisão sobre um cessar-fogo.

O pacto elaborado em Havana se materializou em um documento de 297 páginas contendo vários pontos que dividiram a opinião pública e os políticos colombianos.

Uma das partes mais questionadas do acordo foi a garantia dada ao partido político no qual as FARC se transformariam: eles receberiam cinco cadeiras no Senado e cinco na Câmara nos dois ciclos legislativos seguintes.

Outras objeções foram feitas à proposta de que os culpados de crimes de guerra ou contra a humanidade - tanto das FARC como das forças do Estado - não fossem presos.

Mas o resultado do referendo não significa que os colombianos querem que a guerra continue.

"O não no referendo não é um não à paz, não se pode considerar assim. É preciso fazer uma somatória que permita que o fim do conflito tenha um maior respaldo", disse à BBC Mundo Victor G. Ricardo, que fez parte das negociações do governo com as Farc durante o governo de Andrés Pastrana (1998-2002).

Surpresa? Nem tanto!


 
O burburinho sobre o "fim da guerra", criado após o presidente Santos assinar o acordo de paz em Cartagena na semana passada, fez muitos analistas acreditarem que o "sim" venceria facilmente no domingo. As pequisas de opinião pintavam cenário semelhante.

A jornalista Ana Cristina Restrepo disse que não se surpreeende com a vitória do não".

Segundo ela, um dos maiores críticos do acordo firmado por Santos, o ex-presidente Álvaro Uribe, soube exercer sua influência em determinadas regiões do país, como o departamento (estado) de Antioquia.

Além disso, enquanto o conflito se desenrola principalmente nas zonas rurais, a maioria dos eleitores está nas cidades.

Apesar de grande parte dos colombianos afirmar querer a paz, eles ainda não estão de acordo sobre como conseguí-la.

Antes da votação, o presidente Santos havia dito que não havia "plano B" para o fim do conflito. Porém, disse que o cessar-fogo com as Farc permanece.

Segundo o presidente, enviados do governo vão negociar com as Farc possíveis próximos passos e continuará buscando a paz durante seu mandato.

O líder rebelde, Timochenko, disse que as Farc continuam dispostas a encerrar o conflito.

A vitória do “não” foi um milagre

O resultado surpreendeu ambos os grupos, pois as sondagens apontavam uma grande vitória do setor favorável aos acordos de paz entre o governo de Juan Manuel Santos e as FARC. A pesquisa realizada no último dia 27 de setembro pela empresa Ipsos Napoleón Franco, contratada por Semana e RCN Rádio e Televisão, apontava uma vitória do “Sim” com 66% contra 34% do “Não”.

“Nós dizemos que estamos frente a um milagre”, disse ao Grupo ACI Ángela Hernández, deputada pelo departamento colombiano de Santander e uma das maiores representantes da defesa da família na Colômbia.

“O povo colombiano estava sem oportunidade de se defender de todo o maquinário”, recordou e destacou que “o povo cristão, o povo crente, saiu das quatro paredes da igreja e foi às ruas dizer ‘nós não servimos apenas para rezar pela Colômbia, nós também somos cidadãos’”.

Jesus Magaña, da plataforma ‘Unidos pela Vida da Colômbia’, chegou a uma conclusão semelhante. “Isto é um milagre de Deus, é um absoluto milagre de Deus”, assegurou e assinalou que “vocês não imaginam o quanto rezamos por isso. Todas as igrejas do país estão em oração”.

Magaña indicou que “muitos grupos católicos promovemos o ‘não’ porque introduziram a ideologia de gênero como um eixo transversal de todos os acordos. Não mencionavam nenhuma palavra sobre a família, que foi a mais atingida por esta violência de tantos anos: tantas famílias deslocadas, destruídas, tantas crianças envolvidas na guerrilha”.

“Ao contrário, mencionavam a perspectiva de gênero, mulheres, meninos, meninas e comunidade LGTBI (lésbicas, gays, transexuais, bissexuais e intersexuais)”.

O mais grave, advertiu o líder pró-vida, “é que estavam procurando que os acordos tivessem um caráter constitucional”, um pacto, “um acordo internacional, que não tinha nenhuma razão de ser”.

“Queriam colocar a ideologia de gênero em grau de direito constitucional, que não foi em nenhum momento votado pela cidadania”, disse.

Além disso, assinalou, com os acordos de paz assinados pelo governo da Colômbia e as FARC “queriam colocar o aborto, porque comprometeram a aplicar de maneira total os protocolos do CEDAW, a Convenção sobre a Eliminação de toda forma de Discriminação contra a Mulher, o qual na verdade é um trabalho que está sendo feito há muitos anos nas Nações Unidas para impor o aborto em todos os países, entre outras coisas”.

Ao mesmo tempo que promovia isto, criticou, “nunca mencionaram o tema dos sequestrados, mas simplesmente falavam das vítimas, não falavam de sequestros, não mencionavam as violações, nem a quantidade de sequestros de crianças que as FARC tiravam dos pais de família no campo para trabalhar na guerrilha”.

Para a deputada Ángela Hernández, a primeira emoção depois da vitória do “Não” foi de “imensa alegria, imensa felicidade, porque o povo colombiano é o grande ganhador deste dia”.

“O que realmente ocorreu é que o cidadão comum, o humilde, o trabalhador, foi escutado, encontrou a forma de falar”.


O voto ganhador do dia 2 de outubro, disse, foi “o voto de fé, o voto dos crentes”, através do qual rechaçam “um processo onde a família não esteja presente, onde não reconheçam Deus, porque tudo o que reconhecem é o marxismo, o socialismo das FARC e excluem de todos os acordos e de todas as coisas as comunidades de fé”.

“Pelo contrário, dizem que vão criar um comitê de justiça para investigar os que geraram ódio e veem os grupos LGTBI como vítimas. Os primeiros que serão colocados aí são os cristãos, porque falamos diretamente sobre o homossexualismo”, advertiu.

Hernández reiterou: “Estamos felizes, entendendo que aconteceu um milagre”, mas sublinhou que “estamos diante de um desafio muito grande”.

Em seguida, a Deputada colombiana lamentou que, em um comunicado recente, Rodrigo Londoño (conhecido como “Timochenko”) – chefe das FARC – tenha assegurado que o plebiscito do dia 2 de outubro “não tem nenhum efeito jurídico, o efeito é político”, e que o acordo de paz “foi assinado como acordo especial e depositado ante o conselho da Confederação Suíça em Berna. Isso evidencia um efeito jurídico inegável e irrevogável”.

Para Hernández, isto significaria que “é uma brincadeira o que fizeram com o povo colombiano”.

“Ou seja, que a votação em 2 de outubro era uma palhaçada? Com o povo ou sem o povo? Então, para que perguntaram aos colombianos?”.

A deputada assegurou que, seguindo a convocatória do presidente da Colômbia aos que promoveram o “Não” no plebiscito, procuram “que nos deem a oportunidade de falar, de conversar com as FARC, de pedir-lhes que também tenham um ato de responsabilidade do país, que se responsabilizem pelas vítimas, que peçam perdão ao povo colombiano”.

Hernández assegurou ainda que trabalharão também para “cortar pela raiz a ideologia de gênero que foi colocada nos acordos. Essa é a nossa missão principal. Não permitiremos que a ideologia de gênero esteja no plebiscito e depois na Constituição”.

“O povo colombiano quer a paz, mas não desta maneira. Quer a paz, mas com acordos claros, com as famílias dentro deste acordo e com o reconhecimento de Deus”, disse.

Por sua parte, Jesus Magaña assinalou que o que segue depois da vitória do “Não” é “um trabalho onde o país realmente participe e faça um acordo no qual as FARC se mantenham em sua posição de deixar as armas e comecem a fazer parte da sociedade de uma maneira adequada, justa, decente e ao mesmo tempo sem impunidade e sem envolver assuntos que não tem nada a ver com o conflito, como a ideologia de gênero, o aborto etc.”.
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BBC Brasil / ACI Digital