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segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Paz e Espada!



Alguns, romanticamente, pensam que Cristo é contra a guerra, e só querem a "paz". Uma paz que seria simples ausência de luta, fazendo de Jesus um pacifista.

Ora, o Evangelho apresenta uma visão completamente oposta a esse pacifismo sentimental, que é essencialmente injusto.

Nosso Senhor preveniu que por causa dEle haveria muitas divisões e lutas.

Já quando Ele foi apresentado no Templo, quarenta dias após o seu nascimento, o profeta Simeão disse a Nossa Senhora: "Eis que este menino está posto para ruína e ressurreição de muitos em Israel, e para ser alvo de contradição" (Luc. II, 34).

E o próprio Cristo nos disse:

"Julgais que vim trazer a paz à terra? Não, vos digo eu, mas a divisão; porque de hoje em diante, haverá numa casa cinco pessoas, divididas três contra duas, e duas contra três. O pai contra o filho, e o filho contra o pai; a mãe contra a filha, e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora, e a nora contra a sogra" (Luc. XII, 51-53).

E em São Mateus se acha o mesmo texto sobre o qual você me consulta:

"Não julgueis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada. Porque vim separar o filho de seu pai, e a filha de sua mãe, e a nora de sua sogra. E os inimigos do homem serão os seus próprios domésticos" (Mt. X, 34-36).

Qual a razão dessas profundas divisões trazidas pela doutrina de Cristo, que separará até mesmo os parentes mais chegados?

É que a verdade atinge o mais profundo do homem. E, da adesão ou repulsa da verdade trazida por Cristo, nascem essas divisões.

O homem, que prefere gozar a vida, não tolera a verdade de Cristo, e então procura combatê-la. Os que querem fazer antes de tudo, a vontade de Deus, aceitam a verdade anunciada por Cristo, e querem fazer a sua vontade, colocando o servir a Deus acima até do amor aos parentes. Os que querem fazer a sua própria vontade rejeitam a verdade ensinada por Cristo, e procuram combatê-la. Daí, as divisões. Daí, a guerra continua, na História, entre os filhos de Deus e os filhos do demônio.

Essa é a guerra trazida por Cristo. Exatamente como foi predito no Gênesis, quando Deus disse, ao amaldiçoar a serpente:

"Colocarei inimizades entre ti (o demônio) e a mulher (a Virgem Maria), entre a tua raça (os filhos do diabo) e a dela (os filhos de Nossa Senhora), e Ele mesma te esmagará a cabeça" (Gen. III, 15).

Isto é o contrário do que ensina o liberalismo, triunfante, hoje em dia.

O liberalismo, seguindo as mentiras pregadas por Rousseau, considera que o homem é bom, sem ter nenhuma inclinação para o mal e para o erro. Para Rousseau, não haveria pecado original, e, conhecendo a verdade, o homem a aceitaria sempre.

Ora, é o contrário disso que acontece.

Normalmente, o homem não gosta da verdade, porque ela lhe traz obrigações. A mentira é cômoda. A mentira não nos obriga a nada. Servimo-nos dela como de uma escrava, enquanto nos é conveniente. Desde que a mentira não nos convenha mais, nós a expulsamos, denunciando a sua falsidade.

A verdade é nossa rainha, que nos impõe obrigações. Por isso, resistimos à verdade. E preferimos a mentira. Dai a verdade de Cristo ter produzido tanto ódio contra Ele.

Na história, Cristo estabeleceu a sua Igreja para ensinar a única verdade, e contra ela o demônio suscita sempre heresias, calúnias e mentiras. Por isso, a Igreja é chamada militante, e não pacifista.

Por isso, Cristo instituiu um sacramento, o Crisma -- que nos torna soldados de Cristo. É para seus soldados, para aqueles que compreendem que o crisma deve ser vivido na luta pela defesa da Fé que Cristo deixou a espada. E a espada que Ele nos deixou não é para fazer tricô. É para combater. Porque só o combate para estabelecer a verdade e a justiça impõe a ordem, e só com a ordem e a justiça existe a paz. A paz é obra da justiça. Opus justitiae, pax . Justiça e paz se beijaram (Sl.LXXXIV, 11) por que uma não existe sem a outra. E a justiça só se estabelece, muitas vezes, com o uso da espada. A espada da verdade.

Hoje só se fala em paz. Mas é a paz dos maus, fundada na injustiça. Cabe então muito aos que hoje falam de paz o que o profeta Jeremias dizia dos maus sacerdotes de seu tempo, que causaram a guerra e a destruição de Jerusalém:

"Eles curavam as chagas das filhas de meu povo com ignomínia, dizendo: Paz, paz, quando não havia paz" (Jer. VI, 14).

Porque "Não há paz para os ímpios, diz o Senhor Deus" (Isaias, XXII, 57, 21).

II

Jesus começa por afirmar:

«Não julgueis que vim trazer a paz à terra ; não vim trazer a paz, mas a espada» (v. 34).

Com esta declaração, Cristo parece, antes do mais, ter entendido aprimorar as concepções messiânicas dos antigos judeus. Estes admitiam que a vinda do Messias na plenitude dos tempos seria imediatamente precedida de grandes catástrofes e aflições, as chamadas «Dores do Messias» (habélê meshiah), comparáveis às dores do parto (é, aliás, a essas dores messiânicas que o texto do Evangelho se refere em Mt 24,8). Contudo, logo que aparecesse, o Messias, conforme os judeus, deveria apaziguar os ânimos e extinguir todas as rixas e guerras; restauraria sem demora a harmonia paradisíaca violada pelo pecado de Adão e Eva; um mundo novo assim se originaria. O próprio Messias, em consequência, era chamado «Paz» (Miq 5,4), «o Príncipe da Paz» (Is 9,5).

Eis alguns textos rabínicos que ilustram tal concepção:

«Na semana de anos em que há de vir o Filho de Davi, as guerras se desencadearão no sétimo ano; no fim, porém, desse sétimo ano, o Filho de Davi virá» (Sanhedrin 97 a).

Rabi Eleazar bar Abina (por cerca de 340 d.C.), referindo antiga tradição, declarava:

«Quando vires um reino erguer-se contra outros, ficarás sabendo que a vinda do Messias está próxima... Nos dias de Abraão, os reinos se erguiam uns contra os outros; foi então que Abraão conheceu a salvação» (cf. Strack-Billerbeck, Commentar I 585).

Ora, justamente ao contrário do que esperavam os rabinos, Jesus no Evangelho anuncia o sábio plano de Deus: o Senhor houve por bem restaurar a ordem não de maneira repentina e imediata, mas em termos lentos, ou seja, durante todo o período de tempo que vai da primeira à segunda vinda de Cristo. Sim; a Providência Divina quis primeiramente, mediante a pregação de Cristo, apresentar ao mundo a mensagem da Redenção e, a seguir, solicitar de cada indivíduo através dos séculos uma tomada de posição consciente e livre (digna da natureza humana) diante dessa mensagem. Esse «solicitar» se vai protraindo até hoje,... até o dia em que a Sabedoria Divina houver por bem encerrar o curso da história, dando ao gênero humano o pleno triunfo sobre a morte (mediante a ressurreição dos corpos) e sobre as demais consequências do pecado (renovação da natureza irracional, céus novos e terra nova); então estará consumada a obra da Redenção- Entrementes a opção «por Cristo ou contra Cristo» é opção- «por Deus ou contra Deus», pela vida (verdadeira, eterna) ou pela morte; quem escolhe Cristo e a vida, deve necessariamente empenhar toda a sua personalidade, não pode mercadejar nem pode pactuar com algum outro bem, pois, fora de Deus (Cristo) e da vida, nada é bom; Deus e a vida são o pressuposto para que o homem encontre alegria em alguma criatura. É somente quando amados debaixo de Deus que os bens deste mundo podem oferecer deleite ao ser humano.

As exigências de adesão clara e total a Deus são formuladas por Jesus mediante uma expressão que, por ser muito- enfática, se torna quase paradoxal: «Vim trazer a espada...». Isto não quer dizer que o Senhor tenha tido o fito de pregar a guerra e agitar os povos. Muito ao contrário; Ele veio trazer a «Boa Nova», a notícia da restauração da harmonia. Infelizmente, porém, essa mensagem encontrou um mundo de consciências embotadas para os verdadeiros valores, um mundo- pronto a hostilizar quem quer que viesse sacudir o seu comodismo mórbido, pregando um ideal mais puro e elevado; em consequência, aqueles que aceitam a mensagem de Cristo, têm. que assumir simultaneamente o risco de lutar e morrer por causa da sua adesão ao Senhor. É justamente esse risco que a imagem da espada simboliza; ela ilustra bem quanto o cristão, por sua vocação mesma de cristão, é alheio a qualquer compromisso covarde ou a qualquer tipo de indiferentismo oportunista.

Nos versículos seguintes, o Senhor desenvolve ainda, mais a fundo o seu pensamento:

«Vim colocar o homem em oposição a seu pai, a filha contra, sua mãe, e a nora contra sua sogra. O homem terá por inimigos os próprios membros de sua família. Quem ama seu pai e sua mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim» (vv. 35-37).

Para inculcar que a mensagem do Evangelho visa realmente o bem fundamental entre todos, o Senhor se refere aos valores que o coração humano mais espontaneamente aprecia: os laços muito ternos existentes entre pais e filhos, entre sogra e nora, entre familiares e amigos íntimos (pessoas que chegam a compartilhar o mesmo teto e o mesmo pão). Tais vínculos, por muito que pareçam impor-se a todo e qualquer ser humano, devem, em caso de conflito, ceder incondicionalmente ao amor de Cristo, mesmo que isto acarrete expulsão de casa, sonegação de bens, etc.

Está claro que o cristão não tem o direito de provocar, por causa do Senhor, divisões e rupturas em casa ou na sociedade. Frisemo-lo bem: a Religião tende a unir, e não a separar. Contudo ao discípulo de Cristo não é lícito hesitar em aceitar todas as consequências e represálias que possam decorrer de uma tomada de posição bem coerente no setor da Religião.

A história, de resto, indica múltiplos episódios em que de fato os familiares se voltaram contra um cristão por motivo de Religião. Haja vista o que se deu, por exemplo, com Tito Flávio Clemente, primo do Imperador Domiciano; criado cônsul em 95, foi nesse mesmo ano condenado à morte por delito de «ateísmo» (título que se dava ao Cristianismo, infenso aos deuses oficiais de Roma). A sua esposa, Flávia Domitila, sofreu a mesma sorte por idêntico motivo.

Compreende-se que os familiares se possam tornar os mais requintados inimigos de uma pessoa: melhor do que os estranhos, conhecem os hábitos de tal pessoa; em consequência, melhor sabem como lhe podem causar dor e prejuízo.

A posição de Cristo e do cristão, que por si são os arautos da verdadeira paz e ordem, mas, não obstante, se tornam alvo de contradição, é bem ilustrada pelas palavras de S. Paulo:

«Graças sejam dadas a Deus, que... por nosso intermédio difunde por toda a parte o odor do seu conhecimento. Pois somos... o bom odor de Cristo, entre os que se salvam e os que se perdem: para uns, odor que da morte leva à morte; para outros, odor que da vida leva à vida» (2 Cor 2,14-16).

Com efeito, Cristo e o cristão, anunciando a «Boa Nova», propagam suave perfume, por si apto a fazer bem a todos os que o percebem, isto é, apto a corroborar a vida sobrenatural em todos os homens. Há, porém, organismos de tal modo afetados pela doença que o remédio, em vez de lhes ser útil, só serve para lhes acelerar a morte. Tal é o caso dos que se obstinam no erro moral e religioso: a apresentação da Verdade que o cristão lhes faça por suas palavras, ou simplesmente pelo seu teor de vida reta, neles provoca obcecação mortal. O discípulo de Cristo não tem culpa disto, desde que não tome atitudes afetadas, mas simplesmente se comporte como cristão consequente com seus princípios. Requer-se, porém, grande prudência e discrição por parte dos fiéis, para, de um lado, não provocar inutilmente o mau ânimo e o endurecimento dos não-cristãos, e, de outro lado, não atraiçoar a verdade e a virtude.

Por fim, duas observações literárias poderão ser úteis ao leitor.

a) A fórmula de S. Mateus 10,37: «Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a Mim...» fornece a interpretação autêntica dos dizeres paralelos consignados em Lc 14,26s: «Se alguém vem a Mim e não odeia pai, mãe..., não pode ser meu discípulo».

O semita não tinha termos explícitos para indicar comparações, como «amar mais... amar menos»; sendo assim, era obrigado a dizer simplesmente: «amar... odiar». Está claro que Jesus nunca preconizou o ódio a pai e mãe, nem mesmo por amor a Deus; apenas exigiu que o amor filial e familiar fosse menos forte que o amor a Deus, ficando sempre subordinado a este.

b) O povo judeu que acompanhava a pregação de Jesus, estava, mais do que nós, acostumado a ouvir dizer que o amor a pai e mãe tem que ser postergado a outros valores (os rabinos talvez exagerassem um pouco ao propor tal ensinamento ; interessa-nos, porém, a sua mentalidade).

Com efeito, não era raro nas escolas judaicas perguntar quem mais deveria ser amado: pai ou mestre ? — A resposta então comum era a seguinte:

«Se alguém perdeu um objeto e seu pai também perdeu um objeto, procure o filho em primeiro lugar o objeto que ele mesmo perdeu.

Se alguém perdeu um objeto e seu mestre também perdeu um objeto, procure o discípulo em primeiro lugar o objeto que ele mesmo perdeu.

Se o pai perdeu um objeto e o mestre também perdeu, procure o jovem em primeiro lugar o objeto do mestre, pois nosso pai nos colocou neste mundo, mas o mestre, que nos ensina a sabedoria, nos dá a vida do outro mundo...

Se o pai e o mestre carregam cada qual um fardo, é preciso que o jovem primeiramente ajude o mestre a depositar a carga; a seguir, ajudará o pai.

Se o pai e o mestre estão no cárcere, é preciso primeiramente libertar o mestre; depois, o pai. Mas, se o pai for um escriba (isto é, um cultor, por excelência, da sabedoria religiosa), deverá ser libertado em primeiro lugar; a seguir, o mestre» (tratado Baba Mecia II 11).

Ora foi nesse mundo judaico, onde os rabinos valorizavam o amor ao mestre mais do que o amor ao pai, que Jesus apregoou o amor a Ele, o Divino Mestre, acima de tudo. E com razão, não é Cristo quem, pela sua palavra e pelos seus sacramentos, gera todos os homens para a vida, e a verdadeira vida: a vida eterna?!



Dom Estêvão Bettencourt, OSB. (II)