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domingo, 25 de setembro de 2016

As crianças alcançam no batismo a graça e as virtudes?


Parece que as crianças não alcançam no batismo a graça e as virtudes:

1. Com efeito, não há graça e virtudes sem fé e caridade. Ora, “a fé”, diz Agostinho, “reside na vontade de quem crê”. Semelhantemente a caridade reside na vontade de quem ama. As crianças não têm o uso de sua vontade e assim não têm nem fé nem caridade. Logo, as crianças não recebem no batismo a graça e as virtudes.

2. Além disso, sobre o texto do Evangelho de João “Fará até obras maiores”, diz Agostinho que, para que alguém, sendo ímpio, se torne justo, “Cristo age nele, mas não sem ele”. Ora, a criança, não tendo o uso do livre-arbítrio, não coopera com Cristo para sua justificação e às vezes até resiste, quanto está em seu poder. Logo, não é justificada pela graça e pelas virtudes.

3. Ademais, diz Paulo: “Para aquele que não realiza obras, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé é levada em conta de justiça, segundo o  propósito da graça de Deus”. Ora, a criança não “crê naquele que justifica o ímpio”. Logo, não alcança nem a graça da justificação nem as virtudes.

4. Ademais, o que se faz por intenção carnal, não tem efeito espiritual. Ora, às vezes as crianças são levadas ao batismo por intenção carnal, por exemplo: para que se curem corporalmente. Logo, não alcançam o efeito espiritual da graça e das virtudes.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, ensina Agostinho: “Renascendo as crianças morrem àquele pecado que contraíram nascendo. Por isso, vale delas o que diz Paulo: “Pelo batismo nós fomos sepultados com ele na sua morte” – e acrescenta: ‘a fim de que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, também nós levemos uma vida nova’”. Ora, a vida nova é a vida da graça e das virtudes. Logo, as crianças no batismo alcançam a graça e as virtudes.

Alguns autores antigos defenderam que o batismo não dá às crianças a graça e as virtudes, mas imprime-lhes o caráter de Cristo, por cuja força, quando chegam à idade perfeita, alcançam a graça e as virtudes.

Mas isso é evidentemente falso por dois motivos. Primeiro, porque, como os adultos, as crianças no batismo se tornam membros de Cristo. Segue-se que necessariamente recebem da cabeça o influxo da graça e das virtudes. Segundo, porque nesse caso as crianças que morrem depois do batismo, não chegariam à vida eterna, já que, como diz Paulo, “a graça de Deus é a vida eterna”. E assim terem sido batizadas não lhes teria adiantado nada para a salvação.

A causa do erro foi não terem sabido distinguir entre hábito e ato. Reconhecendo as crianças incapazes de atos de virtude, acreditaram que depois do batismo não tinham a virtude de nenhuma maneira. Mas essa impotência para atuar não ocorre nas crianças por falta dos hábitos, mas por um impedimento corporal, como também quem está dormindo, embora tenha o hábito das virtudes, está contudo impedido pelo sono de realizar atos de virtude.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

1. A fé e a caridade residem na vontade dos homens, mas, se é verdade que os hábitos dessas e das outras virtudes requerem a potência volitiva que existe nas crianças, os atos de virtude requerem um ato de vontade, que não existe nas crianças. Deste modo, Agostinho escreve: “O que faz de um pequenino um fiel, ainda que não seja aquela fé que consiste na vontade dos que creem, contudo já é o sacramento da mesma fé” que causa o hábito da fé.

2. A afirmação de Agostinho: “Ninguém renasce da água e do Espírito Santo se não o quiser”, não se deve entender das crianças pequenas, mas dos adultos. Semelhantemente se deve entender como referida aos adultos a afirmação de que não somos justificados por Cristo sem nossa cooperação. Que as crianças pequenas que vão ser batizadas, resistem quanto suas forças o permitem, “não se lhes imputa, porque de tal modo ignoram o que fazem, que nem parece que o fazem”, como diz Agostinho.

3. Diz Agostinho: “A mãe Igreja oferece às crianças pequenas os pés dos outros para que venham, o coração dos outros para que creiam, a língua dos outros para que confessem”. E assim as crianças creem não por ato próprio, mas pela fé da Igreja que lhes é comunicada. E pela força dessa fé são conferidas a graça e as virtudes.

4. A intenção carnal dos que trazem as crianças para o batismo não as prejudica, como a culpa de alguém não prejudica a outrem, a não ser que este consinta. Por isso diz Agostinho: “Não te perturbe o fato de que alguns trazem os pequeninos para receberem o batismo, não porque creem que pela graça espiritual eles renascem para a vida eterna, mas porque julgam que com este remédio conservarão ou alcançarão a saúde corporal. As crianças não deixarão de nascer de novo por não terem sido trazidas com a intenção correta”.


São Tomás de Aquino
Suma Teológica III, q.69, a.6