sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Em toda a parte se oferece ao meu nome uma oblação pura


É verdadeiro sacrifício toda a obra que se realiza para nos unir em santa comunhão com Deus, isto é, toda a obra que se orienta para aquele sumo bem que nos dá a verdadeira felicidade. Por isso, uma obra de misericórdia para socorrer o próximo, se não se faz por Deus, não se pode chamar verdadeiro sacrifício. Embora realizado ou oferecido pelo homem, o sacrifício é uma realidade divina, como nos indica o nome que lhe davam os antigos latinos. Também é verdadeiro sacrifício o próprio homem, que se consagra e oferece a Deus, enquanto morre para o mundo a fim de viver para Deus. E de fato, isso faz parte da misericórdia que cada um deve ter para consigo mesmo, como está escrito: Tem compaixão da tua alma, tornando‑te agradável a Deus. Portanto, se as obras de misericórdia, quer para conosco quer para com o próximo, contanto que estejam referidas a Deus, são verdadeiro sacrifício, e se por outro lado, são obras de misericórdia as que se fazem para nos libertarmos da miséria e nos tornarmos felizes (o que não é possível senão graças àquele bem do qual está escrito: Para mim a felicidade é estar junto de Deus), então não há dúvida de que toda a cidade redimida, isto é, a comunidade e assembleia dos santos, é oferecida a Deus como um sacrifício universal por meio daquele sumo sacerdote que Se ofereceu a Si mesmo por nós segundo a condição de servo, para que nos tornássemos Corpo de tão digna Cabeça. Ofereceu de fato esta natureza humana e nela Se ofereceu a Si mesmo, porque só na condição de servo Se tornou ao mesmo tempo mediador, sacerdote e sacrifício. 

Por isso nos exorta o Apóstolo a oferecer os nossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, como verdadeiro culto espiritual, e a não nos conformarmos com este mundo, mas a transformar‑nos pela renovação da nossa mente, para sabermos discernir, segundo a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe é agradável, o que é perfeito, e compreendermos que nós mesmos somos todo este sacrifício; assim se exprime São Paulo: 

Em virtude da graça que me foi concedida, digo a todos os que se encontram no meio de vós: ninguém tenha de si mesmo uma opinião superior à que deve ter, mas sim uma opinião moderada, cada um conforme o grau de fé que Deus lhe atribuiu. Na verdade, nós temos muitos membros num só corpo e nem todos os membros têm a mesma função. Assim também, nós que somos muitos, formamos em Cristo um só Corpo e somos membros uns dos outros, possuindo dons diferentes conforme a graça que nos foi dada. Este é o sacrifício dos cristãos: Somos muitos e formamos um só Corpo em Cristo. Este é o sacrifício que a Igreja celebra no sacramento do altar, bem conhecido dos fiéis, onde lhe é mostrado que, naquilo mesmo que ela oferece, se oferece a si mesma.


Dos Livros de Santo Agostinho, bispo, sobre a Cidade de Deus
(Lib. 10, 6; CCL 47, 278-279) (Sec. V)