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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Síria: "Nós nunca estamos seguros"


Como está a situação na Síria hoje?

Agora todo mundo está ansioso porque a situação promete, mas por outro lado estamos enfrentando uma crise humanitária de enorme escala. É por isso que as pessoas dizem: “Ok, nós temos paz, mais uma vez nós experimentamos um pouquinho de paz”, mas essa obviamente não é uma paz total. Damasco, por exemplo, durante o tempo em que estive lá, permaneceu quieta por dois dias, mas no domingo houve oito explosões nos arredores da cidade. O grupo Estado Islâmico (EI), a Al-Nusra e outros grupos da Al-Qaeda querem desestabilizar a situação e mostrar que não haverá paz sem o envolvimento deles. A Síria mudou completamente em apenas 5 anos. De um país rico, que usufruía de paz e em que os negócios iam bem, para um país completamente destruído.

Como a guerra mudou a vida dos sírios?

A população da Síria atualmente pulou de 24,5 milhões para 17 milhões. Aproximadamente 6 milhões de pessoas estão fora do país. Mais de 4,8 milhões de refugiados sírios estão nos países vizinhos, e 13,5 milhões necessitam de ajuda humanitária dentro da Síria. Algumas áreas são extremamente difíceis de se chegar. A comida muito cara. Por exemplo, numa área sob o controle do governo, o preço do arroz subiu aproximadamente 250% desde 2010, mas em áreas controladas pelos rebeldes esse preço subiu 28 vezes mais! Se a comida básica é tão cara, imaginem a vida miserável que eles levam!? Mais de 57% das pessoas não conseguem nenhum trabalho. Elas vivem de esmola ou de ajuda humanitária. 4,6 milhões de pessoas estão em áreas de difícil alcance. Todos têm medo da possível divisão do país e do prolongamento dos conflitos, devido a novos fatores como as ações do exército turco em território sírio contra os chamados rebeldes e contra os curdos. A situação é extremamente complexa, mas certamente pela primeira vez em muitos meses há uma pequena chama de esperança.


Quais experiências mais entristeceram o senhor durante sua viagem à Síria?

Primeiro, as ruínas que se vê ao redor de Damasco. Sempre foi uma cidade amável e as pessoas ali ainda se recusam a cair no desespero. Apesar da situação difícil, eles tentam levar uma “vida normal”. Mas a paisagem ao redor da cidade é terrível. Quando nós fomos a Homs, usamos vias alternativas porque as rodovias estavam bloqueadas pelos atiradores de tocaia. As ruas estão sujas, as pessoas usam trapos para se vestirem, os preços altíssimos, e um clima de extrema desconfiança. O número frequente dos pontos de revista é definitivamente um impacto na mentalidade das pessoas: “Nós estamos sempre em perigo porque há muitos soldados fazendo revista em cada carro e em cada pessoa”. Em razão da constante tensão causada pelos bombardeios, todos estão extremamente cansados, especialmente a polícia.

Em Homs, nós ficamos num lugar onde poucos dias antes houve um ataque da Al-Nusra. Eles dirigiram um carro até o centro da cidade e num ponto de revista eles acionaram a bomba, matando a eles mesmos e a seis soldados. Esses atos do terrorismo traumatizam profundamente as pessoas. “Nós nunca estamos seguros”, eles dizem. Isso tudo os deixa de fato saturados. As famílias estão numa situação dramática já que não podem se sustentar. Eles não têm trabalho ou são muito mal pagos. E os deslocados, que tiveram de sair de suas casas – 6,5 milhões para ser mais preciso – necessitam alugar quartos cujo os preços são exorbitantes. Sem renda alguma, isso se torna um grande desafio para eles. Por último mas não menos importante, a questão dos jovens que têm medo de serem recrutados pelo exército ou pelos rebeldes para lutar. Eles são os mais vulneráveis, por isso fogem. É por isso também que entre os refugiados na Europa há tantos jovens. 

De tudo o que viu, houve alguma comovente situação que poderia descrever?

O momento que eles vêm para nos dizer: “Não conseguimos agradecer mais” ou as muitas vezes que, sem palavras, se derramavam em lágrimas, porque ninguém, além de nós, está ajudando desse jeito que eles precisam.Tudo isso é muito emocionante para nós. Eles são muito gratos. Mas essa ajuda não tem somente o aspecto material. Ela é muito mais. As pessoas em Marmarita me disseram: “Padre, é tão importante para nós que não nos sintamos esquecidos”. Precisamos lembrar que a ACN é uma das principais instituições que fornecem ajuda de emergência na Síria. De acordo com uma análise, pelo menos 195 mil pessoas, cristãos e de outras religiões, foram ajudadas pela ACN. Alimento, eletricidade, combustível, remédios... foram 17 maneiras diferentes de ajudar o povo sírio em 2015.


Há alguma história de um parceiro de projeto que o senhor gostaria de partilhar?

Há uma professora em Damasco que por duas vezes saiu do país: uma vez foi para os EUA e outra à Europa. Ao final ela disse: “Eu não consigo viver longe daqui. Preciso retornar à Síria. Tenho que ajudar as crianças nas escolas. Quero envelhecer aqui e morrer aqui”. Essa é uma pessoa que ama de fato o seu país, apesar das dificuldades, e foge da tentação de ter uma vida fácil longe daqui.

Eu lembro também de dois jovens do Vale dos Cristãos (Valley of Christians). Eles são extremamente bem formados; ambos falam muito bem o inglês. Com as suas qualificações, eles poderiam facilmente encontrar emprego num país ocidental. Além disso, seus pais moram nos EUA e os chamam diariamente para ir para lá. Mas a resposta deles é sempre a mesma: “Precisamos ajudar a outros. Há muitos que dependem de nós aqui”. E de fato eles estão ajudando centenas de famílias. Eles trabalham como voluntários. Isso é impressionante.

Desde o início da guerra na Síria, que estourou em 2011, a ACN tem apoiado projetos humanitários de emergência e de ajuda pastoral no país.
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ACN Brasil