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sexta-feira, 5 de agosto de 2016

A última Missa em Latim


- Foi tão bonito, Pai. Foi tão bonita a tua presença. Tanta felicidade, que não havia como acreditar no que estava acontecendo. Algumas vezes, parecia que tuas bênçãos derramavam-se sobre nós. Em outras, nem sei como dizer isto, mas julguei que as pessoas olhavam para mim como se desejassem estar no meu lugar. Ou seria um pouco de vaidade tomando conta de mim? Perdoa-me, meu Pai, pois até um pobre homem como eu também fica sujeito a essas fraquezas.

No trajeto em direção à velha igreja, para onde se dirigia todas as manhãs a fim de tocar os sinos que anunciavam a missa aos fiéis, seu Ludinho procurava colocar os pensamentos em ordem, com a mente voltada para a noite do dia anterior, um domingo, quando ajudou Monsenhor a celebrar a última missa em latim para os paroquianos da cidade.

Quantas vezes, recordou, e nunca mais haveriam de se repetir as cerimônias em que tomara parte ativa durante toda sua vida. Nunca mais ouviria os cânticos que tanto compraziam Monsenhor e que ele mesmo se esforçava para acompanhar, repetindo-os muito mais com o pensamento do que com a própria voz. Não, seu Ludinho sabia que as coisas nunca mais seriam como antes.

Envolvido em profundo recolhimento, ocupara ele, na noite anterior, o seu lugar na celebração, de corpo e alma entregue aos cuidados de um ritual que, mesmo sabendo-o repetido e de cor, em certas ocasiões fazia nele ressurgir a mesma emoção que sentiu ao ajudar Monsenhor pela primeira vez. Tão forte, que jamais teria como esquecê-la. Dessa vez, no entanto, ele sabia que fora tudo diferente.

– Alguém chegou a lhe dizer, não é mesmo seu Ludinho, que a última vez é sempre diferente?

Bastante idoso, todos os dias seu Ludinho acordava muito cedo. Levantava-se com o canto das primeiras aves que, de quintal em quintal, desdobravam-se para lembrar que, também para ele, era chegada a hora da alvorada. E levantava fazendo o seu “Em nome do Pai”, em paz consigo mesmo e entregue às lembranças de uma vida que os mais antigos diziam reportar ao tempo de seus avós. O que, na verdade, não passava de simples brincadeira, apesar de ninguém conhecer a verdadeira idade que ele tinha: oitenta anos, de qualquer forma, pareciam lhe cair bem. Fosse como fosse, seu Ludinho nunca admitiu ter mais de setenta. E, em respeito ao seu desejo, esta ficou sendo a sua idade: setenta anos que, repetidos, ano a ano, continuavam a ser apenas setenta anos.

Seu Ludinho andava muito devagar e seus passos, um a um, arrastando-se pelas calçadas, demoravam três a quatro vezes o tempo gasto por uma pessoa de meia idade em igual trajetória. Sua estatura mal ultrapassava o ombro de uma pessoa de médio porte e como seus olhos estavam sempre voltados para o chão, isso o fazia parecer ainda mais baixo do que era.

Usando, o mais das vezes, um mesmo terno de cores encardidas, corroído pelo uso e nada proporcional à fragilidade de seu corpo, a aparência de Seu Ludinho, recurvado e à distância, não diferia muito de um bem antigo sacristão; e olha ali, devagarinho, lá vai ele.

Naquela manhã, ao se dirigir à igreja, uma chuvinha fina e persistente surpreendeu-o a poucos passos de sua casa. Ao contrário de seus hábitos, estava bastante atrasado, mas, como havia se esquecido do guarda-chuva, recostou-se debaixo do beiral de um telhado para ver se as águas passavam. De repente, lembrou-se que, naquele dia, era aniversário de Monsenhor.

– Coitado de Monsenhor – foi-se deixando levar, após muita recusa em dar curso a alguns pensamentos que insistiam em provocá-lo. – Depois de tantos anos, prosseguiu, seria difícil Monsenhor se acostumar com os novos tempos que chegavam para a Igreja. Quem celebrou missa em latim a vida inteira não veria com bons olhos a nova liturgia, toda ela de tal modo instituída que a qualquer um seria dado agora, fácil, fácil, desvendar os seus mistérios e o que mais fosse.

Não, seu Ludinho não concordava nem um pouco com o que estava acontecendo. Para ele, o mais bonito da missa sempre esteve associado à forma como se cumpriam os seus rituais. Não via sentido em substituírem o latim nos textos sacros. Depois, transpostos para o português, eles ficariam transparentes demais, irreconhecíveis mesmo, sem dizer que até um vagabundo como Zé Margarida, esse arruaceiro incapaz de soletrar o próprio nome, poderia vir a entender o que até então fora exclusividade de alguns poucos, entre os quais, ele próprio, seu Ludinho, conquistara seu lugar.

Missa em latim, para seu Ludinho, era outra coisa. Essa ficava somente ao alcance da competência de Monsenhor. Do seu zelo pelas tradições. Do fervor com que se entregava às suas preces. E de conhecer tão a fundo o antigo idioma dos romanos que poucos conseguiriam se expressar naquela língua com tanta fluência como ele.

Dava gosto assistir às suas missas. Sem dizer do bem que fazia a seu Ludinho ouvi-lo pronunciar uma daquelas bonitas citações tão presentes em seus sermões. Uma delas, por exemplo, ele sabia quase de cor. Tamanha era sua carga de persuasão e envolvimento que, mais de uma vez, após Monsenhor traduzi-la em linguagem corrente, seu Ludinho notou uma ponta de arrepio subir à face dos fiéis lá melhor aquinhoados com os bens desta vida, enquanto os outros, os mais desafortunados, como que suspiravam aliviados diante de algo que caía como uma luva para compensá-los da pobreza e da penúria dos seus dias.

E foi com a mente voltada para essas recordações que seu Ludinho, recompondo-a como pôde, ouviu de novo ressoar a velha sentença tantas vezes proclamada por Monsenhor; aquela que fala da passagem de um camelo pelo buraco de uma agulha:

Facilius est camelum per foramen acus transire do que um rico entrar no reino dos céus.

– E abolirem uma prática dessas – queixou-se, contrariado, por ter esquecido algumas palavras do texto original.

Bem, em vista dos laços que os uniam, é verdade que Monsenhor continuaria a ser para ele o mesmo Monsenhor de sempre, mas, de qualquer forma, diante do ocorrido, não via como continuar ajudando-o nas celebrações.

– Ah, os tempos estão mudando, seu Ludinho – soprava-lhe uma voz no fundo do pensamento. – Não vê que, se todas as coisas passam, as missas um dia também acabariam se modificando?

A chuva começou a aumentar e seu Ludinho recostou-se sob a proteção do beiral, procurando distrair-se com os filetes de água que escorriam nas calçadas. Embora não quisesse demonstrar, ele estava bastante contrariado. De mais a mais, ajudar a missa em português jamais seria tarefa de seu agrado. E disso ele já dera provas: desde o primeiro momento, recusou-se a aprender os novos textos para acompanhar Monsenhor na celebração. Foi preciso prepararem outro sacristão, treiná-lo, corrigi-lo, incentivá-lo, comprovando que não seria nada fácil arranjarem um substituto à altura de suas funções.

E pensar que havia gente satisfeita com as mudanças. Havia, seu Ludinho sabia disso. Alguns, então, além de aplaudi-las ao menor pretexto, embaralhavam de tal modo as coisas que ficava difícil saber aonde pretendiam chegar. Lá mesmo, nas imediações da casa paroquial, não morava um professor, cheio de idéias estranhas, a quem ele sempre devotara manifesta antipatia e desconfiança? Pois bem, não foi ele, o professor, quem disse, durante as cerimônias da Semana Santa, que um dia a Igreja abandonaria a mesa dos ricos para aquecer a morada dos pobres?

– Agora, mais essa – reclamava seu Ludinho.

Na verdade, voltando ao que mais o afligia, ele não via motivo para ser alterado um ritual que, na sua mente, se confundia desde o início dos séculos com a transfiguração de um Deus misericordioso que, a cada santa missa, renovava o supremo sacrifício para se oferecer à comunhão dos santos e dos homens. Se bem lhe haviam dito que a mudança fora ordenada por Roma. Mas, nem por isso aceitaria o que, a seu juízo, não passava de um grande erro.

– Fica difícil entender, Seu Ludinho. Afinal, o Papa é infalível. Como admitir então que ele pudesse se enganar numa questão delicada como essa?

Cercado de dúvidas, seu Ludinho, para não se aborrecer ainda mais, preferiu retornar à noite anterior. Lembrou-se, então, dos gestos de Monsenhor, do modo sereno como ele soube se conduzir, de seus paramentos, da envolvente espiritualidade que tomou conta da igreja durante a celebração. Um brilho diferente começou a transparecer em seus olhos.

Viu-se de joelhos, diante do altar, contemplando o sacrário que abrigava a presença viva do Senhor. As imagens dos santos, em curtos gestos de adeus, evocavam, uma a uma, as bem-aventuranças do paraíso. Uma crescente sensação de quietude começou, então, a envolvê-lo, a apaziguá-lo, abrandando aos poucos suas contrariedades e aflições.

Assim que o Kyrie eleison, unindo as vozes dos fiéis em uma mesma e comovida oração, espalhou-se pela nave da igreja, seu Ludinho, tomado de emoção, reconheceu nelas a própria voz do Senhor, como a dizer que ele um dia também estaria no céu contemplando-O face a face.

E como esquecer a passagem em que, após a eucaristia, Monsenhor, com as mãos erguidas, proferiu emocionado o Benedicat vos omnipotens Deus?

Ao que os fiéis, ajoelhados, responderam com o sinal da cruz.

– Pater et Filius et Spiritus Sanctus – aduziu Monsenhor.

Naquele instante, um verdadeiro estado de êxtase tomou conta de seu Ludinho. E, como se não bastasse tudo isso, emocionou-se ainda mais ao relembrar o momento em que, Monsenhor, com voz grave e solene, proclamou, pela última vez, o Ite, missa est.

Ite, missa est, missa est, missa est: esta despedida incomodava-o desde a noite anterior, ressoava como um tremor em seus ouvidos, parecia persegui-lo, retornando cada vez mais forte, como se o est, est, est, quisesse romper seus tímpanos, ensurdecendo-o para sempre a fim de impedi-lo de ouvir as palavras corriqueiras que viriam substituir o que para ele seria insubstituível até o fim.

Agora, no entanto, estava ele ali inconformado e sem ter como dissociar a sua Igreja de uma frágil embarcação, velejando ao sabor das ondas sem saber a que porto chegaria.

A sua santa amada Igreja, abençoando seus filhos e libertando-os do pecado e da condenação eterna, graças ao sacrifício do Filho de Deus que se fez homem e morreu na cruz para salvar todos os que nele acreditassem.

A sua santíssima Igreja, acolhedora e de braços abertos, com os fiéis assistindo às missas aos domingos, batizando seus filhos, confessando-se e comungando, que a vida era cheia de sacrifícios e a lembrança do inferno, seu Ludinho sabia muito bem disso, mexia com os brios de qualquer um.

Depois, ele podia até estar enganado, afinal ninguém é dono da verdade, mas, a seu ver, a opinião do professor também continha um amontoado de erros, porque os pobres, pelo menos os que freqüentavam a igreja, não lhe pareciam tão pobres assim. Melhor seria dizer remediados, já que gozavam de boa saúde, eram muito educados e alguns nunca deixavam de bem vestir e até de engraxar os sapatos para a missa dos domingos.

Por que, então, essa mania de as pessoas ficarem generalizando as coisas a ponto de abranger em seus devaneios um Zé Margarida qualquer, que, de tão inconveniente, ninguém hesitaria em colocar para fora da igreja, caso ele se atrevesse a aparecer por lá?
– Ah, não – resmungou seu Ludinho. – As coisas estão certas do modo que Deus as dispôs. Ele mesmo, na sua infinita sabedoria, nada tinha a ver com o fato de existirem pessoas muito ricas e de outras não possuírem coisa alguma. E a Igreja também não estava aí para resolver nada disso não. Sua verdadeira missão ultrapassava esse amontoado de miudezas terrenas. Ou haveria algo capaz de superar o consolo firmado na crença de que, no dia do juízo final, os justos, pobres ou ricos, todos eles seriam perdoados e recompensados, por mais desiguais que lhes tivessem sido os favores desta vida?

– Ah, serão mesmo, seu Ludinho? Então ninguém será condenado?

– Bobagem perder tempo com isso – reagiu.

Mas, os pensamentos não lhe davam trégua: afinal de contas, ele mesmo, seu Ludinho, também não era pobre? E por que sempre fora aceito, sem sofrer qualquer tipo de discriminação? Claro, porque havia dado um rumo certo à sua vida, colocando Deus acima de todas as coisas, cumprindo com acerto o seu dever e conservando sempre a maior distância do pecado, que isso nunca foi coisa para andar à solta em seu caminho.

Por mais que raciocinasse, no entanto, as dúvidas retornavam mais fortes: a missa em português, a lembrança do professor, sua estranha previsão sobre o futuro da Igreja, tão diferente do modo como acostumara-se a concebê-la. Tudo isso, em sua mente, misturava-se a Zé Margarida e, ele, reagindo, repeli-as, recusava-as, tentava em vão contrapor-se ao que não tinha como aceitar.

– Bobagem ficar se desgastando desse jeito – resmungou, mais uma vez. – Não vale a pena queimar as mãos em tão pouca fogueira.

Na verdade, seu Ludinho, não vale a pena queimá-las em fogueira alguma. Ou vale? E se tudo fosse verdade? Essa história da Igreja ao lado dos pobres, o dia em que Monsenhor seria substituído nas pregações, Zé Margarida, imagina, Zé Margarida compreendendo o que os próprios séculos recusaram-se a mostrar de forma diferente, fazendo tudo parecer de um mesmo igual para todos, como se as coisas pudessem ser vistas e avaliadas de um só ângulo e, assim, iguaizinhas e sem mudanças, continuariam per omnia saecula saeculorum.

– Mas, continuariam mesmo, seu Ludinho? – indagou-lhe a tal vozinha que, em algum lugar, dentro dele, teimava em vir à tona.

* * *
Súbito, a chuva passou. Seu Ludinho, olhando para uma poça d’água, viu nela refletida a sua própria imagem até que um novo pingo, caindo da goteira mais próxima, espargiu-se sobre a poça, diluindo o seu reflexo e também o reflexo de um tempo que ele pressentia pertencer agora a um mundo em que as palavras e as ações se confundiriam, cada vez mais, com os santos e os homens, em suas falas e profundidades.

E os santos e os homens, em suas falas e profundidades, também seriam confundidos com outros homens e outros santos que, dia após dia, com latim ou sem latim, haveriam de perceber que, por mais que as coisas mudem, nunca mudam as agulhas, os camelos, e os que aos céus não chegarão; apesar da previsão do professor, do próprio Zé Margarida e até mesmo das palavras de Monsenhor que, no fundo, bem no fundo, nunca se sabe. Ou sabe alguém?



Renato Sampaio
Transcrito de Contos de bom humor. (Parte II – Outros Contos) – Belo Horizonte, 2007. Edições Hematita, 128 páginas