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sábado, 15 de outubro de 2016

Carta Pastoral sobre o Ano Mariano: "Maria, Mãe e Mestra da Igreja".


AO ESTIMADO CLERO ARQUIDIOCESANO AOS AMADOS RELIGIOSOS/AS, CONSAGRADOS/AS A TODA PORÇÃO DO POVO DE DEUS A NÓS CONFIADA NA AMADA IGREJA METROPOLITANA DE SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO,

MARIA, MÃE E MESTRA DA IGREJA
“Fazei tudo o que Ele vos disser”:
Ano Mariano 2016-2017

Amados filhos e filhas, é com imensa alegria que vimos anunciar a todos o Ano Mariano, proclamado pela CNBB e jubilosamente recebido por nossa Sé Arquidiocesana. A iniciar-se no próximo dia 12 de outubro, solenidade de Nossa Senhora Aparecida, e encerrar-se em 11 de outubro de 2017, o Ano Mariano será uma grande oportunidade para nos voltarmos para a Virgem Mãe de Deus e nossa Mãe. Com este sublime objetivo de honrar a Santíssima Virgem no ano a Ela consagrado, repetimos as palavras do grande Pio XII, quando decretou um ano consagrado à Virgem Maria para toda Igreja: “essa celebração secular não deve apenas fortalecer no ânimo de todos os fiéis a fé católica e a piedade ardente para com a virgem Mãe de Deus, mas também levar especialmente os costumes dos cristãos à imitação da Virgem”11 .

Que este Ano Jubilar, hoje iniciado, seja para todos nós tempo propício de conversão. E aqui reforçamos o apelo do Sumo Pontífice a fim de que, para vivermos real e verdadeiramente o Ano Mariano, reforcemos nossa piedade e amor para com a Mãe de Deus através da prática da imitação de suas virtudes. Afinal, Ela é o Speculum Justitiae2 , que reflete com perfeição a vontade de Deus. Imitemos, pois, Maria Santíssima, com a certeza de que estaremos seguindo Jesus Cristo Nosso Senhor.

Filhos caríssimos, não há dúvida de quão importante é a fé mariana para a Santa Igreja. Maria, Mãe da Igreja, acompanha a nossa peregrinação neste mundo, auxiliando-nos com suas graças, consolando-nos com sua maternal proteção, defendendo-nos com sua intuição de Mãe zelosa e Rainha. A devoção à Santíssima Virgem é patrimônio da nossa fé, é dado revelado e, portanto, inquestionável. Não poderíamos contrariar as Sagradas Escrituras que nos dizem: “Ave, cheia de graça” (Lc 1, 28); “bendita és Tu entre todas as mulheres” (Lc 1, 42); “todas as gerações me proclamarão Bem-Aventurada” (Lc 1, 48); ou, ainda, não ousaríamos contradizer o próprio Senhor que nos deu a Virgem por Mãe, “Mulher, eis aí teu filho” (Jo 19, 26). Honremos a nossa Mãe do Céu, a fim de alcançarmos a promessa de Deus, a fim de chegarmos à terra prometida, à Pátria definitiva (cf. Ex 20,12).

Neste Ano Mariano, a Igreja no Brasil nos convida a vivenciarmos o mandamento da Virgem Maria: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5). A Virgem é o exemplo da perfeita obediência, nenhuma criatura (homem ou anjo) fez mais plenamente a vontade de Deus do que aquela que alcançou a honra da Maternidade Divina. Imitar a Virgem é fazer tudo o que o seu Filho nos disser.

Portanto, é à obediência ao Evangelho que este Jubileu Mariano nos convida. A pessoa que quer ser obediente precisa se converter, afinal, a desobediência é causa do pecado. Para que sejamos obedientes, precisamos deixar o caminho de pecado, traçado pela primeira Eva, para trilhar o caminho de perfeição e obediência da nova e definitiva Eva, a Virgem Maria. E, não nos esqueçamos, a devoção à Virgem Maria “é um caminho fácil, curto, perfeito e seguro para chegar à união com Nosso Senhor”3 .

Neste Ano, e ao longo de toda a nossa vida, façamos tudo o que o Senhor disser e o façamos com o indispensável socorro de Maria, Auxílio dos Cristãos. Que aprendamos com Ela, que é modelo de obediência e meditação, a guardar as insondáveis graças e dádivas divinas em nosso coração (cf. Lc 2,16).

Mariologia, a reflexão na Igreja sobre a Virgem Maria

A Santa Igreja jamais deixou de refletir sobre o papel de Maria Imaculada na obra da nossa salvação. Já os primeiros escritos dos pensadores cristãos mencionavam a Virgem Maria. E, ao longo dos séculos, a missão e a pessoa de Maria Santíssima se tornou assunto corrente nos tratados de Teologia. As fontes para uma verdadeira reflexão mariológica não poderiam ser outras senão as Escrituras Sagradas e a Tradição. Ambas são fontes riquíssimas e quase inesgotáveis para o desenvolvimento de uma legítima Mariologia.

Já nos primórdios do Cristianismo, os Padres da Igreja e os demais teólogos sublinharam aqueles que seriam os temas mais importantes para a doutrina sobre a Mãe do Senhor: a Maternidade Divina, a Virgindade Perpétua, a Assunção e a sua eminente Santidade. Portanto, é inquestionável a importância da Virgem Mãe não só para a piedade popular, mas também para a reflexão teológica. 

1. Maria Santíssima nas Escrituras

Como salientou Bento XVI, em livro de 1977, “a figura mariana do Novo Testamento é totalmente tecida pelos fios do Antigo Testamento”4 . Portanto, já no Antigo Testamento encontramos a figura de Maria Santíssima, mesmo que ainda prefigurada e profetizada. É importante que conheçamos aquelas passagens e personagens veterotestamentárias que profetizam o papel que a Bem-Aventurada Virgem desempenhará no Novo Testamento e, também, na obra da nossa redenção.

Destacamos três dos principais trechos do Antigo Testamento, que a exegese bíblica atual não duvida em atribuir à Virgem Maria; são eles: Gn 3,15; Is 7,14-16 e Mq 5,2-3. Obviamente que os Padres da Igreja, a Tradição e o Magistério se serviram de muitas outras passagens do Primeiro Testamento para aludir à Mãe de Deus, como o Salmo 44, como o Cântico dos Cânticos, Provérbios 8 e inúmeras outras perícopes. Contudo, o pouco tempo e espaço fazem com que destaquemos aquelas passagens imprescindíveis, nas quais a Virgem Maria é indubitavelmente profetizada.

Assim sendo, já nas primeiras páginas bíblicas aparece uma profecia acerca da Mãe do Salvador. A inimizade entre a mulher e a serpente alcançará o seu ápice quando uma mulher for capaz de esmagar a cabeça cheia de soberba do pai da mentira. Ipsa conteret - Ela esmagará! - é a grande promessa de Deus no livro do Gênesis.

Na Virgem Maria realiza-se a vitória de Cristo sobre o demônio e o pecado. Embora se possa aplicar aqui uma outra exegese do texto, traduzindo-o com a descendência da mulher que esmagará a cabeça da serpente, portanto, Jesus Cristo, optei por interpretar Gn 3,15 como uma profecia sobre Maria Santíssima. A Imaculada Mãe de Deus, com seus pés virginais, será capaz de realizar essa profecia do Proto-Evangelho. A Imaculada Senhora, perfeitamente humilde e obediente, realizará a grande façanha de vencer o orgulho, desobediência e soberba do inimigo da nossa salvação. Se quisermos vencer o inimigo de nossas almas, alistemo-nos na Milícia de Maria Imaculada com a certeza de que junto a Ela seremos capazes de vencer o mal que nos ronda.

O grande profeta Isaías predisse: “uma virgem conceberá e dará a luz um filho, e o chamará Emanuel”. Que outra virgem concebeu e permaneceu virgem? Que outra virgem concebeu a Deus? A profecia se realiza com perfeição na Virgem Maria. É baseado também nesse texto (que será repetido por São Mateus Evangelista), que a Igreja não duvidará em afirmar que Maria Santíssima foi virgem antes do parto e assim permaneceu durante e após a concepção. A nenhuma outra mulher da História, Deus concedeu o milagre de conceber virginalmente e assim permanecer para sempre. Portanto, é inquestionável que é em Maria Sempre Virgem que a profecia de Isaías se cumpre com perfeição.

Cerca de trinta anos após a profecia de Isaías, Deus concedeu a Miquéias uma visão semelhante do futuro. Este profeta predisse que, na pequena Belém, a parturiente daria à luz àquele que deve governar Israel (Mq 5, 2s). Caríssimos, foi em Belém, muitos séculos depois, que Maria Virgem deu à luz Nosso Senhor Jesus Cristo. Naquela noite luminosa em que os anjos cantaram e os homens rejubilaram, numa simples gruta, a Mãe amorosa deu à luz o Salvador, trouxe ao mundo aquele que estava destinado a instaurar o Reino de Deus em meio aos homens e a ser, Ele mesmo, o Rei dos nossos corações. Portanto, mais uma vez, o Antigo Testamento profetiza sobre aquela que, por graça divina, teve a honra de ser escolhida como Mãe de Deus.

Todavia, Maria Santíssima está também prefigurada em muitas figuras veterotestamentárias. A Teologia enxergou cinco pontos distintos em que a figura da Virgem Maria é antecipada: em Eva, nas mulheres inférteis, nas mulheres redentoras, em Israel-Esposa e na Sabedoria5 .

São Paulo afirma ser Cristo o novo Adão. Como ao primeiro Adão esteve relacionada uma mulher, Eva, ao segundo Adão deve ligar-se uma nova Eva, Maria Imaculada. A primeira mãe dos viventes inflou-se de orgulho e pecou, sendo a causa da morte para os seus descendentes; a segunda Eva, ao contrário, prostrou-se diante de Deus como sua humilde serva e recebeu de Deus a graça de ser a sua Mãe e, mais tarde, do alto da cruz Cristo no-la entregou para ser a nossa Mãe. Se a primeira Eva gerou filhos para a morte, a segunda, ao invés, gera filhos para a vida plena, para a vida em Deus.

As mulheres inférteis eram consideradas amaldiçoadas; por isso, quando concebiam tratava- se de grande bênção e graça divinas. Dentre tais mulheres, destacam-se Sara e Ana, respectivamente, mães de Isaac e Samuel. Apesar de não ser infértil, Maria Santíssima recebeu de Deus a maior e mais singular de todas as graças: ser a sua Mãe. Jovem, virgem e fecunda era Maria Santíssima quando concebeu, por virtude do Espírito Santo, o Verbo Eterno do Pai. Logo, mesmo não sendo infértil, Ela alcançou uma fertilidade nova que não seria possível a nenhuma outra mulher, Ela gerou em seu ventre puríssimo o próprio Deus.

“Crendo e obedecendo, Ela gerou na terra o próprio Filho do Pai, sem conhecer varão, coberta pela sombra do Espírito Santo, e, como nova Eva, não deu crédito à antiga serpente, mas aceitou, sem mescla de dúvida e falsidade, a palavra do mensageiro de Deus”6 .

O Antigo Testamento narra em suas páginas histórias de mulheres fortes, de grande fé, mulheres que mereceram ser chamadas de redentoras. Entre essas mulheres, brilham de forma especial as personagens Ester e Judite, que alcançaram a libertação para o seu povo. Se a libertação social é um grande bem, quão superior não será a libertação espiritual? Esta foi-nos dada por Maria Medianeira de todas as graças que, gerando em seu ventre virginal a humanidade de Cristo e, mais tarde, oferecendo-o no altar da cruz como vítima imaculada para a nossa salvação, tornou-se, juntamente a Cristo e subordinada a Ele, a Redentora do gênero humano.

“(…) entre Maria e Jesus reinou perpétua sociedade de vida e sofrimentos (…) Em consequência dessa comunhão de sentimentos e de dores entre Maria e Jesus, a Virgem fez jus ao mérito de se tornar legitimamente a reparadora da humanidade decaída.”

“evidente que não atribuímos à Mãe de Deus uma virtude geradora da graça, virtude esta que é só de Deus. Contudo, porque Maria excede a todos em santidade e em união com Cristo, e por ter sido associada por Ele à obra redentora, Ela nos merece de côngruo, segundo a expressão dos teólogos, o que Jesus Cristo nos mereceu de condigno, sendo Ela ministra suprema da dispensação das graças.”7

A Virgem Maria é, também, prefigurada na figura de Israel que “é, ao mesmo tempo, apresentado como mulher, como virgem, como amada, como noiva e como mãe”8 . Qual destes atributos de Israel-Sião não podemos atribuir à Bem-Aventurada Virgem? Ela é a Mulher por excelência, associada ao excelentíssimo Homem, Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Por antonomásia, Ela é a verdadeira Virgem, pois virginalmente concebeu e assim permaneceu perpetuamente: ante partum scilicet, in partu et perpetuo post partum9 . Ela é também a mais amada das criaturas do Senhor, pois a nenhuma outra pessoa foi dito: “encontraste graça diante de Deus” (Lc I, 30). A Sempre Virgem Maria é, também, a Mística Esposa do Espírito Santo, pois foi por virtude dele que Ela concebeu a Cristo Jesus. Por fim, Ela é também a Mãe por excelência, já que Ela deu à luz o próprio Deus humanado e, na graça, tornou-se a nossa Mãe, Mãe dos redimidos.

Maria Santíssima é, enfim, prefigurada numa quinta figura veterotestamentária – a Sabedoria. Para a fé do Antigo Testamento, a Sabedoria é a intermediária da criação, sendo ela mesma a primeira das criaturas. Na nova criação inaugurada por Cristo, a Virgem Maria ocupa um lugar eminente. A criação estabelecida por Nosso Senhor Jesus Cristo se dá na graça, pela graça e para a graça; por isso, aquela que é a Kekarithoméne (Cheia de Graça) ocupa um lugar especial ao lado direito do seu Divino Filho. Lembremos, por fim, que a Virgem Maria é saudada pela ladainha lauretana como Sedes Sapientiae, Sede da Sabedoria, pois Ela foi o trono escolhido por Deus para acolher o Verbo Eterno, Sabedoria Encarnada. E aqui vale recordar as palavras do bem-aventurado Cardeal Newman sobre a convivência entre a Sede da Sabedoria e a própria Sabedoria Encarnada:

“Tal convivência não traria, então, tal ganho de conhecimento, durante anos de conversa sobre o presente, passado e futuro, tão profundas, tão diversificadas, tão completas, que, embora sendo uma mulher pobre e sem vantagens humanas, Ela devesse, em seu conhecimento da criação, do universo e da história, ter sobressaído ao maior dos filósofos, e em seu conhecimento teológico, aos maiores teólogos, e em seu discernimento profético, aos mais favorecidos profetas?”10

Vista a figura da Mãe de Deus no Antigo Testamento, resta-nos vê-la no Novo Testamento, no qual as promessas são cumpridas e a misteriosa figura de Maria Santíssima é descortinada. Aqui, novamente, veremos aquelas perícopes que são mais importantes para a Mariologia; são elas: as narrativas da Infância em Mt 1-2 e Lc 1-2; em Jo 2,1-12 e Jo 19, 25-27; Atos 1, 14; Gl 4,4 e, finalmente, Ap 12, 1-8.

Detenhamo-nos primeiro naquela que é considerada a passagem bíblica mais antiga acerca da Virgem Maria, Gl 4,4: “Quando, porém, chegou a plenitude do tempo, enviou Deus o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei”. Para São Paulo, Cristo é Deus e, consequentemente, Maria é a Mãe de Deus; portanto, na mais antiga passagem mariana do Novo Testamento Maria Santíssima já é considerada Theotókos, Mãe de Deus. No tempo designado por Deus para a salvação dos homens, Ele enviou o seu Filho, mas O enviou de forma humilde, queria que o seu Filho Eterno vivesse como os homens e, para tanto, quis a providência divina que o Verbo se fizesse carne no ventre puríssimo da Virgem Maria. A Epístola aos Gálatas é, pois, o mais antigo testemunho da fé da Igreja na Maternidade Divina de Maria.

São Mateus e São Lucas iniciam os seus Evangelhos com uma narrativa sobre a infância do Messias. De acordo com a inspiração divina que os guiava, cada um dos evangelistas quis sobressaltar algum dos fatos dos primeiros anos de vida de Jesus. Sabemos que São Mateus destacou nos seus escritos a figura de São José, contudo, seria infiel dizer que ele deixou a Virgem em segundo plano, já que é ele quem relembra a profecia de Isaías e a compreende concretizada na Mãe do Messias: a Virgem deu à luz e permaneceu sempre virgem, sendo, pois, a Mãe do Emanuel. São Lucas, ao contrário, rende-se totalmente a Maria Santíssima. São tantas as passagens do seu Evangelho dedicadas à Mãe do Senhor que seria exaustivo analisá-las separadamente. Por isso, o que pretendemos aqui é compreender globalmente a sua Mariologia.

No relato lucano, Maria Santíssima é a cheia de graça (Lc 1, 28), é a virgem intacta (Lc 1, 27.34), é a Mãe do Senhor (Lc 1, 31-33), é a bendita entre todas as mulheres (Lc 1, 42), é a desposada do Espírito Santo (Lc 1, 35), é a Serva do Senhor (Lc 1, 38), é exemplo de fé (Lc 1, 45), é aquela que todas as gerações proclamarão Bem-Aventurada (Lc 1, 48), enfim, Ela é também a Mãe das Dores (Lc 2, 35). Todas estas afirmações demonstram a importância de Maria Santíssima não apenas para Lucas, mas para todos os cristãos. São Lucas nos propõe a Virgem Maria como exemplo a ser imitado e legitima o culto mariano da Igreja, afinal, somos convidados a realizar a profecia do Magnificat, proclamando as maravilhas realizadas por Deus na sua perfeitíssima Serva.

Nos Atos dos Apóstolos, São Lucas coloca a Virgem Maria, Esposa do Espírito Santo, unida em oração à Igreja Apostólica e, de acordo com sua narrativa, compreendemos, também, que Ela estava presente no dia de Pentecostes. Maria Santíssima e os Apóstolos são, portanto, cada um conforme a missão designada por Deus, importantes membros da Igreja nascente. Com a Virgem Maria, os Apóstolos estavam em constante oração; por isso, também nós devemos implorar o auxílio da Virgem orante e pedir que Ela interceda por nós e conosco ao seu Divino Filho.

Chegamos agora às passagens marianas narradas por São João. Já no início do seu Evangelho, o discípulo amado apresenta aquele que foi o primeiro milagre de Jesus, realizado pela intercessão da Virgem Maria. Houve bodas em Caná e a falta de vinho preocupa a Virgem Maria. Ela intercede ao seu Filho, tem fé nEle, acredita que Ele é capaz de reverter aquela situação. Num primeiro instante, Jesus hesita, pois não era a hora de sua manifestação; no entanto, Maria Virgem conhece o seu Filho, sabe que Ele não negará um pedido seu e nem deixará que a infâmia caia sobre os noivos. Ela então diz aos serventes do casamento: "Façam tudo o que meu Filho vos disser". O milagre acontece, a água é transformada em vinho, aliás, num vinho muito melhor.

Maria Santíssima continua a interceder por nós junto a Jesus, agora de forma ainda mais poderosa no Reino dos Céus, e permanece convicta de que Ele não deixará de atender ao pedido de sua Mãe. Todavia, Ela continua a nos pedir que obedeçamos ao seu Filho, que cumpramos a sua vontade, os seus mandamentos. É somente através da obediência a Jesus que o milagre pode acontecer e a nossa vida pode ser transformada em uma realidade infinitamente melhor, que é a vida da graça, participação na vida de Deus.

O Apóstolo amado narra outra cena cheia de profundo conteúdo, a crucificação. Naquela hora dramática, em que o Filho de Deus e da Virgem Maria morre na cruz, poucos estavam presentes: algumas mulheres, o próprio evangelista e a Mãe do Senhor, a Mãe das Dores. Sobre essa hora de suprema angústia para Nosso Senhor e Nossa Senhora, cedamos a palavra ao gênio do Padre Antônio Vieira:

“Com todos os instrumentos do Calvário era martirizado o coração da Senhora, e todos feriam o coração da Mãe, mesmo aqueles que não feriam o corpo do Filho; por isso, Simeão chamou a todos espada: Et tuam ipsius animam pertransibit glaudius (Lc 2,35)11. Se repararmos nos instrumentos da Paixão de Cristo, perceberemos que nenhum deles foi espada; pois se na Paixão não houve espada, como diz Simeão à Senhora que a espada da Paixão do seu Filho lhe transpassaria a alma? É porque todos os instrumentos que concorreram na Paixão do Filho, foram espadas para o coração da Mãe. Para o corpo do Filho, a cruz era cruz, os cravos eram cravos, os martelos eram martelos; mas para o coração da Mãe a cruz era espada, os cravos eram espadas, os martelos eram espadas, porque todos penetravam as suas entranhas e lhe atravessavam o coração.”12

É no Apocalipse de São João que encontramos uma das mais emblemáticas passagens sobre a Virgem Maria: a Mulher vestida de sol, tendo a lua sob os pés e coroada por doze estrelas. É o triunfo de Maria Imaculada! Aquela humilde Serva do Senhor, obediente até o ponto de entregar o seu Filho à morte de cruz, está agora reinando em corpo e alma junto com o seu Filho no Céu. Nessa perícope do Apocalipse, a Igreja compreendeu o triunfo da Imaculada e sempre Virgem Maria, e inspirado por ela e pela compreensão que dela fez a Tradição católica, Pio XII definiu o dogma da Assunção de Maria. Leiamos a bela síntese feita pelo imortal pontífice romano dessa grande prerrogativa concedida por Deus à sua Excelsa Mãe:

“A augustíssima Mãe de Deus, associada a Jesus Cristo de modo insondável desde toda a eternidade com um único decreto de predestinação, imaculada na sua concepção, sempre virgem, na sua maternidade divina, generosa companheira do divino Redentor que obteve triunfo completo sobre o pecado e suas conseqüências, alcançou por fim, como suprema coroa dos seus privilégios, que fosse preservada da corrupção do sepulcro, e que, à semelhança do seu divino Filho, vencida a morte, fosse levada em corpo e alma ao céu, onde refulge como Rainha à direita do seu Filho, Rei imortal dos séculos”13

Até agora, estimados filhos, pudemos perceber a riqueza que os textos escriturísticos reservam à Mãe de Deus. As Santas Escrituras foram o manancial inspirador dos teólogos e do Sagrado Magistério, além de terem sido a fonte seguríssima para o desenvolvimento das mais salutares devoções marianas. Continuemos, pois, o nosso grande, porém agradabilíssimo percurso sobre a Mariologia na vida da Igreja.

2. Maria Santíssima na Sagrada Tradição

O que pretendemos aqui é expressar a riqueza da doutrina mariana. Nossa pretensão nem de longe é a elaboração de um tratado de Mariologia, mas é somente o simples desejo de, neste Ano Mariano, fazer a Virgem Mãe mais conhecida e amada. E, para isso, é importante ressaltar o grande tesouro que é a reflexão feita pela Tradição acerca dela.

A Sagrada Tradição é a transmissão oral e escrita da doutrina revelada por Deus aos Apóstolos. Quando estamos unidos à divina Tradição, temos a certeza de trilharmos um caminho doutrinal seguríssimo, que chega ininterruptamente até os nossos dias. Por conseguinte, consultemos a Tradição sobre o papel de Maria Santíssima nos elementos de sua vida, que a Santa Igreja julgou fundamentais e dogmatizou.

O primeiro e mais fundamental dos dogmas marianos diz respeito à Maternidade Divina de Maria. Proclamada solenemente pelo Concílio de Éfeso, em 431 d.C., a doutrina de Maria Mãe de Deus já era, desde os primórdios do Cristianismo, aceita pelos Padres. Destacam-se aqui as figuras de Santo Inácio de Antioquia, São Justino, de Santo Irineu, Tertuliano, Clemente de Alexandria, de Santo Hipólito, de Orígenes e tantos outros. Todos afirmam, categoricamente, que Maria Santíssima concebeu e deu à luz Cristo-Deus e que tal concepção e nascimento foram obras do Espírito Santo. No século III, a expressão Theotókos – Mãe de Deus passa a ser indubitavelmente usada pela Escola de Alexandria e daí se espalha por toda Igreja, até ser dogmatizada pelo Concílio de Éfeso.

Poucos dogmas gozaram de tão grande unanimidade como a Virgindade Perpétua, sendo as opiniões contrárias sempre duramente rechaçadas. As Escrituras não deixavam margem para que os Padres pensassem diferente. Era necessário afirmar que Maria Santíssima concebeu e deu à luz em parto virginal e que, após este, permaneceu perpetuamente virgem. Santo Inácio, São Justino, Santo Hipólito, Clemente de Alexandria, Orígenes, Santo Agostinho, Santo Ambrósio, São João Crisóstomo… poderíamos prosseguir infindamente a lista daqueles que defenderam a doutrina da Virgindade Perpétua. Já no século II, todos os verdadeiros cristãos professavam que Maria Santíssima é virgem antes, durante e depois do parto.

Se a doutrina de Maria Sempre Virgem gozou de uma unanimidade total, o grande dogma da Imaculada Conceição, proclamado em oito de dezembro de 1854, pelo Beato Pio IX, foi motivo de sérias discussões na história da Igreja; muitos preferiram manter uma postura mais cautelosa devido à dificuldade de compreender tão excelsa doutrina. Contudo, para nós, não pode haver dúvidas ou questionamentos: a Sempre Virgem Maria, Mãe de Deus, por privilégio divino é Imaculada, isto é, foi concebida sem a mancha do pecado original.

Mesmo que não expressa claramente, a doutrina da Imaculada Conceição sempre esteve presente na vida da Igreja. Nos primeiros séculos, a santidade de Maria Santíssima era considerada tão excepcional que já podemos antever a doutrina da Imaculada, cuja explicitação se dará no decurso do tempo. Afinal, aquela que era cheia de graça e que havia sido escolhida para ser a Mãe de Deus, não poderia estar sob o domínio do pecado, antes, deveria ser conservada pura e íntegra para Deus. Entre os defensores da eminente santidade de Maria estão: São Justino, Santo Irineu, Santo Efrém, São Pedro Crisólogo, Santo Ambrósio e tantos outros.

Nos séculos seguintes, os teólogos começaram a empregar o termo “Imaculada Conceição” para designar a excelsa santidade de Maria; contudo, essa doutrina foi recebida de maneira diversa no Oriente e no Ocidente. Enquanto a Igreja Oriental aceitou tranquilamente a fé na Imaculada, a Igreja Latina passou por duras controvérsias, que levaram séculos para ser resolvidas.

Os latinos consideravam difícil harmonizar a doutrina da Imaculada Conceição com o dogma da Redenção Universal em Cristo. Somente no século III, com o gênio de Duns Escoto, a quem a Igreja denominou Doutor Sutil, é que essa controvérsia foi superada. Para Escoto, a Virgem Maria foi redimida por Cristo de uma maneira mais sublime que as outras criaturas. O Filho a redimiu em previsão dos méritos de sua própria morte na cruz, preservando-a do pecado original e não a libertando, como ocorreu com todas as demais criaturas.

A partir de então, a doutrina foi-se aperfeiçoando e aclarando cada vez mais, sendo aceita por um número crescente de Papas, Concílios, teólogos e fiéis até que, enfim, foi solenemente definida por Pio IX como uma verdade de fé revelada, à qual todos devemos humildemente aderir e crer sem jamais duvidar.

A Santa Mãe de Deus, no final de sua missão terrena, foi elevada em corpo e alma aos céus. Esta é a doutrina da Assunção Gloriosa de Maria Santíssima, solenemente definida por Pio XII, em primeiro de novembro de 1950. Apesar de ser o último dos dogmas proclamados, a fé da Igreja já se mostrava convicta sobre ele muitos séculos antes; é certo que já nos séculos V-VI a doutrina da Assunção era defendida pela Igreja. Aliás, na Igreja Latina, no século V, na Gália, celebrava-se uma festa em honra a Maria Assunta; no Oriente, esta festa surgirá em princípios do sexto século.

Para os defensores dessa sublime doutrina, como Santo Epifânio, São João Damasceno, São Gregório de Tours etc., o ventre imaculado que abrigou o Verbo Encarnado não poderia ser entregue à decomposição, ao contrário, deveria ser preservada da indignidade do sepulcro aquela que em tudo se associou ao Senhor. Portanto, Maria Imaculada, Mãe de Deus, Medianeira dos homens deveria participar do mesmo privilégio de Cristo: a vitória sobre a morte. Assim sendo, o corpo bendito que gerou o corpo do Senhor foi, por graça divina, preservado da corrupção do sepulcro.

Iluminado pelo Divino Espírito Santo, solidamente embasado nas Escrituras e na Tradição pôde, então, Pio XII definir que: “a Imaculada Mãe de Deus, a Sempre Virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi Assunta em corpo e alma à glória celestial”14 .

Caríssimos, a Sagrada Tradição confirma a fé da Igreja, aliás, a Tradição é a fé da Igreja. Pelo que pudemos observar até agora, o culto e a doutrina mariana fazem parte da essência da nossa fé. A Santa Tradição sempre rendeu louvores à Bem-Aventurada Virgem, sempre se esforçou para compreender os privilégios divinos concedidos à Mãe do Redentor. É por isso que diante de tão grandes mistérios e maravilhas em que se encontra envolvida a Virgem Maria, a Igreja jamais hesitou em dizer: De Maria numquam satis! 15 Afinal, tudo o que dissermos e fizermos será infinitamente inferior às maravilhas realizadas por Deus na mais humilde e perfeita de suas servas.

Um dos mais insignes devotos da Virgem foi Santo Efrém. O humilde diácono sírio foi também um prolífico poeta, tendo dedicado grande parte de sua obra à exaltação da Virgem Maria. Maravilhemo-nos com esse Santo Doutor ante o mistério da Encarnação do Verbo no seio bendito de Maria Imaculada:

“O Senhor veio a Ela para tornar-se servo. O Verbo veio a Ela para calar em seu seio. O raio veio a Ela para não fazer ruído. O pastor veio a Ela, e nasceu o Cordeiro, que chora docemente. O seio de Maria trocou os papéis: quem criou tudo apoderou-se dele, mas na pobreza. O Altíssimo veio a Ela, mas entrou humildemente. O esplendor veio a Ela, mas vestido com roupas humildes. Quem tudo dá experimentou a fome. Quem dá de beber a todos sofreu a sede. Saiu dela nu, quem tudo reveste (de beleza)”16

3. Maria Santíssima e os Romanos Pontífices

Não hesitamos em dizer: todos os Papas foram grandes devotos da Virgem Maria! O lema escolhido por São João Paulo II – Totus Tuus – pode muito bem ser aplicado a todos os pontífices; afinal, eles sempre consagraram seus pontificados à Virgem Maria. Humanos e, por isso, limitados, os Papas precisam de um auxílio, e a Virgem Santíssima socorre-os com singular predileção, já que são os vigários de seu Divino Filho neste mundo. A relação existente entre a Bem-Aventurada Virgem e a Santa Igreja ilustra também porque os Papas sempre foram ardorosos devotos da Mãe de Deus e os maiores favorecedores da sua devoção. A Igreja encontra o seu modelo e ideal na Virgem Maria, esta é exemplo de maternidade, de virgindade e de obediência para aquela; dessa forma se expressou o Vaticano II: “Por sua vez, a Igreja que contempla a sua santidade misteriosa e imita a sua caridade, cumprindo fielmente a vontade do Pai, torna-se também ela própria, mãe, pela fiel recepção da palavra de Deus: efetivamente, pela pregação e pelo Batismo, gera, para vida nova e imortal, os filhos concebidos por ação do Espírito Santo e nascidos de Deus. E também ela é virgem, pois guarda fidelidade total e pura ao seu Esposo e conserva virginalmente, à imitação da Mãe do seu Senhor e por virtude do Espírito Santo, uma fé íntegra, uma sólida esperança e uma verdadeira caridade”.17

Entre os Romanos Pontífices, provavelmente aquele que mais recorreu à Virgem Maria, aquele que mais se valeu do seu patrocínio, aquele que mais incentivou o seu culto foi o grande Papa Leão XIII. Durante todo o seu reinado à frente da Sé de Pedro, dedicou fervorosos escritos à Mãe de Deus, nos quais reconhecia os auxílios recebidos e nos quais demonstrava a sua seguríssima fé na Virgem Maria. Vejamos quão viva era essa devoção do venerável pontífice e como ela pode ser aplicada aos seus predecessores e sucessores:

“Durante o nosso Sumo Pontificado frequentemente temos tido ocasião de dar públicas provas da confiança e da piedade para com a Santíssima Virgem, que sempre nutrimos desde os mais tenros anos, e que depois nos temos esforçado por alimentar e aumentar em toda a Nossa vida. Incidindo, com efeito, em tempos não menos infaustos para a Igreja do que cheios de perigos para a própria sociedade civil, facilmente havemos compreendido o quanto era útil recomendarmos com máximo calor esse baluarte de salvação e de paz que Deus, na sua grande misericórdia, quis dar à humanidade, na pessoa de sua augusta Mãe (...)”18

Palavras semelhantes foram repetidas por todos os Sumos Pontífices. Nenhum deles deixou de exaltar a Rainha da Igreja; todos recorreram ao seu poderoso auxílio. Dois episódios da relação dos Papas com Maria Santíssima merecem destaque: a batalha de Lepanto e o clamor de Bento XV

Durante o pontificado de São Pio V, a Europa encontrava-se sob a ameaça turca. Os muçulmanos queriam invadir as terras cristãs e, pela espada, converter aqueles que consideravam infiéis. São Pio V, com dedicação incansável, convenceu reis e generais a batalharem pela causa cristã, proclamou jejuns e orações e confiou todos os soldados aos cuidados de Nosso Senhor e Nossa Senhora. Sob os estandartes do Crucificado e da Imaculada, os soldados cristãos guerreavam valentemente e, em 7 de outubro de 1571, alcançaram a vitória, libertando a Europa da ameaça islâmica. No mesmo dia, enquanto estava em seus aposentos, o grande Papa teve a revelação de que a batalha havia acabado e que a vitória era cristã. O imortal pontífice não teve dúvidas: aquela não era uma vitória dos homens, mas dos Céus, da Virgem. Por isso, posteriormente, consagrou o dia 7 de outubro a Nossa Senhora da Vitória, e mais tarde ao Santo Rosário. Soube-se, também, que durante o clímax da batalha, os muçulmanos avistaram nos céus uma mulher majestosa que guerreava com os cristãos, ameaçando terrivelmente os maometanos.

Muitos séculos mais tarde, durante o drama de outra guerra, Bento XV recorreu à Virgem Maria, Rainha da Paz, implorando os seus auxílios para que se findasse a terrível Primeira Grande Guerra Mundial, que exterminava a população europeia. Em carta de 5 de maio de 1917, o Santo Padre implorava o socorro da Mãe de Deus e ordenava que se inserisse na Ladainha de Nossa Senhora a invocação – Regina Pacis, ora pro nobis. A Santíssima Virgem não tardou em responder aos apelos do Papa e da Igreja, e, oito dias depois, em 13 de maio de 1917, apareceu a três crianças portuguesas, convidando o mundo à conversão através da penitência e da oração, em especial da récita do Santo Rosário; só assim, voltando-se para Ela e para Jesus Cristo, o mundo alcançaria novamente a paz.

Estes dois fatos são singulares para expressar a relação entre o papado e Maria Santíssima. Devido às constantes ajudas e à crença inabalável em Maria Medianeira, os Santos Padres emitiram inúmeros documentos fomentando a devoção mariana, incentivando o estudo da Mariologia e recorrendo e exaltando àquela que foi eleita para ser a Mãe do Senhor. Inúmeras encíclicas, cartas apostólicas, exortações e homilias foram dedicadas à Virgem Maria. Parafraseando o “Lembraivos”, de São Bernardo: nunca se ouviu dizer que um Papa não houvesse recorrido à Imaculada Virgem e não tivesse sido por Ela atendido. Dentre os documentos marianos pontifícios mais importantes, destacam-se as duas Bulas Dogmáticas de Pio IX e Pio XII, com as quais foram proclamados os dogmas da Imaculada Conceição e da Gloriosa Assunção de Maria. São elas: Ineffabilis Deus e Munificentissimus Deus.

A Igreja no Brasil iniciará o seu Ano Mariano em comemoração ao tricentenário do encontro da milagrosa imagem de Nossa Senhora Aparecida; todavia, em duas ocasiões, toda a Igreja Católica foi convocada a celebrar um ano dedicado à Virgem Maria. A primeira vez que isso ocorreu foi durante o pontificado de Pio XII, que institui o Ano Mariano de 1953/4 em comemoração ao primeiro centenário de proclamação do dogma da Imaculada Conceição de Maria Sempre Virgem. Através da Encíclica Fulgens Corona, de 8 de setembro de 1953, o Romano Pontífice inaugurava o Ano Mariano, que seria mais tarde coroado com a Encíclica Ad Caeli Reginam, de 11 de outubro de 1954, na qual o Papa afirmava a realeza de Maria Santíssima e instituía uma festa para a Rainha dos Céus.

O segundo Ano Mariano foi convocado por São João Paulo II, cuja devoção mariana é por todos nós muito conhecida e admirada; ele é o pontífice todo de Maria! Na Solenidade da Maternidade Divina de Maria, o santo pontífice convocou o Ano Mariano, sendo publicada mais tarde a Encíclica Redemptoris Mater, de 25 de março de 1987, em comemoração a esse grande evento para a Igreja. São João Paulo II institui essa celebração já em vistas do segundo milênio do nascimento de Nosso Senhor e também em comemoração aos doze séculos do II Concílio de Nicéia, que legitimou o culto às imagens da Virgem Maria.

As inspiradas palavras do saudoso Papa devem inspirar também a nós, para a frutuosa vivência do nosso Ano Mariano:

“Assim, por meio deste Ano Mariano, a Igreja é chamada não só a recordar tudo o que no seu passado testemunha a especial cooperação materna da Mãe de Deus na obra da salvação em Cristo Senhor, mas também a preparar para o futuro, na parte que lhe toca, os caminhos desta cooperação salvífica (...)”20

O Concílio Vaticano II quis aproximar mais a Virgem Maria da Igreja, quis acentuar ainda mais essa relação tão bem conhecida pela Tradição eclesiástica. Por isso que nos documentos conciliares, a Virgem aparece em estreita relação com a Igreja. É, em especial, na Constituição Dogmática Lumen Gentium (ns. 52-69) que a ligação entre Maria Santíssima e a Santa Igreja adquire singular destaque. O Sacrossanto Concílio exprime assim a sua intenção ao aproximar essas duas figuras:

“Por isso, o sagrado Concílio, ao expor a doutrina acerca da Igreja, na qual o divino Redentor realiza a salvação, pretende esclarecer cuidadosamente não só o papel da Virgem Santíssima no mistério do Verbo encarnado e do Corpo místico, mas também os deveres dos homens resgatados para com a Mãe de Deus, Mãe de Cristo e Mãe dos homens, sobretudo dos fiéis.”21

“Pelo dom e missão da maternidade divina, que a une a seu Filho Redentor, e pelas suas singulares graças e funções, está também a Virgem intimamente ligada, à Igreja: a Mãe de Deus é o tipo e a figura da Igreja, na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo”22

Seguindo a intenção conciliar, o Papa Paulo VI promulgará a Encíclica Marialis Cultus, de fevereiro de 1974. O Romano Pontífice propõe um culto mariano que esteja direcionado à Santíssima Trindade e que seja Cristocêntrico e Eclesial. Afinal, Maria Santíssima é a Filha predileta do Eterno Pai, a Mística Esposa do Divino Espírito, a Mãe Imaculada do Verbo Eterno; além de ser o modelo ideal que a Igreja deve imitar. Para compreendermos melhor o pensamento do Santo Padre, vejamos o que ele mesmo disse:

“É da máxima conveniência, antes de mais nada, que os exercícios de piedade para com a Virgem Maria exprimam, de maneira clara, a característica trinitária e cristológica que lhes é intrínseca e essencial. O culto cristão, de fato, é por sua natureza culto ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.”23

“Na Virgem Maria, de fato, tudo é relativo a Cristo e dependente d'Ele: foi em vista d'Ele que Deus Pai, desde toda a eternidade, a escolheu Mãe toda santa e a plenificou com dons do Espírito a ninguém mais concedidos. A genuína piedade cristã, certamente, nunca deixou de pôr em realce essa ligação indissolúvel e a essencial referência da Virgem Maria ao divino Salvador.”24

“A chamada à atenção para os conceitos fundamentais expostos pelo Concílio Vaticano II, sobre a natureza da Igreja, 'Família de Deus', 'Povo de Deus', 'Reino de Deus', 'Corpo Místico de Cristo', permitirá, na verdade, aos fiéis, reconhecerem mais prontamente qual a missão de Maria no mistério da mesma Igreja e qual o seu eminente lugar na Comunhão dos Santos. Além disto, far-lhes-á sentir mais intensamente a fraternidade que une entre si todos os fiéis: porque filhos da Virgem Maria, 'para cuja geração e educação (espiritual) ela coopera com amor de mãe', e porque filhos da Igreja, também, visto que 'do seu parto nascemos, com o seu leite somos alimentados, e pelo seu Espírito somos vivificados'. Ambas concorrem, na verdade, para gerar o Corpo Místico de Cristo; mas 'se bem que uma e outra Mãe de Cristo, nenhuma delas sem a outra dá à luz todo (o Corpo)'.”25

Os últimos Papas não deixaram jamais de prestar culto à Mãe de Deus, sempre a saudaram em seus documentos e homilias, sempre veneraram as suas sagradas imagens, sempre confiaram a si próprios e toda Igreja aos cuidados da Mãe do Senhor e Senhora nossa. Mesmo pontífices que não emitiram nenhum documento específico sobre Maria Santíssima, como Bento XVI e Francisco, demonstraram sempre um filial carinho pela Mãe do Salvador.

Portanto, amados filhos, o Magistério da Santa Igreja e os atos pessoais dos Papas sempre fizeram vênia à Virgem Maria, pois Ela é a Mãe e Mestra da Igreja, acompanha os pontífices nas suas missões, socorre os bispos e sacerdotes e, principalmente, zela ardorosamente pelo Povo de Deus, pelos cristãos, seus filhos muito amados, aos quais concede os mais singelos favores, pelos quais roga incessantemente à Trindade Santíssima, a fim de a todos salvar e conduzir para a felicidade eterna junto de Deus.

Uma pastoral para o triunfo do Imaculado Coração:

Viveremos a alegria de um Ano consagrado à Virgem Maria. Logo, todas as atividades que viermos a fazer não podem ficar alheias a essa celebração de toda a nossa Igreja. Queremos, pois, uma pastoral engajada nas celebrações do Ano Mariano.

O ano de 2017, como afirmamos reiteradas vezes, será o tricentenário do encontro da milagrosa imagem de Nossa Senhora Aparecida e também o centenário das aparições da Virgem de Fátima. Em várias revelações particulares, Maria nos prometeu: Por fim o meu Imaculado Coração triunfará! Todavia, a Virgem quer que nos esforcemos, nos convertamos, vivamos conforme o Evangelho de seu Divino Filho e façamos penitência e oração. É através destas práticas que o Coração Amorosíssimo da Mãe de Deus reinará sobre o mundo inteiro e sobre as nossas vidas.

Que os sacerdotes, religiosos e leigos possam pertencer já àquele número de fiéis que cantam as maravilhas feitas pelo Onipotente na Virgem Maria (cfr. Lc 1, 48). Para tanto, convocamos todos a celebrarem com alegria as festas da Virgem Maria, a rezarem conjuntamente o Santo Terço e as ladainhas, a fazerem pregações sobre a Mãe do Senhor, a coroarem as suas imagens… muitas são as piedades populares caras à Santa Igreja para honrar a Santíssima Virgem. A todas nós incentivamos, quer neste Ano Mariano quer em todos os tempos, pois a devoção à Virgem Imaculada é caminho para a nossa salvação.

Convidamos, especialmente, a que se favoreçam as entradas em associações leigas voltadas para o apostolado mariano, como a Legião de Maria e a Ordem Terceira do Carmo. Que os fiéis possam ingressar nesses apostolados e, assim, se dedicarem ao trabalho missionário para Nosso Senhor Jesus Cristo e sua Augustíssima Mãe.

Queremos destacar quatro formas especiais de culto à Santíssima Virgem Maria: o Santo Rosário, o Escapulário, a Medalha Milagrosa e a Consagração. Que essas devoções sejam incentivadas por nossos sacerdotes, que devem orientar os fiéis a viverem corretamente a piedade mariana através da imitação à grande Mãe de Deus. Incentivemos, sobretudo, que os Terços sejam rezados em grupo e, se possível, em praças públicas, como uma forma de atrair aquelas pessoas que estão afastadas da Igreja. Que os fiéis sejam exortados, também, acerca da importância dos sacramentais marianos, como o Escapulário e a Medalha de Nossa Senhora das Graças, sinais da pertença à Virgem Maria e proteção contra o maligno. Assistimos ultimamente ao crescimento das “Consagrações de si mesmos a Jesus Cristo, Sabedoria Encarnada, pelas mãos de Maria”, algo que alegra muito o nosso coração de pastor; que tais atos consecratórios ocorram dentro de um espírito de sincera piedade mariana, que envolvam verdadeira mudança de vida e, principalmente, que se apliquem na total imitação à Santíssima Virgem.

Acreditamos que estas e outras práticas que os sacerdotes julgarem oportunas farão muito bem à religiosidade do povo de nossa Arquidiocese, possibilitarão um incremento e amadurecimento da fé mariana já tão presente nos nossos fiéis. Principalmente, guiados por essas práticas devocionais, de piedade e oração, queremos apressar o triunfo do Coração Imaculado da Santíssima Virgem Maria aqui em nossa Arquidiocese, no Brasil e no mundo inteiro. Que a vitória da Virgem Maria possa ser traduzida aqui para a nossa realidade carioca como uma vitória da paz. Que Ela traga a paz para a nossa cidade, que Ela leve esperança aos desfavorecidos, e que Ela apresente, a todos os corações, Jesus Cristo, Nosso Senhor.

Maria: Mãe das Famílias

Como eixo central de todo o Ano Mariano, vamos nos concentrar na realidade das famílias. O Santo Padre Francisco, em sua Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia, afirma que “o bem da família é decisivo para o futuro do mundo e da Igreja” 26. São João Paulo II, o Papa da Virgem Maria, é também o Papa das famílias. Seu pontificado ficou marcado pelo desejo de proteger as famílias dos ataques dos inimigos, quer espirituais quer temporais. Ardia em seu coração um zelo fervoroso pelas famílias, que compreendia como a primeira Igreja, a Igreja doméstica. Uma das grandes iniciativas do seu pontificado foi o Encontro Mundial do Papa com as Famílias, cuja primeira edição ocorreu em 1994 e a segunda, em 1997, aqui na nossa amada Arquidiocese do Rio de Janeiro.

Unidos a esses dois Papas e a todas as pessoas que se preocupam com a realidade atual e com o futuro das famílias, e assim aprovando e promulgando o 12º Plano Arquidiocesano de Pastoral, houvemos por bem unir à celebração do Ano Mariano uma celebração pela família. Portanto, convocamos para o período 2016-2017, um Ano da Família. Unimo-nos, também, ao Santo Padre Francisco, que, em 19 de março do presente ano, na esteira do Sínodo sobre a Família, escreveu a sua Exortação Pós-Sinodal Amoris Laetitia, convidando-nos a refletir sobre as dificuldades que as famílias vivem atualmente na sociedade. Será um tempo fecundo e desafiador para aumentar nossa firmeza no anúncio do valor irrenunciável da família, mesmo que isso contradiga certo tipo de mentalidade atual e pareça estar fora de moda27. Se assim fosse, continua o Santo Padre Francisco, “estaríamos privando o mundo dos valores que podemos e devemos oferecer”28 .

1.    “A alegria do amor que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja”

As famílias, instituídas por Deus, são uma jóia para a Igreja, alegram o coração da Mater Ecclesiae; mas, também, preocupam o coração dos pastores ante os ataques que vêm sofrendo nos últimos tempos. Compreendemos, pois, a urgência de cuidar pelo bem de cada família e da instituição familiar como um todo. Não podemos nos calar ante a perseguição de grupos que querem desvirtuar o plano divino para a família, de partidos que defendem o aborto e a eutanásia, de totalitários que querem romper com os valores cristãos da nossa sociedade, de revolucionários que pretendem instituir uma ditadura anticristã, tolhendo a Igreja do seu direito divino de pregar e trabalhar para estabelecer o Reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A Santa Mãe Igreja ama as famílias, por elas zela e reza e quer preservá-las dos ataques do maligno e dos novos pseudo-direitos que querem forçar a sociedade civil a aceitar. É dever nosso de pastor e é dever de toda Igreja, enquanto instituição divina, proteger as famílias, pois elas fazem parte do plano desejado por Deus para a Revelação e a Salvação. Afinal, já no início das Sagradas Escrituras, o desígnio divino se manifesta por meio da primeira família – Adão e Eva – e, na plenitude dos tempos, a providência se revelou através da Sagrada Família de Nazaré: Jesus, Maria e José.

É um júbilo para a Igreja ver que muitos jovens ainda optam por uma vida de virgindade, esperando por aquela pessoa com quem partilharão toda a vida. Querem viver o Matrimônio cristão: único, indissolúvel e fecundo. É indizível a felicidade que sentimos quando vemos famílias numerosas que se abandonaram nas mãos da Providência divina e que foram recompensadas por Deus em quem confiaram, com o sustento material e espiritual e com a graça de viver em harmonia e felicidade em um ambiente de ardente caridade.

Ao contrário, nosso coração de pastor sofre ao ver a indiferença dos governantes pela família, e, pior, ao ver os projetos de leis que perseguem a família tal qual desejada por Deus. Nesse sentido, sofremos ao ver projetos de leis que defendem o aborto e a eutanásia, a união entre pessoas do mesmo sexo, a adoção de crianças por homossexuais, práticas eugênicas e de reprodução artificial. Não podemos nos calar ante estas estruturas de perseguição à família e de desvalorização da vida.

Ao longo deste Jubileu das Famílias queremos, pois, rezar e trabalhar para a defesa da família e da vida. Insistimos que a família, tal qual Deus a instituiu, é formada pela união entre um homem e uma mulher, que se doam reciprocamente e se abrem à vida, tornando-se cooperadores de Deus na obra da criação, através da geração da prole. Afirmamos, com igual convicção, que essa união foi elevada, por Nosso Senhor Jesus Cristo, à dignidade de Sacramento, conferindo, portanto, ao casal, as graças necessárias para a vida a dois, para viverem o matrimônio de forma única e indissolúvel, e para que vivam uma relação fecunda, permitindo-se ter tantos filhos quantos a divina Providência enviar.

Fazemos eco, portanto, à doutrina imutável da Igreja sobre o Matrimônio cristão, que o Papa Francisco assim recordou em sua Exortação pós-sinodal:

“O matrimônio cristão, reflexo da união entre Cristo e a sua Igreja, realiza-se plenamente na união entre um homem e uma mulher, que se doam reciprocamente com um amor exclusivo e livre fidelidade, se pertencem até a morte e se abrem à transmissão da vida, consagrados pelo sacramento que lhes confere a graça para se constituírem como igreja doméstica e serem fermento de vida nova para a sociedade.”29

2. “A família é o santuário da vida”

“Assim, não é exagerado insistir que a vida das nações, dos estados, das organizações internacionais 'passa' através da família e 'fundamenta-se' sobre o quarto mandamento do Decálogo”30. Se quisermos garantir a vida da sociedade e da Igreja, se quisermos que o mundo tenha um futuro, devemos proteger a família. A vida e a família estão intimamente relacionadas, por isso podemos dizer que “a família é o santuário da vida”31; afinal, só há vida dentro da comunidade familiar, é só através da união entre o homem e a mulher que a vida nasce. É no seio da família, de forma natural, sem as intervenções laboratoriais, que a vida é gerada, que é garantida a posteridade do casal, que o futuro da humanidade é preservado.

Deus designou que o homem e a mulher se unissem, formassem uma só carne, se multiplicassem e povoassem a Terra. Eis a gênese divina da família! Deus quer a união do homem e da mulher, é dessa legítima união que nasce a família, é dentro desse consórcio natural que a vida deve ser gerada. O enlace entre um homem e uma mulher é de tal forma enriquecido com as graças divinas, que já não são dois, mas uma só carne (cfr. Mt 19, 6). Na gênese da família se encontra também a origem da sociedade, porque esta nada mais é do que a reunião de muitas famílias. E entre as sociedades destacamos a Igreja, sociedade espiritual e divina, instituída pelo próprio Deus para congregar as famílias cristãs. “A Igreja é família de famílias”32; quer dizer, formamos uma grande família cristã, pois filhos de um mesmo Eterno Pai, confraternizados por um Primogênito de muitos irmãos, ligados por um Espírito de fraterno amor.

Quão maravilhoso é o Sacramento do Matrimônio, Sacramento de união e amor, Sacramento de doação e de geração. Inspirados pelo salmista, exclamamos sobre o Matrimônio: quão maravilhoso, ó Senhor, é o Matrimônio e com que sabedoria o dispuseste (Sl 103, 24). De fato, Deus dispôs o casamento entre duas pessoas: um homem e uma mulher que, unidos por um laço inquebrantável, aceitam viver as alegrias e desafios de uma vida a dois e assumem a grandiosa missão de gerar novos filhos para Deus, novos cristãos. A vitalidade, a beleza e a graça do Sacramento do Matrimônio são assim expressas pelo Papa Francisco:

“O sacramento do matrimônio não é uma convenção social, um rito vazio ou o mero sinal externo de um compromisso. O sacramento é um dom para a santificação e a salvação dos esposos, porque 'a sua pertença recíproca é a representação real, através do sinal sacramental, da mesma relação de Cristo com a Igreja. Os esposos são, portanto, para a Igreja, a lembrança permanente daquilo que aconteceu na cruz; são um para o outro, e para os filhos, testemunhas da salvação, da qual o sacramento os faz participar'. O matrimônio é uma vocação, sendo uma resposta à chamada específica para viver o amor conjugal como sinal imperfeito do amor entre Cristo e a Igreja. Por isso, a decisão de se casar e formar uma família deve ser fruto de um discernimento vocacional.” 33

Para compreendermos a dignidade do Matrimônio, a Igreja de todos os tempos sempre nos recordou, como fez o Santo Padre Francisco, a doutrina de São Paulo sobre o casamento: é sinal da união entre Cristo e a Igreja. Por isso, o esposo e a esposa não se podem amar com um amor qualquer, banal, mas devem se amar tal qual Cristo ama a Igreja e vice-versa. Vejam, amados filhos, quão grande é a dignidade do Matrimônio. Será que estamos correspondendo à grandiosidade desse Sacramento? A partir desta imagem da união de Cristo e da Igreja, compreendemos, também, a indissolubilidade de conúbio entre o homem e a mulher; afinal, como Cristo prometeu estar com a Igreja até o fim do mundo (cf. Mt 28, 20), assim o casal deve manter-se unido e fiel até o fim da vida.

A família é o lugar do mistério divino, mistério do amor e da vida. Deus está presente no dia a dia das famílias, nas dores e alegrias; nas horas de luto, medo e insegurança, mas também nos momentos de festa e confraternização; de modo especial Deus se faz presente no instante do nascimento e da morte, quando, respectivamente, vem dar e transformar a vida. A família é um lugar privilegiado do agir divino, Deus não é insensível aos dramas familiares, mas está sempre próximo para oferecer o Seu auxílio, para curar os corações.

3. O drama atual das famílias

A família é instituição divina e, por isso, é tão combatida e perseguida; por isso, as forças do mal insistem em destruí-la. Abramos, pois, os olhos para o drama da família nos nossos dias, não permitamos que esse santuário da vida seja profanado! Enquanto Igreja militante, devemos lutar pelo Evangelho, lutar pela vida e pela família, não permitindo que os filhos das trevas vençam essa guerra. Sejamos diretos: o demônio quer destruir a família, pois ele, quando renegou a Deus, fez-se um ser de solidão. Na sua revolta contra o Senhor transformou-se em um ser frio e sozinho e, por isso, ele tem ódio das famílias, da felicidade e da solidariedade da comunhão familiar. Não foi à toa que destilou o seu ódio contra a primeira família, joeirando discórdia entre Adão e Eva e, depois, levando ao fratricídio de Abel, perpetrado por Caim. O inimigo da nossa salvação permanece a agir ardilosamente, propondo modismos contrários à família, doutrinas nefastas para perversão das crianças e jovens. Para isso, ele se infiltrou nos governos, partidos, escolas, universidades seduzindo muitos com um linguajar arrojado e enganador, propondo, entre muitas outras coisas, o fim da diferenciação entre o masculino e feminino, querendo negar o óbvio natural e, por incrível que pareça, conquistando muitas pessoas para a sua guerra dos gêneros.

Os bispos reunidos no Sínodo das Famílias, sob a presidência do Papa Francisco, já denunciavam a chamada ideologia de gêneros, demoníaca revolução que vem se espalhando pelo mundo, criando confusão e colocando em risco a saúde física, psíquica e espiritual das nossas crianças. O Santo Padre assim nos alertou na sua exortação pós-sinodal sobre o perigo dessa nova ideologia:

“Outro desafio surge de várias formas de uma ideologia genericamente chamada gender, que 'nega a diferença e a reciprocidade natural de homem e mulher. Prevê uma sociedade sem diferenças de sexo, e esvazia a base antropológica da família. Esta ideologia leva a projetos educativos e diretrizes legislativas que promovem uma identidade pessoal e uma intimidade afetiva radicalmente desvinculadas da diversidade biológica entre homem e mulher. A identidade humana é determinada por uma opção individualista, que também muda com o tempo' ”34

Não nos enganemos, vivemos em uma sociedade que passa por um processo silencioso de revolução. Esta quer apagar da sociedade o seu passado cristão, quer eliminar a influência social da Igreja, quer silenciar as nossas vozes, proibindo-nos de denunciar a imoralidade de certas ideologias e, até mesmo, proibindo-nos de viver o Santo Evangelho integralmente, como quando querem impor a hospitais católicos a prática do aborto e da eutanásia. Todavia, devemos anunciar a Boa Nova da nossa salvação oportuna e inoportunamente. E é por isso que, neste Jubileu da Família, não podemos deixar de denunciar as perseguições que continuamente sofrem as nossas famílias.

Usamos a palavra revolução, convictos de que realmente se trata de uma mudança total da sociedade, uma reorganização social em que não haja espaço para a Igreja e para os cristãos. Tal revolução quer se aproveitar dos instintos sexuais humanos, especialmente desordenados nas últimas décadas, para construir uma nova sociedade sem Deus. Vivemos, pois, uma verdadeira revolução sexual, que quer promover o sexo livre, a união homossexual, a ideologia de gênero, o aborto e a eutanásia, e até práticas sexuais abomináveis como o incesto e a pedofilia, para construir essa nova sociedade demoníaca nos princípios e nos fins. Muitos irmãos no episcopado têm, corajosamente, denunciado esse caminho revolucionário que pretende um mundo sem moral e sem religião:

“A revolução sexual foi e continua sendo um fenômeno induzido, elaborado e dirigido por grupos ideológicos e lobbies bem organizados e financiados, que alimentam certas tendências desordenadas do homem moderno para realizar um plano revolucionário concebido em laboratório. Esses lobbies contam com milhares de pequenos grupos militantes, favorecidos por um sistema político-financeiro internacional e ajudados pela máquina de propaganda da mídia.”35

Por tudo isso, conclamo os católicos cariocas a fazerem da família o centro de suas preocupações neste período tão especial, marcado pela atenção carinhosa à Virgem Maria. Para nós, em meio a tantas invocações, ela será, acima de tudo, Maria, Mãe das Famílias. Não hesitemos em abandonar o conforto do que já estamos acostumados a fazer para sair missionariamente rumo às famílias, especialmente as que se sentem e, às vezes realmente estão, afastadas da vida da Igreja. Aproveitemos a presença da imagem missionária de Nossa Senhora Aparecida, imagem que nos foi gentilmente doada pelo Santuário Nacional em nossa última romaria, e usemos de nossa criatividade pastoral para chegar até as famílias, para valorizar, defender e proteger todas as famílias.

Nosso 12º Plano de Pastoral apresenta, de modo bastante simples e prático, algumas sugestões para que se dê atenção especial às famílias neste Ano Mariano. Não deixaremos, por certo, de celebrar a Virgem Maria, mas nós a olharemos na Sagrada Família e, com ela, buscaremos missionariamente todas as famílias. Ao mesmo tempo em que não deixaremos de advertir sobre a “decadência cultural que não promove o amor e a doação” 36, vamos, no mais profundo espírito de unidade, testemunhar com nossas ações pastorais que é possível olhar com o coração misericordioso para a família. Vários são os desafios. Alguns, repeti aqui e incansavelmente vou repetir muitas outras vezes. O Santo Padre Francisco os indica em sua Exortação Apostólica, à qual devemos nos reportar a fim de verificar se estamos, em nossas comunidades, movimentos e demais associações, atendendo às famílias, em especial as que sofrem 37 .

De singular importância para esta nossa dupla comemoração – os Anos Mariano e da Família – é a mensagem da Beata Irmã Lúcia, vidente de Fátima, que alertava ao Cardeal Caffara: “A batalha final entre o Senhor e o reino de Satanás será a respeito do Matrimônio e da Família”. Estimados filhos, não nos resta dúvida que estamos vivendo o período dessa guerra; afinal, nunca a família esteve tão ameaçada, nunca o inimigo infernal a bombardeou tanto quanto em nossos dias. Portanto, conclamo toda a nossa Arquidiocese a se alistar no exército do Senhor, sob o estandarte da Cruz e de Maria Imaculada e sob a proteção do Arcanjo São Miguel, para defendermos a vida e a família dos inimigos visíveis e invisíveis. O Rei e a Rainha dos Céus marcham conosco e, por isso, certa é a nossa vitória!

4. Rainha das Famílias, protegei e salvai as nossas famílias

Celebraremos os vinte anos da histórica visita de São João Paulo II à nossa cidade, e queremos, por isso, recordar algumas das palavras que ele dirigiu às nossas famílias por ocasião do II Encontro Mundial do Papa com as Famílias, em 1997:

“A família é patrimônio da humanidade, porque é mediante a família que, conforme o desígnio de Deus, deve-se prolongar a presença do homem sobre a terra. Nas famílias cristãs, fundadas no sacramento do matrimônio, a fé nos vislumbra maravilhosamente o rosto de Cristo, esplendor da verdade, que enche de luz e de alegria os lares que inspiram a sua vida no Evangelho. Hoje, infelizmente, vai-se difundindo pelo mundo uma mensagem enganosa de felicidade impossível e inconsistente, que só arrasta consigo desolação e amargura. A felicidade não se consegue pela via da liberdade sem a verdade, porque esta é a via do egoísmo irresponsável, que divide e corrói a família e a sociedade. Não é verdade que os esposos, como se fossem escravos condenados à sua própria fragilidade, não possam permanecer fiéis à sua entrega total até a morte! O Senhor, que vos chama a viver na unidade de ‘uma só carne’, unidade de corpo e alma, unidade da vida toda, dá-vos força para uma fidelidade que enobrece e que faz com que a vossa união não corra o risco da traição que rouba a dignidade e a felicidade e introduz, no seio do lar, divisão e amargura cujas maiores vítimas são os filhos. A melhor defesa do lar está na fidelidade que é uma dádiva do Deus fiel e misericordioso, num amor por Ele redimido.”

O Papa das famílias exorta-nos a termos coragem de ir contra a maré do mundo, de aceitarmos o ensinamento do Senhor, de que a família é sagrada, é o santuário da vida, de que é possível um Matrimônio santo, único e indissolúvel. Unamo-nos aqui ao apelo do Santo Padre e encorajemos as famílias que estão sob a nossa proteção a viverem segundo o Evangelho da nossa Salvação. Não tenham medo de dizerem sim à vida; vivam um Matrimônio fecundo. Nos momentos de dificuldade ajam com paciência e humildade, que o amor seja a bússola a guiá-los em todas as horas. Lembrem-se das promessas que fizeram a Deus no dia do Matrimônio: na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, fidelidade durante toda a vida. Especialmente, recorram sempre à Sagrada Família de Nazaré, implorando-lhe o auxílio e as luzes necessárias para viver um Matrimônio segundo os desígnios de Deus.

A família é a primeira igreja, a igreja doméstica. Portanto, eduquem seus filhos na fé, apresentem-nos o quanto antes ao santo Batismo, para que renasçam para a vida da graça. Instruamnos nas verdades da fé e na prática das virtudes. Caros pais, vocês têm o dever gravíssimo de educar os seus filhos na fé cristã (cf. CIC, cân. 226), não abandonem a educação deles nas mãos do Estado, para que não se arrependam mais tarde. Deus lhes cobrará, no dia do Juízo, por aquilo que deixaram de fazer pelos seus filhos!

Acerca da educação das crianças na fé, adverte-nos o Romano Pontífice:

“O exercício de transmitir aos filhos a fé, no sentido de facilitar a sua expressão e crescimento, permite que a família se torne evangelizadora e, espontaneamente, comece a transmiti-la a todos os que se aproximam dela e 20 mesmo fora do próprio ambiente familiar. Os filhos que crescem em famílias missionárias, frequentemente tornam-se missionários, se os pais sabem viver esta tarefa de uma maneira tal que os outros os sintam vizinhos e amigos, de tal modo que os filhos cresçam neste estilo de relação com o mundo, sem renunciar à sua fé nem às suas convicções.”38

Que, neste Ano da Família, as famílias possam redescobrir o sentido cristão do Matrimônio. Para esta importante missão de revalorização do Matrimônio e da família, contamos com os indispensáveis auxílios do nosso clero arquidiocesano. Que vocês, amados sacerdotes, possam exortar continuamente as famílias que lhes foram confiadas a viverem um relacionamento alicerçado sobre a rocha, a fim de que as tempestades da vida não façam desmoronar aqueles que Deus uniu. Exortem, pois, os seus fiéis sobre o sentido cristão do Matrimônio, da importância da castidade, da unidade e indissolubilidade e, também, da generosa abertura à vida. Que a verdade na caridade seja guia para aqueles casais que vivem em situações de pecado. De modo especial, imploramos: protejam as crianças! Não deixem que esses inocentes filhos de Deus sejam corrompidos por uma (des)educação que os afastem da Igreja e da salvação. Zelem corajosamente pelo Matrimônio, pela família e pela vida. Preguem, oportuna e inoportunamente, os ensinamentos de Nosso Senhor e dos Santos Apóstolos, bem como a doutrina imutável da Santa Madre Igreja. Que a paciência e a bondade da caridade sejam as suas guias na árdua missão de anunciar todos os dias o Santo Evangelho.

Amadas famílias, dirigimo-nos a vocês com toda a afeição do nosso coração: vivam segundo o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, alicercem as suas vidas sobre a Rocha do Senhor. Confiem nas graças que lhes são concedidas através do Sacramento do Matrimônio e da Eucaristia, elas vão auxiliá-los nas horas difíceis, fortalecerão os vínculos de amor que os unem. Inspirem-se sempre na Sagrada Família de Nazaré, ela é o modelo para todas as famílias! Rezem, rezem sempre em família. Consagrem um momento dos seus dias ao Senhor, unidos, dirijam suas preces ao nosso Salvador. Ele quis ter uma família e, consequentemente, Ele santificou todas as famílias; fez da sua Família modelo para todas as outras.

Queridos pais, lembrem-se do Pai misericordioso do Santo Evangelho. Estejam, pois, sempre dispostos a perdoar os seus filhos, eles sofrem cotidianamente o ataque do inimigo que quer pô-los a perder, quer afastá-los do caminho do Senhor. Vigiem, especialmente, a educação dos seus filhos, não a abandonem nas mãos do Estado, pois este está, muitas vezes, corrompido por ideologias contrárias à fé cristã. Eduquem suas crianças na fé e nas virtudes, levem-nas para a Igreja e para a catequese; dessa forma, vocês não terão desgostos no futuro. Amem, dialoguem, eduquem, deem carinho aos seus filhos para que eles não precisem buscar afeto, compreensão e respostas com pessoas estranhas. Tenham para com seus filhos amor e zelo semelhantes aos que tiveram São José e a Virgem Maria pelo divino Menino Jesus.

Filhos muito amados, crianças e jovens, lembrem-se sempre do quarto Mandamento do Decálogo e da promessa conexa: honrem seus pais, assim gozarão muitos anos de vida feliz. Seus pais devem ser os seus melhores amigos, abram seu coração a eles, escutem o que eles dizem. Peçam a seus pais que os levem à Igreja, que os coloquem na catequese, que lhes ensinem e transmitam a fé católica. Recordem-se sempre de ter para com eles os afetos que teve Nosso Senhor Jesus Cristo para com a sua Santíssima Mãe e para com seu protetor São José.

Invocamos a proteção da Augusta Rainha dos Céus para as famílias de nossa Arquidiocese, do nosso Brasil e do mundo inteiro. Que a Mãe da Divina Providência se compadeça das dores de nossas famílias e, como em Caná, não permita que nada falte à mesa dos seus filhos. Que Ela venha em socorro das famílias que sofrem a dor da perda dos filhos, que console igualmente os filhos que perdem os seus pais. Que Ela dê sabedoria para os pais que veem os seus filhos caírem no mundo das drogas e dos crimes. Que a Mãe de Misericórdia converta o coração daquelas mulheres que querem praticar o aborto. Que os nossos jovens possam se colocar sob o manto de Maria Imaculada, a fim de que vivam a castidade protegidos da sexualidade desregrada da nossa sociedade. Enfim, imploramos a proteção da Rainha das Famílias para todas as famílias, em especial para aquelas que estão vivendo algum drama pessoal.

Mãe e Rainha das Famílias, intercedei ao vosso Divino Filho pelas nossas famílias, a fim de que nada falte a elas, principalmente o amor, a harmonia, a alegria, a paciência, a sabedoria… Estas são as necessidades de nossas famílias; socorrei-as como outrora socorrestes aquele casal que iniciava a sua vida a dois. Não permitais, Mãe de Deus, que nenhum dom falte às nossas famílias; imploramo-vos, especialmente, que a graça de Deus seja abundante nos lares cristãos, pois só assim poderão viver o Matrimônio tal qual os desígnios divinos.

Por fim, unimos nossas preces às preces de São João Paulo II e do Papa Francisco pelas famílias. Suplicamos que a Sagrada Família de Nazaré seja o modelo de nossas famílias e que elas possam viver sempre sob a especial proteção de Jesus Cristo, da Virgem Maria e de São José. Amém!

“A Sagrada Família, ícone e modelo de cada família humana, ajude cada um a caminhar no espírito de Nazaré; ajude cada núcleo familiar a aprofundar a própria missão civil e eclesial, mediante a escuta da Palavra de Deus, a oração e a partilha fraterna de vida! Maria, Mãe do belo amor, e José, Guarda do Redentor, nos acompanhem a todos com a sua incessante proteção!”39

Oração à Sagrada Família

Jesus, Maria e José, em Vós contemplamos o esplendor do verdadeiro amor, confiantes, a Vós nos consagramos. Sagrada Família de Nazaré, tornai também as nossas famílias lugares de comunhão e cenáculos de oração, autênticas escolas do Evangelho e pequenas igrejas domésticas. Sagrada Família de Nazaré, que nunca mais haja nas famílias episódios de violência, de fechamento e divisão; e quem tiver sido ferido ou escandalizado seja rapidamente consolado e curado. Sagrada Família de Nazaré, fazei que todos nos tornemos conscientes do caráter sagrado e inviolável da família, da sua beleza no projeto de Deus. Jesus, Maria e José, ouvi-nos e acolhei a nossa súplica. Amém.40

Ano da graça do Senhor

O Senhor nosso Deus preparou para todos nós um grande ano de graça, quando Ele derramará, de forma especial, pela intercessão de sua Santíssima Mãe, abundantes graças sobre todos nós e, principalmente, sobre as nossas famílias. Convidamos todos, amados filhos e filhas, a viverem intensamente esse Ano Jubilar, que se prolongará de 12 de outubro do corrente ano até 11 de outubro de 2017. A Mãe de Deus estará sempre a seu lado e, de forma singular, ao lado de suas famílias. Recorram sempre a Jesus por Maria, na certeza de que nenhuma oração ficará sem resposta.

Quão jubiloso será vivenciar um Ano Mariano e das Famílias, celebrar Maria, Rainha e protetora de todas as famílias! Sem o 'sim' de Maria Virgem, a Sagrada Família de Nazaré não teria existido, sem o 'sim' dela, o Verbo não teria se encarnado para nos salvar. Igualmente, sem o 'sim' que os esposos dão uns aos outros não seriam possíveis as nossas famílias; sem o 'sim' à vida, dado pelo casal, não se plenificaria esse amor esponsal através da geração.

São João Evangelista nos afirma que a Mãe do Senhor estava presente nas bodas de Caná; quer dizer, Ela está presente entre as famílias, atenta às necessidades de seus filhos. Como Mãe zelosa e amorosa, Ela não quer que nos falte nada, principalmente, Ela não quer que falte o Cristo em nossas vidas. Por isso, Ela apressa a hora do seu Filho. Apressa o momento da revelação do Senhor, e é pela intercessão da Virgem Mãe que o Nosso Salvador se manifesta e realiza o seu primeiro milagre. Aquela família que se formava foi o cenário escolhido para a primeira manifestação de Jesus; de forma semelhante, o Senhor quer realizar milagres em nossas famílias e os quer realizar pela intercessão de sua Santíssima Mãe. Convidemos, pois, para dentro de nossa casa a Virgem Maria, porque com Ela virá Nosso Senhor.

Quando nos deu Jesus Cristo, Maria Santíssima nos deu tudo! Na Encarnação e na Cruz, a Santa Mãe de Deus nos deu o que tinha de mais precioso, seu Divino Filho. Acaso aquela que nos deu o seu maior tesouro nos negará alguma outra coisa? Dirijamos, portanto, fervorosas orações à Sempre Virgem Maria na certeza de que Ela ouvirá as nossas preces e não permitirá que nada falte em nossos lares

A Virgem Mãe quer nos dar Jesus e nos dar a Jesus; logo, todas as vezes que nos voltamos para a Santíssima Virgem, Ela não só nos entrega Jesus Cristo – vida da nossa alma – como também leva-nos, apresenta-nos ao Senhor. A Virgem é, pois, tanto o caminho que o Senhor quer trilhar para chegar a nós, como o caminho que devemos percorrer para chegar ao Santíssimo Salvador.

Que neste duplo Ano Jubilar, nossas famílias possam aprender o segredo de um lar feliz, harmonioso e santo: a devoção à Santíssima Virgem. Quando trazemos a Virgem Maria para dentro de nossos lares, trazemos toda a Santa Família de Nazaré, exemplo perfeitíssimo para todas as famílias. Poderíamos, afinal, encontrar melhor exemplo de Filho, Mãe e pai, senão em Jesus, Maria e José? Não desanimemos por ser impossível imitar em plenitude a Sagrada Família; ao contrário, que isto nos anime a querer cada dia melhorarmos, aperfeiçoarmo-nos para que possamos nos assemelhar, tanto quanto possível, a Jesus, Maria e José.

O maior culto que podemos prestar à Santíssima Virgem é o culto de imitação no seguimento de Jesus Cristo e, assim, podermos exclamar, à semelhança de São Paulo: “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim.” (Gl 2,20). Igualmente, o mais sublime culto que podemos prestar à Sagrada Família é imitá-la em nossas casas: que as mães sigam o exemplo de Maria Santíssima, os pais o exemplo de São José e os filhos o exemplo de Jesus Cristo, Nosso Senhor. Desta forma, não só honraríamos a Santíssima Família, como atrairíamos abundantes graças e bênçãos do Céu para as nossas casas. Quão sublime não seria podermos exclamar: já não é minha família a viver, mas a Família Sagrada a viver em nós!

Que neste Ano Mariano e das Famílias possamos nos aplicar a viver o culto de imitação à Santíssima Virgem Maria e à Sagrada Família de Nazaré na certeza de que, assim, estaremos mais próximos de alcançar a nossa meta: a vida eterna junto de Deus. Apliquemo-nos, pois, amados filhos e filhas, a vivermos à semelhança de Jesus, Maria e José, convictos de que gozaremos de tranquilidade de alma nesta vida e da eternidade feliz no século futuro.

“(…) devemos ter para com Ela grandíssima devoção. Esta palavra quer dizer dedicação, e dedicação quer dizer dom de si mesmo. Seremos, pois, devotos de Maria se nos dermos completamente a Ela, e, por Ela, a Deus. Nisto não faremos senão imitar o próprio Deus que se nos dá a nós e nos dá o seu Filho por intermédio de Maria. Daremos a nossa inteligência pela veneração mais profunda, a nossa vontade pela confiança mais absoluta, inteiramente todo o nosso ser pela imitação mais perfeita, que for possível, das suas virtudes.”41

Amadas famílias, estimados sacerdotes, religiosos e religiosas, muito amado Povo de Deus: temos a alegria de abrir este Ano Mariano e das Famílias dirigindo-nos a todos, confiantes de que acolherão o nosso pedido de viverem intensamente este Ano Jubilar que nós celebraremos. Ao fim desta nossa carta, queremos implorar a Deus por todos, em especial pelas famílias, para que o Onipotente conceda a todos abundantes bênçãos. Imploramos, ainda, a proteção maternal da Virgem Maria – que Ela estenda sobre todos vocês o seu manto e os proteja contra os dardos do inimigo. Que também São José, protetor das famílias, cuide das nossas famílias.

A todos, por fim, concedemos a nossa bênção especial.



Rio de Janeiro, 12 de outubro de 2016
Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil


Orani João Cardeal Tempesta, O.Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro
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1PIO XII. Fulgens Corona, 20.
2Espelho da Justiça
3MONTFORT, Luis Maria Grignion. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. 4RATZINGER, Joseph. A Filha de Sião – A devoção mariana na Igreja.
5 Ibidem.
6Lumen Gentium, 63.
7PIO X. Ad Diem Illum,
8-9 8RATZINGER, Joseph. Op. cit.
9DS, 1880.
10NEWMAN, John Henry. Rosa Mística – Meditações sobre a ladainha de Nossa Senhora.
11“E uma espada transpassará a tua alma.”
12VIEIRA, Antônio. Sermão: Prática Espiritual da Crucificação do Senhor.
13PIO XII. Munificentissimus Deus, 40
14PIO XII. Munificentissimus Deus, 44.
15“De Maria nunca suficiente!”
16S. EFRÉM. Hino: Sobre a Natividade de Cristo
17Lumen Gentium, 64.
18LEÃO XIII. Fidentem Piumque animum,
19Rainha da paz, rogai por nós.
20JOÃO PAULO II, Redemptoris Mater, 49
21Lumen Gentium, 54.
22Ibidem. n. 63.
23PAULO VI, Marialis Cultus, 25.
24Ibidem. n. 25.
25Ibidem. n. 28.
26 FRANCISCO, Amoris Laetitia, 31.
27 FRANCISCO, Amoris Laetitia, 35.
28 Ibidem
29Ibidem. 292
30JOÃO PAULO II, Gratissimam Sane, 15.
31FRANCISCO, Amoris Laetitia, 83.
32Ibidem. 87.
33Ibidem. 72.
34Ibidem. 56
35PAGOTTO, Aldo di Cillo; VASA, Robert F.; SCHNEIDER, Athanasius - Opção Preferencial pela Família.
36 FRANCISCO, Amoris Laetitia, 39.
37 FRANCISCO, Amoris Laetitia, 40-57.
38FRANCISCO, Amoris Laetitia, 289.
39SÃO JOÃO PAULO II, Gratissimam Sane, 23.
40FRANCISCO, Amoris Laetitia.
41TANQUEREY, Adolphe. Compêndio de Teologia Ascética e Mística.
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Arquidiocese do Rio de Janeiro