Adsense Teste

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Jesus Viveu na Índia?


O livro de H. Kersten é tendencioso; aborda a figura e a vida de Jesus a partir de premissas gratuitamente preconcebidas; Jesus vem a ser, segundo o autor, um Bodhisattwa; por conseguinte, deve ter forçosamente tido relações com a Índia e sua filosofia religiosa. Estabelecida esta tese, Kersten força os textos bíblicos e não bíblicos a fim de fundamentarem o seu pensamento, chegando por vezes às raias do ridículo. O livro assim tem pouco valor científico; representa uma expressão singular da filosofia religiosa contemporânea, que tem contra si testemunhos da arqueologia, da historiografia, da medicina e de vinte séculos de tradição cristã; é difícil crer que só no século XX (dezenove séculos e mais após a morte de Jesus) se tenha podido chegar à verdade a respeito dele; hoje saberíamos mais sobre Jesus do que souberam as primeiras gerações cristãs; estes terão sido todas iludidas e simplórias; terão transmitido a falsidade até nossos tempos!... A singularidade da vida e da doutrina de Jesus se depreende de um exame atento de sua mensagem, que pode ser estudada nos livros de doutrina do Catolicismo.

* * *
Holger Kersten é um estudioso alemão que viajou pelo Oriente até a Índia e julga ter descoberto vestígios de passagem de Jesus por diversos países (Turquia, Mesopotâmia, Pérsia, Afeganistão...). Jesus terá finalmente morrido em Srinagar, na Caxemira (Índia), onde dizem que se encontra a sua sepultura. O autor compartilha a filosofia budista e julga poder enquadrar Jesus dentro dos moldes de um Bodhisattwa (manifestação do Divino, segundo o panteísmo indiano).

O livro em que H. Kersten propõe suas ideias, conheceu oito edições sucessivas na Alemanha. Traduzido para o inglês com alguns retoques do autor, foi vertido para o português, com o título "Jesus viveu na Índia", obra que já está em segunda edição no Brasil[1].

Examinaremos, a seguir, o conteúdo desse livro e lhe faremos comentários.

1. A tese do autor

Holger Kersten aceita que Jesus tenha nascido em Belém da Palestina (cf. p. 106). Todavia não foi um judeu ortodoxo (cf. p. 83). O título de Nazareno que lhe atribuíram, não se refere a Nazaré, cidade onde Jesus terá vivido, mas à seita dos Nazireus ou Essênios, aos quais Jesus se filiou (cf. pp. 110s); foi iniciado na sabedoria budista em Alexandria, quando menino refugiado no Egito para escapar da perseguição de Herodes (cf. 105). Mais tarde Jesus deve ter estado, durante algum tempo, em Qumran (cf. pp. 117.148), sede dos Essênios junto ao Mar Morto. Tal seita compartilhava teorias orientais esotéricas, conforme Kersten. Jesus viajou para a Índia, onde se aprofundou nas doutrinas do budismo, inclusive na da reencarnaçāo. Já formado, voltou para a Palestina; visto, porém, que a sua pregação incomodava os israelitas, foi condenado à morte e crucificado. Todavia não morreu na Cruz; o exame atento do Sudário de Turim, conforme Kersten, revela que nele foi envolvido um homem ainda vivo. Ora Jesus se refez das contusões recebidas por ocasião da sua Paixāo; para isto contribuiu um sedativo (vinagre) que Ele tomou quando estava pregado à cruz; isto o ajudou a repousar no sepulcro e sair deste não necessariamente três dias depois de sepultado, mas em data posterior (cf. pp. 173-5). Os essêníos, companheiros de Jesus, devem ter colaborado para que o Mestre se recuperasse aos poucos. Uma vez refeito, Jesus primeiramente foi para Damasco (Síria); apareceu a Paulo na estrada de Damasco (cf. p. 199); depois foi-se dirigindo de novo para a Índia, onde ainda pregou intensamente com o nome de Yaz Asaf; deve ter morrido como budista fiel por cerca de 80, com 80 anos de idade aproximadamente! O autor chega a admitir que Jesus tenha viajado também para o Ocidente, onde teria visitado a França e talvez a Inglaterra "para instruir Congregações afilhadas" (p. 205). Jesus não pregou a ressurreição, mas a reencarnação. O nome "Cristo" é equivalente e "Krishna".

O Cristianismo hoje existente, conforme Kersten, não corresponde, ao pensamento de Jesus, que tinha algo de esotérico ou secreto (cf. p. 203), mas é obra de S. Paulo, que recorreu a concepções gregas, inclusive à da morte expiatória, para elaborar a mensagem expressa em suas cartas. Os Evangelhos são pouco fidedignos, pois terão sido escritos tardiamente, diz H. Kersten, reproduzindo um modo de ver alheio a Jesus.

Para corroborar sua tese, o autor afirma que Abraão era oriundo da Índia; neste país existe uma pequena cidade chamada Harã, que deve corresponder a Harã, donde o Patriarca emigrou conforme Gênesis 11,32 (cf. p. 50).

O povo de Abraão passou para o Egito; reduzido à escravidão, foi tirado do cativeiro por Moisés, cujo túmulo se acha em Caxemira, conforme Kersten (cf. p. 59). Salomão foi instruído na Índia (cf. p. 64). O dilúvio bíblico deve ter ocorrido na Índia (Cf. p. 66). As dez tribos que se separaram da casa de Davi após a morte de Salomão (930), emigraram para o Oriente e foram deter-se na Índia (Caxemira), onde Kersten diz haver grande número de israelitas até hoje (cf. pp. 72-82). João Batista terá sido educado na Índia (cf. p. 129).

Em suma, Kersten revoluciona todas as concepções do Antigo e do Novo Testamento, dando à história bíblica uma interpretação hinduísta ou budista. Para tanto, apoia-se frequentemente nos escritos da Sra. Helena Blavatsky, fundadora da Teosofia no século passado. Serve-se também de obras modernas de história das religiões e arqueologia; reproduz numerosas fotografias e gráficos, dando assim um cunho aparatoso ao seu livro, apto a impressionar um leitor imperito.

Procuremos refletir sobre a tese de Kersten.

2. Ponderando os dados...

Quem lê atentamente a explanação do autor alemão, é logo incitado a perguntar: quais as fontes e premissas que a sustentam?

Eis a resposta: Kersten professa a cosmovisão religiosa hinduísta (ora sob a forma do budismo, ora sob a da Teosofia[2]). Em consequência, aborda a Bíblia com a intenção de reduzir toda a mensagem desta ao sistema budista: o povo de Israel era ligado à Índia; Jesus foi budista, aprendeu na Índia antes de ensinar na Palestina e voltou à Índia para pregar depois que escapou da morte de cruz. Esta teoria apela para:

1) a lacuna existente nos Evangelhos entre os doze e trinta anos de vida de Jesus;

2) o Sudário de Turim, que parece ter envolvido um homem vivo e não um cadáver, conforme Kersten;

3) os apócrifos do Antigo e do Novo Testamento.

É preciso, pois, que indaguemos qual o valor destas pilastras da teoria de Kersten.

2.1. A lacuna entre os 12 e 30 anos de Jesus

Muitos leitores se impressionam pelo fato de que os evangelistas nada dizem sobre o período dos 12 aos 30 anos de Jesus; Mateus e Lucas referem algo sobre a infância de Jesus até os dois anos de idade; Lucas narra um episódio ocorrido aos doze anos; depois cala-se até o Batismo de Jesus aos trinta anos (cf. Lucas 3,23). Marcos começa simplesmente com João Batista a pregar e batizar no deserto (cf. Marcos 1,1-11).

Tal silêncio leva diversos autores modernos a supor que os evangelistas nada sabiam a respeito de tal período, porque Jesus terá viajado para o exterior, a fim de se imbuir da sabedoria tibetana, indiana ou egípcia; Jesus terá sido um dos grandes iniciados em doutrinas ocultas e reservadas... Assim pensam os rosacrucianos, os esotéricos em geral, os teosofîstas, muitos espíritas... Esta concepção difunde-se com insistência, podendo calar nas mentes de leitores despreparados.

Oue dizer?

O assunto já foi longamente abordado na revista Pergunte e Responderemos nº 206, de 1977, páginas 68 a 72. Sumariamente deve-se observar: a tese de Kersten e seus correligionários supõe que os Evangelhos sejam uma biografia. Ora toda biografia começa com o nascimento do herói, percorre os anos de sua formação, de sua carreira profissional e descreve o seu declínio. Se falta algum destes elementos, o leitor tem razão de estranhar.

Tal, porém, não é o gênero literário dos Evangelhos. Estes não foram concebidos como biografias de Jesus, mas, sim, como o eco escrito da pregação oral dos Apóstolos. Ora a pregação dos Apóstolos começava pela Páscoa final de Jesus, anunciando, antes do mais, que Ele morreu e ressuscitou para nos salvar... Quem aceitasse esta mensagem (querigma), era então catequizado ou recebia os ensinamentos apregoados por Jesus durante a sua vida pública, ou seja, a partir dos trinta anos... Com isto encerrava-se a tarefa dos arautos da Boa―Nova; por conseguinte, com isto encerrava­-se também a, tarefa dos Evangelistas; São Marcos ateve­-se estritamente a este esquema, percorrendo apenas a vida pública e a glorificação final do Senhor. São Mateus e São Lucas quiseram, por conta própria, acrescentar a tal esquema alguns dados atinentes à infância de Jesus; são quadros mais ou menos avulsos ou umas poucas notícias referentes a Zacarias e sua família, a Maria, a José, e aos primeiros tempos do Menino Jesus; há um intervalo entre Jesus aos quarenta dias no templo de Jerusalém e Jesus aos doze anos entre os doutores, como também há uma lacuna entre os doze e os trinta anos de Jesus; nenhum desses hiatos desmerecia a missão dos Evangelistas, que tinham em vista estrita apenas a pregação e e glorificação de Jesus. Donde se vê que não se deve estranhar a ausência de notícias sobre Jesus entre os doze e trinta anos. Só concebe surpresa quem não conhece o assunto e o encara a partir de categorias estranhas.

Em síntese, eis a diferença entre biografia e "Evangelho":

BIOGRAFIA: (1) Nascimento > (2) Formaçāo > (3) Vida pública > (4) Declínio

EVANGELHO: (3) Infància < (2) Vida pública < (1) Páscoa final

Isto não quer dizer que os Evangelistas tenham começado a escrever a partir da Páscoa final de Jesus, mas, sim, que a mensagem evangélica se foi desenvolvendo oralmente a partir da Páscoa e glorificação de Jesus.

De resto, sabe-se que Jesus, anteriormente à sua vida pública, era carpinteiro e vivia em Nazaré, como se depreende de Mateus 13,55 e Marcos 6,3; os numerosos ouvintes na sinagoga de Nazaré perguntavam: "Não é este o carpinteiro, o filho de Maria, irmão de Tiago, Joset, Judas e Simão?".

Vê-se, pois, que é totalmente gratuita a hipótese de que Jesus tenha ido ao Oriente remoto antes de sua vida pública. Não há fundamento para se sustentar isto. Ao contrário, a literatura apócrifa narra episódios da vida de Jesus em Nazaré, exercendo a profissão de carpinteiro. Ver a propósito a revista Pergunte e Responderemos nº 318, de 1988, páginas 500 e seguinte.

2.2. Jesus não morreu na Cruz?

Os argumentos aduzidos por H. Kersten para afirmar que Jesus não morreu na Cruz, são, em grande parte, depreendidos do exame do Sudário de Turim (cf, pp. 141-190). A propósito observe-se:

1) O Sudário não pode servir de base para estruturar alguma teoria, visto que a sua autenticidade ainda está em discussão.

2) Mesmo que se admita a genuinidade da Mortalha, ela leva a crer que Jesus morreu realmente e aí foi envolvido. O Dr. Pierre Barbet, cirurgião francês, escreveu a respeito um livro minucioso de índole científica, reconstituindo a Paixāo e a Morte de Jesus à luz da imagem do Sudário[3]. Além disto, os cientistas sempre viram no Sudário a imagem de um homem realmente morto. A tese de Kersten é totalmente singular.

3) Independentemente do Sudário, a morte de Jesus na Cruz consta das narrações do Evangelho e de toda a Tradiçāo cristã. Os maus tratos e a perda de sangue que Jesus padeceu desde a agonia no horto das Oliveiras até a crucifixão, explicam a sua morte na Cruz; esta, de resto, foi averiguada pelos soldados, que não lhe quiseram quebrar as pernas, como fizeram aos dois ladrões crucificados ao lado de Jesus; por cautela, transpassaram­-lhe o lado com um golpe de lança, que por si bastaria para matar Jesus (Cf. João 19,31-37).

4) A fim de fugir da força probatória dos fatos, Kersten afirma que o golpe de lança foi apenas "uma arranhadura ou escoriação superficial, e não um golpe violento e muito menos um ferimento profundo" (p. 182). Também para escapar à evidência dos argumentos, julga Kersten que Jesus ficou mais de três dias no sepulcro em tratamento (possivelmente proporcionado a Jesus por companheiros nazarenos ou essênios); cf. p. 195. Tais explicações são artificiais porque inspiradas por preconceitos, como, aliás, também é ridícula a explicação dada à Ascensão de Jesus quarenta dias depois de ressuscitado: "O caminho para Betania segue em direção ao Sul, nos contrafortes do Monte das Oliveiras até o pico da Ascensão num aclive bastante pronunciado. Quem chega até o pico da montanha, logo é perdido de vista pelos que ficam um pouco mais abaixo" (p. 196). Isto quer dizer que Jesus terá descido para o outro lado da montanha, de modo a desaparecer aos olhos dos Apóstolos; não se terá elevado nos céus!...

5) Toda a Tradiçāo professa a morte de Jesus na Cruz e indica seu sepulcro em Jerusalém. Não há, entre os cristãos, notícia alguma de sepultura de Jesus na Índia; se a houvesse, os cristãos teriam peregrinado até lá, como peregrinaram a Jerusalém, desde cedo até nossos dias. É, pois, totalmente fora de contexto e de verossimilhança a hipótese de Kersten; é somente o desejo de fazer de Jesus um Bodhisattwa que explica a sua engenhosidade fantasiosa.

6) Os preconceitos de Kersten são mais e mais evidentes. Assim, por exemplo, em Mateus 26,48 e paralelos se lê que a Jesus, antes de morrer, deram de beber vinagre, bebida acidulada de que usavam os soldados romanos. Ora Kersten levanta a hipótese de que se tratava de uma bebida usual na Índia (o suco da planta "asclepias acida"), "que permitia que as pessoas familiarizadas com a droga ficassem aparentemente mortas por vários dias, despertando depois em estado de euforia que durava também vários dias. Em tal estado de êxtase religioso, podia manifestar­se uma consciência mais elevada, dotada de novos poderes de percepção" (p. 173). Ora é gratuito procurar nos costumes da Índia uma interpretação para o vinagre que Jesus bebeu antes de morrer.

É também sumária demais a explicação dada às chagas dos pés de Jesus: "Experiêncías cirúrgicas com cadáveres têm demonstrado que a crucificação por cravos não destrói nem os vasos sanguíneos mais importantes nem qualquer osso. O cravo foi introduzido entre oito ossos do pulso, afastando-os levemente. A perfuração do pé ocorreu no segundo metatarso, ferindo apenas a carne. Depois das feridas maiores terem-se fechado, o homem vitimado precisaria apenas de paz e tranquilidade para se restabelecer, o que poderia ter sido conseguido através da bebida narcótica" (pp. 193S).

H. Kersten não leva em conta o fator mais decisivo para a morte dos crucificados, que era a asfixia. Mesmo que as chagas produzidas pelos cravos não fossem mortais, a posição de quem pendia na Cruz levava à morte rápida por asfixia. Eis o que se lê no livro do Dr. Barbet:

- "A fixação dos braços levantados, portanto em posição de inspiração, acarreta relativa imobilidade das costelas e grande incômodo na respiração; o crucificado tem a impressão de sufocamento. O coração deverá trabalhar mais, suas pulsações se precipitam e enfraquecem. Segue-­se uma certa estagnação dos vasos de todo o corpo. E como, por outro lado, a oxigenação se faz mal nos pulmões que funcionam insuficientemente, a sobrecarga de ácido carbônico provoca excitação das fibras musculares e, como consequência, uma espécie de estado tetânico de todo o corpo" (p. 99).

Mais:

- "Podemos citar o testemunho de dois antigos prisioneiros de Dachau, que, várias vezes, presenciaram a aplicação do suplício e dele conservam terrificante lembrança (...) Suspendiam o condenado pelas duas mãos, quer uma ao lado da outra, quer separadas. Os pés ficavam a certa distância do solo. Em pouco tempo, o incômodo respiratório ficava intolerável. O paciente procurava remediá-lo erguendo-se com os braços para poder retomar fôlego; conseguia-se manter no ar até 30 e 60 segundos. 

Prendiam-lhe, então, pesos aos pés para dificultar os soerguimentos. A asfixia se desfechava então rapidamente em três ou quatro minutos. No último momento, tiravam os pesos, permitindo de novo os soerguimentos para que, retomando fôlego, conseguisse reviver (...)

Após uma hora de suspensão, tornavam-se estas contrações cada vez mais frequentes, mas também mais fracas e a asfixia se estabelecia progressiva e definitivamente. A testemunha descreve a caixa torácica intumescida ao máximo, a cavidade epigástrica muito profunda. As pernas rijas pendiam sem se agitar. A pele ficava violeta. Abundante suor aparecia em todo o corpo, escorrendo até o chão e manchando o cimento. Especialmente profuso era este suor nos poucos minutos que precediam a morte; os cabelos e a barba ficavam literalmente ensopados, ainda em temperaturas próximas ao zero. Deviam esses agonizantes ter uma temperatura bem elevada.

Depois da morte ficava o corpo em extrema rigidez, A cabeça caía para a frente, no eixo do corpo. A morte sobrevinha, em media, ao cabo de três horas; ou um pouco mais tarde, quando as māos ficavam separadas" (pp. 101s).

Por conseguinte, o estudo atento e objetivo do Evangelho colocado no contexto da arqueologia e da medicina confirma que Jesus realmente morreu na Cruz.

Passemos a outra das teorias de H. Kersten.

2.3. Jesus foi um Bodhisattawa?

À p. 83 do livro de Kersten lê-se o seguinte:

"O fato de Jesus poder ser considerado como a perfeita encarnação do ideal que floresceu na Índia com o budismo Mahayana é de singular importância. Mesmo nos pequenos detalhes, ele apresenta as características do Bodhisattwa ideal delineadas no século 39 a.C. quando o budismo abandonou o intimismo dos monges Hinayana, para tornar-se uma religião popular e universal. A existência terrena de um Bodhisattwa é totalmente determinada por sua missão de salvador, destinado a introduzir todas as almas no caminho reto da redenção dos sofrimentos humanos. Apesar de todas as tentativas feitas no sentido de obscurecer a verdadeira origem dos ensinamentos de Jesus, e apesar da rigorosa canonização dos evangelhos, ainda encontramos mais de 'cem passagens' claramente enraizadas na antiga tradição budista" (p. 83).

A fim de avaliar esta afirmação, perguntamo-nos: que é o Budismo?

― O Budismo é um sistema filosófico panteísta; identifica a Divindade, o mundo e o homem como sendo uma só substância. Em consequência, não é Deus quem salva o homem, mas é o homem que salva a si mesmo mediante a série de reencarnações (samsara), que dão à pessoa a chance de extinguir o apego à matéria mediante rigorosa ascese e esvaziamento interior. O corpo é tido como algo de desprezível; quem se reencarna, está sendo punido pela lei do karma; o ideal é desencarnar—se definitivamente [4].

Ora a doutrina de Jesus é radicalmente diversa de tal sistema. Com efeito:

― Jesus se situa no termo de chegada do Antigo Testamento, que professava o monotefsmo estrito e a transcendência de Deus; cf. Mateus 5,17-19. Ele veio trazer a plenitude da Revelação iniciada no judaísmo, afirmando a unicidade de um só Deus, cuja vida é tão rica que ela subsiste em três Pessoas (as quais não perfazem três deuses);

― Para Jesus, a matéria não é má; por isto a consumação do homem se dará mediante a ressurreição dos corpos; cf. Mateus 22,29-32. Ele mesmo predisse a sua ressurreição (cf. Mateus 16,21; 17,22s; 20,17-19) e ressuscitou (cf. Mateus 28,1-20...). Examinaremos à parte as passagens do Evangelho aduzidas em favor da reencarnação.

— "Quase tudo o que foi dito sobre Jesus encontra paralelo nas antigas lendas indianas" (p. 136). ― Kersten aponta milagres de mestres indianos para firmar sua sentença. Ora este ponto de contato é tênue. Muitos homens, especialmente na Índia, dotados de faculdades parapsicológicas, podem ter efetuado façanhas surpreendentes, tidas como milagrosas. Isto, porém, não basta para que estabeleçamos o paralelo dos mesmos com Jesus.

― São Paulo é o grande teólogo a quem se deve uma profunda penetração do pensamento de Cristo nos escritos do Novo Testamento. Com efeito; São Paulo tinha consciência de ser discípulo de Jesus (cf. Gálatas 1,15-24; Atos 9,26-30; 22,3-21; 26,4-23); só queria testemunhar o que de Jesus aprendera (cf. 1Coríntios 15,3-10; 11,23-32); refere-se a Jesus como Filho de Davi (cf. Romanos 1,3), nascido da mulher (Gálatas 4,4)... O grande mérito de São Paulo foi ter mostrado que a Lei de Moisés se consumou em Cristo, de modo que Este trouxe o cumprimento das promessas feitas aos Patriarcas de Israel (2Coríntios 1,20). O pensamento paulino deve ser entendido a partir das premissas judaicas e bíblicas do Apóstolo muito mais do que em função de categorias do helenismo. Eis a propósito as observações de G. Bellinato:

- "Não obstante o impacto da educação grega, a coloração peculiar da personalidade de Paulo, o seu vulto espiritual e a raiz profunda de sua contextura existencial são hebraicas. 'São hebreus?' (=conhecedores aprimorados da líhgua hebraica), também eu. São descendentes (sêmen) de Abraão? (=desfrutando da absoluta pureza da raça), também eu' (2Coríntios 11,22). Sim, Paulo, ao ensejo da defesa pessoal contra os judaizantes, tem palavras de ufania e altivez, por ser um legitimo rebento da estirpe judaica (cf. Filipenses 3,4-6). Paulo vive num contexto grego, mas respira num clima espiritual hebraico" (Paulo: Cartas e Mensagens, p. 17).

2.4. Os apócrifos

Os apócrifos do Novo Testamento são livros oriundos nos primeiros cinco séculos da Igreja, com aparência de textos bíblicos. Apresentam-se como complementação da literatura bíblica canônica, falando dos ancestrais de Maria Santíssima, da infância de Maria, da infância de Jesus, da sua vida oculta, da sua Paixão, etc. São marcados por três traços característicos:

- contêm elementos de história aceitáveis ou fidedignos, pois nem tudo o que se refere a Jesus foi consignado nos Evangelhos canônicos. A Igreja tira dos apócrifos os nomes dos genitores de Maria (Joaquim e Ana), a apresentação de Maria no Templo aos três anos de idade, os esponsais de Maria e José...;

- contêm elementos altamente fantasiosos, devidos ao fervor exuberante de antigos cristãos, que imaginavam um Jesus portentoso do nascer ao morrer;

- contêm elementos heréticos, isto é, doutrinas destoantes da mensagem oficial da Igreja. Para dar maior ênfase ou uma aparente autoridade às suas doutrinas, muitas escolas teológicas dissidentes redigiam―nas em estilo de Evangelhos, Atos de Apóstolos, Epístolas, etc.

Sendo assim, vê-se que é necessária certa cautela quando se abordam os apócrifos; facilmente poderá alguém dar crédito indevido a um ou outro traço dos mesmos. A Palavra de Deus pregada pelos Profetas e por Jesus vive no âmago da Santa Igreja assistida por Jesus Cristo e por seu Espírito, afim de que não se deteriore o depósito da Revelação Divina.

3. A Reencarnação e o Cristianismo

3.1. A Reencarnação nos Evangelhos

Os escritos do Novo Testamento estão intimamente associados ao pensamento judaico pré-cristāo. Ora este não admitia a reencarnação das almas. Sendo esta doutrina professada por filósofos gregos, os judeus se fecharam a ela, pois eram infensos a qualquer tipo de sincretismo religioso. — Foi nesse ambiente que Jesus pregou o seu Evangelho.

Feita esta observação, passemos ao exame sucinto dos textos bíblicos geralmente citados em favor da reencarnação.

3.1.1. João Batista e Elias

- Mateus 17,10-13: Os judeus julgavam que Elias não morrera, mas fora arrebatado aos céus (cf. 2Reis 2,11) e, por isto, voltaria à terra para revelar e ungir o Messias. Ora, nos tempos de Cristo, politicamente agitados, o profeta Elias era esperado em Israel com particular insistência. Pois bem; Jesus respondeu que João Batista fizera as vezes de Elias por reproduzir as atitudes fortes e destemidas do profeta (cf. Lucas 1,17). O próprio João Batista negou peremptoriamente ser Elias, quando os enviados dos judeus o interrogaram (cf. João 1,21). À luz destas ponderações, entenda—se também o texto de Mateus 11,14s.

Mais: no momento da Transfiguração apareceram a Jesus Moisés e Elias (cf. Mateus 17,3). Ora, naquele tempo João já fora executado por Herodes ou já morrera. Por conseguinte, deveria aparecer a Jesus João Batista e não Elias, conforme a doutrina da reencarnação, pois esta ensina que, quando o espírito se materializa, sempre se apresenta na forma da última encarnação. — Donde se vê que João Batista não era a reencarnação de Elias.

3.1.2. Jesus e Nicodemos

João 3,3: O advérbio grego "ánothen", que por vezes é traduzido por "de novo", reaparece em Mateus 26,51, para significar que, por ocasião da morte de Jesus, o véu do Templo se cindiu "ánothen", isto é, de cima a baixo (não de novo).

Nicodemos não entendera as palavras de Jesus; fiel aos ensinamentos judaicos, julgava impossível a reencarnação: "Como pode um homem nascer sendo velho? Poderá entrar segunda vez no seio de sua mãe e voltar a nascer?" (João 3,4). Jesus logo dissipou a dúvida, explicando que não se tratava de renascer no sentido biológico, mas, sim, de nascer de outro modo, ou seja, pela água e pelo Espírito: "Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito, não poderá entrar no Reino de Deus" (João 3,5). Positivamente, Jesus tinha em vista o Batismo, que torna o homem filho de Deus.

3.1.3. Jesus e o cego de nascença

João 9,1-2: Os judeus julgavam que todo mal é consequência de um pecado. Por conseguinte, no caso de um cego de nascença, pensariam num pecado dos pais (que, segundo a mentalidade do clã, seria punido sobre os filhos), ou num pecado do próprio cego; esta última hipótese deveria parecer-lhes absurda, pois sabiam que as crianças nascem sem ter cometido previamente nem bem nem mal (cf. Romanos 9,11). Assim perplexos, lançaram suas interrogações a Jesus, sem se dar ao trabalho de procurar terceira solução para o caso. Ora, Jesus respondeu sem abordar o aspecto especulativo da questão, elucidando diretamente a situação concreta que lhe apresentavam: nem uma hipótese nem outra, mas um desígnio superior de Deus ("...para se manifestarem nele, cego, as obras de Deus").

De resto, a Escritura é diretamente contrária à reencarnação quando, por exemplo, afirma: "Foi estabelecido, para os homens, morrer uma só vez; depois do quê, há o julgamento" (Hebreus 9,27). Notemos também as palavras de Jesus ao bom ladrão: "Hoje mesmo estarás comigo no paraíso" (Lucas 23,43). Os textos muito enfáticos em que Jesus e os Apóstolos anunciam a ressurreição dos mortos, o céu e o inferno, são outros tantos testemunhos que se opõem à reencarnação: vejam-se Mateus 5,22; 13,50; 22,23-33; Marcos 3,29; 9,43-48; João 5,28-29; 6,54; 1Coríntios 15,13-19.

3.2. A Reencarnação na Tradição da Igreja

Examinemos os testemunhos dos primeiros séculos do Cristianismo.

- Clemente de Alexandria (†215) julga ser a doutrina da reencarnação arbitrária, porque não se baseia nem nas sugestões da nossa consciência nem na fé católica; lembra que a Igreja não a professa, mas, sim, os hereges, especialmente Basílides e os Marcionistas. Cf. Eclogae ex Scripturis Propheticis XVII, PG 9,706; Excerpta ex Scriptis Theodoti" XXVIII, PG 9,674; Stromata III,3; IV,12, PG 1114s.1290s.

- Santo Irineu (†202) observa que em nossa memória não se encontra vestígio de pretensas existências anteriores (Adv. Haer. II,33, PG 7, 830s); em nome da fé, opõe o dogma da ressurreição dos corpos: nosso Deus é bastante poderoso para restituir a cada alma o seu próprio corpo (ib. II,33, PG 7, 833). `

Outros autores antigos se poderiam citar a propor semelhantes ponderações. O mais importante, porém, é Origenes de Alexandria (†254). Este propôs, à guisa de hipótese, a preexistência das almas: todos os espíritos teriam sido criados desde toda a eternidade e dotados da mesma perfeição inicial; muitos, porém, terão abusado da sua liberdade e pecado. Tal pecado haverá sido, para Deus, a ocasião de criar um mundo material, a fim de servir de lugar de castigo e purificação. Conforme a falta cometida, cada espírito teve que tomar, em punição, um corpo mais ou menos grosseiro. Os que não se purificassem devidamente nesta vida, deveriam passar, depois da morte, para "um lugar de fogo". Mas finalmente todos seriam reintegrados na suprema felicidade com Deus; o inferno não seria eterno.

Notemos que estas idéias foram propostas com reservas e a título de hipóteses (cf. Peri Archon, PG 11,224). Todavia os discípulos de Orígenes, chamados Origenistas, eram monges do Egito, da Palestina e da Síria, que se beneficiavam dos escritos ascéticos e místicos do mestre, mas eram pouco versados em teologia; por conseguinte, não tinham critérios para distinguir entre as verdades de fé e as proposições hipotéticas de Orígenes. Os Origenistas, portanto, nos séculos IV/VI professaram como artigos de fé não só a preexistência das almas e a restauração final de todos na felicidade inicial, mas também a reencarnação. Contrariavam assim o pensamento do próprio Orígenes, que era avesso à reencarnação, tida por ele como "fábula inepta e ímpia" (In Rom. V, PG 14,1015).

As doutrinas dos origenistas chamaram a atenção das autoridades da Igreja. Em 543, o Patriarca Menas de Constantinopla redigiu e promulgou quinze anátemas contra Orígenes, dos quais os quatro primeiros nos interessam diretamente:

- "1. Se alguém crer na fabulosa preexistência das almas e na repudiável reabilitação das mesmas (que é geralmente associada aquela), seja anátema." 

2. Se alguém disser que os espíritos racionais foram todos criados independentemente da matéria e alheios ao corpo, e que vários deles rejeitaram a visão de Deus, entregando-se a atos ilícitos, cada qual seguindo suas más inclinações, de modo que foram unidos a corpos, uns mais, outros menos perfeitos, seja anátema. 

3 Se alguém disser que o sol, a lua e as estrelas pertencem ao conjunto dos seres racionais e que se tornaram o que eles hoje são por se voltarem para o mal, seja anátema. 

4. Se alguém disser que os seres racionais nos quais o amor a Deus se arrefeceu, se ocultaram dentro de corpos grosseiros como são os nossos, e foram em consequência chamados 'homens', ao passo que aqueles que atingiram o último grau do mal tiveram, como partilha, corpos frios e tenebrosos, tornando­-se o que chamamos 'demônios' e 'espíritos maus', seja anátema".

O Papa Vigílio e os demais Patriarcas deram a sua aprovação a esses artigos. Concluímos, pois, que a doutrina da reencarnação nunca foi professada oficialmente pela Igreja Católica (contradiz ao Credo cristão); todavia após Orígenes (século III) foi professada por grupos particulares de monges orientais, pouco iniciados em teologia; em 543 foi solenemente rejeitada pelas autoridades da Igreja. A mesma condenação ocorreu nos Concílios ecumênicos de Lião (1274) e Florença (1439), que ensinam a imediata passagem desta vida para a sorte definitiva no além (DS 857 [464] e 1306 [693]). O Concilio Vaticano II, por sua vez, fala do "único curso da nossa vida terrestre (Hebreus 9,27)", tencionando assim opor-­se à teoria da migração das almas; cf. Lumen Gentium nº 48.

4. Conclusão

Verifica-se que o livro de H. Kersten é tendencioso; aborda a figura e a vida de Jesus a partir de premissas gratuitamente preconcebidas; Jesus seria um Bodhisattwa; por conseguinte deve ter forçosamente tido relações com a Índia e sua filosofia religiosa. Estabelecida esta tese, o autor força os textos bíblicos e não bíblicos a fim de fundamentarem o seu pensamento, chegando por vezes às raias do ridículo. O livro assim tem pouco valor científico; representa uma expressão singular da filosofia religiosa contemporânea, que tem contra si testemunhos da arqueologia, da historiografia, da medicina, e de vinte séculos de Tradiçāo cristã; é dificil crer que só no século XX (dezenove séculos após a morte de Jesus) se tenha podido chegar à verdade a respeito dele; hoje saberíamos mais sobre Jesus do que souberam as primeiras gerações cristãs; estas terão sido todas iludidas e simplórias; terão transmitido a ilusão até nossos dias!

A singularidade da vida e da doutrina de Jesus se depreende de um exame atento de sua mensagem, que pode ser estudada no livro "Riquezas da Mensagem Cristā" de D. Cirilo Folch Gomes (Ed. Lumen Christi, Caixa Postal 2666, cep 20001, Rio de Janeiro-RJ) ou no Curso de Iniciação Teológica por Correspondência (Caixa Postal 1362, 20001, Rio de Janeiro-RJ).
_________
NOTAS

[1] "Jesus viveu na Índia: A desconhecida história de Cristo antes e depois da Crucificaçäo". Ed. Best Seller, São Paulo, 1988 (2ª ed).
[2] Teosofia (de "Theos" = Deus, e "sophia" = sabedoria) é um sistema de filosofia religiosa que teve origem no século passado por obra da Sra. Helena Blavatsky e do Cel. H. Olcott, inspirando-se em fontes místicas e práticas ascéticas da Índia e do Tibet. As suas duas principais doutrinas são: o panteísmo (tudo é Deus ou a Divindade se identifica com a natureza e o íntimo do homem) e a reencarnação, segundo a lei do Karma. Consequentemente, a Teosofia é dualista ou tem a matéria na conta de elemento mau, do qual o homem tem que se desfazer para conseguir sua verdadeira felicidade.
[3] "A Paixăo de Cristo segundo o Cirurgião". Ed. Loyola, São Paulo.
[4] O panteísmo de Kersten se manifesta na seguinte passagem: "A principal causa desse equívoco (declínio do senso religioso) é uma má interpretação do Conceito de Deus. O divino não se coloca a uma distância utópica, mas dentro de cada um de nós, inspirando uma vida em harmonia com o infinito e o reconhecimento de que nossa curta existência não passa de um momento da eternidade, da qual faz parte" (p. 74).
___________________________________
Fonte: Revista Pergunte e Responderemos nº 321, págs. 82-95, fev./1989.